Seven days
2 Dia 2 – Segunda
Sequestro
Do latim, sequestrum
Substantivo masculino
1. Ato ou efeito de sequestrar
2. Clausura ou detenção ilegal de alguém, privando-o da sua liberdade contra a sua vontade
(priberam, dicionário da Língua Portuguesa)

Segundo dia
SEGUNDA-FEIRA
E quando acordou, definitivamente, foi mesmo uma nova história.
A sensação térmica era de -2 graus. Que lugar seria aquele? Lucy Heartfilia poderia dizer agora que estava em um lugar onde o clima lhe agradava, mas não estava se sentindo nada agradável. Não foi algo que disse, embora tenha sido algo em que pensou minutos após acordar.
O tilintar das algemas de metal batendo em uma estrutura de mesma composição química aguçou os seus ouvidos quando os cílios bateram anunciando o seu despertar. Estava se sentindo um urso saindo de uma hibernação de, sei lá, uns seis meses. O corpo também ainda estava pesado e as estruturas ósseas frágeis, como se lhe houvessem roubado alguns íons de cálcio suficientes para ter a disposição de um velho de 80 anos.
As pálpebras anteriormente pesadas estavam bem mais leves agora, mas ainda incomodadas com o claro do quarto, bastante iluminado por uma lâmpada fluorescente. Aquela era a única fonte de energia e calor no pequeno cubículo de mais ou menos 4m². E não era o suficiente para manter seu corpo aquecido. Ao contrário, tremia de frio absurdo.
As suas mãos atadas e suspensas logo acima, em uma aréola setenta centímetros acima de sua cabeça, na barra de ferro onde as algemas estavam presas, aumentavam o terror e o medo extremos que sentia. Mas o que mais lhe incomodava era o fato de estar nua, completamente nua. O frio era absurdo e poderia ser apenas a sensação térmica, no entanto seus olhos se depararam com a dura realidade que a esperava pelos próximos dias quando bateram em seus mamilos duros e eretos por ação do frio.
O choque foi absurdo e seus olhos se esbugalharam de uma forma nunca vista antes. Já havia se surpreendido inúmeras vezes, como por exemplo na vez em que o teste de gravidez de farmácia de sua melhor amiga deu um falso positivo, mas aquele era um susto diferente. Como um golpe, as memórias vividas na noite passada invadiram seus pensamentos e disparam adrenalina em seu pulso e corpo inteiro.
A primeira ação foi olhar para frente e a imagem diante de si fez seus olhos arderem em decepção. Estava ali, como uma estátua, o seu sonho que virou pesadelo.
Mas ainda era um pesadelo bonito, e se dissesse que não, mentiria. O seu cabelo estava naquele penteado desajeitado, desfiado, rebelde e desconfigurado, ocultando parcialmente os seus olhos que, agora sim, pareciam negros, como duas bolsas pintadas com a cor do céu negreiro. O frio parecia o atingir apenas de forma parcial, pois apesar de estar vestido lindamente em uma jaqueta de couro marrom, seu peito por baixo da peça estava desprovido de tecido algum, só exibindo os seus músculos estupidamente malhados.
Se ele vivia ali, treinava com iglus?
Lucy sorriu de uma forma boba para si e baixou os olhos, aceitando a derrota e sabendo, no fundo do coração e da alma (mesmo que ainda estivesse negando), o que tinha acontecido com ela. – Já estipulou um valor? – Ainda de olhos baixos, evitando ao máximo olhá-lo nos olhos, arriscou perguntar.
– Estipular um valor, você diz? – Natsu riu ironicamente e alto o suficiente para incomodar os ouvidos e os sentimentos, agora destroçados, de Lucy. – Não se trata unicamente de “estipular um valor”. – Lucy ficou calada e ele continuou em seguida: – Que bom que tem ciência do que está acontecendo aqui. Isso deixa as coisas mais fáceis, porém não menos estressantes.
– Você é o sequestrador – Lucy levantou os olhos para acusar com um tom de voz, digamos que, meio sarcástico –, é a última pessoa que pode dizer que terá algum estresse em meio ao acontecimento. Eu estou em um ambiente muito frio, nua e com os braços presos por algemas e suspensos acima de mim. Sem falar que as algemas são pequenas demais para os meus punhos. Estão me machucando.
– Vamos repetir, para ver se você chega a alguma conclusão? – Natsu arrastou a cadeira onde estava sentado para mais perto de Lucy e segurou o seu queixo com uma das mãos, fazendo a garota encarar seus olhos agora tenebrosos e hostis. – Você está nua em um ambiente com uma sensação térmica bem abaixo de zero. Seus braços estão algemados e suspensos acima de sua cabeça. A intenção é machucar você. Você entende agora? – Dito isso, largou o seu queixo como se estivesse chutando com as mãos uma bola de futebol para dentro da trave.
O gol foi machucá-la. Não fisicamente, pois isso seria inevitável. Mas emocionalmente.
– Vamos ler o jornal de hoje? – Natsu pegou o impresso que estava no chão, muito próximo da cadeira de madeira envelhecida. Lucy prosseguiu de olhos e cabeça baixos, arrasada e furiosa com a sua ingenuidade e o costume que tinha de confiar cegamente em estranhos.
Agora entendia claramente as palavras de sua mãe quando dizia para não confiar, falar e aceitar nada de estranhos. Só não imaginava que os seus ensinamentos teriam que ser considerados na maioridade também, largou o que disse a mais sábia quando completou seus dezesseis anos. Era uma conversa tradicional para crianças, afinal.
Natsu continuou: – Veja só a manchete da capa do The New York Times: Filha e herdeira de multimilionário dono da maior rede de cassinos de Los Angeles está desaparecida desde a noite anterior. Autoridades acreditam que se trata de sequestro.
Natsu tomou um tempo para rir e só depois, então, pôde continuar a ler a manchete inteira.
A família Heartfilia, junto com autoridades da polícia norte-americana e especialistas nas áreas jurídicas que cuidam de processos do tipo “sequestro”, acreditam que o sumiço de Lucy Heartfilia, vista pela última vez na manhã de ontem, foi sequestrada.
Esteve em local público em uma padaria próxima onde morava, onde costumava tomar café da manhã todos os dias, conversando com um homem nunca visto antes pelas redondezas. Rita Costa Vierde, dona do estabelecimento, quando procurada e entrevistada por um de nossos jornalistas, afirmou: “Lucy estava muito animada (sorri de forma nostálgica), ela estava conversando de uma forma muito animada com ele, sabe? Ele veio tomar café e se sentou na mesa onde ela estava antes mesmo de fazer o pedido. Eu pensei que eles se conheciam e que haviam marcado de tomar café juntos. Ele pediu o mesmo que ela.”
O homem que estava acompanhado de Lucy, na última vez em que foi vista, é o principal suspeito. Os últimos contatos de Lucy Heartfilia foram entrevistados nessa manhã e afirmam não saber nada sobre seu paradeiro. Levy McGarden, amiga de faculdade da desaparecida, afirma estar muito preocupada e querer que as autoridades descubram algo urgentemente sobre seu paradeiro. A suposição veio depois que Lucy não compareceu às aulas na manhã dessa segunda. “Ela não falta nunca, nem mesmo se estiver doente”, disse McGarden.
No momento, autoridades e familiares procuram mais detalhes sobre o ruivo suspeito.
– Olha – Natsu riu –, abaixo ainda tem uma segunda matéria dizendo: conheça quem é Lucy Heartfilia, onde contam todas as futilidades que existem em você. Avaliaram até a sua fortuna. Você quer saber?
– Você tem raiva de ricos? – Lucy perguntou tomando um gole de coragem; seus olhos ainda baixos e a voz dopada de rancor e fraqueza.
– Se eu tenho raiva de pessoas ricas? – Natsu encarou a pergunta com muita comicidade. – Se eu tenho raiva de pessoas que enriquecem os bolsos à medida que crianças ficam sem as refeições básicas para se manterem vivas em diversos cantos do mundo? Se eu tenho raiva de capitalistas que enriquecem às custas do suor da classe trabalhadora? Se eu tenho raiva de quem menospreza as pessoas de acordo com a quantidade de zeros que o banco mostra, você perguntou? Seria desumano se eu não sentisse raiva, mas não foi por isso que eu lhe sequestrei.
Se havia dúvidas se havia sido sequestrada, Lucy as abandonou quando Natsu afirmou para os seus ouvidos o fato consumado.
– O motivo de você estar aqui vai além da raiva que sinto por pessoas como você.
– Eu não tenho culpa de ser quem eu sou – acreditou nisso –, eu nasci assim.
– Você não tem culpa por só estudar e ter um cartão de crédito sem limites enquanto há outras jovens que são mães e se prostituem nas noites para pagar a faculdade? – Natsu aumentou a voz. – Claro que não. Você se prostitui de graça, sua vagabunda. Dorme com o primeiro estranho que encontra. Sabe de uma coisa? – Segurou novamente o rosto de Lucy, dessa vez apertando suas bochechas a ponto de que quase lhe faltou o ar. – Você merece estar aqui, é por isso que está.
– Você é justiceiro, então? – Ela conseguiu dizer com muita dificuldade, pois ele ainda não havia largado as suas bochechas. Natsu fez isso apenas quando disse:
– Não se engane, eu não sou um justiceiro. – Levantou-se e abriu a porta do quarto para ir embora. – Eu sou o seu pior pesadelo. – E fechou a porta com um baque.
[...]
Normalmente, ninguém gosta de segundas-feiras.
Segundas-feiras são longas e entediantes. E quando não, são extensas demais, e cansativas. Lucy nem sabia ao certo se estava em uma segunda-feira, mas sabia que, seja lá qual dia da semana fosse, havia sido o mais extenso e exaustivo dia de sua vida. O quarto não tinha janelas, e pela brecha inferior da porta não dava para saber se era dia ou se era noite. Sentia apenas frio. Um frio de congelar os ossos e anestesiar as carnes.
Duas horas haviam se passado desde que Natsu deixou o cubículo, e agora acordada, a sensação de frio era bem mais penetrante. Queria uma roupa para se aquecer, mas a única coisa que pôde usar a seu favor foi o calor que conseguia produzir com o hálito, que não conseguia aquecer nada, mas era o suficiente apenas para saber que estava viva.
Tantas coisas lhe vieram à mente. Coisas mesmo que jamais chegou a pensar um dia, como lhe fazia falta a sopa de legumes que a empregada mais velha da casa do seu pai fazia nas sextas-feiras. Ela nem sabia seu nome. Estava sempre ocupada demais para decorar nome de criados. Pensando bem, levava mesmo uma vida muito fútil. E nunca parou para pensar e mudar isso.
Natsu entrou no quarto novamente, a passos lentos, e parou diante de Lucy, olhando-a de cima, analisando-a com a mão no queixo. Parecia estar se divertindo com a cena.
– Estava aqui pensando se vou deixar você dormir assim outra vez. A noite pode ser bem mais fria que isso.
– Não é noite ainda? – Lucy ousou levantar os olhos. Natsu sorriu.
– Não sabe nem que dia da semana é e que horas são, não é? – Debochou. – Ainda não é noite.
– Que dia é hoje? – Tentou outra vez a sorte. Quem sabe ele respondesse. – Suponho que uma terça. Está frio demais para que eu tenha suportado tantos dias desde domingo assim.
– Você não é tão burra quanto parece. Não é para menos. Deve ter frequentado as melhores escolas do país. Quem sabe até do mundo inteiro. – Natsu rodeou a cadeira de madeira envelhecida que ainda estava lá e escorou seus braços nas costas dela, na parte mais superior. – Hoje é uma segunda-feira.
– Segunda-feira. Ainda não é noite. Deixamos Los Angeles à noite, estava uma noite quente. Aqui é frio. Muito frio. Estamos na América do Sul. É verão em todo o Norte. Mas em que lugar? – Lucy ia pensando em voz alta para si mesma. – Não podemos estar muito longe. Supondo que viajamos de avião e estamos aqui agora, não estamos longe. Mas o frio está demais. Devemos estar no país mais próximo ao pólo do Sul. Talvez Argentina, não sei.
– Você definitivamente não é burra – Natsu disse com um desgosto evidente, mas sem perder a compostura e aparentar estar irritado pelo deslize que tinha dado ao passar informações demais para Lucy.
– Você já contatou meu pai? Já fecharam algum acordo? – A garota de dezenove anos levantou os olhos com a esperança de uma criança de cinco anos, esperando que a solução para os seus problemas fosse tão fácil quanto acreditar que coelhinho da páscoa existia e que os ovos de chocolate que encontrava espalhados no jardim fossem postos lá por ele, e não pelo seu pai, que sempre foi um babão.
– Espera, espera, espera – a repetição de palavras deixou Lucy alerta –, você não é tão inteligente também. – Natsu abriu um sorriso diabólico. – Você em nenhum momento parou para pensar que não é dinheiro que estou querendo?
Lucy engoliu em seco. – O que é, então?
Natsu colocou as mãos na jaqueta e deixou Lucy sozinha de novo, sem respostas para a sua pergunta, na dúvida insana e cruel, entre o limite do significado da palavra viver. Lucy invejou as mãos dele, que estavam aquecidas naquele tecido, enquanto ela ainda estava nua e ao relento do frio congelante. Sentiu seu nariz corizar pela primeira vez. A artéria quente e pulsante das têmporas já latejava e era uma das poucas estruturas quentes em seu corpo.
O resfriado já se aproximava, e a sua liberdade continuava perdida.
[...]
Acontece a chamada hipotermia quando o corpo chega aos 35º C. É preciso que o corpo chegue a 20º para que aconteça uma parada cardíaca irreversível, mas antes desse limite extremo o corpo começa a reagir. O metabolismo vai diminuindo, diminuindo, diminuindo, até que diminua ao limiar zero.
Não era possível descrever a temperatura do corpo de Lucy, principalmente porque em ambientes úmidos como aquele a temperatura evapora com mais dificuldade e a sensação térmica é bem maior. Mas o seu organismo, muito esperto, fazia com que seu corpo tremesse sem parar – até mesmo sua língua tremia e ficava inquieta dentro da boca – para que produzisse calor interno.
Mas os sinais típicos de uma pessoa que estava começando a perder os sentidos estavam evidentes. Sua coordenação motora estava comprometida e não conseguia manter o olho fixo em um determinado ponto sem que se sentisse extremamente tonta. Lucy estava se sentindo cansada como se tivesse trabalhado dias sem descanso com trabalho braçal. O raciocínio estava ficando lento também, e não conseguia mais pensar em coisas simples, como a sopa de legumes de horas atrás. Só conseguia pensar em como aquele quarto estava frio e sonhava com uma fonte termal.
Quando Natsu deixou o quarto, começou a contar os minutos – literalmente – e conseguiu chegar até uma hora. Mas depois disso, sentiu-se cansada demais para continuar, mas sabia que horas haviam se passado. Possivelmente, agora, era noite.
A confusão mental se instalou quando o infeliz abriu a porta do quarto de novo e entrou. Ele trazia um prato transbordando de comida. Era sopa de legumes, mas Lucy não sabia se estava imaginando coisas ou era mesmo algo real e palpável.
Ele sentou-se na cadeira e saboreou. – Está gostoso isso aqui – parou para emitir um som de satisfação. – Está com fome, Lucy? Você não come desde ontem à noite. E isso aqui está bem quente. Ia servir para aquecer um pouco.
Lucy queria muito responder, queria implorar por uma única colher daquele prato de comida, mas o orgulho tremendamente ferido e o ódio que sentia por Natsu, agora, não a deixaram responder. Lucy espirrou a anunciação do seu resfriado.
– Está ficando doente, também? – Natsu mostrou-se surpreso como se não soubesse que isso fosse acontecer. Ele estava conseguindo ser bem mais gélido e frio que a sensação da temperatura no corpo de Lucy. – Isso é mau. Não quero que morra. Não vou poder brincar com você se isso acontecer.
Que tipo de brincadeira?, pensou Lucy. Ele não já havia brincado demais?
Natsu não foi cruel quando a sequestrou. Natsu foi cruel quando resolveu brincar com seus sentimentos para fazer isso. Enganou-a, aproximou-se como um cara interessado, sorriu quando foi preciso sorrir e, o mais importante, dormiu com ela. Talvez se a tivesse abordado de uma forma que qualquer outro criminoso faria, mostrando-se quem era desde o início, agora teria um pouco mais de afeição por ele. Mas a afeição que construiu estava sendo degradada pouco a pouco, à medida que ele se mostrava o monstro que era.
– Eu vou ser bonzinho com você. Vou deixar você comer. – Natsu não tirou os olhos de Lucy enquanto colocava, vagarosamente, o prato de sopa à sua frente. A distância que os separava não era mais que trinta centímetros. Lucy ficou em silêncio, encarando a comida que em outra situação não seria grande coisa, mas que na situação em que se encontrava, era a melhor coisa do mundo. Foi preciso um minuto até que Natsu se pronunciasse para fazer um novo deboche: – Oh, você não consegue comer? Seus braços estão ocupados demais com as algemas? Que tristeza. Parece que não poderá comer.
A visão de Lucy estava ficando embaçada, e a garota sentiu o seu corpo estremecer e desfalecer para um desmaio. Mas antes disso, alguns minutos que rezou a Deus para que ele lhe concedesse de consciência, ela juntou todas as forças do corpo e colocou o seu empenho na sua perna direita, que ficou leve diante do corpo cansado e pesado. Lucy queimou o pé quando chutou o prato de comida, mas a sensação de dever cumprido foi tanta que não sabia se foi o contato com a comida quente, mas seu corpo pôde se aquecer um pouco.
– Engula a sua porcaria – sua voz tremeu de ódio e vitória –, e eu espero, fielmente, com todas as minhas forças, que você queime a língua, antes de queimar o corpo inteiro quando arder no inferno, seu criminoso.
E depois se sentir algumas lágrimas descerem do canto de seus olhos até à mandíbula, Lucy desmaiou de mãos atadas à estrutura metálica, caindo com a cabeça para o lado, como se estivesse dormindo outra vez.
Sem expressão alguma na face, e sem amaldiçoar Lucy por ter desperdiçado comida – a comida que inicialmente ele tinha feito para ela –, Natsu apenas sussurrou para si: – Não sabe o que é passar forme, por isso desperdiça.
Mesmo que não comesse, desperdiçar comida para Natsu parecia ser uma espécie de pecado. Um pecado maior do que sequestrar e torturar psicologicamente e emocionalmente uma garota de dezenove anos.
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