Shiver

54 Capítulo 54


Notas iniciais
bom dia shiver babes!! desculpem pela demora, e espero que gostem do capítulo o bastante para compensar apenas um pouco! @ ana (holmes), love of my life, essa é a segunda parte do seu presente de aniversário, mais uma dose de jaime, e espero que você possa apreciar bastante !! i love u so much ♥ e eu queria agradecer também a ana (banana) pela recomendação mais linda do mundo? tenho os melhores leitores did y'all know? amo demais demais todos vocês ♥♥

Eles já haviam almoçado quando Selena decidiu que não aguentaria mais um instante daquilo. A conversa se distanciava cada vez mais de estratégias e consequências imediatas da volta de Fäelan, e se voltava para as personalidades e ambições de nobres que ela não conhecia, sobre terras e ouro e números, e, por mais tempo que Selena houvesse passado na corte, ainda havia muito que não conhecia para que fosse capaz de acompanhar o raciocínio rápido dos três Renegados.

Esperou até Aleifar e Alexis pausarem para comentar algo entre si para tocar o pulso de Morzan para chamar sua atenção. “Escute,” ela começou, baixinho, quando ele ergueu os olhos para ela. “Eu não consegui dormir muito a noite passada, e não estou conseguindo entender tanto do que vocês estão falando de qualquer forma. Você se importaria se eu...” Deixou a voz morrer.

Morzan sorriu. “Quer ir embora?”

“Voltar para meu quarto e ler um livro, ou algo do tipo. Eu só não... Eu estou cansada.” Quis dizer que esperaria se achasse que a reunião acabaria logo, mas sabia que não, e suspeitava que Morzan não estivesse muito feliz com ela no momento. “Eu sei que deveria conseguir aguentar mais que isso.”

“Não é um problema, Sel, e eu entendo. É claro que pode ir.” Afastou uma mecha de seus cabelos castanhos para trás de sua orelha. “Só não sei se poderei me juntar a você tão cedo; ainda vamos nos demorar por aqui.”

Ela lhe ofereceu um sorriso fraco. “Se forem jantar, você manda alguém me chamar?”

“É claro,” Morzan garantiu. Uma carícia breve em sua mão. “Você pode ir.”

Selena se afastou com uma mesura rápida na direção dos gêmeos, ainda lutando contra a sensação de que era inadequada para reuniões como aquela, e já subira os primeiros degraus da escada que levava ao seu quarto quando a ideia lhe ocorreu. Ela parou no lugar, hesitando, e lançou um olhar breve na direção da sala de onde acabara de sair, para os guardas parados a cada lado da porta.

E então girou nos calcanhares, voltando a descer e ignorando os olhares de questionamento que os homens à postos lhe lançaram. Ela não costumava ir aos dormitórios dos criados, mas sabia que a guarda de Morzan, pelo menos, vivia nos andares mais baixos daquela mesma torre. Selena não deu atenção às expressões de leve alarme dos guardas na entrada, tampouco, porque se incomodaria com o fato de eles ainda a temerem se parasse para refletir no assunto, e percorreu a área comum com os olhos, procurando por um rosto familiar.

Sentado em uma mesa com outros homens, no entanto, Adam a viu antes que ela o avistasse: se ergueu de prontidão, se aproximando em passos largos, e se curvou em um cumprimento discreto ao alcançá-la. “Minha senhora.” Ele sorria. “Como posso ajudá-la?”

Era impossível impedir que a disposição agradável do guarda a afetasse, e Selena se descobriu relaxando um pouco; talvez a solução, em momentos como aquele, fosse realmente se misturar com pessoas menos importantes, deixar que sua mente se afastasse de grandes esquemas e elfos perigosos.

Ela sorriu de volta para Adam. Mesmo assim, mudou o peso de perna ao responder, ainda incerta. “Eu gostaria de falar com Jaime, na verdade. Você sabe se ele está por aqui?”

O guarda assentiu devagar, os olhos âmbar pensativos, antes de dizer, “Ele está em sua sala, acredito, conversando com Daire. Posso levá-la até ele, se quiser.”

“Eu agradeceria,” Selena respondeu, se perguntando se não estava sendo mais formal do que normalmente, se a noite anterior não a afetara mais do que deveria. “Se não for um problema, isto é. Não quero interromper.”

Para sua surpresa, Adam riu. “Minha senhora, se Jaime descobrisse que permiti que deixasse de vê-lo porque ele estava ocupado conversando com um amigo, duvido que eu permanecesse na guarda por muito mais tempo.”

Ela deixou escapar uma risada baixa, reconhecendo a verdade — mesmo que um tanto exagerada — em suas palavras, e permitiu que Adam a guiasse até as portas duplas de madeira escura em destaque do outro lado da área comum dos guardas. Ele só precisou bater uma vez, mas não foi Jaime quem abriu a porta.

O guarda tinha pele escura, cabelos cacheados, e talvez pouco mais que quarenta e cinco anos, e seu sorriso deu lugar a uma atenção cautelosa quando viu que era Selena parada do outro lado. Ela já o vira antes, mas não fizera antes sequer ideia de qual era seu nome. Ele inclinou a cabeça para ela. “Minha senhora.”

“Daire, sim?” No que o homem só assentiu em resposta, ainda a estudando com cuidado, ela perguntou, “Jaime está?”

“Sim, minha senhora.” Daire abriu mais a porta, saindo do caminho para deixá-la passar. “Vou deixá-los a sós.”

A sala era consideravelmente pequena, especialmente se comparada ao estúdio de Morzan, mas também confortável e bem-arrumada. Um tapete macio cobria o chão, e as janelas na parede oposta podiam ser abertas para deixar entrar o ar frio do outono; entre elas havia uma mesa alta e fina, e, do outro lado de cada uma, uma estante repleta de cadernetas uniformes em capa de couro. Uma porta menor levava a outro cômodo.

Jaime estivera sentando atrás de uma escrivaninha de madeira, as costas para a janela e um cálice de vinho a sua frente, mas se colocara em pé ao ver Selena entrar. Se estava surpreso em vê-la, o escondeu bem: a cumprimentou tão educadamente quanto sempre, recolhendo de imediato a taça de Daire de cima da mesa, e lhe ofereceu também um cálice de vinho.

“Esse não é tão bom,” ele avisou, recolhendo a garrafa que dividira com seu amigo. “Mas tenho algo melhor guardado para quando Lorde Morzan desce aqui.”

Selena encolheu os ombros em resposta, se sentando em uma das cadeiras de frente à escrivaninha. “Acho que estou mal acostumada,” admitiu. “Não é como se os vinhos em Carvahall fossem excelentes.” Hesitou, se sentindo estranha ao pensar em casa. “A cerveja era sempre boa, no entanto. O hidromel, também.” Ergueu os olhos para Jaime quando ele depositou uma taça de prata a sua frente. “Morzan vem aqui frequentemente?”

Jaime a observava com calma, parecendo procurar algo em seu rosto, e demorou um instante para confirmar com a cabeça. “Às vezes,” respondeu. “Posso te oferecer mais alguma coisa, minha senhora?”

“Não, obrigada.” Ela cruzou os braços sobre a barriga, mordendo a bochecha e se perguntando por onde começar. “Eu espero não ter interrompido nada?”

“Nada importante,” ele a assegurou, se sentando mais uma vez em sua cadeira alta, inteiramente confortável; já deveria estar mais do que acostumado a se sentar de frente a outros guardas, ouvindo seus problemas e relatórios, às vezes até mesmo os repreendendo. Gentil como era, Jaime fazia parte do mundo de Morzan há décadas. “O que posso fazer por você, minha senhora? Está tudo bem?”

“Eu... Eu acho que sim.” Selena deixou escapar um suspiro. “Algo aconteceu ontem à noite. Foi depois que voltamos do banquete, depois que já havíamos nos retirado.” Ela arriscou olhar para Jaime, mas ele não esboçava expressão alguma. “Eu não conseguia dormir, não depois da volta de Fäelan, e por um tempo Morzan estava acordado também, refletindo sobre isso, eu imagino, mas então... Ele adormeceu.”

Selena abaixou os olhos novamente, sem ter coragem de encontrar os olhos de Jaime ao recontar em voz baixa o que acontecera, sua voz distante e sem emoção até para seus ouvidos: como Morzan parecera tão calmo no início, tão jovem e tão pacífico, e como logo seu rosto mudara completamente; como ele acordara e segurara seu pulso com força, como ele parecera profundamente perturbado por qual quer que tivesse sido seu sonho.

Sobre como ela tentara lhe perguntar qual o problema, como se oferecera para confortá-lo, e sobre como ele a afastara tão bruscamente. Ela engoliu em seco, ainda tomada demais pelas lembranças da noite anterior, e só voltou a olhar para Jaime quando ele permitiu que o silêncio entre eles se estendesse por tempo demais.

Ele a encarava com cautela nos olhos pálidos, mas também algo mais, algo que Selena não soube bem reconhecer. “Eu não sei,” ele começou devagar, “o que você espera que eu diga, minha senhora.”

“Bem, eu...” Selena hesitou, sem saber como se expressar. “Eu não sei o que pensar sobre o que aconteceu. Morzan nunca me cortou assim antes, eu nunca o vi assim antes. E não sei se é algo que acontece com frequência, não sei se... Não sei nem mesmo sobre o que tudo isso foi. Quer dizer, sei que não deve ter sido um simples sonho, mas Morzan não quis me contar.” Ela deixou escapar uma risada entrecortada, seu nervosismo e frustração transparecendo mais do que deveriam. “Ele sabe tudo sobre mim, mas não quis me contar.”

Jaime assentiu lentamente, como se compreendesse o que ela dizia, mas, quando falou, seu tom foi mais duro do que de costume. “Não posso falar sobre isso com você.”

“Você...” Ela franziu a testa, pega de surpresa e sem entender. “Como assim?”

“Eu não posso,” Jaime repetiu, enunciando as palavras com cuidado, “discutir isso com você.”

Selena o encarou de volta, se sentindo ainda mais perdida e machucada do que antes, e percebeu algo diferente no rosto do capitão da guarda de Morzan; embora certamente disfarçado, era estranhamente similar ao modo como ele a olhara nas primeiras semanas depois que se conheceram, com um toque de impaciência e superioridade, mas também mais sombrio, e não isento de julgamento.

Ela estreitou os olhos.

“Não pode,” perguntou, “ou não quer?”

As sobrancelhas escuras de Jaime subiram um quase nada. “Não posso,” ele disse, “e com certeza não quero.”

Selena mal podia acreditar no que ouvia. “Morzan sabe tudo sobre mim,” insistiu mais uma vez. “Tudo. Meus segredos mais profundos, as coisas que nunca contei a mais ninguém, tudo o que sofri, as coisas mais difíceis por que passei... Tudo o que fiz por ele. E mesmo assim, no instante que o assunto são as emoções dele, ele me corta. Eu tenho o direito de saber—”

“O direito de saber qual foi seu pesadelo?” Jaime perguntou, frio. “Com respeito, minha senhora, eu discordo.”

“Então devo ficar satisfeita, feliz, ao lhe contar tudo, mesmo que ele não me diga nada em troca? Já não fiz o bastante para merecer sua confiança também? Ou é só que não sou importante o suficiente para que ele que conte qualquer coisa de peso?”

Jaime deixou o ar escapar em um suspiro frustrado, quase exasperado. “Não foi isso o que eu disse.”

“Não?” Ela sacudiu a cabeça, sem conseguir conter bem a própria indignação. “Porque não é como se tudo fosse muito fácil para mim; alguns dos momentos mais difíceis da minha vida aconteceram depois que eu o conheci, porque eu o conheci. Não é que eu não tenha pesadelos também, que não tenha adormecido chorando no colo de Morzan diversas vezes, como se—”

“É diferente!” Jaime exclamou, os olhos verdes descrentes. “Morzan não te deve isso.” E então ele correu então uma mão pelo rosto, parecendo cansado e surpreso com o próprio tom; quando voltou a falar, foi com uma voz quase derrotada. “Me desculpe, minha senhora. Mas isso... É diferente.”

“Mas...”

“Eu concordei em esconder algo dele por você,” ele a lembrou. “Uma vez.”

Selena demorou um instante para compreender o que ele dizia, e então entreabriu os lábios, horrorizada, ao se lembrar da noite em que questionara um homem ela mesma pela primeira vez, logo no início dos problemas com Fäelan, e em como aquilo a afetara depois. “Não é a mesma coisa,” protestou, a própria voz muito baixa.

“Não,” Jaime concordou, mas parecendo dizer algo inteiramente distinto. “Não é.”

“Mas, Jaime... Você me disse que eu poderia falar com você, se... Se encontrasse algo que achasse não poder falar com ele.” Mas o capitão da guarda de Morzan apenas a encarou de volta, os lábios um pouco apertados, parecendo dividido, em conflito consigo mesmo; em seus olhos claros, só um pedido de desculpas. Selena abaixou a mão para segurar o próprio pulso, perdida e sem saber o que mais lhe dizer. “Jaime, ele me assustou.”

Jaime fechou os olhos por instante, como se as palavras dela de alguma forma o machucassem. Mais uma vez, ele enfiou o rosto nas mãos, e então se levantou, andando até uma das janelas para olhar para o entardecer sobre Urû’baen. Talvez estivesse se preparando para tomar uma decisão, e foi com cuidado que Selena continuou a falar.

“Não é que...” Ela hesitou, encolhendo os ombros. “Não é que eu ache que ele é obrigado a me contar sobre isso exatamente. Eu entendo que pode ser difícil, mas ele não me conta nada. Eu conheço tão pouco sobre seu passado, sua vida, até sobre quem ele é agora. É como se de um lago profundo, eu avistasse apenas o reflexo na superfície, e acho que eu mereço...” Selena se conteve. “Eu gostaria de ter mais que isso.”

Uma mão ainda no batente da janela, Jaime se voltou para ela, e aguardou.

“E, na noite passada,” Selena continuou, por mais que tivesse certeza que Jaime entendia, “Eu vi um lado de Morzan que não conhecia. Por um instante, foi como se ele nem mesmo me reconhecesse; ele me machucou, até.” Ela puxou para trás a manga de seu vestido, mostrando para ele as marcas em seu pulso. Foi com dificuldade que ela prosseguiu, admitindo para ele algo que até então não admitira para si mesma, “É um Morzan com que acho que não sei lidar.”

Jaime olhou para o ferimento em seu pulso com uma expressão que era horrorizada, mas também quase ofendida, e que ele parecia tentar esconder. Ele voltou a se aproximar da mesa em passos lentos, e tomou um gole de vinho ao se sentar mais uma vez à frente de Selena.

“Você não consegue curar isso com magia?”

Ela engoliu em seco. “Sim.”

“Você deveria, então.” Ele pareceu hesitar um instante. “Minha senhora, eu realmente não posso lhe dizer nada sobre os sonhos de Lorde Morzan. Mesmo que eu quisesse, não posso discutir isso.”

“É mesmo algo que acontece frequentemente, então?”

O olhar de Jaime foi quase repreensivo, como se a lembrando de que acabara de dizer que não tocaria no assunto, mas ele assentiu. “Sim.”

Algo em sua voz, em sua resposta, fez com que Selena voltasse a pensar na noite anterior; nos músculos tensos de Morzan, em suas respostas ríspidas, no aperto de seus dedos em seu pulso, em como ele se levantara com esforço e subira para o andar de seu dragão. Ela entreabriu os lábios, finalmente achando compreender, e disse num murmúrio, “Ah.”

“Mas eu posso,” Jaime continuou, “te ajudar com outras coisas. Sei como lidar com ele nesses momentos, e se você quer que Lorde Morzan lhe diga mais sobre si mesmo, bem... Eu talvez possa ajudar com isso também.”

Selena ergueu os olhos para ele. “Você pode?”

“Sim, eu acredito que possa.” Ele pensou por um momento antes de continuar, “Sobre as noites em que ele acorda assim, minha senhora, a coisa mais importante a se fazer é dar a ele espaço. Deixar que Lorde Morzan lide com as próprias emoções, e tentar não entrar em seu caminho.”

Ela franziu as sobrancelhas. “Mas como eu posso ajudar?”

Jaime lhe ofereceu um sorriso cansado, mas genuíno. “Nesses momentos, é menos sobre ajudar do que sobre não atrapalhar. Se você tentar ajudar, vai na verdade estar dando a ele mais uma coisa com se preocupar; se Lorde Morzan quiser sua companhia, ele vai ir até você.” Talvez lendo corretamente a expressão de Selena, ele insistiu, “Confie em mim, eu sei do que estou falando. Você pode ir atrás dele um pouco mais tarde, se quiser, mas tenha cuidado, e se certifique que deu a ele tempo o suficiente para recuperar o controle.”

Selena mordeu o interior da bochecha, lutando contra a parte de si que achava aquele conselho absurdo — a parte de si que insistia em fazer alguma coisa — e assentiu. “Dar-lhe espaço,” repetiu. “Certo. E para convencê-lo a se abrir pra mim?”

“Faça perguntas,” Jaime respondeu simplesmente. “Perguntas pessoais, se quiser; desde que tome cuidado com alguns tópicos mais sensíveis, ele deve te contar a maior parte das coisas. Não vai oferecer informações ele mesmo, mas se você perguntar, ele vai responder.” Ele ergueu um dedo. “Só não agora. Depois do que você diz que aconteceu na noite passada, Lorde Morzan deve estar com a guarda erguida e pode cortar quaisquer assuntos pessoas em que você tente tocar; dê a ele alguns dias, talvez algumas semanas. Espere por um momento mais tranquilo, de preferência longe de preocupações imediatas sobre o resto dos Treze, e eu imagino que ele lhe contará bastante.”

Selena considerou suas palavras, enxergando a lógica por trás delas, e se viu de frente a verdade de que Jaime ainda conhecia Morzan muito melhor do que ela. “Certo,” disse mais uma vez. Tomou um gole da sua taça de vinho, e a bebida era realmente de uma qualidade maravilhosa; acalmou um pouco seus nervos, e ela voltou a olhar para Jaime, sorrindo um pouco. “Obrigada.”

“Não se preocupe, minha senhora,” ele respondeu, devolvendo a ela um sorriso cansado. “Foi um prazer.”

Notas finais
gente vocês não sabem como eu AMEI escrever esse capítulo e o tanto que eu amo o jaime e a sel h elp skalkslaskal espero demais que tenham gostado também ♥ nos vemos nos reviews e até o próximo !!