Seth is a Good Boy
10 Capítulo 10 - A voz rouca da Tia Gracy
Notas iniciais
– Tem certeza que Ràng Bǎo Ere é o nome do tal hospital na China? — desconfiou Kyle, acompanhando o ágil movimento do mouse que Seth comandava. Ele abrira sete páginas no Google, todas em sequência, para procurar o hospital chinês que Savannah estava internada. Ele recortara uma parte do Daily News onde dizia o nome do lugar e em seguida o jogou no lixo, para esquecer os fatos que não queria ter em mente.
– É Ràng Bǎo Er. — corrigiu Seth.
– Desculpe se minhas aulas de mandarim são uma droga.
– São mesmo. — respondeu Seth. Em um único "Click", a ficha completa do Hospital "Ràng Bǎo Er", em mandarim "João Paulo", apareceu, com dados de localização, horário de atendimento e alguns outros itens que as aulas de mandarim de Seth não foram suficientes para traduzir. — Achei!
– Deixa eu ver. — sem esperar a resposta de Seth, Kyle virou a tela do notebook para ele. Estava tudo em mandarim, mas metade da lista dos pacientes eram de origem estado unidense. Ele logo clicou na lista de pacientes com a letra "S", sobrenome "C".
– Deixa que eu faço. — a ansiedade de Seth parecia estar escrita de caneta permanente em sua testa. Ele suava, seu coração eram tambores carnavalescos. O último "Click" foi o decisivo. Os dois encararam a tela de um modo assustador. O brilho azul refletia em suas faces rosadas de uma maneira medonha. Eles estavam paralisados. Savannah havia sido internada uma semana atrás. E havia sido liberada três dias atrás. Aonde ela estava?
– Sinto muito. — Kyle se precipitou.
– Sente pelo o que? — Seth sabia muito bem pelo o quê. Ele só não queria que tudo fosse oficializado: Savannah foi e continua na China por um motivo. Ou então por um alguém. Kyle continuou sem responder e fechou a página que causava angústia para Seth e humilhação para Kyle, que não entendia nada em mandarim. Seth suspirou. Suas grossas mãos tocaram a mesa de vidro, que em seguida ficou marcada de suor.
– Vou pegar uma água. Quer? — Kyle anunciou. Seth fez que "não" com a cabeça e virou-se para a tela preta do notebook. Seus pensamentos estavam a mil. Mil possibilidades passavam por sua cabeça. Ao olhar para seu celular recostado sob o vidro, uma ideia perversa chegou-lhe à mente. "Tia Gracy", ele procurou por sua agenda telefônica. Ligar para a tia de Savannah poderia ser sim uma ideia perversa, mas tranquilizadora. Três bips se passaram e uma voz doce e rouca atendeu o telefone.
– Gracy? É o Seth. — será que ele tinha intimidade suficiente com a senhora para fazer uma ligação interurbana e dizer apenas "é o Seth"? Acho que não.
– Seth? Quem? — não disse? A memória da senhora não era tão fértil assim para se lembrar do namorado da sobrinha que a visitou no verão passado.
– Seth Obrien. Visitei a senhora ano passa... — ela o interrompeu, e sua voz mudou de rouca para extremamente aguda.
– Seth! Quanto tempo, garoto! Você parece estar mais saudável! — como ela sabia que ele estava saudável pelo telefone? — Sua voz está mais grossa e forte! — agora sim, ela deduziu pela voz.
– Hah, obrigado. A sua voz também está... bonita. — risos. Engraçado. A voz da senhora o acalmava. — É, Gracy, estou te ligando para saber de Savannah. Desde o acidente não sei onde ela está, tentei várias vezes ligar no celular dela. Queria saber se ela realmente for para aí, para a Itália. Não estou desconfiado, — mentiu. — mas queria saber por quê ela estava em um voo para China na noite do acidente.
– Seth, vou ser sincera com você, tudo bem? — a voz de Gracy demonstrava seriedade.
– Tudo. — Seth apertou o telefone.
– Bom, Savannah nunca veio para cá este mês. Ela me disse que, se você ligasse, era para dizer que ela saiu, mas que estava aqui na Itália.
– Ela... Ela disse isso? — raiva e medo dominavam seu corpo.
– Disse. Sinto muito. A relação de vocês não andava bem, não é? Deve ser isso. Ela devia precisar de um tempo sozinha.
– Tenho que desligar, Gracy. — e desligou o telefone. Sem mesmo esperar a senhora se despedir. Mas para quê se despedir? Logo ele se despediria de um relacionamento. Um relacionamento com a sobrinha de Gracy.
– Sei que você não queria nada, mas trouxe um suco. — Kyle deixou o copo ao lado de Seth. — Com quem estava falando?
– Com Gracy, a tia da Savannah que mora na Itália. — os dois se entreolharam. Kyle nem precisou de mais explicações. Os dois haviam entendido tudo. Savannah realmente mentiu e foi para a China naquele mês. Kyle saiu para verificar a geladeira dos Obrien, e começou a preparar um lanche.
Seth percebeu que ainda segurava o celular. Ele estava úmido de suor. Apertou o botão inicial e viu algo que o fez lembrar do presente. Onze chamadas perdidas de Clair e, em seguida, uma nova mensagem que dizia: "Você está melhor? Tentei falar com você a tarde toda." Sem hesitar, ele digitou a resposta numa rapidez que ninguém nunca vira antes. Ela tinha os seguintes dizeres: "Desculpe por me esquecer de você esta tarde. Está tudo esclarecido para mim. Me encontre no Harley's. -Seth."
–Seth? — Kyle anunciou, com um balde de pipoca na mão. Mas Seth não estava mais lá. A porta da frente estava entreaberta. Ele tinha ido viver o presente.
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