Sharpy: A Filha Perdida de Serafim
5 Capítulo 4: Visitante noturna
Após algumas horas sozinha num quarto do castelo, Ellyade não se sentia confortável. Ela não conseguia decidir se era o tecido fino da camisola que a fizeram vestir, ou o fato de, pela primeira vez na vida, ela estar dormindo num lugar com paredes feitas de tijolos e não de madeira.
Quando o sono começava a vencer sua resistência, a porta do quarto abriu despertando-a por completo.
— Sério, Luke? – Perguntava Ellyade já levantando da cama e tentando alcançar o candelabro que estava na cômoda ao seu lado.
— Luke? Eu não me chamo Luke. – Uma voz feminina invadiu todo o quarto. – Eu me chamo Lilian Avamys e sou a princesa de Agnelli.
Assim que a princesa terminou de falar, Ellyade conseguiu iluminar o seu rosto e ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
Lilian parecia um pouco mais alta do que Ellyade, a guerreira pôde perceber que os cabelos da outra eram claros e ondulados, assim como os da rainha, mas estavam trançados por baixo de uma tiara que brilhava, mesmo no escuro.
— O que você quer comigo? – Perguntou Ellyade, impaciente.
— Quero que me leve com você na busca pela minha irmã. – Lilian falava firmemente.
— Eu não acho que seu pai concordaria com isso e eu não vou levar uma princesinha mimada comigo para uma missão importante.
— Você não entende! Eu não sou mimada! Longe disso. – Agora a princesa que parecia impaciente. – Eu nunca fui a filha desejada. Minha irmã que era. Desde que ela foi raptada, minha mãe vive em uma depressão profunda. O único motivo pelo qual meus pais me tiveram foi para que houvesse alguém de sangue puro para herdar o trono quando ambos falecessem. – A voz de Lilian estava embargada e ela parecia que iria chorar a qualquer momento.
— Poupe-me de seus dramas familiares, eu não tenho tempo para isso. – Ellyade se preparava para voltar para a cama. – Eu não vou levar alguém despreparado e eu nunca conseguiria a autorização do rei.
— Eu preciso ir atrás da princesa perdida com você. Eu não aguento mais essa tristeza que ronda todo esse castelo. Todos dizem que minha mãe era a criatura mais alegre do mundo antes de perder a filha, eu quero conhece-la dessa forma. – Lilian fez uma pausa para que Ellyade pudesse digerir suas palavras. – O último guarda estava tão perto de encontra-la. Eu não posso evitar ficar cheia de esperanças e eu não sou despreparada, eu sei empunhar uma espada desde criança. Por favor, me ajude a ir escondido com você.
— Tudo bem. – Ellyade estava começando a questionar seu bom senso, ela andava concordando demais com coisas que antes ela acharia absurdas. – Mas para isso você terá que me vencer numa luta de espada. Venha para cá amanhã depois do teste que eu farei com os guardas. Se você conseguir, você virá comigo.
A tensão do quarto era tanta que parecia congelar a garganta de Lilian que apenas murmurou um 'sim'.
— A propósito, onde está o último guarda que foi em busca de sua irmã?
— Ele continua no castelo. Você provavelmente irá encontra-lo amanhã nos testes. Ele é o melhor guarda daqui. – As palavras de Lilian estavam carregadas de ternura e Ellyade pôde sentir que tinha mais ali do que admiração pelos talentos do tal guarda como lutador.
Algo no fundo de Ellyade gritava que ela conhecia esse tal guarda e essa sensação a manteve acordada durante mais algumas horas depois que a princesa deixou seu quarto.
Mal a luz invadiu o quarto de Ellyade, as criadas já estavam lá com seu café da manhã. A comida estava ótima e a guerreira, pela primeira vez, sentiu-se satisfeita por estar no castelo. Mas aquele pressentimento da noite anterior persistia e ela começava a deixar aparente o nervosismo.
Logo as criadas tentaram vestir Ellyade, mas, como na noite anterior, ela pediu para que deixassem a roupa em cima da cama enquanto ela tomava um banho demorado na banheira.
A guerreira não estava feliz consigo mesma por estar se entregando aos luxos do castelo, mas estava nervosa demais para se sentir culpada por aquilo.
A calça que deixaram em cima da cama era de um jeans escuro, mas o tecido parecia tão fino que Ellyade duvidava que pudesse suportar a um dia de lutas. A blusa era de algodão, confortável e com mangas longas o que forçava a garota a dobrar o tecido até seu antebraço.
Assim que estava pronta, Ellyade encarou sua imagem no espelho por um bom tempo. Ela não sabia o que a esperava hoje, mas tinha uma ideia. Percebeu seus olhos começarem a encher com lágrimas dolorosas que ela guardava há três anos. Ficou ali até Luke entrar pela porta de seu quarto.
— Conseguiu dormir? — Perguntou o garoto pondo-se atrás dela, que ainda observava o espelho.
— Um pouco. Sim. — A garota pigarreou com a intenção de fazer sua voz ficar mais firme. — E você?
— Também. — Luke podia sentir que algo estava errado e por um momento ele quis abraçar Ellyade, mas sabia que essa não seria uma ideia muito inteligente
— Vamos. Nós temos alguns guerreiros para testar.
E com isso a garota cruzou a porta com o coração nas mãos. Ela ainda não estava preparada.
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