Serendipitia

2 O cair do precipício


Notas iniciais
Tô aqui de volta! Por favor, não esqueçam de comentar!

O táxi nos deixou em frente dos portões enormes e intimidadores do Colégio Soo Man. Um moço muito bonito que não parecia tão mais velho que nós estava nos esperando. Ele usavaum terno que aparentava ter sido comprado muito recentemente e quando nos aproximamos o suficiente ele nos cumprimentou em nossos respectivos idiomas.

Ele começou a falar em inglês, o que entendi pouca coisa. Seu nome era Taeyong, ele era nosso mentor e estava ali para nos entregar nosso material introdutório. Ele entregou a cada um de nós um fichário e eu vi que haviam vários folhetos e papéis grampeados, todos em mandarim.

— Agora, para Dong Sicheng — ele disse em chinês e eu senti meu estômago revirar. É claro que eles não iriam me chamar pelo meu nome falso e eu tinha me esquecido disso. — Você e Jane são os únicos que não sabem nada de coreano, então serão colocados em uma turma separada para aprender o idioma, tudo bem?

Olhei para Jane e ela deu um meio sorriso para mim. Acho que não seria tão ruim, na verdade era até bom porque eu não me importava que ela fosse assistir meus erros tentando aprender a língua daquele país.

Taeyong explicou que nós podíamos escolher nossos próprios colegas de quarto. O Colégio Soo Man não costumava receber alunos intercambistas, de modo que não havia dormitórios, mas eles tinham separado uma parte do ultimo andar do prédio A para nós ficarmos, um para Jane e outra para nós, os garotos.

Taeyong fez mais algumas considerações, nos deu as chaves do dormitório e então estávamos liberados. Johnny acabou propondo que fossemos fazer uma tour pelo colégio e eu acabei indo com eles.

O Colégio Soo Man, como dizia em um dos milhares de folhetos de introdução que Taeyong tinha nos dado, era um colégio com ensino diferenciado. Eram administradas aulas do ensino médio e aulas extra curriculares, estas de acordo com as opções que haviam sido marcadas na matricula.

Olhando minha grade de disciplinas, meu pai havia me matriculado em três extracurriculares: dança, teatro e ginástica. Até que ele não tinha feito péssimas escolhas, afinal.

Andamos pelo prédio A todo, passando pela parte da administração, sala dos professores e dois auditórios. O colégio era muito grande, tinha mais quatro prédios, mas estávamos tão cansados que fomos direto para nossos dormitórios.

O elevador nos levou até o último andar, onde ficariam nossos dormitórios. Havia um corredor com uma porta de cada lado e ao final uma escada que, fomos dar uma olhada, levava a uma pequena sala com sofás que tinha uma bela vista dos terrenos do Soo Man.

A porta da esquerda era a de Jane e ela se despediu de nós com um pequeno aceno e disse que nos veria depois de tomar um banho e nós acabamos seguindo o exemplo dela, indo para a porta da direita.

Tínhamos uma sala de convivência com poucos móveis, sem nenhuma decoração, dois beliches ao fundo e mais para frente uma porta que parecia ser o banheiro.

Yuta colocou sua mochila em cima da cama de cima do beliche da esquerda e Ten colocou na cama em baixo da dele. Lancei um olhar sugestivo a Johnny para que ele pudesse escolher primeiro mas ele deu de ombros. Respirei fundo e optei pela cama de cima do beliche a esquerda, não era um problema para mim a hipótese de cair da cama pois eu não costumava me mexer muito.

— O dormitório parece um pouco sem vida — Ten falou e seu inglês era muito mais fácil para eu entender pois ele não falava tão rápido quanto Johnny. — Vamos colocar algumas coisas por aí.

Os três ficaram animados com isso. Yuta trouxe a coleção de seus mangás favoritos, um poster do One Ok Rock (a melhor banda de todas, segundo ele) e deixou seu cobertor favorito em cima do sofá em baixo da janela. Johnny trouxe os troféus da época em que jogava basquete e as faixas dos times em que foi capitão.

— Meu piano está vindo em breve, vou colocar ele ali — ele disse pra mim, apontando para um espaço vazio entre a porta de saída e nosso pequeno projeto de cozinha que consistia em um frigobar, um forno pequeno e um balcão com uns banquinhos.

Ten trouxe alguns porta retratos com fotos de um menino dançando em palcos diferentes que eu supus ser ele e um típico elefante de cerâmica da Tailândia que estranhamente harmonizou com os mangás de Yuta.

Os três se viraram para mim, esperando minha contribuição.

— Não tenho nada — respondi, olhando toda a combinação daqueles objetos. — Não… Pensei em trazer nada.

Eles olharam para mim com o que parecia ser compreensão e um pouco de pena. Suspirei desanimado. De alguma forma eles estavam se dando bem, conversando entre si enquanto eu só conseguia ouvir, assentir e observar uma combinação de pertences que não eram meus, não tinham significado para mim.

— Vamos sair pra comer — Yuta sugeriu, se levantando do sofá. O inglês dele não era pior que o meu mas com certeza o mais difícil de entender. — Dei uma olhada na internet e tem alguns restaurantes legais por aqui.

Ten e Johnny assentiram e pegaram seus casacos, se adiantando para a porta. Antes de sairmos, hesitei por um momento e abri minha mala, tirando o Pào e segurando o tecido em minhas mãos. Meus colegas estavam parados na porta e ao verem aquilo eles acenaram e sorriram, me encorajando. Sorri para eles de volta e pendurei o Pào na maçaneta da pequena estante que estava na sala.

Meu pai ficaria orgulhoso se pudesse ver aquilo.

***

Ficamos até tarde em uma pizzaria, uma vez que nenhum de nós estava pronto para experimentar a comida coreana. Era muito interessante como interagíamos entre nós, com tantos idiomas sendo falados ao mesmo tempo. Aquilo chegava a me dar com dor de cabeça.

Depois de jantarmos, fomos passear um pouco pelas ruas de Hongdae. Era um bairro muito legal, o quintal dos artistas naquele país, com apresentações de ruas e estabelecimentos variados. Tínhamos pela frente toda uma semana livre para nos adaptar até que nossas aulas começassem para valer, então não tínhamos horário para voltar. Aproveitamos um pouquinho de cada coisa, dos bares temáticos com karaokê até as pequenas exposições de esculturas em neon em um hall de arte.

Johnny contava muitas piadas que faziam todos rir, Yuta apontava para as coisas e despejava informações como uma Wikipédia ambulante, Jane sempre estava ao lado dele segurando a barra do seu casaco e pedindo para que ele explicasse alguma coisa, Ten fazia varias danças aleatórias conforme músicas diferentes chegavam e passavam por nós enquanto eu apenas assistia a tudo, curioso.

Meu celular vibrou no bolso do meu jeans e quando chequei era apenas uma mensagem de Kun. Ele estava me desejando boa noite e esperava que eu estivesse me divertindo. Olhei em volta, para meus colegas de intercâmbio e suspirei desanimado.

A barreira de linguagem era só um dos obstáculos, mas não o principal. Por ser da família real eu nunca tivera muita oportunidade para me socializar, visto que meu pai designará Kun para ser meu protetor e único amigo. Eu nunca tinha ido a escola e raras foram as vezes que pude pisar para fora das dependências do residencial real, então eu não sabia exatamente como me portar e interagir, se estava tudo bem ficar um pouco quieto ou se seria falta de educação falar demais.

Perto das duas da manhã voltamos para o Soo Man. Caminhamos aos tropeços até nossos devidos colchões, desejando um rápido boa noite com suspiros de cansaço. Não era fácil enfrentar horas em um avião, aula de introdução e passeio turístico tudo em um dia só.

— Ah, foi cansativo mas eu gostei — Johnny resmungou, se jogando na cama em baixo da minha. — Está tudo bem, Sicheng? Aliás, esse é seu nome, não é? Taeyong disse naquela hora.

Sentei na ponta da minha cama e apertei o lençol entre meus dedos. Yuta estava com os fones de ouvido e concentrado em seu celular enquanto Ten estava de olhos fechados enrolado em seu cobertor mas não parecia estar totalmente desperto.

Johnny não parecia desconfiado ou chocado, apenas curioso, o que me levava a crer que ele não tinha a minima ideia do que meu nome podia significar.

— Sim… Meu nome é Sicheng — confirmei. — Mas prefiro Winwin.

— Por que? Não gosta do seu nome? Eu acho bonito — ele comentou, a voz um pouco abafada.

Eu assenti e voltei a me deitar. O teto era de uma madeira nova, porém empoeirada. Aquele lugar todo tinha esse aspecto, talvez porque não era usado com muita frequência.

— Johnny — eu chamei e ele respondeu com um breve “ahn?”. — Por que veio para a Coreia do Sul? Se não for uma pergunta pessoal…

— Não é — ele respondeu quase que automaticamente.

Eu não sabia o porque tinha perguntado, mas fiquei imaginando que de alguma forma todos nós tínhamos um motivo para estar ali. Eu por exemplo, tudo o que eu sabia era que meu pai magicamente tinha cansado de me tratar como um passarinho engaiolado e sistematizado, e pensou que me largar na selva que era aquele mundo, sem nenhum tipo de aviso prévio ou preparo, era uma boa ideia. Ele simplesmente me empurrou cegamente para o precipício.

— Meus pais queriam que eu seguisse com a carreira de jogador de basquete, mas eu senti que queria mais que isso — Johnny respondeu, de uma forma tranquila. O mandarim dele era definitivamente muito melhor do que o meu inglês era. — A Jane sempre quis ser cantora, então eles mandaram ela para cá como em um passe de mágica. Eu só aproveitei porque eu quero ser pianista, sabe.

Respondi com um sim, ouvindo ele se remexer. Para Johnny devia ser difícil, assistir sua irmã mais nova ser livre para fazer o que quiser enquanto ele precisava ser o bonequinho dos pais. Acho que eu podia entender um pouco.

— E você, está aqui fazendo o que? — era a vez dele perguntar. — Você não me parece o tipo de filho rebelde.

— Não sou. Na verdade obedeço até demais — respondi, suspirando. — Meu pai me mandou para cá. Não sei o porque, ele só… Fez isso.

Johnny murmurou em concordância, mas não pediu mais detalhes. Eu não queria soar tão defensivo, mas acho que não conseguia controlar.

Não alongamos a conversa por muito tempo e em pouco tempo acabei pegando no sono. Era estranha a sensação de estar dormindo longe de casa, muito longe, mas meu cansaço foi maior do que qualquer coisa.

Meu cansaço só não estava sendo maior que o vazio.