Serendipitia
3 O destino que nos une
Notas iniciais
No dia seguinte os raios de sol escapando entre a cortina esfarrapada e os cutucões de Johnny no meu pé acabaram me acordando.
— Temos que comprar algumas coisas para nossa dispensa — ele explicou, enquanto eu me sentava e coçava minha cabeça sonolento. — Além disso, o diretor quer nos ver.
Aquilo definitivamente acabou me deixando mais desperto. Meu pai havia me falado sobre o diretor do Colégio Soo Man, para tomar cuidado com ele pois ele era um homem de grande influência, mas eu não sabia o que aquilo poderia fazer diferença para mim. O nome dele era Lee Hyunkyu e ele era o filho mais velho do falecido Lee Soo Man, fundador da instituição.
— Lee Soo Man costumava ser um homem de grandes ambições, Sicheng — meu pai havia dito e sua expressão era de ressentimento. — Seu filho não deve ficar muito longe disso. Uma vez que ele souber que você é descendente da família real… Ele ficará de olho em você.
Eu não sabia o que aquilo poderia representar para mim, se poderia ser uma ameaça. Mas pelo tom de meu pai, Lee Hyunkyu não iria ficar de olho para tomar conta de mim. Na verdade, poderia ser bem ao contrário.
Todos vestiram roupas muito formais, então tentei escolher alguma coisa que fosse parecido, mas meu pai não tinha colaborado muito. Todas as roupas em minha mala pareciam caras demais, sofisticadas demais.
— Ok, isso é definitivamente um outfit — Ten exclamou em um inglês exagerado. — Winwin, quanto custou essa blusa? Não acredito, ela é de seda? Organza de seda… Esse bordado é de Soutache, Winwin você é herdeiro de alguma multinacional?
Sorri sem graça, tentando afastar as mãos dele do colarinho da minha blusa. Estávamos parados em frente ao elevador esperando que ele chegasse no nosso andar e todos pareciam estar reparando nas minhas roupas.
— N-Não é nada demais — falei em inglês, para deixar tudo esclarecido para todos. — É do meu pai.
— Meu pai não se veste tão bem assim — Yuta comentou e o inglês dele era engraçado de ouvir, com muito mais sotaque que o meu. Senti meu rosto queimar e ri um pouco nervoso, mas ele apenas riu e estendeu a mão para bagunçar meus cabelos. — Fica tranquilo aí, foi só uma brincadeira.
A sala do diretor ficava no prédio principal, por onde havíamos feito uma tour no dia anterior, mas a sala em si ficava dentro da secretária, por isso não tínhamos visto antes.
Fomos recebidos pela secretária, uma velha senhora bem vestida chamada Sra. Kim, que abriu a porta atrás de sua mesa e nos indicou para entrar e esperar. A sala do outro lado era tão ampla que nem dava para imaginar que ficava depois de uma sala tão pequena quanto a da Sra. Kim, mas ali estava. Haviam dois sofás, três poltronas e mais a frente uma enorme mesa de mogno com duas cadeiras e uma cadeira maior atrás, feita de estofado.
— Fiquem aqui nos sofás, o Sr. Lee chegará em alguns instantes — a Sra. Kim avisou, saindo logo em seguida e fechando a porta. Estávamos ali, sozinhos.
Todos se distribuíram entre os sofás e poltronas, mas eu fiquei de pé, olhando para a parede atrás da mesa do diretor. Haviam vários recados escritos a mão colados em um mural e protegidos por um vidro grosso. A maioria era em coreano e eu não conseguia entender o que queria dizer, outros eram em inglês mas um, em especial, havia me chamado a atenção.
— Winwin! — a voz de Yuta estava um tanto confusa. — O que está vendo?
Eu não respondi pois estava lendo um bilhete em questão. Era o único em chinês e eu podia entender, escrito em uma letra tão bonita quanto as palavras ali gravadas.
"Eu acredito na serendipidade, o que guia o nosso destino. Espero que fiquemos próximos, pois pensarei em você".
— O que guia nosso destino… — murmurei, tentando me aproximar para conseguir ler a assinatura pequena abaixo da frase.
Estiquei o braço para me apoiar na mesa mas antes que meus dedos tocassem o móvel, uma outra mão mais forte puxou meu braço para trás, me fazendo dar as costas para os bilhetes.
Um homem de terno me imobilizou e eu olhei desesperado para meus colegas, sem entender nada. O aperto em meus braços era forte o bastante para que eu não pudesse me mexer.
— Quem deu a você a permissão de chegar perto da minha mesa? — um homem mais velho e bem vestido se aproximou. Ele parecia ter a idade do meu pai e usava um terno azul perfeitamente alinhado. — Qual o seu nome?
— Winwin! — respondi automaticamente. O olhar frio daquele homem tinha me deixado desconfortável e amedrontado. — Eu não. Não. Não falo inglês. Só… China.
Ele franziu a testa e me lançou um olhar de desagrado, mas Johnny veio ao meu socorro. Ele disse algo em inglês para o senhor, que estalou os dedos e fez o segurança me soltar.
Johnny arregalou os olhos para mim e me puxou pelo pescoço, me fazendo ficar próximo deles. O senhor começou a falar algo, em um tom nada caloroso porém menos rígido do que usara comigo segundos antes, mas eu estava tão nervoso que eu não estava conseguindo fazer o mínimo esforço para entender.
Mas palavras não eram necessárias, o nome bordado em dourado no bolso do paletó já dizia tudo. Lee Hyunkyu.
***
O discurso de Lee Hyunkyu demorou mais ou menos longa hora, mas somente quando fomos dispensados é que fiquei sabendo do que havia se tratado. Enquanto caminhávamos para o supermercado mais próximo, Johnny traduzia para mim que Hyunkyu tinha contado sobre sua própria história, sobre o colégio e os valores que deveríamos respeitar.
— A história dele é tão importante assim? — perguntei, um pouco curioso.
— Um casamento muito afortunado e ascensão na sociedade coreana, nada que nos impressione — o mais alto respondeu, rindo.
Johnny estava me parecendo um cara legal, embora aquele rosto com traços muito bonitos fosse bem injusto. Por onde passávamos as meninas paravam e davam risadinhas para ele, mas Johnny ou não se importava ou fingia não ver. Ele parecia estar a vontade fosse qual fosse a situação.
Yuta e Jane estavam sempre juntos, mas não como um casal. Assim como Johnny com as garotas, Yuta parecia não perceber o quão Jane tentava a todo custo chamar a atenção dele, o japonês parecia concentrado o tempo todo, isso quando não estava no celular. Na maior parte do tempo Nakamoto estava digitando furiosamente em seu celular e eu me perguntava com quem ele estaria conversando tanto.
Já Ten era risonho, carismático e todos a nossa volta, sem exceção, pareciam gostar facilmente dele. Era Ten quem lidava com tudo a nossa volta, fosse para pagar no caixa ou chamar o garçom.
Jane, quando não estava colada no Yuta (o que era raro), ficava em silêncio ao lado do irmão. Os traços dela lembravam muito os de Johnny, mas sua beleza era normal, nada que chamasse muito a atenção. Embora não fossem muito carinhosos um com o outro, quando estavam juntos os irmãos Seo se chamam pelo seus verdadeiros nomes, Youngho e Younghee e essa parecia ser uma coisa só deles.
E então tinha eu. Estávamos nos tornando mais próximos, nos conhecendo melhor, mas de alguma forma eu não sabia qual era o meu papel ali, qual era minha importância. Mas com o tempo, talvez, eu fosse entender.
***
Mais tarde, ainda naquele dia, quando Kun me ligou perguntei a ele o que era serendipidade, mas assim como eu ele também não sabia o significado.
Era quase uma da manhã e tanto Johnny quanto Ten estavam dormindo, o mais alto roncava baixinho e o tailandês estava encolhido em uma bola de cobertores. Yuta estava, como sempre, digitando apressadamente em seu celular e eu fiquei hesitante em perguntar qualquer coisa porque as vezes ele me dava medo.
— Por que está me encarando, Winwin? — ele perguntou, virando os olhos pra mim e com um sorriso brincando nos cantos de sua boca. Ah, o sorriso dele definitivamente era de tirar o fôlego. — Hm?
— Ah! — eu exclamei, de guarda baixa. Eu nem estava pensando em perguntar a ele sobre o que eu estava pensando. — Estava só… Pensando.
— É bom pensar — ele respondeu, os olhos atentos na tela brilhante. Ficamos assim por alguns segundos até que ele suspirou e colocou o celular de lado. — Qual o problema?
Dei de ombros. Era engraçado como ele pronunciava o r em inglês, parecia um pouco como eu fazia.
— Você… Sabe o que é serendipidade? — perguntei, tentando pronunciar o r normalmente, e não um “l” como eu costumava fazer, mas saiu estranho então precisei repetir novamente, com mais calma. — Serendipidade.
Yuta assentiu e abriu a boca, mas não falou nada. Ao invés disso ele olhou para o teto confuso e imaginei que ele estivesse procurando as palavras certas para explicar em inglês.
Ele digitou algo em seu celular e sorriu em minha direção. Seria um pouco de falta de educação pedir para que ele não sorrir daquela forma para mim?
— Tem um livro. Se chama “Os Três Príncipes de Serendip”, fala sobre… Três príncipes vivendo aventuras. Eles encontram várias coisas boas sem querer. — ele explicou. — Serendip… A palavra, serendipitia, veio dessa história. São boas desco… Descobertas. Feitas por acaso.
— Seu inglês é bom — foi tudo o que eu consegui dizer. Yuta franziu as sobrancelhas e eu apenas curvei a cabeça. — Obrigado.
Então era isso o que aquele bilhete dizia. Quem quer que houvesse escrito ele para Hyunkyu estava dizendo que encontra-lo fora uma boa coisa, que eles eram guiados por essas descobertas feitas por acaso.
A serendipitia os colocou no mesmo caminho.
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