Shiver

37 Capítulo 37


Notas iniciais
Aviso: menção a tortura e violência.

Era incrível como era possível se acostumar a qualquer coisa. Selena nunca imaginara que a vida na corte fosse algum dia lhe parecer tão comum a ponto de se tornar cotidiana; ao viajar com Morzan pelo Império, ela tinha descobertas novas a cada dia, um lugar novo para conhecer, uma coisa nova a aprender, e faria sentido esperar que isso não fosse mudar só por tomar residência em Urû’baen.

E, no começo, não mudara. Selena não podia evitar se maravilhar com cada pequeno detalhe a sua volta, com os bordados nos corpetes de seus novos vestidos, com as festas e banquetes, com os nobres e jogos de poder e os Treze e o rei. Mas ela não demorara muito a cair em uma rotina: acordava cedo para passar a manhã treinando esgrima com Adam, e depois do almoço praticava sua escrita, estudava as famílias nobres, se sentava para ouvir Morzan lhe explicar em uma voz muito macia os funcionamentos da corte, as ambições de cada nobre, quem era aliado de quem.

De noite, antes de ir se deitar, se esforçava para aprender a Língua Antiga e a conjurar feitiços, o que rapidamente se provava a mais cansativa de suas atividades. Ela ia dormir exausta, mesmo que satisfeita com seu progresso. E então havia todos os outros eventos, banquetes e reuniões e jantares pequenos com pessoas tão importantes.

Descobria também que aprendia tudo muito rápido, e conforme as semanas passavam, podia identificar sozinha os traços a que Morzan pediria que estivesse atenta. Conseguia ver nos comentários distraídos de Enduriel certa melancolia, nas pausas entre suas palavras e em seu olhar supostamente gentil que havia algo imensurável lhe faltando.

Percebia que os olhos muito verdes e arrogantes de Aleifar também eram atentos, mesmo quando pareciam fitar o além, estranhamente desfocados — Morzan lhe dissera que ele passara quase um século aperfeiçoando a arte de se esgueirar despercebido para a mente das pessoas, de escutar seus pensamentos e plantar sugestões discretas, e Selena achava que era possível ver os sinais. Não deixara de notar, também, que seu ar de desdém se tornava mais agressivo quando ele desconfiava de qualquer desrespeito a sua irmã, e supunha que aquela poderia ser considerada uma fraqueza.

A própria Alexis era muito diferente. Tratava Selena com um entusiasmo exagerado, insistindo em lhe contar sobre os escândalos da vida na corte e em se tornar sua maior amiga, mas não lhe dizia nada sobre si mesma mesmo quando tentava arrancar de Selena todos os detalhes de sua vida.

Perguntas inocentes a princípio: se ela tinha irmãos, se no lugar onde crescera fazia muito frio no inverno, um comentário sobre algo que ela com certeza sabia, é claro, porque sua mãe teria lhe ensinado, não? Selena quase respondera algumas delas sem nem ao menos perceber o que acontecia, mas Morzan sempre a parara a tempo com um olhar ou um toque discreto em seu braço.

E havia todo o comportamento de Alexis perto do próprio Morzan, os sorrisos pequenos e comentários baixos sobre seu passado e brincadeiras que Selena não conseguia acompanhar, e tudo aquilo a desagradava demasiadamente. No todo, preferia manter distância dos gêmeos.

Kialandí e Formora eram uma dupla pior, de certa forma. Eram aliados naturais não por serem ambos elfos e ambos ambiciosos — muito embora fossem — mas porque já vinham trabalhando juntos há séculos, Morzan lhe explicara. Suas forças e fraquezas se balanceavam bem, com a habilidade de Kialandí com magia e o pendor que Formora tinha para embates físicos, e eles já haviam há muito aprendido a agir juntos em ambientes menos violentos. Eles tratavam Selena com um desprezo discreto, como se ela não fosse digna de sua atenção, e ela precisava admitir que a presença dos dois a enervava.

Não era páreo para nenhum dos Treze, e Morzan tomara para si a responsabilidade de se certificar que ela não se encontraria com qualquer um deles se não estivesse acompanhada também por ele. E Galbatorix, bem, ainda lhe parecia uma figura grande e distante e difícil de compreender, com aquela voz poderosa e palavras bem escolhidas e autoridade tão grande. O interesse dele nela, Selena suspeitava, não passava de uma curiosidade sutil e de fruto do respeito que supunha que ele nutria por Morzan.

Com o resto dos nobres, porém, ela lidava melhor. E apesar de suas dificuldades, e da rotina puxada, e de todas as expectativas que sentia que caíram sobre seus ombros, Selena ainda sentia que vivia um sonho.

Isto é, até o momento em que Morzan se sentou ao seu lado durante o almoço com os olhos sóbrios e tomou sua mão nas suas, e chamou seu nome em um tom quase cuidadoso. Ela devolveu seu olhar com cautela, engolindo em seco, e perguntou, “Sim?”

“Eu acho,” ele disse devagar, atento a sua expressão, “que já está na hora de continuar seu treinamento em... outras áreas.” Morzan vestia uma camisa preta com bordados vermelhos, e o rubi em seu anel de prata tinha uma cor muito viva. “Estive esperando por uma oportunidade que não lhe desse responsabilidade demais, para que não houvesse essa pressão acima de tudo, e uma finalmente se apresentou.”

Selena franziu as sobrancelhas, puxando a mão para fora das dele e a fechando com a outra em seu colo. “Você já vinha pensando nisso há um tempo, então,” comentou, e um quê de acusação se esgueirou para sua voz, evidente o suficiente para que Morzan inclinasse para o lado a cabeça ao observá-la.

“Eu me preocupo para que você não precise,” disse. “Não é?”

Eles haviam combinado algo assim, sim, mas muito antes, numa época em que Selena não esperava que fosse de fato continuar com ele. “É,” ela concordou em voz baixa. “Acho que sim.” Respirou fundo uma vez, e ergueu o queixo. “O que precisa que eu faça?”

Morzan se recostou de volta em sua cadeira, batendo no tampo da mesa com um dedo. “Há um criminoso que precisa ser questionado,” explicou. “É membro de uma trupe de ladrões, acreditamos, que vem causando problemas, e precisamos extrair deles algumas informações.” Ele fez um gesto desdenhoso com a mão. “Descobrir o nome de seus cúmplices, coisa do tipo. Nada muito importante, nada vital. Seria normalmente trabalho para a guarda da cidade, mas como você precisa aprender, e como eles estão se provando uma inconveniência maior do que previmos...”

Selena desviou os olhos, considerando. O prato de sopa de cogumelos a sua frente ainda fumegava, delicioso, mas ela descobria que não sentia mais vontade alguma de comer. “Entendo.” Engoliu em seco mais uma vez. “Como... como vamos fazer isso?”

Morzan a considerou por um instante. Seu cabelo caía quase até tocar seus ombros, muito escuro e muito macio, e era quase inapropriado que ele parecesse tão bonito em um momento como aquele. “Como você vai fazer isso,” corrigiu. “Não vou te acompanhar dessa vez.”

“Mas...” Ela entreabriu os lábios, sem entender. “Mas eu... Eu não sei fazer o que preciso. Não fiz nada além de observar da última vez, e... Morzan, eu preciso de você.”

“Você é bastante engenhosa, Selena. Tenho certeza que vai se sair perfeitamente bem.” Ele lhe ofereceu um sorriso apertado que talvez devesse ser reconfortante. “Estarei aqui te esperando quando terminar. De qualquer forma, não seria um problema tão grande se algo desse errado, e obviamente não a enviarei sozinha ainda. Jaime estará com você.”

“Jaime,” ela repetiu.

“Sim, Jaime,” e havia agora uma nota de exasperação na voz de Morzan. “Ele possui mais experiência com esse tipo de situação, e sabe lidar bem com quem está começando, também.” Seus olhos se suavizaram um pouco. “Mas se você quiser mais alguém, Selena, é só pedir, e todos os meus guardas estarão de prontidão para auxiliá-la também. É apenas certo que você tenha acesso a todos os recursos possíveis.”

Selena cruzou os braços sobre a barriga, contendo um suspiro, e assentiu devagar. “O que Jaime e eu teremos que fazer, então?”

“Eu quero que você tenha mais iniciativa dessa vez, então você fará a maior parte do trabalho, e Jaime estará lá apenas para ajudar e para lhe dar qualquer tipo de apoio ou instrução, se for preciso.” Morzan se levantou, se aproximando para afastar os cabelos do rosto de Selena com os nós dos dedos. “Vai ser bastante simples, tenho certeza. Agora, recomendo que tire a tarde para descansar, e vou pedir que lhe tragam um jantar leve, um pouco mais cedo do que o normal. Há uma muda de roupas mais apropriada te esperando em seu quarto, e Jaime vai te encontrar na sala ao anoitecer, está bem?”

Ela franziu as sobrancelhas. “Você... Você está partindo?”

“Tenho algumas coisas para fazer antes da noite,” ele respondeu, encolhendo os ombros. “Mas não se preocupe muito. Vai dar tudo certo.” Morzan segurou seu rosto entre suas mãos, correndo o polegar por sua bochecha em uma carícia curta, e se aproximou para beijar sua testa. “Nos veremos de novo mais tarde.”

Ele lhe ofereceu um último sorriso, enrolando uma mecha de seus cabelos castanhos em um dedo, antes de deixar o cômodo. Selena o acompanhou com os olhos, franzindo a testa e mordendo o interior da bochecha, e deixou escapar um suspiro ao ver a porta se fechar atrás do homem. Afundou o rosto nas mãos, respirando fundo uma, duas vezes, tentando controlar o modo como seu coração já começava a bater acelerado.

Ignorando o prato cheio a sua frente, bebeu de uma vez o restante do vinho em sua taça, só para enchê-la mais uma vez, quase até transbordar. Tomou a bebida mais devagar desta vez, tentando se convencer de que tinha a situação sob controle, de que aquilo não era nada que ela não houvesse presenciado antes — seria mesmo tão diferente o fazer com as próprias mãos? —, de que tudo ficaria bem, é claro, porque Morzan a estaria esperando depois.

Além disso, se todos naquela cidade pareciam ser capazes desse tipo de coisa, por que não ela?

Voltou ao seu quarto só quando já tinha razoável certeza de que se acalmara o suficiente, quando seu coração retomou um ritmo normal e sua respiração vinha fácil, e se aninhou em sua cama para esperar o tempo passar, um livro em seu colo. Ele só recontava o que acontecera no último século, depois do início do Império, então havia poucas aventuras épicas em comparação com intrigas e casamentos e políticas de nobres menores, mas Selena já descobrira há dias que não se importava; aquele vinha se tornando seu livro preferido, dentre os que Morzan lhe dera.

Ela gostava, especialmente, de poder traçar as pistas que tinha do que Morzan fizera antes de conhecê-la — antes de ela nascesse — mesmo que apenas através de pequenas menções aqui e ali. Perguntou-se quando fora que Jaime entrara em sua vida.

Emma bateu em sua porta no fim do dia, uma bandeja com pão, queijo e frutas nas mãos. Selena a cumprimentou com um sorriso apertado, não tão feliz quando ficava normalmente em receber a garota (Emma era inteligente e divertida, muito disposta a compartilhar os últimos rumores que ouvira, por mais que seu exterior aparentemente tímido sugerisse outra coisa).

Selena remexeu a comida com um garfo por alguns minutos, sem motivação alguma para comer, antes de empurrar o prato para longe de si e se erguer e pedir que Emma a ajudasse a experimentar o vestido que Morzan separara para aquela ocasião. Era discreto, feito de couro claro, com a saia bastante rodada — para permitir maior movimentação, talvez? — e nenhum adorno no corpete. Cobria completamente seus braços, também, e a cobria quase até o pescoço. Ela deixou que o colar de rubi que Morzan lhe dera caísse sob o tecido, o escondendo de vista.

Vestiu luvas grossas, também, foi agradável perceber que a roupa era muito confortável, feita para protegê-la e para evitar ao máximo restringir seus movimentos. Se sentou na cadeira enquanto Emma prendia seu cabelo em uma trança simples, para mantê-lo longe de seus olhos, e, quando parou diante do espelho, se descobriu uma pessoa inteiramente diferente.

“Só falta uma espada,” Emma comentou, a voz baixa e impressionada, “e você se pareceria com uma princesa guerreira, minha senhora.”

O sorriso que Selena lhe devolveu foi apertado — princesas não eram guerreiras, afinal, e ela começava a desconfiar que a glória da guerra fosse superestimada — e agradeceu baixinho quando Emma lhe desejou boa sorte, parada junto à porta do quarto.

Desceu as escadas devagar, prestando atenção nos degraus íngremes e também na própria respiração, e avistou Jaime recostado contra a parede da sala, vestindo roupas bastante comuns: calças escuras, botas pesadas, uma camisa marrom que não chamava atenção. Ele tinha um pé erguido e apoiado atrás de si, e girava alguma coisa nas mãos, distraído, enquanto esperava.

Ergueu os olhos quando a ouviu se aproximar, guardando o objeto no bolso da calça, e deu um passo para frente. As linhas de seu rosto eram mais duras do que o normal, mas, quando falou, sua voz tinha o respeito apropriado.

“Minha senhora,” cumprimentou. “Está pronta?”

Notas finais
O que acharam? Nos vemos nos comentários ♥ (Vocês também, fantasminhas! Escrevo sobre o Morzan, mas sou boazinha, prometo!) Amo vocês.