Serial Killer - O Despertar.
6 Ep. 5 - The Bloody Rain.
Notas iniciais
Caio
– Aonde Rodrigo foi? – perguntou Caio, encarando a treinadora que já pegava duas espadas. Os dois estavam em uma área isolada, um sítio localizado na Baixada Fluminense do Rio; isolado de qualquer comércio ou cidadão. – Ou melhor, onde estamos?
– É aqui que te treinarei. Quanto ao Rodrigo, não se preocupe, ele está fazendo o trabalho dele – disse Mirella, ignorando a preocupação do garoto. – Escolhi esse lugar porque não pode controlar seus poderes e, se algo acontecer, eu poderei matá-lo antes de ferir alguém inocente.
– Matar?
– Não há outra maneira de parar um Serial Killer – disse a garota. Ela jogou uma das espadas para Caio. – Portanto, mantenha-se controlado; ou eu arrancarei sua cabeça sem pensar duas vezes.
– Obrigado, isso foi tranquilizador – murmurou Caio, pegando a espada com dificuldade no ar. – O que vamos fazer?
– Basicamente, você precisa sobreviver.
– Ah, legal. Simplesmente isso? – Caio revirou os olhos. – Nada de “tira casaco, bota casaco”?
– Isso depende – disse Mirella. Ela caminhou na direção do garoto e levantou o queixo dele com a espada. – Você quer aprender a lutar contra chineses, ou contra demônios?
– Honestamente? – Caio abaixou a espada de Mirella suavemente. – Eu preferia estar jogando videogame.
– Bem, pois encare isso como um videogame. – Mirella estendeu a espada novamente, mas tomou um pouco de distância. – Você é um ninja que precisa matar o monstro. Infelizmente, você gastou todas as suas nove vidas extras e só restou uma, e bem... nesse jogo você não pode voltar para o início e tentar tudo de novo. Então, se você morrer, o jogo vai explodir e game over.
– Claro, assim é muito mais relaxante. – Caio revirou os olhos e foi surpreendido por um ataque da treinadora, atingindo-o de raspão e arrancando um pedaço da manga de sua camisa. – Sério?
– Pare de falar e lute – murmurou Mirella. A espada estendida na direção do oponente, a treinadora não assumia uma postura muito profissional, mas isso não passara pela mente de Caio. Ele só conseguia pensar no quão desesperado estava. – Não há conversa em guerras.
– Já pensou que esse pode ser o problema de vocês? – Caio a olhava fixamente, com a mão tremendo. – Será que se conversassem mais...
– Cale a boca, enquanto ainda tem língua.
Caio engoliu em seco e, por nada mais que reflexo, defendeu o ataque de Mirella na direção de seu braço – dessa vez não pegaria de raspão. Ele tentou revidar, mas Mirella foi imensamente mais rápida. A espada não chegou nem perto de atingir a garota, que logo passou a perna pelos pés de Caio, fazendo-o cair no chão.
– Ei, isso não vale!
– Não há regras, Caio – disse a garota.
Mirella não parecia estar brincando. Aquilo assustava Caio – quase tanto quanto palhaços gigantes que cospem fogo. Embora ele não soubesse explicar seu medo por essas criaturas – que, segundo a maioria das pessoas, eram inexistentes –, Caio sempre teve medo de palhaços; e de gigantes; e de fogo. No final, ele só juntou tudo em um só medo. Samuel costuma chamar isso de compactação.
A treinadora estava pronta para atacar novamente, quando o céu deixou de ser agradável. Primeiro, Caio sentiu uma gota em seu rosto. Ele imaginou ser o início de uma chuva, mas logo notou que era sangue. Repentinamente, o céu ficou vermelho. Caio estava certo, era chuva. Chuva de sangue.
– Que po...
– É Agatha – disse Mirella. Os olhos dela ficaram dourados. – Aconteceu alguma coisa com o Samuel.
– O quê? Como...?
– Não tenho tempo para explicar. – A blusa de Mirella se rasgou, revelando o sutiã preto de renda e enormes asas negras se abriram; enquanto o corpo dela ficou cheio de marcas, como se fossem tatuagens. – Vamos.
Caio nem precisou pensar em como iria acompanha-la. Mirella sobrevoou o garoto e puxou a gola de sua camisa, levando ele às alturas – literalmente.
Eles demoraram cerca de dois minutos para encontrar Samuel. Ele estava em uma caverna, ao lado de Rodrigo. Samuel tinha um buraco no peito e Rodrigo estava inconsciente, mas seu caso não parecia tão grave.
– Samuel? – Mirella ajoelhou-se ao lado do anjo. Ela voltou ao normal, mas sua blusa não reapareceu. – O que aconteceu? Era um demônio?
– Não – murmurou o anjo, lentamente. Seus olhos quase se fechavam, o buraco no seu peito sangrava muito. – Raquel...
Mirella colocou a mão no rosto de Samuel e ele apagou. Os olhos dela voltaram ao dourado.
– Precisamos sair daqui – disse a garota.
Eles teriam saído, se Rodrigo não tivesse levantado no imediato momento, chamando a atenção de todos. O garoto olhou na direção de Samuel sorridente, então parou.
– Está tudo bem, Samuel – disse ele. Os olhos lacrimejando e a espada frouxa em suas mãos. – Você viveu como um herói, e morreu como um deus. Que a Morte abençoe vossa partida e leve-o aonde repousam as boas almas.
Ele olhou para o fundo da caverna e, segundos depois, inclinou a cabeça para frente e vomitou tudo o que comeu. Caio tentou correr até Rodrigo, mas Mirella segurou-o.
– Deixe-o – disse ela.
– Mas, ele está...
– Alucinando – disse a garota. Ela olhou para Caio. – E vai continuar, até que eu faça-o parar. Não toque nele, não fale com ele, não faça nada que possa acordá-lo.
– Por quê?
– Não preciso explicar nada, apenas fique longe – disse a garota.
Caio resolveu não brigar com ela, embora fosse difícil ver Rodrigo vomitando. Então o garoto parou. Ele cambaleou para trás, como se tivesse levado um golpe forte na cabeça. Caio notou que ele estava prestes a cair no oceano, então precipitou-se para ajudá-lo, mas Mirella jogou o garoto na parede e deixou Rodrigo passar, caindo da caverna.
– Você é louca? Ele vai morrer – gritou Caio.
– Então salve-o – disse Mirella. – Você tem dois segundos.
Caio não pensou duas vezes. Ele logo correu na direção de Mirella. Seus olhos não ficaram vermelho, seu corpo não mudou. Nada de transformações ou puberdade atrasada. Sua velocidade, no entanto, era a mesma. Ele passou pela garota, que deu um sorriso e virou-se, a tempo de segurar Caio e, abrindo as asas, pegar Rodrigo antes de cair na água. Ela subiu novamente e segurou Samuel. Então voou para longe dali com os três sob suas asas negras enormes.
Ela levou-os por cima do mar e Caio imaginou um lugar bem diferente do que pararam. Ela subiu. E subiu. E subiu. Até que não tinha mais para onde subir, Caio via anjos, nuvens e Agatha. A deusa parecia perturbada.
Assim que pousaram, Agatha assumiu a situação. Ela pegou Samuel e Rodrigo, levou-os para uma sala secreta qualquer e, sem dizer uma palavra, deixou Caio sozinho com Mirella e todos aqueles anjos. Ele não conseguia ver como Samuel se encaixaria ali.
– Podemos conversar? – Mirella puxou-o até um canto isolado. Caio não teve nem tempo para responder.
– O que foi? – perguntou ele.
O garoto ainda estava um pouco confuso com tudo que aconteceu desde que ele sonhou com Agatha – em quem ainda tinha dificuldades de acreditar, mesmo tendo visto a deusa há segundos –, ele esperava que Mirella desse respostas. Respostas de perguntas que Caio não sabia quais eram.
– Eu achei que teríamos mais tempo até essa conversa, mas devido ao que aconteceu naquela caverna... – Mirella fez uma pequena pausa e respirou fundo. – Creio que nosso tempo está acabando.
– Do que está falando?
– Desde que Agatha me contou sobre você, eu venho questionando-me se é a pessoa certa para a tarefa – disse Mirella. Caio a olhou, como se esperasse a conclusão. – Definitivamente, não é. No entanto, o destino faz suas próprias escolhas e, por algum motivo maluco, você foi o escolhido. Então, parabéns, seu prêmio é esse.
– Hã... qual, exatamente?
– Hoje mais cedo, quando estávamos treinando, eu disse para enxergar isso tudo como um grande videogame, certo? – perguntou Mirella. Caio assentiu com a cabeça, embora estivesse meio confuso com toda a conversa. – Notei que aquilo foi uma besteira. Isso não é um videogame, não é um sonho, muito menos uma série. É a vida real. Pode não ser para a maioria das pessoas lá em baixo, mas essa é sua nova realidade. Demônios não perdoam, não têm piedade e, definitivamente, não terão compaixão. Eles te matarão na primeira oportunidade, e meu trabalho é impedir que essa oportunidade apareça.
– Mirella... – Caio pensou um pouco no que dizer, até que notou que não havia nada. Ela não era sua amiga, nem sua conhecida, era sua treinadora; o que se diz para sua treinadora quando ela deixa de acreditar em você? Nada. – Eu farei meu melhor.
– É o mínimo que posso esperar de você – disse a garota. Ela olhou nos olhos dele. – Você viu o que aconteceu com o seu irmão hoje. Ele é um guerreiro treinado e, mesmo assim, quase se matou por causa de alguma ilusão.
– Um demônio fez aquilo?
– Não – disse Mirella. Ela respirou fundo. – Demônios não criam ilusões. Não como aquelas. Foi uma feiticeira. Ela controlava tudo o que Rodrigo via de longe, então só pode ser uma mulher muito bonita.
– Não entendi o raciocínio.
– O poder da feiticeira é maior se a vítima estiver fisicamente atraída – disse Mirella. – Eu sei bem disso. Minha irmã é especialista em sedução. Eu, por outro lado, prefiro ser mais discreta.
– Você é uma feiticeira?
– Basicamente.
– Minha cunhada é uma feiticeira? – Caio olhou para Mirella, que assentiu, um pouco desanimada. – Vadia.
– Ei, é minha irmã! – murmurou Mirella.
– Ela me fez matar aquele cara – protestou Caio, indignado. – Ela seduziu ele e depois deixou pra morrer. Faz todo sentido, agora.
– Espera, como assim? – Mirella encarou o garoto confusa. – O que Gabriela tem a ver com a morte?
– Ela não contou? – Caio ficou um pouco confuso, mas contou mesmo assim. – O cara que eu matei no banheiro estava tentando estuprar ela. Por isso, eu fiquei com raiva e parti pra cima dele. Não me lembro de muita coisa, apenas de apanhar bastante.
– Ela não contou para ninguém. – Mirella bufou de raiva e segurou o braço de Caio.
– Aonde vamos?
– Achar minha irmãzinha. – Os olhos dela ficaram vermelho e ela começou a voar com o garoto. – Se eu tentar matá-la, nem pense em impedir.
– Com todo prazer.
E eles voaram, na direção de Gabriela.
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