Serendipity
3 O dia em que o soldado retornou ao lar - Parte 2.
Notas iniciais
Esse é capítulo é extremamente triste, vocês foram avisados.
Espero que gostem desse! (:
“Não existe essa coisa de destino. Só existem escolhas diferentes. Algumas são fáceis, outras não. As últimas são as que realmente importam, são as que nos definem enquanto pessoas.”
Sem esperar que o marido respondesse, ela se lançou em seus braços, sentindo o cheiro almirascado da curva de seu pescoço. Sua mente trabalhava em frenesi. Como ela sentia a falta de Finn. Embora tivessem passado a noite juntos, ela não acordara ao lado dele. Embora houvessem discutido na véspera de Natal, uma força secreta havia os separado e dentro da nebulosa onde ela se encontrava, ela imaginava que não fosse voltar a vê-lo. Sua cabeça estava uma bagunça, mas ele estava ali. De alguma maneira o destino não quis separá-los. Ele estava ali ao seu lado e isso era o suficiente para acalmá-la, para trazê-la de volta a Terra.
Poucos entenderiam, mas ela só sentia que havia um mundo ao seu redor e que a vida era uma experiência real quando ele estava ao seu lado. Não adiantava contar seus segredos ao mundo, se ele era o único que podia escutá-la de fato. Eles eram Finn e Rachel, afinal. Eles sempre encontravam seu caminho de volta.
Ele apertou-a em seus braços e fechou os olhos com força, temeroso de que ela desaparecesse se ele retornasse a abrir os olhos. Quando finalmente o fez, ela ainda estava ali. Com um sorriso límpido nos lábios e os olhos conhecedores, ele deixou-se encantar-se por sua esposa novamente. Era incrível como os olhos dela, seu sorriso, suas manias ainda o prendiam mesmo depois de tanto de tempo ao seu lado. Perto de Rachel Berry, Finn Hudson sempre seria uma criança diante de um presente embaixo da árvore de natal, sempre um menino com medo de escolher as palavras certas para usar. Ele não podia ficar bravo com ela, era impossível, não enquanto ela mantinha acesa sua vida, não enquanto ela tinha nas mãos o seu amor, a sua lealdade, a sua dedicação e honra. Ela era o motivo pelo qual ele acordava a cada manhã satisfeito com sua vida. Ela lhe dera seu coração, uma família, um lugar para chamar de lar, um lugar ao qual ele pertencia.
“Meu lar não é um lugar, é alguém. É você.” Ele lembrava-se de tê-la ouvido dizer isso tantas vezes, e ele acreditava, oh Deus, como ele acreditava. Rachel era a sua fé, sua luz em meio ao um oceano de desespero e inquietude e ele venceria qualquer coisa por ela.
Havia sido estúpido desejar que eles jamais houvessem se casado. Ele sabia disso agora. Tarde demais? Talvez. Desejar que eles jamais houvessem se casado, implicava em desenhar nunca ter tido o maior presente de sua vida: Sua família. Finn definitivamente não desejava isso. Desde que acordara naquela manhã, a única coisa que fizera foi se arrepender a cada segundo de seu estúpido pedido. Ele poderia estar cantando em volta do piano com sua família (um hobby que ele descobrira que tinha o incrível poder de acalmá-lo, era esse, tocar piano), assistindo Elf e comendo castanhas enquanto Rachel, Carole e Burt faziam tortas na cozinha, mas não, ele havia passado toda a manhã em um trem que cortava o estado da Georgia indo até Nova York.
Quando ele percebera que algo muito errado estava acontecendo, ele já não era capaz de reverter. Era claro como a água que o rapaz sentado alguns bancos a sua frente era sua versão mais nova e estava indo ao encontro de Rachel com suas ilusões destruídas e o coração desolado. Antes que pudesse atinar sobre as consequências do que iria fazer, ele sentou-se ao lado do seu eu mais novo, não sem antes analisar sua aparência, é claro, pensando “Eu não era nada mal também” e passou a conversar com ele.
Em linhas gerais, ele explicou ao seu do passado tudo o que ele deveria saber sobre aquele dia, da mesma maneira que Rachel fizera com a sua versão mais nova, mesmo que ele não soubesse disso. Após se despedirem na estação de chegada, Finn sentiu uma incrível necessidade de ficar só. Ele não sabia como sair da situação que – agora ele percebia – havia sido criada por ele mesmo.
Quando chegou ao Sardi’s e avistou sua esposa, seu coração tornou-se um corcel em fúria em seu peito. Ele julgou possível encontra-la, mas a de anos atrás, aquela que ele deixara na estação de trem, a que passara a vestir roupas escuras e maquiagem pesada, mas a que estava a sua frente, era uma Rachel madura, com algumas marcas de expressão colorindo seu rosto, mas que também tinha a expressão de alguém que já passou por diversas batalhas e carrega consigo o suor de cada uma delas. Aquela era a sua Rachel, a que viera do mesmo tempo que ele. Sentindo-a em seus braços, ele percebeu que juntos, eles poderiam resolver qualquer coisa. Eles eram invencíveis e poderosos e o sentimento que nutriam um pelo outro era mais forte que as barreiras do tempo.
–x-
Finn parou a frente do apartamento de Rachel. Ele levantou a mão, fazendo menção de bater na porta, mas parou. O jovem rapaz respirou fundo, forçando-se a encarar a inevitabilidade. A poucos passos dele, atrás da barreira de madeira a sua frente a mulher que ele amava beijava outro. Ele sabia, pois foi o que o Finn do futuro o contara. Ele duvidaria dele mesmo? Obviamente não.
Duas batidas antes de ouvir o som de passos vindo do interior do apartamento. “Aguente firme”, ele pensou.
Tão logo a porta se escancarou, Rachel lançou-se aos seus braços. Num ato instintivo, ele rodeou sua cintura com os braços, acariciando seus cabelos e costas. Como ele sentia falta dela, como o mundo não parecia girar quando ele estava distante dela, como as horas pareciam inúteis e sem razão de ser e como um vazio maior que o medo se instalava dentro dele. Senti-la em seus braços, fazia o mundo voltar ao seu eixo e as estrelas voltarem ao seu curso. O destino parecia certo.
Não. Mais do que isso.
O destino era certo. Eles pertenciam um ao outro.
Ele sequer se importou em perguntar o que ocorrera, se havia algo que ele precisava saber ou qualquer outra trivialidade, porque sim, diante do amor que dividiam, qualquer outra coisa era mera trivialidade que poderia ser esquecida facilmente, assim como as peças de roupa que agora eram esquecidas ao chão, enquanto lábios sedentos se degustavam, experimentavam, saudosos e vorazes.
Seus corpos se encontraram e fizeram-se um só. O momento era mágico e de incrível beleza. A saudade aumentava a chama entre os dois e eles encontraram descanso um no outro. Unidos afinal.
Não haveria forças no mundo que pudessem deter o amo, isso eles sabiam. O tempo não era capaz de separá-los, as areias da sorte tampouco. Eles sempre achariam o caminho de volta.
Era tarde da noite quando Rachel revelou seu encontro com sua versão do futuro e ficou surpresa ao saber que o mesmo ocorrera a Finn. Querendo resolver os desentendimentos e mal entendidos de uma vez por todas, a aspirante a atriz da Broadway confessou ao namorado que existia um rapaz em sua faculdade que mostrava interesse nela. Infelizmente o assunto acabou levando a terrenos mais obscuros.
A autoestima do rapaz ainda estava abalada por tudo o que ocorrera no campo de treinamento na Geórgia. Ele se sentia um fracassado, um fracassado que ia acabar de uma maneira pior do que seu próprio pai. Porque embora Christopher Hudson houvesse se entregado ao vício em drogas e morrido de overdose, ele, ao menos, tinha provado ser um grande homem durante o tempo em que serviu no Iraque e Afeganistão. Ele conseguira ser um soldado. Finn não conseguira nem sair do campo de treinamento.
O gosto do fracasso.
Era esse o gosto que ele sentiria para o resto de sua vida. O gosto dos lábios de Rachel nos seus, só reafirmava que ela merecia mais do que ele, ela merecia mais do que uma vida de tropeços, ela merecia tudo. E no que dependesse de Finn Hudson, ela teria tudo. Ele poderia não ter feito a diferença como seu pai, ele poderia não ser um grande homem, mas ele possuía princípios e ele desejava que Rachel provasse tudo o que o mundo tinha a oferecer. Ele não estaria ao seu lado e ele sabia o quanto o machucaria, mas seria para sua felicidade maior. A felicidade de ver a mulher amada tomando conta do mundo. Não era essa a definição do amor? O amor não era apenas amor verdadeiro quando em liberdade?
Foi por isso que Finn pediu perdão a Rachel após se amarem. Foi por isso que ele saiu pela mesma porta que entrara, mas agora sentindo a dor grunhir em seu peito. Foi por isso que Rachel saiu ao seu encalço.
Tarde demais.
Do outro lado de rua, numa das avenidas mais movimentadas de Manhattan, Finn e Rachel, os que vieram do futuro, observavam o desenrolar da cena.
Era quase meia noite, o carro vinha em alta velocidade, velocidade suficiente para não perceber a figura do alto rapaz atravessando o cruzamento.
Rachel parou na calçada, caindo de joelhos, os olhos salpicando de lágrimas. Ela mal conteve o grito seco.
– NÃO!!
A jovem voltou a correr, tropeçando nas próprias pernas, a dor impossibilitando seu raciocínio. Não poderia ser, não com o seu Finn, não agora que eles se entenderiam. Ela não poderia perdê-lo para sempre. Esse não poderia ser o seu destino. Perder o amor da sua vida na cidade dos seus sonhos.
Jogando-se sobre o corpo já sem vida do homem que quase foi soldado, quase foi o seu marido, quase foi sua vida toda.
Todo o cruzamento assistia a cena. Alguns choravam pelo fado da jovem menina desconhecida, outros apenas comentavam. Acima de todo o barulho e confusão, num dos prédios que se erguia sobre a avenida, Rachel e Finn, viajantes de outro mundo, observavam em silêncio.
– O que eu fiz... – Rachel se pronunciou. – Eu deixei você morrer, eu pensei que poderíamos mudar o passado, reescrever tudo, mas agora seremos obrigados e permanecer separados pra sempre. O que nos acontecerá?
Finn tomou as mãos da mulher entre as suas, sentindo uma forte vertigem tomar conta de sua corrente sanguínea.
– Hey, hey... – Ele acariciou gentilmente o queijo da esposa. – Nós erramos, sim. Talvez não devêssemos tentar mudar o que já aconteceu, talvez isso afete as outras realidades. Mas mesmo que depois de hoje nós nunca mais nos encontremos, eu preciso que você sabia que nosso casamento nunca foi um erro, nossa família não é um engano, nosso amor não é uma escolha aleatória. Não importa o que aconteça comigo, eu sempre estarei com você, pra sempre. E se tudo na nossa história foi um erro cometido pelos céus... Oh, meu Deus, que erro brilhante!
Era difícil enxerga-lo diante da cortina de lágrimas que se formava em seus olhos e agora caia pesadamente sobre seu rosto. Perdê-lo para sempre era algo que ela não conseguia conceber e, no entanto, estava acontecendo naquele exato momento e ela nada podia fazer para impedir.
A pele de Finn começou a se tornar menos nítida, era como se ele estivesse suavemente transformando-se em poeira ou em pequenas partículas de estrelas, átomos, moléculas de universo, sua imagem foi desaparecendo, enquanto ele sussurrava um último “Eu te amo”.
Rachel se viu sozinha em cima do edifício, olhando as estrelas lá em cima. A última coisa que ela enxergou, porém, foi uma profunda escuridão que a tragava para dentro dela como um redemoinho. Ela sabia que era o fim. O passo final da jornada. Dentro dela só havia a esperança de um dia voltar a encontrar o amor de sua vida, nesse ou em outro universo.
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