Shieldmaiden
2 Vislumbres
Notas iniciais
— E então? – Avanna perguntou impaciente. Ykhar fechou o volumoso e empoeirado livro em suas mãos e balançou a cabeça em sinal de negação.
Avanna se remexeu na cadeira soltando um longo suspiro. A biblioteca estava vazia, exceto por Kero, que passava tanto tempo naquela parte da HQ, que poderia ser considerado parte do lugar.
— Não se desanime! Vamos descobrir, eu não vou desistir – a ruiva sorria confiante. Sua expressão facial animada deu lugar a uma expressão confusa – Avanna... tem certeza que as únicas diferenças que possui de um ser humano puro são o peculiar violeta dos seus olhos e sua super força?
Avanna demonstrou hesitação, desviou o olhar para Kero, que estava absorto na leitura de um pergaminho. Ykhar aguardou o conflito interno da amiga, afinal, apressar alguém como Avanna era uma péssima ideia.
— Promete não rir? – Avanna a fitou com o máximo de seriedade que conseguiu reunir.
Ykhar sentiu o estômago borbulhar. E se ela rir sem querer? Oh não! Do jeito que sou, vou fazer alguma besteira! Pensou. Ela conhecia o temperamento da garota, tinha medo de irritá-la, Avanna era uma das melhores guerreiras da Obsidienne, só tolos e Ezarel tinham coragem de provocá-la.
— E-eu... sim! C-claro! – mil e uma expressões faciais indecifráveis foram vistas no rosto da pequena browine em apenas alguns segundos.
— Eu posso ver o futuro – Avanna mantinha a seriedade, seriedade não era um dos principais traços de sua personalidade e Ykhar sabia, aquilo era extremamente sério— não é exatamente “ver o futuro” – prosseguiu – mas vislumbres de coisas que nem sempre acontecem... eh... eu não sei exatamente como explicar, e também não sei como controlar, posso ter visões a qualquer hora ou lugar, e raramente fazem sentido!
A browine sorriu compreensiva.
— Você está me dizendo que é capaz de prever possibilidades?
— Isso! – Avanna colocou as mãos sobre a mesa.
— E que essas possibilidades podem mudar constantemente de acordo com decisões ou suas interferências?
— Sim! – Avanna se levantou – Wow! Como soube explicar o que se passa comigo melhor do que eu mesma? – seus olhos estavam arregalados – Então não acha isso bobagem né? Tive medo de contar para a Miiko.
— Por que eu acharia? – sorriu – A visão da probabilidade é extremamente rara sem a obtenção direta da magia apropriada, mas não é inexistente. Acho que fizemos um grande progresso com esta informação, deveria ter dito antes. Oh! Eu estou tão animada – Ykhar correu para as estantes colhendo vários livros e os jogando na mesa – nunca conheci um vidente pessoalmente! Sinto que estamos mais perto do que nunca de descobrir sua linhagem!
— E quais espécies possuem essa habilidade? – Avanna repousou um dos joelhos na mesa folheando um dos livros que Ykhar jogou.
— Eu não sei – Ykhar pareceu voltar a realidade e seu sorriso se desfez.
— Voltamos à estaca zero! – Avanna largou o livro e se jogou na cadeira, caindo de cara com o livro, choramingou.
— O que? Não! Eu não sei ainda. Mas não significa que não vou descobrir, não se preocupe, vou dar o meu melhor e vou reunir cada espécie que já apresentou tal habilidade, nem que seja em um grupo seleto. Listarei todos os casos e discutiremos as possibilidades juntas. Além do mais, é importante analisar sua combinação, super força e visão de probabilidades, isso faria um estrago no campo de batalha. Seja qual for a sua espécie, é composta de guerreiros excepcionais – Ykhar dizia tudo muito rápido, era algo que fazia quando estava tomada por algum sentimento, sendo o da vez, a empolgação.
Avanna sorriu convencida e repousou os braços atrás da cabeça.
— Eu já sabia – e então se lembrou – NÃO! O treinamento de hoje! Eu esqueci geral! – se levantou com um pulo e saiu correndo da biblioteca, deixando Ykhar confusa, mas não surpresa.
— Já disse para não correr assim nos corredores – ralhou Miiko quando a loira passou como um vulto entre Soraiya e ela.
— Tenha um bom dia – disse Avanna ainda correndo, não ouvira uma palavra dita por Miiko.
Miiko grunhiu.
— O que faço com essa garota? – Soraiya abriu a boca para responder, mas Miiko acrescentou antes que ela sequer dissesse alguma coisa – Foi uma pergunta retórica, Soraiya, não é necessário me responder.
A elfa fechou lentamente suas mandíbulas, mas seus olhos azuis como um mar cristalino permaneceram com a constante expressão curiosa. Miiko massageou as próprias têmporas suspirando.
— O que faço com vocês duas... Outra pergunta retórica! – acrescentou imediatamente.
Avanna abriu a porta com um chute certeiro. Estava ofegante.
— Está atrasada, outra vez – uma figura alta e robusta a encarava próxima a forja.
— Eu não entendo por que ainda preciso de treinamento, Valk – sua voz falhava pela falta de ar – eu quebrei o braço do Nevra semana passada, ganhei uma partida de esgrima com Ezarel, e só não consegui te derrotar porque você é um grandalhão. Você tem, sei lá, quatro metros de altura? – Avanna sorriu e levantou as mãos para ilustrar o que dizia.
— Você não me derrotou porque falta em você o que a força não é capaz de dar. Em um combate real, força não significa absolutamente nada se não souber como usá-la corretamente. Você é imprudente e teimosa, não sabe como aproveitar seu potencial. Isto é a sua fraqueza, isto – ele se aproximou ainda a encarando e cruzou os braços – é o que vai causar a sua ruína no campo de batalha.
— Você já me disse tudo isso! – Avanna jogou os braços para baixo e caminhou até o setor de armas.
Valkyon era quieto e reservado basicamente o tempo todo. Pelo menos era isso que Avanna pensava quando o conheceu. Seus sermões pareciam durar horas, a sua teoria pessoal era que ele poupava as cordas vocais para poder gastá-las a vontade durante os seus discursos sobre o quanto ela era impaciente, teimosa, infantil, imprudente e temperamental. Apesar dessas discussões, eles se entendiam muito bem, e Avanna o admirava e o considerava seu irmão mais velho e melhor amigo.
— Então por que continua cometendo o mesmo erro? No campo de batalha, qualquer erro, por menor que seja, pode colocar tudo a perder. Um deslize, uma distração, uma confusão de prioridades, pode colocá-la no encontro direto com a morte, e tudo pelo que lutou será em vão, porque não existe glória na morte de quem luta como um tolo – seu tom de voz era severo – precisa controlar seus sentimentos, só assim saberá desenvolver técnica e destreza, e alcançará o seu potencial máximo.
Valkyon fez uma pausa e a observou brincar a própria espada aguardando uma resposta. A garota suspirou desanimada, sabia que ele tinha razão, o difícil era admitir.
— Sinto muito... – foi tudo que conseguiu dizer. Valkyon fechou os olhos e cobriu a testa com uma mão.
— Vamos começar, espero que ponha em prática o que aprendeu, e espero que não me decepcione mais uma vez. Eu tenho trabalho como chefe de guarda, não posso gastar tanto tempo te ensinando o de sempre. Precisa passar desta fase, só assim estará pronta para missões avançadas, mas temo não ser mais capaz de ajudá-la.
Decepcionar. Era o que ela mais temia ouvir. A aprovação de Valkyon era mais importante do que a aprovação de qualquer outra pessoa, e foi então que ela tomou a decisão de dar o seu melhor para não ouvir tais palavras novamente, nem que isso significasse buscar ajuda de fora.
Avanna se deitou completamente exausta. O treinamento durou praticamente o dia todo. Valkyon parecia mais severo, mais direto, menos paciente. Ele a abandonava constantemente com um só exercício para cuidar se sua função como chefe de guarda, mas o que fazia ainda era puxado e cansativo. E mesmo Avanna contribuindo para fazer o certo dessa vez, não conseguia acompanhar o seu mestre como gostaria. Sentia dores em cada parte do seu corpo. Dormiu no mesmo instante em que fechou os olhos.
Deitada sobre algo macio. Algodão. Não, nuvens. Eram nuvens. Uma luz forte invadiu seus olhos, que ardiam. Levantou como se fosse uma pluma. A superfície macia era agradável sob seus pés ao caminhar. Uma melodia familiar era vista. Ela estava vendo a melodia, e ela cheirava a lavanda e mel. Um arco-íris. Não, uma ponte. Um arco-íris ponte. Ponte do arco-íris. Lentamente, roçou o dedão direito na superfície. Era sólido, iria se arriscar.
— Já está indo? Mas você mal chegou – Avanna se virou com um rodopio.
Um homem muito, muito alto, sorria. Como ele era alto! Ou estaria ela baixa demais? Olhou para suas minúsculas mãos. Estava baixa demais.Tornou a olhar para o velho. Tinha tudo para ser algo assustador, um dos olhos cobertos por um tapa-olho, um corvo descansava em um de seus ombros, dois lobos robustos o acompanhavam lado a lado. Mas o que ele tinha de assustador, tinha em dobro de majestoso. O elmo prateado brilhava, tinha asas enfeitando as laterais, os cabelos e barba eram claros como o brilho do sol, vestimentas dignas de um rei, a capa esvoaçava, ele emitia um brilho próprio, sorriso amigável, olhar penetrante, compreensível, temível, confiante.
BUM.
A pequena Avanna não teve tempo de responder, o velho rei, as nuvens e a ponte foram sugadas por uma espécie de vórtice...
...e abriu os olhos em seu quarto escuro. Ainda era noite, não se moveu, seus músculos ainda doíam, e decidiu dormir de novo do mesmo jeito que acordou.
Toc, toc, toc.
Avanna ignorou as batidas, ainda de olhos fechados.
Toc, toc, toc.
Toc, toc, toc.
TOC, TOC, TOC.
— Aaaaaah, okay! Eu estou indo – bufou levantando com dificuldade e cambaleou até a porta. Abriu a porta, tinha preguiça de fechar a boca, seus olhos estavam entreabertos, suas pálpebras pesavam, mas pôde identificar Soraiya a sua frente.
— Explodi meu quarto. Vanninha, você está horrível – Soraiya sorriu como se tivesse feito um glorioso elogio.
Avanna, sem mudar sua expressão sonolenta, bateu a porta na cara da amiga e voltou para a cama.
Toc, toc, toc.
Não tinha jeito, teria que ceder, Soraiya insistiria até vencê-la pelo cansaço. Avanna bufou derrotada e tornou a abrir a porta dando passagem para a elfa entrar. Seus cabelos rosados abundantes pareciam mais cheios do que costumavam ser, manchados por resíduos de combustão. Seu rosto estava sujo por uma gosma que Avanna nem se deu ao trabalho de tentar identificar, provavelmente era fruto de um de seus experimentos. Soraiya ainda sorria, Simbad, seu pequeno Lincoln, se escondia apavorado entre suas mechas de cabelo, ela carregava seu material científico de alquimia nos braços.
— Não, não, não e não! Você não vai cozinhar essas suas coisas nojentas de, sei lá, química aqui no meu quarto. E por que veio aqui? Pensei que quisesse algum lugar para dormir, já que explodiu seu quarto. Você explodiu seu quarto! Tem ideia do que fez?
Soraiya ignorou e arrumou suas coisas no chão. Se sentou e imediatamente começou de onde parou.
— Não se preocupe, seus aposentos serão úteis pela manhã, poderei descansar aqui assim que terminar – a elfa respondeu sem tirar os olhos do que fazia. Suas poções borbulhavam no fogo, seus livros cobriam o chão do quarto, e em menos de cinco minutos, o quarto se encontrava em uma zona. Apesar do interesse pela alquimia, Soraiya foi designada para guarda Ombre, o que não a impediu de se dedicar ao seu interesse científico no tempo livre. Avanna sabia que ela ficaria acordada durante toda a noite, sua função como guardiã de Eel, membro da guarda Ombre, incluía vigia noturna.
A loira soltou um longo suspiro. Tentar discutir com a amiga seria inútil, e ela estava cansada demais para ralhar com a mesma.
— Tudo bem, pode ficar, mas eu preciso dormir, estou um caco por causa do treinamento de hoje, e preciso acordar disposta para o de amanhã. Então, eu imploro, Sora, olhe nos meus olhos e me prometa – Avanna se ajoelhou para encontrar os olhos de Soraiya, que a encarou com um olhar indecifrável, Soraiya era imprevisível, aquele olhar poderia significar qualquer coisa, qualquer coisa mesmo – que não vai fazer barulho.
Uma das poções no fogo chiou alto no exato instante que Avanna proferiu aquelas palavras. Avanna mantinha um olhar de súplica. Soraiya sorriu e disse com a voz adocicada:
— Não.
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