Serial Killer - O Despertar.
5 Ep. 4 - About Brothers.
Notas iniciais
Rodrigo
– Rodrigo, fique fora disso – ordenou Samuel. O guardião o encarou incrédulo. – Ela é minha irmã, minha responsabilidade. Não se meta.
– Por que você é sempre tão chato? – Rodrigo revirou os olhos e se sentou, observando os dois.
Raquel tirou das sombras uma espada fina e negra, dela pingava sangue e ele se transformava em pó antes de atingir o solo. Rodrigo conhecia aquela arma: era uma espada feita de Via, um metal extremamente raro no mundo humano, mas que existe em massa no Inferno. As armas dos demônios, em suma maioria, eram produzidas daquele material. Além da Via, existiam apenas mais dois metais capazes de matar um anjo: a Cete – material utilizado na criação das armas angelicais, que pode matar tanto anjos como demônios – e a Telem, o metal mais raro e poderoso de todos; só é encontrado em dois locais: na foice da Morte; e nas garras de um Serial Killer. Lendas contam que é capaz de matar qualquer coisa, até mesmo um deus. Rodrigo acreditava nessa lenda, pois sabia que os pais de Agatha estavam mortos e, embora nunca tivessem confirmado isso a ele, o garoto sempre suspeitara de que a Morte estava cansada dos deuses, por isso, resolveu levá-los a julgamento nas profundezas do último dos Infernos.
A espada de Cete do arcanjo Samuel era diferente. Muito diferente. A lâmina era dourada e brilhava mais que diamante; em seu cabo, tinha a marca de um espiral e, logo abaixo, as letras IFFTG, que significavam “I’m Fighting For The Gods”. Era uma parte do juramento de cada anjo: Servirás aos deuses até o dia de sua morte, ou sua queda; o que chegar primeiro. As letras, assim como o espiral, eram cravadas ali por Agatha – em uma cerimônia aberta ao público que acontecia logo após o treinamento intensivo dos anjos.
Rodrigo surpreendeu-se ao notar que Agatha deixara a marca para Samuel; apesar de ele ser um arcanjo honorário, não era do feitio dos deuses devolver títulos e aquelas letras eram uma das mais importantes honras de um arcanjo. Uma prova de que Agatha confiava nele, em suas decisões e, principalmente, em sua lealdade.
– É uma pena que isso tenha que terminar assim, irmão – disse Raquel. Ela girou a espada nas mãos. – Você seria tão útil para a rainha.
– Para a rainha? – Samuel encarou-a confuso. – O que Ana tem a ver com isso? Foi ela quem a enviou?
– Ora, é claro – disse Raquel, como se fosse mais que óbvio. – Ou você acha que aquele tolo do Mateus teria alguma ideia tão inteligente?
– Inteligente? – Samuel sorriu e ergueu a espada. – Ana deveria ter mandado um exército para me matar.
– Matar-te? – Raquel balançou a cabeça negativamente e sorriu. – Você não é tão importante, Samuel. Estou aqui pelo garoto. O Serial Killer.
– Para chegar ao garoto, terá que me matar.
– Eu sei. – Raquel deu um passo na direção de Samuel e ergueu a espada. – Por isso eu trouxe minha fiel companheira.
– Uma frase incomum para um caído – murmurou Rodrigo. Ele olhou para a espada. – Principalmente para um caído portando uma Via.
– Ah, não se preocupe – disse Raquel, sorridente. – Não estou falando da minha espada. Estou falando da minha noiva.
– Sua o quê? – Samuel soou muito surpreso.
– Noiva – disse uma garota aparecendo ao lado de Raquel. Seus cabelos eram negros e lisos, os olhos negros como a noite, os caninos eram como os de um vampiro, as unhas eram cumpridas e parecidas com lâminas; o corpo era belíssimo, de levar um homem à loucura em segundos. Ela sorriu e sacou uma espada de Via. – Mas, por favor, chamem-me de Jessica.
– Rodrigo, retiro o que eu disse – disse Samuel. – Venha.
Rodrigo sorriu e levantou, sacando sua espada. Não era nenhuma das três lâminas sagradas que matava demônios, mas servia para machucá-los o suficiente para Samuel finalizar o serviço sem complicações. Era o bastante.
– Pode ser um péssimo momento pra confessar – disse Rodrigo, preparando-se para um combate que seria muito intenso. –, mas eu nunca lutei com um demônio.
– Ótimo – disse Samuel. Ele apertou o cabo da espada. – Porque isso não é um demônio. É uma feiticeira.
A caverna tremeu, mas logo parou. Jessica deu um sorriso malicioso e segurou a mão da noiva.
– Parece que seu irmão é muito observador, Quel – disse Jessica. Seus olhos negros ficaram castanhos e a feiticeira girou a espada. – Vai ser um prazer decapitá-lo.
– Samuel é meu – disse Raquel. Os olhos dela brilharam. – Você pode acabar com o guardião. Mate-o, não precisaremos de um prisioneiro tão... não conheço adjetivos bons o suficiente para descrever sua inutilidade, Rodrigo.
– Sua irmã é encantadora – ironizou Rodrigo, olhando para Samuel. – Aposto que puxou você.
– Já chega de conversa. – A feiticeira avançou bruscamente, e quase arrancou fora o braço de Rodrigo, que desviou pesadamente.
Samuel defendeu o ataque de Raquel na direção de seu pescoço; então contra-atacou com um chute na perna da irmã, que deu um passo para trás, mas logo voltou à luta. Sua espada cortou o ar, na esperança de atingir o braço esquerdo do anjo, que desviou bem a tempo; então atacou Raquel com uma espadada na direção do peito, mas a garota defendeu-se e saltou para trás, tomando um pouco de fôlego.
Enquanto isso; Jessica atacava sem parar e Rodrigo desviava e defendia-se dos golpes extremamente perigosos da feiticeira. A espada de Via dela estava em chamas, cortando o ar e queimando-o raivosamente. Até que, depois de uma ótima sequência de defesas, o guardião conseguiu uma brecha para atacar a feiticeira; girando a espada, ele cortou sua mão esquerda fora; fazendo-a soltar a espada, então chutou-a para longe, mas não sem receber um chute na espada que a atirara para o mar. Agora, os dois estavam sem suas armas e isso preocupava Rodrigo; afinal, não é nada fácil lutar com uma feiticeira sem armas.
Os irmãos lutavam furiosamente. Trocando espadadas e socos. Samuel defendia e atacava logo em seguida, mas Raquel sempre conseguia se defender ou esquivar da espada do irmão; o que nem sempre acontecia com os socos no rosto. Ambos já tinham sangue escorrendo pelo nariz, olhos roxos e cortes provocados por repetidos golpes com a mão; mas nenhum arranhão das espadas celestiais. Sabiam que não matariam um ao outro com socos e chutes, mas tentariam ao máximo.
Jessica bateu o pé no chão e um esqueleto levantou-se do solo frio e escuro, atacando Rodrigo com uma espada de ossos. O guardião conseguiu desviar do ataque, e com um soco no estômago do esqueleto desmontou-o completamente. No entanto, a feiticeira não parou. Ela tocou o indicador da mão direita no chão e o mesmo se abriu, fazendo com que Rodrigo fosse obrigado a dançar balé para não cair no mar. Ele saltou para um dos lados e tentou atacar com um soco; mas isso só serviu para ele ser pego pela feiticeira e, com um simples toque na testa, o guardião caiu para trás e ficou inconsciente.
Passado alguns segundos, Rodrigo abriu os olhos. Estava tudo destruído. Raquel e Jessica desapareceram e só restava Samuel lá na caverna. Ele sorriu, pois imaginou que o anjo tinha alcançado a vitória, até notar que sua cabeça estava separada do corpo. O guardião ficou de joelhos ao lado do anjo e segurou sua espada.
– Está tudo bem, Samuel – disse ele. Os olhos lacrimejando e a espada frouxa em suas mãos. – Você viveu como um herói, e morreu como um deus. Que a Morte abençoe vossa partida e leve-o aonde repousam as boas almas.
Ele fechou os olhos do anjo e uma vela se acendeu no final da caverna. Mostrando uma imagem ainda pior do que a morte de Samuel. Era Caio. Ou uma parte dele.
A cabeça do irmão de Rodrigo pendia sobre uma lança, enquanto o sangue escorria por ela; o fedor do cadáver invadia seu nariz, aumentando a sensação desagradável. Dois urubus mastigavam o pouco que sobrara do corpo de Caio – que estava jogado no chão. Seus olhos estavam feridos, como se cada um tivesse levado uma flechada bem no centro do globo ocular. O rosto do garoto estava totalmente deformado, como se tivesse recebido inúmeras pancadas antes de sua morte; sangue seco estava em todo seu queixo e seus dentes já não estavam em sua boca. Era uma imagem horrenda, que fez Rodrigo vomitar.
Foi quando o garoto sentiu alguma coisa penetrar sua barriga. Algo gelado e afiado; cruzando seu corpo até sair pelas costas. Olhou para baixo e viu sua blusa cheia de sangue, seu sangue. Então a dor chegou. Ele gritou, mas não havia ninguém que pudesse ouvi-lo no meio do nada. Peixes não o levariam ao médico.
Rodrigo rastejou pesadamente até o fim da caverna, de onde se jogou; na esperança de que sua águia estivesse lá para ajudá-lo. No entanto, o oceano estava cada vez mais próximo e nenhum sinal de asas batendo em sua direção. Até que ele ficou parado no ar e, como mágica, começou a flutuar. Ele estava sendo levado para longe da caverna por algo que ele não conseguia ver; apenas sentir puxar sua blusa ensanguentada. O guardião via o mar e o sangue pingando nas ondas. Até que seus olhos pesaram, sua mente começou a falhar e ele desistiu. Apenas apagou.
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