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6 Chapter V - Dante & Beatrice.
Notas iniciais
"The day that man allows true love to appear, those things which are well made will fall into confusion and will overturn everything we believe to be right and true. — Dante Alighieri, The Divine Comedy."
Uma nuvem de poeira sobe no ar quando eu deixo uma pilha de livros cair no chão. Eu rosno, irritada comigo mesma enquanto me abaixo para recolher os livros. Estava na Ohio Letters, organizando a parte da biblioteca mais velha, onde só haviam livros que eram emprestados, e não vendidos.
"Você está muito distraída hoje, Cullen." — Era Norman. Ouço ele rir e então pela a visão periférica o vejo se jogar em cima de uma poltrona cor de vinho que havia no meio entre tantas estantes, ele põe o pé em cima da mesinha de centro em frente á ele.
Eu o encaro, cética. Ignoro as pontadas na minha cabeça e suspiro pesadamente. Norman era dois anos mais novo que eu, ele me fazia rir muito e não costumava ser tão irritante quanto os garotos da sua idade. Ele tinha a pele branca, cabelos castanhos e olhos verdes-mar. Era óbvio que ele seria um homem muito bonito quando crescesse.
"Sério, está tudo bem com você?" — Ele pergunta. Sua voz mudou, de forma que eu pudesse saber que ele está realmente preocupado. Eu coloco a caixa cheia de livros que estava segurando no chão perto de mim e me jogo no sofá, que ficava de sempre para a poltrona onde Norman estava.
"Está, está sim... Só estou cansada."
"Achei que vampiros não ficavam cansados."
Eu jogo a almofada do sofá na cara dele, acertando em cheio. Head-shot.
"Ow, não use seus poderes do satã contra mim, senhorita."
Eu ri. Pela a primeira vez, desde da tarde ontem, eu ri.
"Vou descer e ajudar o Elijah lá embaixo. Qualquer coisa, me chame... Se você precisar... sei lá, de alguém para zoar com a sua cara, eu estou sempre disponível." — Ele se levanta e vai andando até a porta.
"É, eu sei." — Falo baixinho. De forma que não sei se ele me ouviu ou não.
Eu estive no automático por tanto tempo nas últimas horas, que não percebo o quanto estou cansada. Eu deixo meu corpo pesar completamente contra o sofá. E penso na última conversa que tive, nas últimas palavras que eu ouvi e que me empurraram para essa sensação...
"Você é uma opção sim, tanto que ela escolheu você."
Eu paralisei. Meus pulmões não estavam funcionando. Meu coração não estava funcionando. Eles não podiam estar...
A boca de Finn treme e ele solta um soluço...
"Ela me deu um fora... Ela meio que terminou comigo ou algo do tipo." — Ele esfrega os rostos na mão, como se quisesse arrancar a própria pele. — "E ela disse que estava confusa, e que precisava de um tempo... E até aí tudo bem, se ela precisasse de um pouco mais de tempo para pensar sobre nós, eu não iria forçar nada mas então... Então ela disse que precisa pensar sobre você."
Eu odeio essa sensação de passividade. Porque a minha vontade é de gritar, perguntar, assumir as rédeas da discursão. Mas tudo que faço é deixar Finn continuar a falar.
"Você me ouviu? Sobre você!" — Ele solta uma risada sem humor. — "Rachel não disse com todas as palavras mas ela nem se deu o trabalho de realmente esconder que estava apaixonada ou pelo menos sentindo coisas por você. Era tão óbvio, eu me senti tão estúpido..."
"Então eu perguntei para ela o porquê dela me deixar sem resposta por tanto tempo. O porquê de ela arrastar você para todos os nossos encontros, o porquê de eu me sentir como se eu estivesse sobrando toda a vez... Eu perguntei o porquê ela tinha me feito de idiota."
Eu queria correr. Eu não queria ouvir o que ele queria dizer.
Eu não queria...
"Aí ela me disse que me amava e que ainda não tinha certeza de nada, mas que ela precisava usar o tempo dela para descobrir o que realmente sentia por você... Você entende? Ela escolheu passar os últimos meses dela aqui em Lima descobrindo o que sente por você e não se eu e ela ainda tínhamos alguma chance..."
"Por favor, pare..." — Eu sussurrei, implorando.
Ele estava me sufocando. Ele estava jogando tudo em cima de só de uma vez e tudo o que eu sentia era como se meu cérebro estivesse derretendo.
"Não seja assim, Quinn! Você acabou de dizer que é louca por ela, então é melhor agir como tal!"
Suas palavras me atingem em cheio. Eu o encarei de forma firme. Meus olhos, pela a primeira vez, o enfrentando de verdade.
"O que você quer dizer com isso?"
"Que eu vou lutar por ela. Que eu não vou desistir dela porque Rachel ainda é o amor da minha vida. E é melhor você parar de ficar sem reação, como está agora."
Eu soltei uma risada sem humor.
"O que você está dizendo? Que nós vamos meio que competir por ela, é isso?"
"Não... Rachel não é um prêmio. Só estou dizendo que vou lutar por Rachel, e que você tem o direito de fazer o mesmo... É sua escolha."
Eu suspiro pesadamente. Sinto meus olhos molharem e minha garganta começar a fechar. Eu não chorei antes, não vou chorar agora.
"Eu preciso entrar e pensar sobre isso tudo, e-"
Eu não termino minha frase. Eu fico olhando para Finn, como se eu estivesse gravando todos os detalhes de seu rosto.
"Você ainda é meu amigo?"
Tive medo da sua resposta.
Ele assente, devagar.
"Tudo o que eu lhe falei há duas semanas atrás ainda está valendo. Eu só... Eu a amo, você entende? Eu estou com medo."
"Eu também estou."
Então nós encaramos mais uma vez e ele apertou um botão perto do volante do carro. Eu ouvi um clique.
E eu sai de carro e entrei em casa.
Eu suspiro pesadamente. Eu ando suspirando muito nesses tempos. Eu me levanto novamente e me ocupo carregando as caixas pesadas cheias de livros que eu tinha que organizar. Eu queria desnuviar a minha mente até eu descobrir o que realmente estava acontecendo comigo, com Rachel, com Finn...
Mas uma frase não saia da minha cabeça, ela voltava toda vez á minha mente, como um sussurro...
"Eu vou lutar por Rachel, e você tem o direito de fazer o mesmo... É sua escolha."
A escolha era minha.
Agora eu tinha uma escolha. E pelo o que Finn disse, era sobre lutar ou não por Rachel. Eu gostaria de não ter ouvido isso, porque agora minhas inseguranças estão exacerbadas. E quando eu só estava apaixonada por Rachel platonicamente... Eu não tinha escolha alguma. Eu só deveria esperar até meu coração se livrar do sentimento e seguir em frente. Eu nunca pensei em outra opção sem ser nessa.
E então, agora existia a possibilidade de Rachel ter sentimentos por mim. E então, agora eu tinha uma decisão a fazer.
Eu balanço a cabeça tentando mandar minhas preocupações para longe. Não sei quanto tempo eu passo organizando as caixas, mas sei que meus braços estão começando a ficar cansados. Meus músculos se apertando contra a camisa social branca enquanto eu me esforço para conseguir erguer as caixas pesadas.
Eu ouço um pigarro e quando me viro, Elijah está me encarando.
Ele está na porta, apenas com a cabeça para dentro, já que a livraria ficava no andar debaixo e a biblioteca no andar de cima. Elijah estava sorrindo.
"Olá, Quinn. Vim lhe avisar que você tem visitas." — Ele ergue as sobrancelhas grisalhas e grossas. Eu franzo as minhas.
Coloco a caixa no chão e bato as mãos uma na outra, tentando limpa-lás.
"Quem está aí?"
"A menina Berry."
Eu quase tropeço em uma pilha de livros.
"Cuidado, garota! Esses livros são velhos se você cair sobre eles, não sobrará nada." — Ele fala e ri do meu nervosismo. Eu bufo.
"Você pode mandar ela.. subir?" — Engulo seco. Não sei se estou preparada para vê-la.
"Sim, eu mando!" — Ele sorri para mim, de novo. — "É melhor eu descer, quando eu subi o Norman já estava enchendo a menina." — E ele vai embora.
Eu me viro e encaro a estante de livros na minha frente. Eu respiro fundo, tentando acalmar o formigamento do meu corpo. Eu ouço passos na escada e fecho os meus olhos e...
"Quinn?"
A voz dela. Eu abro os olhos e me viro para encara-lá.
E todo o nervosismo surpreendentemente some.
Ela era tão linda.
Rachel vestia uma calça jeans clara e sapatilha brancas. Não sei qual a blusa que ela está vestindo porque ela está usando um sobretudo amarelo por cima. Ela sorri até mim e eu instantaneamente faço o mesmo.
Nós nos aproximamos alguns passos.
Ela ergue uma sacolinha de papel que segurava em uma das mãos e balança levemente. A sacola possuía o logotipo da Starbucks que ficava há algumas quadras daqui.
"Você faltou a escola e então fiquei preocupada e decidi vim ver você no trabalho... Eu passei pela a Starbucks e pensei que não seria mal comprar um lanche para você." — Ela está sorrindo, os ombros meio encolhidos, como se ela estivesse envergonhada.
E Deus como eu sou apaixonada por essa garota.
Eu me derreto por completo. Eu faltei a escola para não ter que encara-lá e ela vem até mim, com um gesto tão carinhoso como esse. Ela simplesmente destrói minhas barreiras muito facilmente.
Eu não sei exatamente como estava meu olhar naquele momento, mas eu tenho certeza que ele estava brilhando muito.
Eu me aproximo mais e pego as sacolinha de suas mãos. Eu a abraço e beijo sua testa.
"Obrigada. Eu não estava esperando por isso." — Ela me abraça de volta e coloca suas mãos em minhas omoplatas. Rachel é baixinha, então apoio meu queixo em cima da sua cabeça e sinto o cheiro gostoso de seus cabelos.
Nós nos encaixamos perfeitamente.
Eu me solto de seu abraço e me sento no sofá, Rachel faz o mesmo e senta do meu lado.
"Eu sei disso. Você nunca se importa em fazer um lanche e fica morrendo de fome até voltar para casa."
Eu rio, porque ela está completamente certa. Eu abro a sacolinha e encontro um cappuccino gelado e um queijo quente. Ela acertou em cheio.
"Obrigada de novo. Isso deve estar delicioso." — Ela sorri e então seu rosto fica meio sério.
"Porque você faltou? Eu fiquei preocupada quando não te encontrei nos corredores e você não mandou mensagem alguma."
Eu suspiro.
"Me desculpe.. Eu acordei com muita dor de cabeça e acabei não conseguindo levantar. Quando melhorei, eu só pensei em vir para cá e não perder um dia de trabalho também."
Isso era meio que verdade.
Ela sorri timidamente e assente.
"Está perdoada."
Eu começo a comer o lanche que ela me trouxe e percebo que ela está analisando o meu rosto. Possivelmente se tinha alguma coisa errado comigo, se eu estava escondendo alguma coisa dela...
Ela não sabe da minha conversa com Finn. Ela não sabe sobre Yale.
Eu a encaro e ela está esperando que eu diga alguma coisa. Meu olhar foca em algo atrás dela, em cima de uma das mesas da biblioteca.
Minha mochila.
Eu deixo meu queijo quente sobre os guardanapos em cima da sacolinha e me levanto. Rachel me acompanha com o olhar.
Eu pego um caderno de capa preta dentro da mochila e caminho até estar sentado ao lado dela novamente.
Eu abro em uma das páginas e escondo o conteúdo de Rachel. Ela me olha curiosa.
"Você não disse que gostaria de ser a minha crítica?"
Ela assente, animada.
"Então... " — Eu viro o desenho para ela, e logo depois coloco o caderno em suas mãos.
Ela está encarando o desenho, com a expressão franzida.
O desenho mostrava uma mulher. Ela estava em pé, ao lado de uma árvore. Algumas folhas tentavam esconder seu rosto, mas ele era o principal foco do desenho. A paisagem era o Jardim do Éden, o Paraíso. A mulher possuía traços suaves, cabelos pretos e olhos azuis.
Eu continuo esperando a opinião de Rachel, porém ela continua com a mesma expressão. As sobrancelhas franzidas e o nariz meio torcido.
E a primeira coisa que sai de sua boca é...
"Quem é essa?"
Eu fico confusa.
"Você não gostou do desenho? P-"
"Ela é alguma amiga sua? Ou uma atriz? Uma cheerio? Qual é o nome dela?"
Ela dispara as perguntas, tentando parecer desinteressada. Mas quando ela semicerra os olhos para o desenho e solta um bufo pela a boca eu percebo...
... Ciúmes. Rachel estava com ciúmes do desenho.
Eu rio suavemente e então digo:
"Beatrice."
"O quê?"
"É o nome dela." — Eu aponto para o desenho.
Ela me olha, indignada.
"Oh, então quer dizer que ela tem um nome?"
Sua expressão está engraçada. O jeito que ela parece irritada... Eu começo a rir novamente.
Ela está me encarando, claramente irritada comigo. Parece que ela está á um passo de me dar um murro.
"Você já ouviu falar da Divina Comédia?" — Eu pergunto, devagar. Não quero que ela fique com raiva de mim.
"Sim, eu sei que é de um poeta italiano..."
"Dante. Dante Alighieri." — Eu digo e o nome dele adoça minha boca. Eu sou extremamente fã dele e compartilhar isso com Rachel, tem um sabor diferente... — "Você sabe o que a Divina Comédia é sobre?"
Ela nega, parecendo um pouco impaciente.
"Vou te explicar de uma forma resumida... Dante era um artista. E digamos que por causa de suas obras, ele foi exilado de seu amado país. Deixando para trás não só sua pátria mas como sua amada, o nome dela era Beatrice."
Sua expressão fica um pouco mais leve quando termino de falar.
"Por sua falta de coragem e também por ser expulso do país, ele nunca teve a chance de falar com ela. Era um amor completamente platônico, mas ele a amava de verdade. Quando ele pode voltar ao seu país, ele a encontrou... mas ela já estava casada e com filhos."
Rachel faz um beicinho.
"Então ele finalmente vai até ela e eles ficam juntos?" — Ela perguntou, desesperada por um final feliz.
"Não. Ele nunca vai atrás dela. Ele percebe o quanto ela está feliz, casada com um bom homem e cuidado de suas crianças. Ele faz uma promessa á si mesmo de não estragar a felicidade de sua amada, então ele nunca professa seu amor por ela. Alguns anos mais tarde, ela morre."
"Ah, não acredito! Dante era um bundão! Não quero mais ouvir isso!"
Eu gargalho de sua reação.
"Não chame Dante de bundão! Ouça!"
"Se ele a amasse de verdade teria lutado por ela." — Ela diz, firme.
"E estragado a felicidade ela? Isso não é amor, é egoísmo."
"Como ele poderia saber que ela estava feliz de verdade?" — Ela diz, um pouco irritada, como se estivesse em uma discussão de verdade.
Não tenho um argumento contra isso, mas continuo a falar.
"A Divina Comédia conta a história de Dante, logo quando ele morre. Tem três livros: Inferno, Purgatório e Paraíso. A jornada dele do submundo até o céu apenas para encontrar a sua amada, Beatrice, em outra vida. E esse desenho." — Eu aponto para o caderno em seu colo. — "É quando depois de tanto esforço Dante finalmente chega ao Paraíso e a vê. E ele a descreve desse jeito, e é de um jeito tão lindo que eu não tive outra opção a não ser desenhar."
Ela suspira, passa seus dedos sobre o desenho suavemente.
"É lindo." — Ela sussurra. — "Está perfeito."
Eu sorrio.
"Você acha?" — Ela assente e sorri para mim. E seu sorriso é tão bonito...
"Eu ainda acho que Dante deveria ter lutado por ela. Ter tentado, pelo menos alguma vez..."
"Você tem uma visão muito romântica, Rachel."
"E você tem um péssimo gosto por dramas sem finais felizes!" — Ela me aponta um dedo acusatório e eu me remexo, incomodada. Sentindo as dores de Dante em mim.
"Você tem que entender que nem é sempre fácil lutar por alguém sabendo que não tem chances."
"Como ele poderia saber que não tem chances? Ele nem tentou, Quinn!"
Eu perco uma respiração. Não estamos falando de Dante e Beatrice mais.
Ela está me encarando, intensamente. Eu engulo seco e decido que tenho que terminar o meu lanche antes que ele esfrie por completo.
"Aconteceu algo de importante na escola hoje?" — Pergunto, com os olhos presos na mesa á minha frente, desesperada para mudar de assunto.
Ouço Rachel bufar, ela cruza os braços. Sabe uma criança com birra? Era ela no momento.
"Mr. Schue distribuiu o dueto e os solos. Eu irei cantar com Finn, Santana terá um solo e Kurt terá outro." — Ela diz.
"Parece que a apresentação será muito boa."
"Sim, vai ser. Só temos que esperar ele anunciar as músicas." — Ela suspira no final da frase.
Há algo pesado no ar. Toda a conversa sobre Dante com Rachel trouxe á tona toda a questão de lutar ou não por ela. Isso já estava começando a me estressar de verdade. Respiro fundo, tentando não deixar que a situação tenha controle sobre mim.
Eu encaro Rachel, novamente.
"Bom, meu expediente acaba em meia hora. O que você vai fazer depois?" — Pergunto.
"Eu não sei. Eu adoraria ir jantar com você e Stefan, mesmo que você não tenha me convidado." — Eu solto uma risadinha. — "Mas Finn disse que ia aparecer lá em casa mais tarde, ele disse que quer conversar."
A minha expressão se desfaz com a sua última frase.
"Oh, sim. Acho que vocês precisam conversar mesmo." — Eu digo, no automático.
"Você acha?" — Ela perguntou, com a voz baixa. Quase um sussurro.
"Claro, vocês não brigaram ontem?"
Ela está séria, mas assente.
"Então, vocês não precisam ficar... brigados." — Eu balanço a cabeça assim que termino a frase. Estava pagando um papel ridículo e tudo por causa da confusão na minha cabeça.
"É, eu acho que você tem razão..." — Ela diz baixinho e então volta a me encarar. Ela se levanta e eu faço o mesmo.
"Agora que você está alimentada, eu tenho que ir para casa." — Ela diz, meio acanhada. E me surpreendo o quão rápido foi para a nossa interação mudar, o quão rápido foi para as minhas inseguranças se colocarem entre nós...
Eu analiso seu rosto. Ela está corada, e parece meio triste. Tão pequena em relação a mim que eu não tenho escrúpulos quando a puxo para um abraço repentino. Ela se aperta em mim.
Eu respiro fundo, sentindo mais uma vez o seu cheiro me invadir e acalmar meus sentidos. Tudo mudou e ela sabe disso. E ela sabe que eu sei também.
É engraçado o jeito que nossa amizade começou. Devagar. E agora esse sentimento anônimo que veio tão sorrateiramente e nos atingiu tão rápido que eu perco a noção real de como tudo aconteceu. Eu só sei que estou cada vez mais envolvida, e não sou a única nessa situação.
"Se você precisar de mim, ou se acontecer alguma coisa... Me ligue, ok?" — Eu sussurro em seu ouvido e ela acena positivamente. Eu a aperto em meus braços mais uma vez antes de soltá-la.
Ela está sorrindo agora.
"Eu vou indo. Você não vai faltar amanhã, certo? Temos ensaio."
"Não, eu irei." — Eu sorrio para ela e a encaro intensamente.
Ela fica meio envergonhada e sussurra enquanto passa por mim.
"Tchau."
"Tchau, Rach." — Eu me viro e a vejo desaparecer pela porta.
Eu me jogo na poltrona e suspiro pesadamente.
O que acontece com o oxigênio quando Rachel está por perto?
–
Eu chego em casa e jogo minha mochila no sofá. Eu me sento logo ao lado onde ela caiu e sinto o cansaço tomar conta do meu corpo. Eu ouço passos no piso de madeira e quando abro os olhos Stefan está entrando na sala, ele ainda está de terno então sei que não faz muito tempo que ele chegou do trabalho.
Ele se senta em uma poltrona, um pouco longe de mim e tem uma xícara de café nas mãos. E está me olhando curiosamente.
"Stef..." — Eu começo.
"Sim?"
"Eu não sei se..." — Não sei como perguntar o que quero perguntar.
Ele ri.
"Você quer perguntar algo á mim? Se sim, não tenha medo."
Eu engulo seco.
"Você já se apaixonou por alguém que pensou que nunca poderia ter?" — Eu pergunto, com o coração meio acelerado. Ele sorri para chão e quando volta a me encarar parece um pouco nostálgico. Stefan se levanta e tira a mochila que estava do meu lado, e se senta. Agora, bem perto de mim.
"Você quer saber como toda essa história da minha inimizade com seu pai começou?" — Ele pergunta, calmamente. Eu respondo que sim, acenando positivamente com a cabeça.
"Não sei se você sabe. Mas seu pai foi o Quarterback dos Titans por três anos, ele era muito popular... ele te disse isso, não foi?"
"Sim... Eu lembro quando ele conversava com Finn, na época que eu o namorava."
"Certo. Bom, eu... Eu era o nerdzinho apaixonado por números. Nós éramos irmãos mas quando chegamos na escola nos mal nos falávamos, só quando o necessário. Eu não era um perdedor..." — Então ele para, como se estivesse pensando. — "Vocês ainda usam a palavra perdedor, certo?" — Eu rio e digo que sim. — "Então, eu não era um perdedor. Eu nunca fui tão atlético como seu pai mas eu era bem bonitinho." — Ele ri.
Eu sorrio em simpatia.
"Então havia essa garota... O nome dela era Rebecca." — Seus olhos estão brilhando, e eu já imagino como a história vai se desenrolar. — "E eu tinha uma paixão por ela. Ela era líder de torcida e bom, todos achavam que ela era muito mimada e arrogante mas eu gostava disso nela. Fazia ela ser diferente, entende?"
Entendo. Porque é o mesmo jeito que me sinto sobre Rachel.
"Seu pai sabia da minha paixão e mesmo assim quando teve a chance... começou a namorar com ela. Meu mundo caiu." — Eu fico chocada. Meu pai era assim tão babaca? — "Eu briguei com ele e de bônus levei uma porrada. E enquanto eu estava lá, estirado no chão com a boca sangrando, ele gritou para mim: Não diga que eu sou o vilão. Você passou meses apaixonado por ela e não mexeu um dedo, porque você é um covarde. Ela me deu bola e eu gostei. E se você acha isso ruim, vá lá e tente tirá-la de mim. Tente conquista-lá. Lute por ela como um homem de verdade, seu idiota."
Stefan ficou em silêncio por alguns segundos. Como se a lembrança ainda causasse alguma dor. Meu corpo esquentou e meu ódio pelo o meu pai cresceu. O quão insensível ele era? O quão insensível ele é até hoje?
"O que ele fez não foi certo, mas o que ele disse... Ele tinha razão." — Ele suspirou profundamente. — "Eu nunca tentei falar com ela, nem mesmo uma vez. Mas eu achava que um dia eu ainda teria coragem e quando eles começaram a namorar... Eu me dei como derrotado. Como eu poderia competir com o meu irmão? O filho de ouro?"
Como eu poderia competir com Finn? É... eu reconheço todos os sentimentos de Stefan.
"Eu passei o ensino médio achando que estava tudo bem, que eu nunca teria chances mesmo." — Ele volta a me encarar, de um jeito firme. — "Mas depois eu me dei conta... que eu tinha todas as chances possíveis."
Eu o encaro, confusa.
"Eu era o único que reconhecia o valor dela. Eu era o único com um sentimento real. Eu era o único que a trataria da forma correta, e não um babaca como o meu irmão. Eu poderia ter muitas chances, se eu quisesse. Eu penso... que mesmo que se eu tivesse tentado e tivesse meu coração quebrado eu tinha plena certeza que Rebecca valia a pena. Você entende? Ás vezes não tem como espacar do coração quebrado, mas você tem que ter certeza que é a pessoa certa que irá parti-lo ao meio."
Eu fico em silêncio. Absorvendo todas as suas palavras. Reconhecendo-as em meu dia-a-dia, em minhas inseguranças...
Então Stefan deu o xeque-mate.
"Você acha que Rachel vale a pena?" — Ele perguntou e sua voz viajou fundo em mim. Ele sorriu, satisfeito pelo o efeito que causou e então levantou-se e me deixou sozinha.
Rachel valia a pena.
Eu não seria Stefan. Eu não seria Dante. Não importa o quão bonito o sentimento seja, eu prefiro não quebrar o meu próprio coração. Eu prefiro entrega-lo á Rachel, e ela que decidisse o que fazer com ele.
Eu sorrio para mim mesma, no silêncio da sala de Stefan.
Eu vou lutar. Eu já estou lutando.
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