Shiver
55 Capítulo 55
Notas iniciais

A presença de Fäelan na corte tornava o ambiente mais tenso, e era possível perceber o nervosismo e a expectativa dos nobres, os olhares desconfiados e os burburinhos das conversas sussurradas que sempre pareciam parar quando um dos Treze se aproximava. O elfo aparecia frequentemente acompanhado por Kialandí e Formora, mas às vezes também sozinho, ou com um servo ou nobre humano o seguindo de perto, pronto para receber instruções ou oferecer bajulação; ele se mostrava perfeitamente educado e parecia sempre ocupado com um propósito ou outro.
Morzan observava tudo aquilo com uma cautela carregada de desdém, e eles também trabalhavam em melhorar seus relacionamento com o resto da nobreza. Naqueles primeiros dias desde a volta de Fäelan, ele e Selena não haviam ainda almoçado ou jantando a sós uma única vez, e iram logo partir na primeira de várias viagens rápidas ao resto das grandes cidades.
Eles estavam bem, também, por mais que Selena não fosse capaz de afastar por inteiro a ansiedade vinda daquela noite em que assistira Morzan dormir. Na noite seguinte, ela dormira sozinha em seu próprio quarto, e então seguira o conselho de Jaime e não tocara mais no assunto. Se Morzan parecera mais distante, fora apenas no início, e já voltara há muito a aproximar o rosto do dela para lhe sussurrar comentários secos sobre os outros nobres, um sorriso pequeno no canto dos lábios cheios.
E ele já a enviara para conversar com mercadores, artesãos, e outros homens menos respeitáveis, uma atividade de que Selena não gostava muito, mas não particularmente desgostava tampouco. Ela apreciava as visitas à cidade, porém, se não por mais nada por ter a oportunidade de comprar novas joias, livros e vestidos, e, de qualquer forma, ficava feliz que Morzan parecesse satisfeito com seu desempenho.
E naquela noite, finalmente, eles se afastariam um pouco da corte para se preparar para viajar cedo na manhã seguinte — começariam indo a Gil’ead e Ceunon, e então voltariam para Urû’baen por alguns dias antes de partir para Teirm e Narda, passando pela capital mais uma vez antes de visitar as cidades do sul do Império — e porque, Selena se empolgava toda vez que pensava no assunto, era aniversário de Jaime, e ela mal podia esperar para lhe dar seu presente.
Desde que ele comentara sobre seu aniversário ser no começo do outono, Selena se perguntara sobre o que comprar, e escolher um presente para o capitão da guarda de Morzan se provara uma tarefa muito mais difícil do que deveria ser. Ela não costumava vê-lo usando joias, afinal, mas não fora fácil pensar no que mais lhe dar que pudesse ser apreciado (Morzan se recusara a ajudar), e tinha quase certeza de que a grande maioria de suas ideias tinha apelo muito maior para ela própria do que teriam para Jaime; fora apenas na última semana que encontrara algo digno, e esperava com todas as forças que tivesse feito a escolha certa.
(Escolher um presente para Morzan um dia seria ainda pior, Selena tinha certeza, mas ele teria que lhe contar a data de seu aniversário para isso primeiro.)
Para o jantar, Selena escolheu um vestido branco com rubis em formato de gota espalhados pelo corpete, e, com o colar que Morzan lhe dera no pescoço e metade do cabelo preso em uma trança delicada, ela sorriu para o próprio reflexo e julgou sua aparência satisfatória. “Como é,” perguntou, ajeitando sua pulseira delicada de ouro branco e granadas, “que Jaime prefere passar seu aniversário aqui a com sua família?”
“Porque,” Morzan respondeu, a mão pairando sobre sua coleção de anéis antes de escolher o de rubi e prata que usava quase sempre, “Jaime prefere minha companhia à de sua família, é claro.”
Selena deu as costas ao espelho, cética. “Prefere mesmo?”
Ele lhe lançou um olhar divertido. “E você não?”
Não era como se ela houvesse deixado Carvahall com a intenção de voltar em um futuro próximo, mas Selena descobrira que passara a sentir mais saudades de casa conforme se acostumara à rotina em Urû’baen, e sabia que seu aniversário traria ainda mais daquilo. Ela pendeu a cabeça para o lado. “Talvez,” disse, contendo um sorriso ao ver seu olhar descrente. “Já aviso que estou esperando algum tipo de celebração. E bons presentes.”
Morzan riu pelo nariz, apoiando uma mão em suas costas para apressá-la. “Te darei a melhor noite de sua vida, Sel, não se preocupe.”
Ela parou para olhar de volta para ele, dividida entre a surpresa e o sorriso chocado que ameaçava tomar conta de seu rosto. “Morzan—”
“Vamos,” ele insistiu, a empurrando de leve. “E faltam semanas para seu aniversário, Selena.”
Ele soava quase exasperado, e Selena deixou de insistir no assunto. Tinha quase certeza de que Morzan tinha seu próprio presente para Jaime, no entanto, e organizar jantares não lhe custava absolutamente nada, então por que não? Ela olhou para ele por cima do ombro. “Quando é o seu?”
“Já passou,” Morzan respondeu, desviando a pergunta como se não fosse nada.
Selena se virou para frente novamente, mordendo o interior da bochecha, e se esqueceu de agradecer o guarda que abriu a porta do estúdio de Morzan para eles passarem. Sentou-se em uma das cadeiras em frente à escrivaninha enquanto Morzan se servia de um cálice de vinho, tamborilando os dedos no tampo de madeira escura, e falou de novo apenas para preencher o silêncio e ocupar seus pensamentos. “Acha que eles já ouviram falar de mim em Gil’ead?”
Ele parou com a taça erguida, depositando-a então de volta na bandeja, e examinou o rosto de Selena por um longo instante. “Os nobres, com certeza. O resto do povo, imagino que ainda não.” Ele encheu outro cálice de prata e o ofereceu a ela. “Sobre o que é que está nervosa, Sel?”
“Eu não estou,” ela devolveu de imediato, só para deixar escapar um suspiro frustrado logo em seguida. “Quer dizer, estou, um pouco, mas todos estão, não, desde a volta de Fäelan?” Hesitou, observando com cuidado seu rosto. “Só espero que deixar a cidade por um dia ou dois ajude.”
Morzan não esboçou expressão alguma; apenas assentiu, bebendo um gole de vinho, os olhos de cores diferentes ainda a examinando de volta, atentos. “Tenho certeza de que vai.”
“Gil’ead foi a primeira cidade que visitamos juntos,” Selena adicionou, a própria voz bem baixa. Talvez continuar falando fosse um erro enorme. “Logo depois que saímos de Carvahall.”
“Sim,” ele respondeu, quase distraído, e era como se considerasse a informação trivial. Selena terminou imediatamente de se decidir de que era cedo demais para lhe perguntar qualquer coisa. “Suponho que tenha sido.”
Ela bebericou sua bebida, o outro braço abraçando com firmeza a própria cintura; repreendeu a si mesma por ter se permitido o deslize de não esperar mais antes de testar as águas com Morzan, sabendo que não chegaria a lugar nenhum daquela forma. Mal podia esperar que Jaime chegasse, para que distraísse a ambos, e também porque gostaria de lhe dar logo seu presente, que era, antes de mais nada, o maior agradecimento possível.
Gostaria de saber o que Morzan havia comprado.
Jaime demorou ainda uns dez minutos antes de bater na porta, porém, usando a túnica do uniforme da guarda e com os cabelos castanhos parecendo terem sido bagunçados pelo vento logo antes, os fios grisalhos destacados pelas luzes das lanternas. Ele encontrou o olhar de Morzan primeiro e lhe ofereceu um sorriso sem graça, abaixando então os olhos como se não conseguisse o encarar por muito tempo. “Desculpe pelo atraso,” ele disse, fechando a porta atrás de si. Sorriu para Selena, abaixando a cabeça em um cumprimento respeitoso. “Minha senhora.”
Selena já o vira mais cedo, e se conteve para não lhe desejar feliz aniversário novamente. Jaime tinha um livro pequeno de capa de couro nas mãos, e o apoiou com cuidado na escrivaninha de Morzan ao se sentar. “É de Dorian,” ele explicou, vendo o olhar de Selena. “Infelizmente sem qualquer mensagem secreta de Lorde Enduriel dentro; uma decepção, honestamente.”
Morzan ergueu uma sobrancelha. “São seus poemas?” Ele perguntou, estendendo uma mão para puxá-los para si. “Porque eles não são o que eu chamaria de decepcionantes—”
“Eu não li,” Jaime disse, apoiando uma mão sobre o livrinho com firmeza. “Então não saberia dizer.”
“Ainda,” o Cavaleiro replicou, a sombra de um sorriso em seus lábios.
Selena observava tudo com as sobrancelhas um pouco franzidas. “Não são os poemas de Dorian que são um tanto... sugestivos?”
Morzan riu. “Bastante.”
Ela se voltou para Jaime. “E existe um motivo para ele os dar para você?”
“Além do óbvio?” Ele encolheu os ombros. “É porque Enduriel acha uma boa ideia usar Dorian e eu para mandar suas mensagens para Lorde Morzan sem que Fäelan saiba, mas fica muito suspeito se só nos vermos para isso, então...”
“Entendo,” Selena disse. Mordeu o lábio ao ergueu os olhos para ele. “E não podemos ler?”
Jaime nem mesmo hesitou. “Não, acho que não.”
Morzan riu baixinho, os olhos díspares faiscando. “Eu tenho algo para você também.” Ele bateu com o indicador na mesa, pensativo. “E como nosso jantar parece estar demorando, bem...” Abriu a gaveta da escrivaninha, puxando para fora uma caixa de madeira fina e comprida que virou graciosamente para Jaime.
O capitão da guarda sustentou o olhar de seu senhor por um instante antes de estender a mão e abrir com cuidado o fecho delicado de ouro. Selena estreitou os olhos para a coleção de joias lá dentro, se perguntando se teria errado tanto em seu julgamento de Jaime, antes de perceber que o que via não fazia sentido.
Os colares eram simples, porém definitivamente feitos para mulheres, e ela só conseguiria imaginar — com esforço — Jaime usando um dos dois anéis, e de forma alguma o broche. Ele parecia tocado ao erguer o olhar para Morzan mais uma vez, no entanto, e nada confuso.
“A não ser que eu esteja muito enganado,” Morzan continuou, “esses devem agradar Lila,” apontou para o primeiro colar, “e Sarah,” indicou o segundo. “O broche é para Edric, os anéis para Vlad e Hann. Não são muito chamativos, mas devem servir seu propósito.”
Selena franziu as sobrancelhas. “Você sempre dá presentes para a família das pessoas em seu aniversário?” perguntou, incapaz de se conter.
Jaime riu baixinho, mas Morzan mal lhe deu atenção. “Precisam ser usados para funcionar, então você precisará ser bastante claro quanto a isso. Admito que qualquer outro dos Treze seria capaz de eludir proteções simples como estas, mas não seus servos, e com certeza serão eficientes contra bandidos comuns.”
“Eu agradeço, meu senhor,” Jaime disse, tão suave e tão sincero, puxando a caixa para si como se fosse seu bem mais precioso. Fazia sentido, Selena supunha, que o caminho para agradá-lo fosse através daqueles com que ele se importava.
“E este,” Morzan continuou, tirando um saquinho de veludo da gaveta e fazendo com que as sobrancelhas de Jaime se erguessem um quase nada, “é para você.”
“Meu senhor,” o capitão da guarda protestou, “eu não preciso—”
“Não é uma oferta que você possa recusar. E você vai querer esse.”
Jaime aceitou o saquinho, parecendo quase cauteloso ao afrouxar os cordões e virar o conteúdo na palma da mão. Era um colar, Selena percebeu, um amuleto do tipo que se usa por baixo das roupas; o pingente de prata era um glifo do estilo dos símbolos dos Renegados, de linhas e curvas delicadas, com uma esmeralda bastante pequena no centro, extremamente bonito.
“É na escrita dos elfos,” Morzan explicou, embora talvez não precisasse. “Em seu alfabeto, o Liduen Kvaedhí.”
Jaime correu o polegar pelo símbolo, quase transfixado. “O que ele diz?”
“Néthin,” o primeiro dos Renegados respondeu, simplesmente. “Sem espinhos.”
O guarda deixou o ar escapar por entre os lábios em um suspiro. “Um conselho, se eu o aceitar?”
Morzan sacudiu a cabeça. “Desta vez, só uma lembrança.”
Tinha obviamente um significado especial para os dois, e Selena se limitou a observar, sem entender e refletindo que não havia possibilidade alguma de seu presente superar aquele. Jaime fechou a mão ao redor da joia, o agradecimento e a emoção claros na forma como olhava para Morzan, e pareceu ser com certa dificuldade que se virou para ela, como se muito ciente de sua presença ali. “Lorde Morzan acha que eu preciso pensar menos,” ofereceu como explicação.
Morzan riu, se voltando também para Selena. “O que não é um conselho que eu daria a você,” disse, o humor claro em sua voz.
Ela deixou escapar uma risada incrédula, surpresa. “Perdão?”
Jaime riu também, sacudindo um pouco a cabeça, abaixando os olhos por um momento. Ele ainda corria o polegar pelo pingente, distraído e talvez sem perceber.
“Eu tenho um presente para você também,” Selena anunciou. “Não é... Não sabia bem o que escolher, e não consegui que ninguém me ajudasse, mas, bem, pensei que você talvez gostasse de algo que lhe fosse útil, e bonito, também.” Ela juntou as mãos no colo. “E que deixasse claro quão agradecida eu estou, por tudo.”
Ofereceu-lhe o presente e um sorriso tímido, e Jaime os aceitou com graciosidade. Ele desembrulhou o pacote com cuidado, revelando aos poucos a caderneta que capa dura que Selena encontrara há poucos dias apenas, traçando os entalhes dourados na capa com cuidado. Ergueu os olhos verdes tão pálidos para ela, e seu sorriso pareceu sincero. “É maravilhosa, minha senhora.” Um inclinar mínimo da cabeça. “Obrigado.”
Selena havia escrito uma dedicatória curta na primeira página, na sua melhor caligrafia (que, ela era agradecida, havia melhorado bastante nas últimas semanas), e só podia esperar ter conseguido passar a ela todos os seus sentimentos, e que a caderneta lhe fosse útil, talvez para até mais do que seus deveres na guarda. Jaime parecia ter gostado de verdade, ao menos, e ela se deu por satisfeita.
O jantar chegou não muito depois, e, pela primeira vez desde a volta de Fäelan, a noite foi verdadeiramente leve e agradável. Eles conversaram até tão tarde quanto podiam, uma vez que ela e Morzan viajariam cedo na manhã seguinte, sobre assuntos rápidos e divertidos, e, mais tarde, Selena foi dormir mais calma do que acordara.
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