Seven days
1 Dia 1 – Domingo

MELLORINE
Primeiro dia: Domingo
–
Los Angeles pode chegar até 38º C no verão, deixando a cidade – que além de ser conhecida por ser a segunda cidade mais populosa dos EUA, tem belíssimas praias – mais atrativa aos turistas.
Certamente a única filha do empresário Jude, dono de uma rede de cassinos muito famosa, estava acostumada ao clima. Com o seu corpo muito bem delimitado, obrigada, qualquer um poderia jurar que gostava de praticar boas atividades físicas no verão.
Mas lhe agradava mais o frio. Estava de passagens aéreas compradas para passar a temporada de férias na América do Sul. Estava contando os dias.
Deixava o shopping naquela manhã de domingo. Costumava fazer isso sempre, principalmente para tomar aquele café com espuma transbordando na padaria que ficava há duas quadras do apartamento onde estava morando, no subúrbio da cidade.
Tudo correu normal para ela, e não tinha por que não correr. Deu uma caminhada às seis da manhã – sempre com o seus fios loiros amarrados em um rabo de cavalo perfeito –, a garrafinha de água e a maçã. Depois passou no shopping, como toda mulher que se preze, e foi fazer compras. Tudo completamente normal. Passou na padaria logo após. Rita atrás do balcão, já reclamando do marido para os clientes de sempre, que riam e davam conselhos amorosos a ela, o velho Greg e Lucy no último banco.
Lucy, a nossa querida protagonista.
Mas algo tornou a manhã de Lucy um pouco mais... Hum... Atrativa. Então podemos dizer que não, não correu tudo normal. Ela viu entrar na padaria um par de calças jeans clara, um sapato estilo botina e uma camisa xadrez aberta ao meio sem uma blusa que cobrisse a falta de decência que tinha por baixo. Oh, sim, porque eram uma indecência aqueles músculos rígidos, aquele peitoral de fora em uma manhã tranquila de domingo.
Logo quando Lucy tomou um toco do namorado galinha. Era de matar!
Ela olhou rapidamente, corou com os pensamentos impuros e desviou os olhos para o seu café, que já estava com a espuma na metade do copo. Rita viu de longe as artimanhas da jovem de 19 anos, mente de 25 e rosto de 16.
Que azar seria se o bonitão pedisse para sentar ao lado dela.
– Está esperando alguém? – Ele apontou para a cadeira vazia, posta para fora propositalmente pelo pé de Lucy. – Será que posso me sentar aqui?
– Oi – ela deu aquele sorriso fraco, de quem não quer nada, mas quer tudo. – Não tem ninguém nessa cadeira. Pode sentar.
– Não vou incomodá-la? – Iria. Mas esse tipo de incômodo era aceitável até demais. Ele não esperou uma resposta sua. Poderíamos dizer que ele estava muito interessado também? Que é que é isso, amor à primeira vista ou era só sexo? – Sendo assim... – Sentou-se. – Como eu fui rude! Nem lhe disse bom dia. Bom dia... – Ele ficou esperando que ela se apresentasse para completar sua frase. Esperto, esse cara.
– Lucy – ela estendeu a mão e ele prontamente aceitou. Claro! – Bom dia.
– O que pediu, Lucy? – Ele deu uma espiadinha no que ela estava tomando.
– Café com bastante espuma caramelada. É o meu preferido. – Ela estava com mais vergonha do que o de costume. Que é que é isso! Logo ela que fazia o estilo assanhadinha?
– Sendo assim, acho que vou querer isso aí também.
Era difícil se concentrar e manter uma conversa inteligente com aquele cara. Cada detalhe seu faziam os olhos de Lucy ser atraídos, para observá-lo milimetricamente. Ruivos normalmente são cheios de sardas, branquelos ou alaranjados de um jeito que Lucy nunca se atrairia. Não porque era tremendamente feio, mas porque não fazia o seu tipo. E, cara, aquele cara era um ruivo. E que ruivo...
O seu cabelo era uma mistura de vermelho com branco que resultava num vermelho mais claro, mais ameno. O penteado, despenteado, dava aquele charme do tipo “acordei agora, mas acordei lindo”. E o sorriso, meu Deus, o sorriso! Brancos como as broas de maisena que a Rita fazia, só que bem melhores. Lucy não gostava de broas, mas passar a língua por ali, Jesus!, ela iria adorar.
Não podemos deixar de falar dos olhos. Aqueles olhos meio verdes escuros que à noite poderia ser facilmente confundido com um preto ônix.
Lucy também não ficava muito atrás. Ela era bonita. Claro, ela era uma típica americana loira e peituda. Mas seus peitos eram naturais e seu cabelo era de descendência alemã. Era uma loira natural de olhos castanhos. Não se viu tanta naturalidade e anormalidade juntas desde que Britney Spears disse ao mundo que existem loiras de olhos mais escuros.
Ela levou um toco do namorado, gostou do carinha delícia da padaria, e... Bingo! Seu pai era o dono dos cassinos e ela estava ganhando um baita premio, só que, dessa vez, não dado por ele.
Claro que ela tinha que deixar um encontro marcado, nem que fosse uma mera transa, ou sua melhor amiga mais tarde arrancaria os seus cabelos quando contasse sobre a situação inusitada que deixou o seu domingo diferentemente delicioso.
Mas antes:
– Nunca te vi por aqui – ela disse depois de tomar um gole de café, sem desviar os olhos. Depois ficou com bigode de espuma, mas não ficou constrangida quando ele fez um gesto delicado para que ela se limpasse. Tinha feito isso justamente para ele olhar pra sua boca e ver o que esperava por ele, se fosse um bom menino. – É novo por essas bandas ou apenas quis experimentar um lugar diferente?
Ele cruzou os braços sobre a mesa e foi conversando. – Estou de mudança. Sou de Novo México.
– Novo México, hum? – Institivamente mordeu os lábios, mas não foi por intenção, e sim porque costumava fazer isso quando ficava animada. – Estive lá nos meus treze anos. Desde então, não voltei. Por que está de mudança? Novo México ficou ruim de viver?
– Eu estou aqui por um assunto em especial. – As suas pupilas se dilataram levemente quando disso isso, e Lucy percebeu. O que era tão importante que fazia até mesmo suas pupilas dilatarem? Ela tinha que descobrir isso imediatamente. – Tem a ver com trabalho, mas você não entenderia se eu explicasse.
– Está me chamando de burra? – Ela pegou uma mecha do cabelo e fez graça, fazendo uma associação com os ditos populares sobre a cor de seu cabelo e inteligência. De longe, Rita observava a cena e ria.
– Oh, não, claro que não! – Ele esbugalhou os olhos e riu, um pouco embaraçado. – É que é difícil mesmo. Eu passaria horas explicando e acabaria me enrolando tanto que eu mesmo não entenderia.
Os dois riram. Que manhã gostosa de domingo. Definitivamente.
Apenas o garçom que trouxe as torradas e o café pode interferir um pouco, e ainda assim não atrapalhou o momento. – Você ainda não me disse o seu nome.
– Ah, me desculpe – ele entendeu a mão novamente. – Natsu.
[...]
Ai, senhor Deus, eles trocaram números de telefone. Em menos de 24 horas, depois de um belo de um toco, Lucy já tinha um novo pretendente na lista. Claro que não poderia considerá-lo como futuro namorado, nem sabia se isso daria certo mesmo, mas a conversa na manhã de domingo foi agradável ao ponto de o interesse brotar e se perpetuar, digamos, até o fim de tarde, quando ele ligou para ela.
A sua amiga de faculdade ligou, também, umas horas antes, e chamou Lucy para sair. Dar uma volta nos cassinos do seu pai, quem sabe? Só queria sair pela cidade luminosa, pois achava as tardes de domingo entediantes demais. Lucy apesar de gostar de sair com amigos para se divertir, no domingo à tarde preferia ficar em casa e descansar para a segunda. Não aceitou o convite e desculpou-se do seu próprio modo.
Depois foi a vez do bonitão da padaria, chamando-a para sair.
E esse convite foi mais difícil de recusar, aceitou pra si mesma. Um sorriso instintivo apareceu na sua boca quando viu “Natsu” piscando na tela do seu smarth. Parecia uma pré-adolescente recebendo a ligação do garoto que tinha prometido dar o seu primeiro beijo; borboletas no estômago surgiram, adrenalina correndo nos seus vasos e o pulso acelerado. Isso eram sintomas de uma pessoa apaixonada e não de alguém interessado em um caro bonito que dava para dar uns beijos e uns apertos.
Como estava se sentindo uma idiota. Mas poderia considerar-se uma idiota feliz, ao menos, que não estava engordando horrores na frente de uma TV com sorvete de chocolate e pipoca de micro-ondas, enquanto chorava pelo seu ex-namorado que disse que não queria mais nada com ela e que estava ficando com, digamos, uma menina que foi sua melhor amiga no ensino médio. Águas passadas.
Era hora de deixar o rio correr, meu bem, e ver que as águas novas são sempre mais limpas.
Pensou um pouco antes de atender, para ter certeza de que não estava tentando satisfazer o seu ego e provar pra si mesma que era uma maneira de esquecer Sting Eucliffe. Ela poderia ser forte e esquecê-lo sem usar outras pessoas, não poderia? Claro que poderia. Era só que também não poderia deixar passar essa maravilhosa oportunidade. Caras legais não se encontrava todos os dias na padaria.
Finalmente atendeu: – Oi – foi um breve cumprimento animado.
– Estava pensando eu aqui – ele disse –, novo em Los Angeles, sozinho no meu apartamento, sem nada de muito entusiasmante para fazer, que eu poderia aproveitar a oportunidade para conhecer o lugar e levar comigo ninguém menos que uma cidadã nata.
– Uma cidadã nata, han – deu um risinho bobo, audível para a pessoa do outro lado da linha. Claro –, essa cidadã nata sou eu?
– Claro que considerei sua descendência alemã, mas nasceu aqui, e mora aqui desde que nasceu. É uma cidadã nata.
– Você acredita mesmo que os domingos podem ser legais em Los Angeles?
– A mídia diz que sim. A cidadã nata poderia me mostrar isso.
Que ótima maneira de flertar, hein. Estava longe de o homem conseguir criar um aparelho celular que pudesse emitir o cheiro da pessoa do outro lado da linha. Foi um grande avanço quando eles viraram câmera fotográfica e vieram com muitos outros aplicativos importantes, mas mesmo com as limitações de não poder emitir cheiros, o cheiro de problemas que aquele cara exalava estava bem claro ao olfato de Lucy.
Mas, que droga, o cheiro era do tipo feromônio. E ela estava ficando excitada com aquela voz rouca que ele tinha, que vinha cheia de promessas e mistérios com os quais ela estava ficando cada vem com mais vontade de se envolver. Só esperava não se apaixonar por ele e descobrir mais tarde que ele era um homem como todos os outros com os quais se relacionou.
No começo, pensou “é a minha pouca idade, por isso só conheci cafajeste”, mas a cada 15 segundos uma mulher é espancada no mundo, aí voltava a pensar que homens com caráter estão cada vez mais se extinguindo, e precisava de um para as suas necessidades biológicas, sociais e emocionais. Que azar não ter nascido homossexual.
– Podemos ver isso, então. – Mordeu o lábio. Ela sabia o que significava quando mordia o lábio instintivamente. Ela só se dava conta que tinha feito isso depois que a pressão dos dentes sobre a pele começava a doer.
– Podemos começar com uma corrida na orla da praia mais próxima, às cinco da tarde? – Sugeriu. – Trocar a esteira da academia de Novo México por a orla de alguma praia de Los Angeles deve ser uma experiência emocionante.
– Vou por a minha roupa. – E desligou.
[...]
Em alguns verões, mesmo quando está anoitecendo, o ambiente continua quente. É quase impossível dormir sem a ajuda de um ventilador ou um ar condicionado. Bom mesmo são os verões no deserto do Saara. As noites são sempre o contrário do que acontece durante o dia. São tremendamente frias. Frias até demais. Demais mesmo. Mas a nossa protagonista gostava disso mesmo, do frio excessivo. Louca.
Mas teria que se contentar mais um pouco com o calor absurdo de Los Angeles. E ter que correr num calor daqueles era pedir para morrer. Mas passou pela prova do fogo e não ficou atrás de Natsu na corrida de 40 minutos. Nunca passou tanto tempo correndo, e quase colocou as triplas pra fora, mas enquanto estava ao lado dele, mostrou-se forte e resistente ao calor. Sorriu como uma miss quando pararam para tomar alguma coisa em um quiosque.
Ele pagou uma bebida pra ela. Algo feito com cranberry.
Algo mais difícil do que aguentar aquele calor era olhar para os olhos dele, ao invés do suor que corria pelo peitoral exposto e duro como concreto. Tinha mesmo que tirar a blusa para correr? E aquela tatuagem de dragão nas costas? Deus do céu, a vontade era de fazer uma nova tatuagem por cima dela quando fincasse as suas unhas e rasgasse a pele. Lucy estava tendo cada pensamento selvagem que se sentiu uma cadela no cio.
E não era para menos. Sem exageros, o cara foi feito no molde mais perfeito.
– Isso aqui tá uma delícia. – Lucy fez uma expressão de prazer para mostrar que estava gostando mesmo da bebida. Era uma das formas de mostrar interesse.
– Você nunca provou? – Natsu provou pela primeira vez da sua bebida, que era a mesma da dela. – Cara, isso aqui tá bom mesmo – e aprovou.
– Orlas. Praia. Corrida. Não sou muito chegada em nada disso – confessou e sorriu um tanto quanto constrangida. Era uma maneira de admitir que tinha feito isso por ele.
– O quê? – Ele soltou uma risada amena e caiu a cabeça pra trás. – Você não tem costumes de uma cidadã nata? Oh, droga. Mas eu te chamaria pra sair mesmo assim. – O olhar quente que ele deu. Ela nunca mais esqueceria aquele olhar. Sting não estava olhando para ela daquele jeito há muito tempo, mas não pensou mais nisso para evitar comparações.
– E para onde você me chamaria para sair? – Abriu um sorriso interrogativo. – Você é sempre assim? Mal chegou e já está flertando com alguém?
– Não é sempre assim, mas convenhamos que alguém como você não se encontra todo dia. – Ele chegou o banco de madeira alto onde estava sentado para mais junto dela. O atendente do quiosque saiu para atender clientes que estavam sentados em mesas mais distantes e ficaram só os dois no balcão, flertando com olhares e sorrisos quentes e provocadores.
– Alguém como eu? – Ok, agora seus rostos estavam muito próximos. – Você pode especificar?
– Especificar...? – Mais perto, mais perto, mais perto... Bem perto agora! – Posso. Claro. – E bingo! A mesma frase que os empregados do seu pai diziam quando estavam na posição de locutores, naquelas salas imensas do cassino mais famoso dos três que ele tinha, com multimilionários apostando mansões e outras propriedades que eram suficientes para comprar uma cidade.
Veio o beijo. Lucy Heartfilia poderia dizer agora com todas as letras que faria o mesmo erro de sempre, se apaixonando imediatamente por um cara bonito que se mostrasse gentil demais com ela.
[...]
E horas mais tarde, estava ela fazendo uma merda maior ainda. Transando no primeiro encontro.
Natsu levou-a para o seu apartamento e foi lá onde as coisas aconteceram. E quando o clima estava muito quente, com uma transa selvagem, puxadas de cabelo, e as unhadas que ela tanto queria deixar naquelas costas imperiais, o orgasmo veio e ela fechou os olhos para absorver a sensação. Mas veio uma dor também. A dor de uma agulha entrando no músculo deltoide, aquele onde se aplicam injeções de medicamentos e vacinas, do seu braço.
– O que é isso? – Perguntou quando abriu os olhos, tomada pelo choque, de olhos esbugalhados, observando o homem em cima de si com uma seringa e uma agulha injetada no seu braço, e um líquido de cor branca que ia sumindo para dentro do calibre de seus vasos ou músculos, isso não poderia definir.
Ainda mais quando os olhos foram pesando demais, o seu corpo foi amolecendo e suas articulações nunca estiveram tão frouxas. A sensação era de estar caindo em um precipício. Não tinha o controlo dos pés, não tinha o controle das mãos; não tinha mais o controle do corpo inteiro. Nem mesmo do pensamento, que ia se apagando à medida que os olhos iam fechando, pedindo para relaxar, e sua visão ia ficando turva. Tudo que poderia ver agora era aquele borrão e o cabelo ruivo se transformando numa imagem estranha e indetectável.
E caiu. Caiu mais uma vez na armadilha da beleza masculina, da lábia apurada e fina que cantava para os seus ouvidos ingênuos.
Poderia se perguntar quantas e quantas vezes fosse preciso, e a resposta seria a mesma: que era ingênua em demasia. Aquela ideia de que os homens não prestam voltaria aos seus pensamentos e se impregnaria em sua boca toda vez que alguém dissesse “Lucy, vê aquele cara. Não é um gato?” e ela responderia “mas os homens são todos os iguais, é que uns se vestem com uma pele diferente”.
E quando acordasse do seu sonho de criança, quando sonhava com príncipes encantados e cavalos brancos, voltaria à realidade outra vez, onde só existem os lobos maus que querem destroçar a ela e a tantas outras com dentes afiados, que arrancam sangue, marcam peles e destroem sonhos de quem simplesmente só quer ser feliz e acreditar, ao menos uma vez, que o amor existe, e que ele é lindo e fraterno.
E poderia se perguntar também se isso poderia acontecer e quando isso aconteceria. Essa resposta seria a mais difícil, uma vez que nunca será previsível. Nessa vida, apenas se sobrevive, esperando o momento em que vai começar a viver mesmo e sentir o sentido de tudo que disseram sobre “a vida é bela”.
Mas por enquanto, viveria imersa apenas em indagações e sonhos destruídos, até que tivesse vontade de sonhar outra vez e, dessa vez, encontrasse algo que mantivesse seus sonhos acesos por muito mais tempo que os outros sonhos anteriores, ou alguém que pudesse transformar o seu sonho em realidade, e ele não corresse de virar pesadelo como nas outras vezes.
Aquelas vezes em que pensou que não tinha saída.
– Natsu... Você...
– Agora durma. Quando acordar, será uma nova história.
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