Sharpy: A Filha Perdida de Serafim
4 Capítulo 3: Missão inesperada
Já era noite quando deixaram o acampamento da Sharpy montados a cavalo. Ellyade sempre à frente de Luke já que sua visão noturna (e todo o resto) era mais preparada.
— Por que esperamos para sair tão tarde? – Perguntou Luke enquanto apertava os olhos para tentar enxergar além das árvores à sua frente.
— Brad pediu que eu o ajudasse a resolver algumas coisas no acampamento antes de partimos. Por quê? Está com medo? – Ellyade perguntou de modo brincalhão.
— Medo? Por que eu... – As palavras de Luke ficaram perdidas ao vento.
— Você não tem a capacidade nem de terminar uma frase? – Ellyade disse e, só após terminar de falar, virou, encontrando nada em sua traseira.
O grito de indignação de Ellyade ecoou por toda a floresta, mas não havia ninguém, além de seus raptores, para ouvi-lo.
O Sol iluminava todo seu rosto, o que a fez despertar. A guerreira precisou de dois segundos para perceber que estava em uma carruagem real, o brasão da família Avamys brilhava tanto quanto os raios solares ao seu redor.
— Luke! Acorde! – Ellyade balançava seu aprendiz que permanecia adormecido ao seu lado.
— O que aconteceu? – Perguntava atordoado e ia se ajeitando no assento.
— Fomos raptados por guardas reais e eu realmente não faço a mínima ideia do por que. – Ellyade suspirou. – Fique aqui, vou tentar achar um jeito de nos tirar dessa situação, ainda temos um encontro para ir.
Foi só quando ela tentou se levantar que percebeu as correntes de metal que a prendia ao chão, além das que prendiam uma de suas mãos, juntas às de Luke, acima do banco. Os guardas conheciam a fama de Ellyade e preparam a carruagem de uma forma que nem mesmo ela seria capaz de fugir.
A guerreira, então, percebeu que teria que usar a força de sua espada para sair dali, mas não conseguia encontra-la em lugar algum.
— Malditos cachorrinhos do rei! – Ellyade urrou de frustração.
— O que nós faremos agora? – A expressão no rosto de Luke o fazia parecer mais maduro, Ellyade estremeceu ao encará-lo.
— Eu não sei, esses covardes nos desarmaram. – A raiva começou a tomar conta de toda a garota. – Se eu não tivesse virado para ver onde você estava eu não estaria nessa situação.
— Ah, então agora a culpa é minha? Você que estava despreparada, parece que não és tão boa quanto todos dizem. – Luke falava quase rosnando.
Ellyade se preparava para matar Luke com a sua única mão solta quando foi interrompida por dois guardas reais. O guarda loiro de olhos azuis tinha uma feição rígida, quase parecia não ter expressões; já o moreno de olhos verdes tinha um rosto calmo e pacífico.
— Chegamos ao destino, senhores, peço perdão pelo modo grosseiro com o qual os trouxemos aqui. — Dizia o moreno quase estampando um sorriso.
— Peça perdão quando eu tiver com a minha espada cravada em seu peito. – Ellyade falava mostrando um sorriso cheio de ódio.
— Então tudo que ouvimos sobre você ser um bichinho agressivo é verdade. – O loiro dizia com uma espécie horrível de sorriso estampado.
— Quem você acha que é pra me chamar de bichinho? – A guerreira o encarava de maneira desafiadora.
— Ellyade, você está acorrentada, nós não poderíamos sentir menos medo de você. – O moreno falava sério agora. – O rei os aguarda, espero que vocês colaborem.
Ellyade nunca havia se sentido mais indefesa, tudo em seu corpo gritava para que ela agisse contra aquela situação, mas nenhuma ideia de escapatória chegava a sua mente.
— Eu não prometo nada. – Luke falou de uma forma que impressionou Ellyade, aquele dia não poderia estar mais estranho.
Cooperar era tudo que a garota podia fazer até, é claro, achar uma chance de fugir. Se ela conseguisse alcançar sua espada que estava presa ao cinto do guarda, eles poderiam ter uma chance.
— Não faça nada até termos uma chance real de fugir. Sei que é difícil de fazer isso, mas confie em mim. – Sussurrou Ellyade para Luke enquanto eles andavam lado a lado, acorrentados um ao outro.
— Tudo bem. – Respondeu Luke, entredentes.
Ambos caminhavam em direção à entrada principal do palácio real. Ellyade não poderia estar mais contrariada.
— O rei os aguarda na sala do trono. – Dizia outro guarda que estava à espera deles junto à porta. – Eu pensei que ela fosse mais alta. – Ele falou com um sorrisinho o que fez Ellyade o encarar com todo o ódio que tinha.
— A brabeza é maior do que ela. – Falava o guarda loiro. – Vamos, andem.
Logo eles estavam na sala do trono na presença do rei Serafim Avamys.
— Sinto muito por ter tido que forçar esse nosso encontro, mas minhas fontes disseram que você nunca viria por vontade própria ao meu reino, precisei de uma tática. – O rei sorriu, mas seus olhos permaneceram cansados e entristecidos.
Ellyade percebeu Luke enrijecer ao seu lado e cerrar os punhos. Ela estava começando a gostar daquele garoto, ou quase isso.
— Suas fontes estavam certas, eu nunca viria para esse covil por vontade própria. – Ela dizia cada palavra calmamente. – Espero que não precises de nenhum favor, pois de mim não receberás nada.
— Eu duvido muito disso. – O rei continuava com um sorriso estampado em seu rosto triste. – Guardas, podem soltá-los, eles não vão a lugar nenhum.
Assim que o guarda se aproximou de Ellyade para soltá-la, ela ficou em estado total de alerta. Tão rápida quanto foi liberada das correntes, a garota atacou o guarda tirando dele a espada de Luke, que não era nem de longe tão boa quanto a dela, e a passou pelo pescoço do mesmo.
— Eu estou decepcionada com a vossa majestade. – Ellyade dizia em tom sarcástico enquanto apertava a espada contra o pescoço do guarda loiro. – Achastes mesmo que eu me entregaria tão fácil?
— Claro que não. Brad me contou tudo sobre você, eu ficaria decepcionado se você não aprontasse alguma. – O rei parecia relaxado.
— O que o Brad tem a ver com tudo isso? – Ellyade ficou mais abalada do que queria demostrar.
— Quem você acha que é a minha fonte? – Serafim finalmente se levantou do trono e caminhou calmamente em direção dos prisioneiros.
— Se eu fosse você eu não me aproximaria tanto. – Gotículas de sangue começaram a aparecer no pescoço do guarda, mas nada abalava o rei.
— Eu tenho certeza que você quer ouvir a proposta que eu tenho para lhe fazer.
— Não estamos interessados em nada que venha de você. – Luke, que permanecia acorrentado ao lado de Ellyade, falou chamando a atenção do rei.
— Você me faz lembrar muito de alguém. Enfim, ele me parece tão agressivo quanto você, isso é bom. – Disse esta última voltando a encarar Ellyade. – De qualquer forma, eu tenho algo que vai ajudar muito a Sharpy podendo até transformar vocês no melhor acampamento para guerreiros do mundo. O que você acha disso? – O rei juntou as mãos e arqueou a sobrancelha direita.
— Nós não precisamos da sua ajuda para isso. – Ellyade disse entredentes.
— Precisam apenas do meu ouro e eu lhe garanto que a quantidade de ouro que eu posso lhe oferecer é muito maior do que você já imaginou. – Serafim sorriu enquanto colocava o longo cabelo preto, já acinzentado, liso atrás da orelha.
Ellyade não podia acreditar nas palavras que saíram da sua boca em seguida, ela se lembrou de anos atrás, de Andrew e se sentiu o ser humano mais hipócrita do mundo. Mas ela sabia que a Sharpy precisava desse ouro, principalmente para fabricar armas. A guerreira precisava fazer isso por sua casa.
— Talvez eu esteja interessada em sua oferta.
Luke endureceu atrás dela. A mãe do menino nunca foi fã do rei e toda a raiva que ela sentia foi passada para ele durante seu crescimento.
— Mas eu não estou. – O menino dizia enquanto tomava postura e engolia toda a raiva que sentia por um momento. – Eu preciso que você me libere desta conversa. Eu não sou importante.
Ellyade não pôde evitar sentir raiva do egoísmo de Luke. Não importava o motivo pelo qual ele não queria aquilo, a Sharpy precisava de ajuda.
— Você nem escutou a parte interessante do acordo, querido. – Serafim falava enquanto andava de um lado para o outro. – Eu gostaria que você soltasse o meu guarda, Ellyade, assim poderemos soltar seu amigo.
Relutante, a garota soltou o guarda bruscamente. Após tomar o devido equilíbrio, o mesmo soltou Luke de suas correntes.
— Eu espero que você nunca mais dirija a palavra a mim daquela maneira. – Ellyade disse com toda a raiva que tinha para o guarda.
— Sim, senhora. – O loiro falou, mas seu rosto permaneceu imóvel.
— Você é realmente muito divertida. Tão pequena, mas uma líder nata. – Serafim falava para Ellyade como Brad sempre fazia, sua voz estava carregada de orgulho. – Eu sinto como se a conhecesse há anos.
— Que bom que não conhece. – A garota disse rispidamente enquanto entregava a Luke sua espada e pegava as outras armas com o guarda. – Vamos logo ao que interessa.
Àquele ponto, Ellyade já tinha percebido que a mensagem enviada pelos Bálticos era uma mentira e Brad pagaria por aquilo assim que ela retornasse para casa.
Serafim enrolou durante vários minutos para poder chegar ao objetivo daquela conversa e aquilo só deixava Ellyade mais irritada.
— Então você quer que eu vá atrás da sua filha que está sumida há mais de dezoito anos? – Ela falava incrédula quando o rei se calou. – Milhões de guardas já a procuraram durante esse tempo, por que você acha que eu a encontraria?
— Se você fosse um pai, você saberia a dor que eu sinto todos os dias de minha vida. Eu não consigo dormir sem ter pesadelos com a noite em que ela foi tirada de nós. – O rei falava deixando a dor assumir todo o seu rosto. – Eu não posso perder a esperança e você, Ellyade, é a minha última.
Após ver o sofrimento do rei, Luke parecia menos rígido ao lado de Ellyade e, de certa forma, aquilo tinha trazido calma à garota.
— E qual a melhor parte de sua proposta? – O novo guerreiro perguntava arqueando a sobrancelha.
— Se você trouxer minha filha de volta, Brad concordou em lhe dar a sua quinta pedra. Você seria a única guerreira de sua idade a ser Jadeite sem ser anciã. – Serafim dizia diretamente para a garota e percebeu que havia tocado no ponto fraco de Ellyade, pois seus olhos brilhavam de ambição. – Eu não sabia que você traria outro guerreiro com você, mas Brad e eu podemos chegar a um acordo sobre ele.
— Tudo bem. – Ellyade falava enquanto assentia. – Mas eu preciso voltar ao acampamento para recrutar alguns guerreiros para essa missão.
— Ah, não precisa se preocupar com isso! Você poderá ter qualquer guarda real que quiser. – O rei dizia dando de ombros.
Ellyade deu uma risadinha sarcástica.
— Seus guardas nunca serão tão bons quanto os meus guerreiros.
— Espere para ver. – Serafim acenou para um guarda que estava em frente à porta. – Levem os dois para os quartos que mandei preparar. Os disponibilizem três criados. – Ellyade franziu a testa para aquelas ordens. – Também prepare meu grupamento particular, nossa pequena guerreira vai testá-los amanhã pela manhã.
— Eu juro que você usar pequena de novo para me adjetivar, eu vou enfiar minha espada no seu pescoço. – Dizia a guerreira, impaciente.
O rei sorriu:
— Tenham uma boa noite, meus convidados
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