Serendipitia
4 A nascente de um rio
Notas iniciais
O resto da nossa semana livre passou rapidamente. Quase todo dia íamos visitar algum lugar novo aos redores e por mais que tentássemos sempre irmos todos juntos, acabamos nos aproximando um dos outros separadamente.
Na maior parte do tempo Yuta ou estava ocupado em seu celular ou acompanhado de Jane e eles pareciam gostar de ficar juntos o tempo inteiro. Estranhamente, me peguei com irritação ao pensar naquilo, não me parecia justo que ele… Que eles tivessem que ser isolar do restante de nós.
Johnny de alguma forma acabou encontrando a turma de jogadores de basquete do colégio e ele quase sempre ia assistir aos treinos. Embora ainda estivéssemos em época de férias escolares, uma vez ou outra víamos alguns alunos perambulando pelo colégio, em grupos carregando instrumentos ou sozinhos carregando livros pesados.
Então sobrávamos eu e Ten. Não era de todo ruim, Ten era um cara muito simpático e mesmo que não conseguíssemos nos comunicar direito era legal estar com ele. Mas, quanto mais passávamos tempo juntos, mais ele parecia distante.
Eu não queria ser um fardo para ele, o menino chinês bobinho que não sabia fazer nada por si só. Queria que Ten ficasse confortável em minha presença, pudéssemos aprender um pouco um com o outro e termos uma amizade legal.
Na sexta a tarde, dois dias antes das nossas aulas começarem, nós dois fomos mais uma vez ao rio Han. Gostávamos de ir próximo da hora do por-do-sol porque era quando o céu se pintava de laranja e todos saiam para passear com seus animais de estimação, filhos, amigos e namorados. Era legal podermos comprar algumas panquecas e ficarmos ali, observando aquela bonita paisagem.
Mas naquela tarde em especial, quando saí do banho, Ten não estava esperando por mim. Johnny estava na nossa cozinha improvisada comendo uma tigela de cereal enquanto assistia o noticiário na pequena tv da sala (o espaço era tão pequeno que era possível assistir a tv de praticamente qualquer parte do cômodo).
— Johnny — eu o chamei, ficando de pé em frente a ele. Ele largou a colher distraidamente e olhou para mim. — Onde está o Ten?
— Entre o 9 e o 11 — ele respondeu, com uma risada descontraída. Olhei para ele confuso e ele apenas abanou a mão. — Deixa para lá. Ele disse que foi ao rio Han, por quê?
— Nós sempre vamos juntos — expliquei, franzindo os lábios. Johnny deu de ombros e voltou a comer. — Vou procurar ele por lá…
Johnny ergueu a mão livre para mim e mostrou o polegar. Quando o deixei sozinho no dormitório, ele já estava olhando para a tv novamente e brincando com a colher entre os dedos.
* * *
Não foi tão difícil achar o tailandês. Sempre ficávamos na mesma parte da orla, próximo a uma árvore de cerejeira que naquela época do ano não estava com os galhos secos, sentados em uma toalha e comendo panquecas.
Ten estava sentado no lugar de sempre, mas sem mim e sem as panquecas. Ele olhava para o horizonte, do outro lado do rio, e seus olhos estavam vermelhos como quem estivera chorando a pouco tempo.
— Ten! — eu o chamei, ficando de pé no campo de visão dele.
O rapaz deu um pulo, assustado e olhou para cima com um misto de horror e confusão.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou indignado, como se eu não tivesse o direito de estar ali.
— Já fazem dias… Que nós ficamos aqui, no mesmo horário — expliquei, sem entender. Eu havia comprado panquecas para nós e coloquei o saquinho com elas ao lado dele. — Mas você não me esperou hoje.
Ele deu de ombros, olhando para as panquecas como se elas fossem embalagens vazias que alguém deixou ali sem querer.
— Quero ficar sozinho hoje — ele disse, sem olhar em minha direção. — Vá embora.
Continuei olhando para ele, o rapaz sentado abraçando as próprias pernas com o rosto voltado para o chão. Lembrei de quando Kun ficava magoado com alguma coisa e tinha a mesma atitude.
Lentamente, como se estivesse esperando por uma reação explosiva dele, me sentei ao seu lado e coloquei o saco de panquecas no meu colo. Mas ele continuou lá na mesma posição, então eu apenas olhei para frente sem saber o que fazer.
— Eu disse para me deixar sozinho — ele resmungou, ainda sem olhar para mim. — Consegue entender isso? Sozinho. Sai. Vai embora.
— Eu entendi — respondi, percebi assustado que por um momento eu pareci estar com raiva. Ambos nos olhamos assustados e algo se clareou em minha mente. — Mas você não quer ficar sozinho de verdade. Você… Está aqui. Nosso lugar. Se não… Teria ido para um lugar diferente.
Ten olhou para mim e abriu a boca mas nada disse. O franzido em sua testa estava desaparecendo e os olhos de repente estavam tristes. Eu não sabia como agir, como consolar ele, então apenas continuei ali.
Ficamos por um tempo em silêncio olhando para o horizonte até que ouvi ele fungar. Olhei assustado para Ten e ele estava chorando, o punho pressionado contra a boca para não soluçar muito alto.
— Ten…
Ele olhou para mim, os olhos transbordando de raiva, o que fez com que eu me afastasse inconscientemente.
— EU SOU GAY — ele berrou e eu me encolhi, assustado com o tom de voz dele. — Eu gosto de meninos, esse é o problema.
Fiquei em silêncio, olhando para ele. Kun já havia me dito que nos tempos de agora já haviam pessoas se assumindo, garotos que gostavam de garotos e garotas que gostavam de garotas. No mundo no qual fui criado aquilo nem era mencionado, todos fingiam que não existia, para a realeza chinesa a homossexualidade era algo que eles até podiam praticar em segredo, mas não tratado como normalidade.
— Essa é a parte em que você sai correndo — Ten murmurou, limpando as lágrimas com as costas da mão. — Não precisa ser gentil.
— Por mim, tudo bem — eu falei, cutucando seu cotovelo com o meu. Ten ergueu o rosto em minha direção, os olhos vermelhos me avaliando com cuidado. — Você é gay. Tudo bem.
As sobrancelhas dele se ergueram e ele murmurou coisas sem sentido, mas tão baixinho que nem fez diferença. Ten virou o rosto em direção ao rio mas olhou de volta para mim, repetindo o movimento repetidas vezes.
— Você não vai fugir? — ele indagou e eu neguei com a cabeça. O tailandês assentiu, mesmo parecendo surpreso. — Que estranho.
Passamos o resto da tarde fazendo o que vínhamos fazendo todos os dias, observando o rio, as pessoas que passavam, conversando sobre dança, ensinando um ao outro nossos respectivos idiomas e comendo panquecas. Ten parecia mais à vontade e sorria muito mais do que antes.
Um pouco depois do sol se por, ao invés de pegar um táxi, caminhamos de volta ao dormitório. As luzes de Seul a noite eram lindas e a cidade continuava tão vívida quanto de dia.
Quando chegamos em frente ao Colégio Soo Man, Ten me puxou pelo braço e nós paramos um de frente para o outro na calçada. Ele era um pouco menor que eu, eu reparei, o que o deixava com uma aparência mais frágil e eu com uma menos infantil.
— Não conte para os outros, tá bom? — ele pediu, erguendo as mãos em súplica. — Você tem que prometer. Johnny e Yuta são legais, mas se souberem poderão me expulsar do quarto e eu não quero arrumar confusão. Jane também não, ela pode contar ao irmão.
— Não contarei — eu assenti, abrindo o portão. Ten suspirou aliviado e nós entramos no terreno do Soo Man, dando boa noite para o vigilante em sua guarita.
Quando chegamos ao nosso dormitório, Yuta e Jane estavam sentados no chão comendo o que parecia ser alguns sushis.
— São coreanos — Yuta respondeu, apontando com os kuàzis para os bolinhos de arroz. — Mas os japoneses são melhores.
— Como estava o rio Han? — Jane perguntou, olhando para nós. Ela já tinha conhecimento de nosso hábito diário de ir até lá. — Ainda não fui até lá… Podíamos ir amanhã, Yuta?
Yuta deixou o bolinho de arroz escapar de seus kuàzis e deu uma risada nervosa, olhando para nós e então para Jane. Seus olhos se voltaram em minha direção por um segundo e ele negou com a cabeça rápido demais para que fosse mal interpretado.
— Eu… Acho… Que Ten e Winwin conhecem muito bem o lugar, não é mesmo? — ele disse e tanto eu quanto Ten ficamos sem resposta pois Jane olhou de canto para o rapaz japonês com uma expressão nada amigável. — O que acham, vocês podem nos levar até lá amanhã. Winwinie, você falou das panquecas, não é mesmo?
Meu coração pareceu que iria parar de bater por um momento. Nenhum dos outros tinha me chamado de Winwinie antes, aquilo implicava intimidade demais. Dei um tapinha discreto na minha bochecha para me recompor e assenti.
Por fim, acabamos combinando que no dia seguinte iríamos todos ao rio Han. Ten estava de acordo, Yuta parecia confortável, mas Jane ao menos tentou disfarçar seu desgosto, mesmo quando o japonês segurou a mão dela e balançou para anima-la.
A lâmpada da ideia pareceu se acender na minha cabeça. Seo Jane estava afim de Nakamoto Yuta, é claro.
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