Shiver

38 Capítulo 38


Notas iniciais
Ana, este é para você: um presente, uma congratulação, uma declaração de amor e amizade. Espero que goste, por mais que a temática não seja a mais feliz. Te amo horrores ♥ A todos os outros, boa leitura! Aviso: alusão a tortura e violência.

Selena bateu duas vezes com o punho na porta de madeira, e os poucos segundos em que os guardas do lado de fora demoraram para abri-la pareceram uma eternidade. O ar frio batendo em seu rosto foi um alívio, no entanto, e ela respirou fundo ao sair para o corredor, uma mão na parede de pedras para se apoiar.

Atrapalhou-se um pouco ao tirar a máscara de prata que cobria a metade superior de seu rosto — Morzan não usara nada do tipo em Belatona, e o acessório revirava seu estômago —, a respiração pesada, e não se surpreendeu a encontrar Jaime ao seu lado, uma mão esperando de prontidão.

Ela lhe entregou a máscara sem encontrar seus olhos, sentindo mais do que vendo seu olhar preocupado. Piscou uma vez, com força. “Preciso de ar.”

Foi por algum milagre que conseguiu andar em uma linha reta, considerando seu estado mental, e subir as escadas que levavam aos jardins. Ouvia Jaime a seguindo de perto, e tentou não lhe dar atenção — por mais que sua relação com o capitão da guarda de Morzan houvesse melhorado, Selena não tinha certeza se gostaria que ele, dentre todas as pessoas, a visse em um momento como aquele, angustiada e tão vulnerável.

Parou sob o arco de entrada, e era tão absurdo que houvesse jardins tão elaborados tão perto dos calabouços, que durante o dia as pessoas passassem por lá sem fazer ideia do que acontecia sob seus pés. A noite era bonita; a lua estava cheia, uma brisa suave que fazia com que os arbustos farfalhassem, a fonte mais a frente parecia jorrar prata ao invés de água, e em sua mente Selena ouvia gritos.

Pendendo a cabeça para trás, ela fechou os olhos, tentando clarear a mente. Sentia vontade de vomitar.

“Minha senhora?” Jaime chamou, hesitante. Ela o sentia parado perto, talvez indeciso sobre tocar ou não seu ombro, mas sua voz soava muito distante. “Você está bem?”

A pergunta não fazia sentido algum, e Selena quase riu. “Eu...” É claro que não estava bem. Tornou a fechar os olhos, e viu de relance um atiçador de ferro em meio a carvões em brasa, a ponta branca de tão quente, sentiu a sensação de raspar que ele fazia ao tocar a bacia de cobre quando ela o puxava, branco se tornando laranja ao esfriar um quase nada. “Eu não...”

Uma mão sobre a barriga, mal teve tempo de correr até o arbusto mais próximo e despejar sobre ele o conteúdo de seu estômago; um líquido claro e ácido que queimou sua garganta e deixou um gosto horrível em sua boca. Ocorreu-lhe que tinha sorte por não ter comido nada no jantar, que seus cabelos estivessem presos em uma trança, e até seus pensamentos pareciam um pouco fora de controle.

Sentiu uma mão na base de sua coluna, outra em seu cotovelo. “Está tudo bem,” Jaime disse, a voz baixa e estranhamente compreensiva. “Minha senhora, olhe para mim.” Pareceu tanto uma ordem que Selena não pôde evitar obedecer, e encontrou seus olhos verdes pálidos. “Você vai ficar bem.”

Ela estava trêmula, mas conseguiu forçar um sorriso. “Sorte a minha.”

Jaime deixou escapar um suspiro. Ele tinha os cabelos castanhos bagunçados por ter corrido os dedos por eles vezes demais naquela noite, e o vinco entre suas sobrancelhas talvez estivesse se tornando permanente. “Aqui,” ele disse, lhe oferecendo o odre que carregava no sinto.

Selena o aceitou, o sentindo muito pesado em suas mãos fracas, e, sem encostar, deixou que um pouco de vinho caísse na boca. Remexeu o líquido, sentando se livrar de todos os vestígios de bile, antes de cuspir nos arbustos mais uma vez. Limpou os lábios com as costas das mãos, e então se permitiu um gole. Não podia fazer mal.

“Obrigada,” agradeceu baixinho.

Ele ainda a olhava com evidente preocupação, mas assentiu uma vez. Inclinando a cabeça em convite, a guiou até a fonte, e se sentou ao seu lado na beirada de pedra. Selena cruzou os braços sobre a barriga, o odre de vinho ainda em uma mão, e respirou fundo de novo e de novo, tentando fazer com que seu coração desacelerasse, mesmo que apenas um pouco.

Jaime desviou os olhos enquanto esperava, talvez em uma tentativa fraca de lhe dar alguma privacidade, e não seria possível não se sentir grata por isso. “Obrigada,” Selena repetiu. “Estou... Estou um pouco melhor.”

Ele pendeu a cabeça para o lado, não do modo curioso como ela estava acostumada a ver Morzan fazer, mas em frustração, a encarando como se não tivesse muito bem certeza de como proceder. Suspirando mais uma vez, Jaime acabou por perguntar, “Quer conversar sobre o que aconteceu?”

Selena sacudiu a cabeça, horrorizada. “Não, eu... Não.”

Absurdamente, Jaime pressionou, “Como ficou, depois daquela noite em Belatona?”

Ela tinha mesmo que responder? Selena queria desaparecer entre os braços de Morzan, esconder o rosto em seu peito, e permitir que a proximidade a reconfortasse e sumisse com suas lembranças e com os pensamentos intrusivos. “Pior,” respondeu num sussurro, porque desconfiava que fosse a resposta que mais o agradaria e também porque era a verdade. “Eu não... Não sentia nada, e então sentia tudo, e desta vez... Não estou bem, mas estou melhor.”

Se lembrou de como soluçara no colo de Morzan, encharcando suas roupas de lágrimas, de como se sentira pesada ao adormecer. Tinha se saído tão bem em evitar pensar sobre aquilo, e agora Jaime insistia em trazer tudo de volta, só para se somar ao que ela presenciara — ao que ela fizera — naquela noite.

Encontrou o olhar de Jaime com certa dificuldade. “Sinto muito,” disse. “Por você ter tido que... que ver isso.” Se referia a si mesma, e, pelo jeito como ele ergueu as sobrancelhas, Jaime entendeu.

“Já vi muito pior,” ele lhe disse, e suas palavras foram de algum conforto. “Não se preocupe comigo.”

“Bem, eu...” Selena começou, tentando manter a voz leve, até parar, horrorizada. “Jaime, eu... Eu não... Pode prometer que não vai contar a Morzan? Sobre o que aconteceu?”

Jaime hesitou, os lábios entreabertos em surpresa. “Eu poderia, minha senhora,” respondeu, o tom gentil, cuidadoso. “Ele vai querer um relato do que houve, mas eu poderia não entrar em detalhes, se quisesse, e não lhe contar sobre coisas específicas. A não ser que Lorde Morzan me faça a pergunta errada, eu poderia.” Ele estudou seu rosto. “Mas não sei se seria o certo a fazer.”

Selena mordeu o lábio inferior com força, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas. “Jaime, por favor. Se ele soubesse, eu... Ele...”

“Ele saberia como as coisas que quer que você faça te afetam.” Ela percebeu o pescoço de Jaime se mover quando ele engoliu em seco, a expressão dividida, quase hesitante. “Honestamente, minha senhora, isso é algo ele deveria saber.”

“Ele sabe. Eu juro que ele sabe, mas existem alguns detalhes que...” Selena balançou a cabeça, sua frustração próxima do desespero. “Que Morzan não precisa saber. Ele não precisa saber de tudo. Admito que o que fiz hoje me deixou um pouco perturbada—”

Perturbada?”

“Mas vai passar. Eu vou ficar bem, e ele não precisa saber que me afetou tanto, mesmo que apenas por um instante.”

“Sua reação não foi desproporcional,” Jaime lhe disse gentilmente. “Eu realmente já vi muito pior. Mas aconteceu, minha senhora, e fingir que não... Não sei como isso ajudaria.” Talvez percebendo o pânico em seus olhos, ele suspirou. “Por que não quer que ele saiba?”

Não era óbvio? Morzan iria se decepcionar, não teria como não se decepcionar, e Selena não queria ver aquilo em seus olhos. “Eu não... Não me orgulho disso.”

Jaime observou seu rosto por um instante. “Você sabe que ele vai te mandar em missões muito parecidas com o que teve que fazer hoje, e até mesmo piores. Mais difíceis, mais desgastantes. Se Lorde Morzan insiste em fazê-la passar por isso, o mínimo que ele precisa saber é o preço que você paga para dar a ele o que ele pede.”

“Não é nada com que eu não consiga lidar,” ela insistiu, “Por favor.”

Ele desviou os olhos claros. “Tudo bem,” concordou, mesmo que não parecesse nada feliz com isso. “Não vou contar. Mas preciso insistir, minha senhora, que você não estará fazendo um favor a si mesma ao negar o que sente. Ter dificuldades em fazer mal aos outros não é de forma alguma uma fraqueza.”

Foi a contragosto que Selena encontrou seu olhar. “Não acho que Morzan compartilha dessa opinião.”

O erguer das sobrancelhas de Jaime foi tão mínimo que quase imperceptível. “Não seria a primeira vez que discordamos.” Ele pendeu a cabeça para o lado. “Tem certeza que vai ficar bem?”

Ela assentiu devagar. “Sim.”

“E você vai conversar com ele, mesmo que sem entrar em detalhes?”

“Sim, eu...” Selena deixou escapar um suspiro, e colocou as pernas sobre a beirada da fonte, apoiando o queixo nos joelhos. “Eu vou.” Voltou os olhos para a fonte, para o reflexo na lua, distorcido pelo movimento da água, e sentiu uma lágrima quente escorrer por sua bochecha. “Obrigada,” disse baixinho, “Por concordar em não contar.”

Jaime sacudiu a cabeça, encolhendo os ombros. Ele tinha as costas muito retas e as pernas esticadas a sua frente, mas parecia cansado. “É seu direito não querer que ele saiba.”

Ela lhe ofereceu um sorriso trêmulo. “Você não deveria fazer o que eu digo, de qualquer forma?”

O capitão da guarda de Morzan riu, o som baixo e estranhamente reconfortante. “Não mesmo.”

Selena soltou a respiração devagar, e secou os olhos com as costas das mãos. Bebeu mais um gole de vinho, e então mais um, e pendeu a cabeça para trás, observando os milhares de estrelas que pontilhavam o céu. Não sentia vontade alguma de levantar e sair dali, e muito menos disposição para andar todo o caminho de volta à torre.

“Vou ficar bem,” disse mais uma vez, a voz muito baixa, mais para convencer a si mesma do que para qualquer outra coisa.

Foi uma surpresa, então, quando Jaime concordou. “Eu sei que sim.”

Notas finais