Separated by time, united by the creed
9 Please wait! I have so many questions!
Notas iniciais
— Altaïr, o grande mentor, responsável pelo que a irmandade é hoje. — Anne respondeu antes que eu fosse capaz de dizer qualquer coisa. — Por favor, não me decepcione dizendo que não o conhece. Você é um mestre e como tal...
— Mas é claro que conheço! Todo assassino conhece. Não seja ridícula! — Dexter a interrompeu, de forma rude e mal educada, deixando claro o quão estava irritado.
— O que disse? — Perguntou Anne, incrédula com tal atitude, agora, assim como ele, também estava furiosa. — Olha, Dexter, se você acha que vai...
— Erika, preciso falar com você. — Mais uma vez interrompeu-a, ignorando-a completamente de forma corajosa, considerando o que eu sabia sobre Anne. Ao falar, olhou bem fundo em meus olhos como se me examinasse.
— Conversamos depois, eu preciso partir o quanto antes. — Disfarcei e continuei a arrumar minhas coisas como se nada estivesse acontecendo.
— Agora! — Usou de um tom imperativo, erguendo um pouco a voz.
— Depois. Estou de saída. — Insisti, falando da forma mais séria e segura que consegui. Peguei todas as minhas coisas e me acomodei na poltrona do Animus, olhei para Anne, que entendeu o recado e, nada contente com a atitude de Dexter, fez questão de iniciar a abertura temporal ela mesma como uma leve “vingança”, uma vez que Vinny e Felipe não estavam ali. A última coisa que vi foi a expressão furiosa de Dexter, como havia visto poucas vezes e que, para ser sincera, me dava um pouco me medo.
Assim que a viagem se encerrou logo de cara percebi que havia algo errado, eu não estava em Masyaf ou algum lugar próximo, mas sim em uma estrada de terra cercado por belos campos verdes até onde a visão alcançava, no que era uma agradável tarde com uma temperatura amena. Aquele lugar definitivamente não era a Síria, porém, eu não fazia a mínima ideia de onde pudesse ser. Ao tentar contatar Anne várias vezes pelo relógio não obtive resposta alguma e, antes que eu entrasse em desespero, resolvi caminhar até encontrar a cidade mais próxima… Ou talvez alguém. E foi o que aconteceu, depois de caminhar por horas apreciando aquela maravilhosa paisagem avistei um viajante montado em seu cavalo que se aproximava, do qual não consegui ver muito mais do que a sombra em meio à luz alaranjada ofuscante do pôr-do-sol.
— Ei! Aqui! — Em uma atitude nada inteligente influenciada pelo desespero do momento entrei na frente, bloqueando a passagem, e balancei os braços esperando que o homem parasse. — Para! Por favor! — Por não saber onde estava, eu disse em minha própria língua, um pouco sem fôlego por conta da longa caminhada. Fiquei feliz ao ver que o viajante diminuiu gradualmente a velocidade com que cavalgava e logo parou, descendo do cavalo e se aproximando. A luz do sol ainda não me deixava vê-lo normalmente e incomodava minha visão, cheguei a cobrir parte dos olhos na esperança de bloqueara luz e enxergar melhor, o que não mudou praticamente nada.
— O que uma bela ragazza (garota) como você faz viajando sozinha pelas estradas de Roma? — Perguntou gentilmente o homem com uma voz grave marcante que soava tão bem que me arrancou até um sorriso tímido sem que eu percebesse. — Não entendi o que você disse, mas imagino que precise de ajuda, não? — Ele deu alguns passos pelos campos e arrancou várias rosas vermelhas dentre os canteiros com as quais improvisou um buquê. — Sou Ezio Auditore da Firenze. Onorato (honrado) em conhecê-la. — Ao se apresentar fez uma leve reverência, aproximou-se devagar até chegar bem perto de mim para me entregar as rosas. Agora finalmente eu podia vê-lo e o mesmo esboçava um belo e cativante sorriso, também podia sentir o seu delicioso perfume. Aquilo tinha tudo para ser um daqueles momentos românticos de filmes onde duas pessoas se encontram pela primeira vez e rola um clima, isso se eu não tivesse estudado a database do Animus e não conhecesse a famosa reputação de “pegador” dele, algo que eu detestava e me dava nojo em qualquer homem.
Créditos para o artista Hinoe-0 (veja a imagem original aqui)
— Só pode ser brincadeira. — Resmunguei baixinho, revirei os olhos e peguei as rosas somente por educação. Eu não falava italiano faziam meses e estava um pouco enferrujada, mas como eu não havia trazido o dispositivo tradutor de Vinny comigo, a ocasião exigia. — Pode me indicar onde fica a cidade mais próxima, por favor? — Falei da forma mais gentil que consegui.
— Estamos à uma hora de Roma. Posso levá-la até lá. Suba em meu cavalo. Venha! Eu te ajudo. — Estendeu a mão, mais uma vez bancando o gentil e certamente achando que me enganava com todo aquele charme.
— Não, obrigada. Basta me indicar a direção que eu sigo sozinha. — Cruzei os braços, o encarando feio enquanto aguardava pela resposta.
— Siga pelo norte até avistar os arcos nas planícies. — Respondeu não muito contente, apontando a direção.
— Certo. Obrigada! — Fui curta e direta, logo voltei a caminhar, deixando-o para trás… Ou pelo menos pensando que tinha, pois não demorou muito até que eu ouvisse o som da lenta cavalgada e virasse a cabeça constatando que o assassino me seguia. — Ah, ótimo! — Soltei o ar pela boca em descontentamento e parei de caminhar, abrindo os braços como quem não entende. — O que você quer?
— Você não me disse seu nome. — Voltou a sorrir.
— Erika. — Respondi por educação.
— Acredito que você não seja daqui, não é mesmo, Erika?
— É… Não sou.
— França?
— Inglaterra.
— Ah, as mulheres inglesas... Conheci algumas. Mulheres de atitude. — Riu por alguns instantes, perdido em lembranças. — Eu deveria saber. — Usou de um tom mais sério, olhando para mim como se me analisasse.
— Já acabou? — Questionei já começando a ficar irritada, porém não obtive resposta. Conforme anoitecia o clima estava ficando um pouco frio, ajeitei o capuz do meu sobretudo e mais uma vez voltei a caminhar. — Ótimo! Agora preciso ir. Mais uma vez, obrigada pela ajuda.
— Antes de ir deveria saber que essas estradas não são nada seguras, muito menos durante a noite. — Seguiu cavalgando devagar ao meu lado.
— Eu sei me defender. — Falei de uma forma um pouco rude, outra coisa que eu detestava, e essa desde a infância, era ser tratada como uma garotinha indefesa, o que foi minha realidade por muitos anos.
— Tenho certeza que sabe, irmã. — Mais uma vez sorriu, dando uma breve pausa. — Veio em missão para a irmandade? — Perguntou de forma sagaz, claramente deduzindo pelo meu “manto”, que embora fosse bem diferente de qualquer coisa que ele já devia ter visto, me entregava pelo design do capuz e, é claro, pela lâmina oculta, a qual Ezio notou inclusive que estava quebrada. — Tenho um amigo que pode consertá-la.
— Você não tem pizzas e vinhos pra fazer? Sei lá… Essas coisas de italiano? — Não resisti e acabei soltando essa piada infame. Apertei o passo pra ver se ele entendia o recado e parava de me seguir.
— Ma cosa? (Mas o que?) — Obviamente ele não entendeu, pra minha sorte. — Olha, se deseja apreciar um bom vinho veio ao lugar certo. O que acha de bebermos umas taças juntos? — Mais uma vez seguiu cavalgando ao meu lado, ainda esbanjando charme e todo seguro de si, pelo visto não sabia quando desistir.
— Qual é o seu problema, hein? — Eu já tava pra xingar ele, precisei me controlar.
— Cesare Borgia — Respondeu em um tom sério, não sei se foi proposital ou se o assassino não havia entendido a pergunta.
— Não esse. Eu quis dizer… — Ri sem nem perceber, foi automático. — Ah, esquece. — Respirei fundo e continuei caminhando. — Que saco! — Falei em meu próprio idioma para que ele não compreendesse. Depois de vários minutos andando pela estrada, Ezio continuava me seguindo na maior cara de pau como se fosse meu guarda-costas ou algo do tipo, ás vezes não dizia nada e em outras fazia perguntas as quais eu ignorava na esperança de que o mesmo desistisse e fosse embora logo, o que infelizmente não aconteceu, a cada minuto que passava eu ficava ainda mais irritada com aquilo até o ponto em que simplesmente não aguentei mais. — Será que dá pra você parar de me seguir? — Ergui o tom de voz, gritando enquanto o fuzilava com o olhar.
— Não estou lhe seguindo. Estamos indo para o mesmo lugar. Tenho alguns... — Deu uma breve pausa. — Negócios em Roma.
— Que bom pra você. Então por que não vai mais rápido? — Queria me livrar dele o quanto antes, mas ao contrário, parecia que eu só o atraía cada vez mais. O assassino desceu do cavalo e me alcançou, entrando em minha frente de propósito para que eu parasse de caminhar, em seguida aproximou-se devagar, chegando perto até demais, estávamos tão próximos que eu podia até sentir a respiração dele.
— Porque prefiro apreciar esta bela noite em boa companhia, se é que me entende. — Olhou para mim sorrindo, outra vez em uma tentativa de jogar todo aquele seu charme. — O que me diz? — Sussurrou em meu ouvido e cuidadosamente me agarrou pela cintura com uma das mãos enquanto com a outra tocou meu rosto, erguendo o meu queixo de leve, foi chegando cada vez mais perto e por pouco não me beijou ali mesmo, pois fui rápida o bastante para empurrá-lo e dar o belo tapa na cara que ele merecia.
— Cazzo! (Porra!) — Imediatamente colocou a mão sobre o rosto bem onde tinha levado o tapa, e tinha sido um tapa bem mais forte do que achei que eu pudesse dar, me senti até orgulhosa.
— Me respeite! Não sou uma dessas garotas bobas que você está acostumado a cortejar e que caem aos seus pés com um simples charme italiano barato. — Praticamente gritei, apontando o dedo pra ele e tudo, visivelmente furiosa.
— E é isso que a torna interessante. — Ignorando a dor, sorriu e me lançou um daqueles olhares que deixariam qualquer uma apaixonada... Qualquer uma, não eu.
— Para com isso! Não vai rolar, ok? Chega! — O repreendi em voz alta ainda fitando-o com o mesmo olhar furioso, logo em seguida virei o rosto para outro lado sabendo que eu iria corar e querendo evitar que Ezio visse.
— Inglesas... — Riu outra vez, totalmente despreocupado como se nada tivesse acontecido. Quando tirou a mão do rosto pude ver claramente a marca que a minha mão havia deixado.
— Idiota! — Mais uma vez falei em meu próprio idioma.
Quando finalmente cheguei em Roma foi um grande alívio, não só por não precisar mais carregar minhas coisas, mas principalmente por ter ficado livre de Ezio, que estranhamente seguiu seu rumo sem sequer dizer adeus, de qualquer forma, era bom estar sozinha novamente, agora eu podia tentar entrar em contato com Anne outra vez. Ao andar pela cidade não foi difícil notar o quanto as pessoas me olhavam, certamente estranhando a forma como eu estava vestida e, de fato, meu estilo moderno era totalmente incomum e devia parecer ridículo para aquela época. Entreguei o buquê de rosas que eu havia ganho do assassino para uma menina, aparentemente com uns 6 ou 7 anos, a qual encontrei brincando pelas ruas, foi gratificante ver o belo sorriso que a mesma expressou ao receber as flores, aquele simples gesto fez o meu dia mais feliz.
Escondida em um beco, tentei acionar vários comandos no meu Apple Watch modificado, mas como antes não obtive nenhuma resposta, a tela estava toda “chiada” e com um monte de falhas como a de uma televisão sem sinal, algo extremamente estranho para aquele tipo de equipamento. Abri minha mochila e dela retirei meu smartphone, visando fazer uma pesquisa na database do Animus atrás de respostas, mas para a minha terrível surpresa o dispositivo exibia a mesma tela do relógio, isso acontecia também com o tablet e com o notebook, todos exibiam aquela estranha tela. O que diabos estaria acontecendo? Cheguei a pensar que aquele problema, assim como o erro de cálculo que havia me trazido até o local e época errada, poderiam ter se originado do tal vírus extremamente poderoso e desconhecido que havia derrubado o nosso sistema dias atrás, porém era difícil imaginar algo assim quando eu mesma tinha acompanhado o processo e até ajudado, minimamente é claro, Vinny a se livrar do mesmo e recuperar o sistema. Confusa, assustada e já em desespero, caminhei de um lado para o outro por um bom tempo tentando pensar em uma solução... Nada me veio á mente. Guardei todas as minhas coisas de volta na mochila e caminhei até a praça mais próxima, onde sentei em um banco e fiquei observando as estrelas no céu, sem rumo... Sem ter a mínima ideia do que fazer a seguir. Embora eu tentasse manter a calma me distraindo, a verdade era que desde que havia chegado eu temia ficar presa ali para sempre e pensava em tudo o que deixaria para trás: Minha vida, meu tempo presente e tudo o que nele eu conhecia, meus amigos da irmandade... Mas por algum motivo nada disso me assustava tanto quanto pensar que eu deixaria Altaïr para trás, meu Altaïr.
As horas se passaram e aos poucos a praça foi ficando deserta, já era madrugada quando me levantei e comecei a andar pelas ruas, procurando algum lugar seguro para dormir, eu estava completamente exausta e com a visão um pouco embaçada, manter os olhos abertos naquele momento parecia uma tarefa quase impossível. Enquanto caminhava, ouvi um barulho que se parecia com passos vindo de algum lugar próximo, olhei para trás e para os dois lados, mas não vi ninguém, por instinto e precaução, peguei a primeira coisa que vi pela frente: Uma pedra que estava no meio da rua e que era um pouco menor do que a meu punho. Mesmo com medo, segui caminhando normalmente, procurando ficar atenta da melhor forma que meu estado permitia, até o momento em que ouvi aquele mesmo barulho uma segunda vez, imediatamente, por puro reflexo, me virei para trás e ergui a mão, prestes a atirar a pedra, quando dei de cara com Ezio ali bem na minha frente e levei um susto ainda maior, arregalando os olhos e abrindo a boca para gritar sem sequer conseguir emitir som algum. Ele segurou minha mão no alto, antes que eu pudesse arremessar a pedra e sorriu para mim, me olhando de uma forma que me deixou totalmente sem jeito.
— Perdonami (perdoe-me), eu não quis lhe assustar. — Moveu minha mão gentilmente, fazendo com que eu largasse a pedra e a abaixasse, continuou segurando-a enquanto ainda tentava usar de seu charme pela milésima vez.
— O que eu te disse sobre parar de me seguir, hein? Isso é doentio! — Outra vez o repreendi em voz alta, furiosa. Soltei minha mão da dele e o empurrei, me afastando logo em seguida. — Há quanto tempo está aqui?
— Tempo o suficiente para saber que está perdida e não tem para onde ir. — Estendeu a mão de forma gentil, continuava sorrindo. — Você é bem vinda para ficar conosco no esconderijo da irmandade.
— É... Melhor não. Obrigada. — Falei de uma forma mais calma, confusa, mais uma vez sem jeito diante dele. — Eu não deveria estar aqui. Preciso “encontrar” meus amigos e ir embora. Tenho uma missão pela frente. — Mudei para um tom mais sério, me virei de costas e voltei a caminhar, devagar.
— Já está muito tarde. Por que não descansa e procura por eles pela manhã? — Sugeriu gentilmente.
— E por que você não para de me encher, desiste e vai embora cuidar da sua própria vida? — Rebati, agora em um tom rude.
— Você é realmente difícil de lidar. — Disse de uma forma mais séria.
— É o que todos dizem. — Eu já estava deixando ele para trás e precisava falar um pouco mais alto do que o normal.
— Bene... (Bem...) Boa sorte então encontrando um lugar para ficar nas ruas com os ratos e a sujeira. — Riu baixo.
— Ratos e sujeira? — Me virei para o assassino, cruzando os braços e o encarando como se não quisesse acreditar.
— Roma não é tão bela quanto parece. Eu falei das doenças? — Continuou rindo. — Você verá por si mesma. — Virou-se e seguiu caminhando.
— Não, espera aí! — Mesmo que eu não quisesse admitir, ele tinha toda razão. Apertei o passo para alcançá-lo, detestando ter que dar o braço a torcer, principalmente para alguém como Ezio. — Acho que posso ficar só essa noite, vai ser bom conhecer nossos irmãos de Roma. — Me apoiei no ombro dele, esboçando um sorriso forçado.
— Irmãos de Roma... — Falou baixinho, rindo e movendo a cabeça em negativa, claramente zombando da minha repentina mudança de ideia. — Vamos? Acompanhe-me. — Tomou a frente, com um belo e orgulhoso sorriso nos lábios. Já ia escalando a construção mais próxima quando eu assoviei para chamar a atenção dele, interrompendo-o antes que chegasse até o telhado. — O que? — Perguntou de lá de cima virando a cabeça e olhando para mim logo abaixo, ainda agarrado aos apoios que o mesmo encontrara na parede.
— Prefiro ir andando, sabe? O chão existe pra isso. — Comecei a caminhar, esperando que Ezio desistisse da ideia de ir pelos telhados e fizesse o mesmo. Não queria ter que explicar o porque eu, uma assassina, simplesmente não era capaz de acompanhá-lo, afinal um mentor lendário sabendo o quanto eu era inútil já bastava.
— Está bem. Como quiser, bellezza (beleza). — Desceu tão rápido quanto subiu, ainda sorria todo orgulhoso, havia aceitado minha "sugestão" com tanta boa vontade que fiquei até confusa, e um pouco irritada mediante a tanta auto-confiança vinda dele.
— Não pense que venceu. — Falei enquanto o seguia, voltando a cruzar os braços.
— Vamos tentar outra vez: O que veio fazer aqui? — Tentou puxar assunto pelo caminho.
— Não vim. Eu nem deveria estar aqui. Foi um acidente, um erro. — Respondi, visivelmente descontente.
— Você fala como se tivesse surgido aqui por mágica e contra sua vontade. — Voltou a rir.
— Não por mágica, mas sim, foi exatamente o que aconteceu. — Enfatizei, em um tom mais sério.
— Você está bem? — Perguntou em um tom mais sério, parou por alguns segundos, me observando.
— Estou. Por que?
— Porque o que você diz não faz sentido.
— Não faz sentido pra você. — Retruquei, de uma forma um pouco rude.
— Olha... Eu já vi muita coisa, mas nunca vi alguém simplesmente aparecer em algum lugar. — Riu mais uma vez, a jeito com que ele encarava uma situação tão séria só me deixou ainda mais irritada. Talvez eu devesse entender que para alguém do tempo dele aquilo era realmente estranho e, de fato, o que eu havia dito soaria como uma loucura até mesmo no meu tempo.
— E quanto a Minerva? Ela “simplesmente apareceu” para lhe transmitir uma mensagem, não? — Confesso que não me contive, acho que acabei exagerando e falando que não deveria.
— O que você sabe sobre isso? — Parou de rir no mesmo instante e se mostrou não apenas surpreso como eu diria até aflito.
— O suficiente. — Fui curta e direta, era melhor não prolongar aquele assunto ou eu poderia acabar fazendo merda dizendo ainda mais coisas que não deveriam ser ditas. Ezio ficou calado o resto do caminho, provavelmente confuso, refletindo sobre o que eu havia dito e tentando imaginar como eu sabia daquilo. Assim que chegamos, eu já fui deixando as minhas coisas sobre a mesa mais próxima e me acomodando em uma poltrona bem macia que havia ali. — Ah, que beleza! Estou no céu. — Falei toda a vontade, até puxei uma mesinha para apoiar os pés. Quase não percebi que ninguém menos do que Nicolau Maquiavel estava parado ao meu lado me observando como um olhar atento, e quando finalmente notei arregalei os olhos, foi um “susto” e tanto. — V-você... Vo-você é... — Comecei a gaguejar, apontando pra ele, era a primeira personalidade histórica que eu encontrava e nervosismo foi tanto que mal consegui dizer uma palavra direito, apenas encará-lo de uma forma que talvez deve tê-lo incomodado.
— Seja bem vinda, irmã. Logo algum dos criados virá lhe servir e mostrar seus aposentos. Fique à vontade. Estarei na sala ao lado caso precise de mim. — Disse Ezio me interrompendo gentilmente antes de se retirar junto com Maquiavel, nem tive tempo de agradecer.
— Nossa! — Falei quando já estava sozinha, ainda incrédula, porém um pouco mais calma. Me levantei para observar a decoração, tudo era tão renascentista, aquele estilo era agradável e me deixava inspirada. Pude ver vários quadros que futuramente se tornariam extremamente famosos, verdadeiras obras primas bem ali na minha frente, eu sorria sem nem perceber, completamente admirada. A tal criada apareceu para me servi pão, frutas e um bom vinho, que decidi degustar ali mesmo antes de ir para os meus aposentos. Quando fui me retirar, já satisfeita, porém ainda segurando uma taça de vinho na mão e já tendo bebido um pouquinho mais do que deveria, não vi que alguém se aproximava e acabei esbarrando com um homem, derrubando todo o vinho sobre ele, manchando sua roupa e os vários pergaminhos que o mesmo carregava, os quais também fiz com que caíssem no chão. Completamente envergonhada, peguei o primeiro pano que encontrei pela frente para tentar limpar a roupa do pobre homem, desesperada. — Eu sinto muito... Eu... Não te vi aí... Me perdoe. — Falei toda nervosa e desajeitada, sem sequer conseguir olhar direito para o rosto dele, tamanha era a vergonha que eu sentia.
— Está tudo bem. Não se preocupe. — Respondeu o homem calma e gentilmente com uma voz doce e suave, tão agradável que me deixou até levemente mais tranquila.
— Olha só essa bagunça! — Deixei o pano na mão dele e me abaixei para pegar os pergaminhos, pareciam se tratar de anotações importantes, o que me fez sentir ainda pior. — Me desculpe, de verdade. Eu não queria mesmo...
— Eu compreendo... Foi um acidente. Essas coisas acontecem... — Disse ele, me interrompendo de forma gentil com um belo sorriso. tentando me tranquilizar, foi quando me levantei segurando os tais pergaminhos e finalmente vi o rosto dele.
— Espera, você não é...
— Leonardo Da Vinci, ao seu dispor, bella donna (bela mulher). — Me interrompeu mais uma vez, gentilmente, fazendo uma curta reverência.
— Ai. Meu. Deus. — Falei pausadamente, olhando para ele em choque como uma fã que encontra um ídolo, quase derrubei os pergaminhos outra vez.
— Leonardo? — Perguntei, não conseguindo acreditar.
— Sim. — Confirmou, ainda sorrindo.
— Da Vinci? — Perguntei mais uma vez, ainda tentando assimilar.
— Sim. — Confirmou outra vez, rindo de um jeito muito fofo.
— Uau! — Fiquei ali parada por um tempo sem tirar os olhos dele sorrindo feito uma boba, maravilhada com o fato de que eu tinha acabado de conhecer uma das figuras mais geniais e talentosas da história.
— E você? Quem é? — Perguntou Leonardo, um pouco sem jeito, foi quando percebi que o silêncio fruto do meu curto transe tinha se tornado constrangedor e certamente também a forma como eu o olhava. — Pelo seu traje suponho que esteja aqui pela irmandade.
— Sou Erika... E sim, estou aqui pela irmandade. — Respondi toda animada e passei a segurar todos aqueles pergaminhos com apenas um dos braços, usei a mão livre para cumprimentá-lo e tive uma incrível surpresa ao ver que o mesmo além de me cumprimentar também me abraçou carinhosamente, um abraço que eu detestei ter que desfazer.
— É uma honra. — Fez a breve reverência outra vez, ainda sorria e continuava falando de um jeito voz doce e suave, a fofura dele era tanta que tive vontade de apertar, não nego.
— A honra é toda minha... — Mudei para o meu idioma e complementei: — Você nem faz ideia. — Novamente voltei a falar em italiano. — Me desculpe. Acho que acabei manchando alguns deles. Sou uma desastrada! — Falei me referindo aos pergaminhos. — Eram importantes?
— Anotações para futuros projetos, mas não se preocupe, pois tenho tudo na minha mente e posso reescrevê-los. — Respondeu como se fosse a coisa mais natural do mundo, talvez para um gênio como ele realmente fosse. — Bene... (Bem...) Preciso voltar ao trabalho agora, tenho muito a fazer.
— Para onde está indo? Se me permite posso carregá-los pra você, sei lá... Como uma forma de compensar, talvez... E posso ajudar com alguma outra coisa também, caso precise. — Por mais que estivesse exausta, me sentia no dever de ajudá-lo depois da merda que eu tinha feito.
— Mesmo? — Os olhos dele chegaram a brilhar de alegria. — Eu fico muito agradecido. De fato estou precisando de ajuda, uma vez que meu aprendiz não está por aqui. — Tomou a frente e começou a caminhar. — Estou trabalhando na biblioteca. Venha! Por aqui. — Me conduziu até a sala, onde deixei os pergaminhos sobre a mesa e passei a admirar alguns de seus projetos espalhados por lá.
— Incrível! Olha só todas essas coisas! — Exclamei, toda animada, andando de um lado para o outro. O lugar estava uma verdadeira bagunça, porém tudo aquilo era tão fascinante que eu sequer me incomodei. Arregalei os olhos ao ver que dentre seus projetos, em um canto qualquer, estava a mais notável e conhecida obra de Leonardo, sim, a inconfundível Mona Lisa, ainda em seus estágios iniciais de produção. Fiquei ali parada observando-a, alheia a tudo, praticamente hipnotizada e sem reação enquanto o artista falava sozinho.
— Erika? Erika está me ouvindo? — Aproximou-se devagar.
— Inacreditável... — Foi tudo o que eu disse, vagamente.
— Ah! Muito amável da sua parte, mas até eu vejo que ela está mal desenhada. E o sorriso? Exagerado... Sem significado...
— Tá de brincadeira com a minha cara? — O interrompi, inconformada com o que ele havia dito, finalmente “acordando” para o mundo a minha volta.
— Desculpe, não entendi. — Respondeu todo confuso.
— Não é nada. — Disfarcei, com toda certeza Leonardo não fazia a mínima ideia da importância de sua arte e muito menos do que a mesma representaria no futuro. — Do que precisa?
— Ajude-me com esses livros aqui. — Pediu de forma gentil, referindo-se a uma pilha enorme de livros que estava sobre a mesa. — Estou pesquisando alguns símbolos antigos, se tratam de (...)
As horas passaram voando, a companhia do artista era mais do que agradável e, nesse curto período de tempo, pude ver ainda mais o quanto ele era genial e é claro, aprender muita coisa. Estava quase amanhecendo quando o cansaço naturalmente me venceu e adormeci ali mesmo, sentada e com a cabeça apoiada sobre alguns livros na mesa.
Acordei poucas horas depois, ao ouvir uma estranha voz chamar por mim: “Erika! Erika, pode me ouvir?” Ainda sonolenta, com a visão embaçada e os olhos pesados que se fechavam involuntariamente para evitar a luz do dia que entrava pelas janelas, preferi acreditar que aquilo fosse um sonho ou algum tipo de alucinação. Segundos depois, a voz me chamou novamente: “Erika, se puder me ouvir, preste atenção...” Era uma voz masculina, que de alguma forma soava familiar, porém eu não conseguia me lembrar a quem essa tal voz pertencia, a mesma parecia ecoar por todo o ambiente como se não fosse algo só da minha cabeça. “Você deve encontrar o Vault abaixo do Vaticano, só assim conseguirá ir embora.” Complementou, foi quando eu despertei de verdade, extremamente confusa e assustada. “Boa sorte!” Foi a última coisa que ouvi antes que aquela misteriosa voz se calasse, olhei para os lados procurando por Leonardo e não o encontrei. Toda arrepiada e com os batimentos cardíacos acelerados por conta do susto, fiquei ali sentada por mais alguns minutos tentando me acalmar e inevitavelmente refletindo sobre o que eu acabara de ouvir, ou talvez achasse que tinha ouvido. Seria tal voz pertencente a algum membro da primeira civilização? Fazia todo sentido, afinal havia sugerido que eu fosse até um dos antigos templos. Mas, se essa minha suspeita fosse verdade, por que motivo a voz me era familiar? Aquela mensagem não saía da minha mente e cheguei a me questionar se eu deveria acreditar na mesma, por mais confuso e assustador que fosse, aquilo era tudo o que eu tinha, era minha única chance de ir embora... Eu precisava tentar.
Depois de muito refletir decidi procurar por Ezio, ironicamente ele era o único que poderia me guiar até o Vault no Vaticano, uma vez que só ele havia estado lá e adentrado o mesmo, onde se comunicou com Minerva. Procurei pelo assassino por todo o esconderijo para finalmente encontrá-lo do lado de fora, sentado em um banco e conversando com Leonardo.
— Ah! Você está aí. Até que enfim o encontrei. — Disse eu com a voz ofegante, um pouco cansada.
— Buongiorno (Bom dia), Erika! Eu estava justamente falando de você para o meu velho amigo Leonardo. Acredito que já se conheçam, não? — Ezio se levantou e veio ao meu encontro de braços abertos, outra vez bancando o gentil e educado, mas eu sabia bem qual era a dele, espertinho.
— Sim, já nos conhecemos. — Desviei do abraço dele e fui abraçar Leonardo. — Um homem genial como nenhum outro.— Falei sorrindo para o artista, admirada.
— Gentileza sua, milady.— Foi muito fofo ouvir ele utilizando aquele termo especialmente para mim, o qual era originalmente francês, porém também usado em inglês para um tratamento mais coloquial às mulheres nobres. — Erika passou a noite ajudando-me com meus projetos, é uma mulher muito inteligente e talentosa. — Disse Leonardo carinhosamente ao desfazer o abraço, e eu fiquei em choque por alguns segundos, sem saber como reagir a um elogio daqueles vindo de uma figura tão importante, quando voltei a mim novamente esbocei um belo e largo sorriso de orelha a orelha, acho que meus olhos devem ter até brilhado.
— Imagino. — Ezio não pareceu nada contente por ter ficado no vácuo, foi hilário ver ele sem graça lá com os braços abertos.
— Podemos conversar em particular, por favor? — Sugeri, me aproximando do assassino e usando de um tom de voz mais sério.
— Como quiser. — Respondeu gentilmente, comecei a caminhar e ele me seguiu até uma praça próxima dali.
— Certo... Então... É... — Respirei fundo, parando de caminhar e ficando de frente para o assassino. — Preciso da sua ajuda. — Não foi tão simples dizer aquilo, eu detestava ter que pedir a ajuda dele, porém, era a minha única saída então precisei engolir o orgulho. — Preciso que me leve ao Vault abaixo do Vaticano onde você encontrou com Minerva. — Falei de uma vez, na cara e coragem.
— O que? — Outra vez, pareceu não apenas surpreso como também aflito, assim como na primeira vez em que toquei no assunto, porém, agora se mostrava ainda mais desconfiado e eu diria até temeroso. — O que você quer lá? — Questionou, em uma abordagem levemente agressiva, aproximando-se e olhando bem fundo nos meus olhos.
— Isso é assunto meu. — Cruzei os braços e o encarei, sem medo. Ele não deveria saber a verdade, seria muito perigoso e poderia talvez alterar algum acontecimento ou ter outras consequências, um mentor lendário que desempenharia um papel importante na história da irmandade sabendo demais já era o suficiente.
— Erika, o quer você quer lá? — Insistiu, na mesma abordagem.
— Eu já disse que é assunto meu e não posso lhe contar, sinto muito. —Rebati.
— E por que eu deveria confiar em você e levá-la até lá? — Chegou ainda mais perto, parecia me analisar.
— Porque eu tenho uma missão a cumprir. — Mostrei o antebraço esquerdo com a minha lâmina oculta quebrada. Tentei parecer o mais convincente possível, afinal eu não podia simplesmente dizer que uma voz misteriosa havia me sugerido ir até o Vault, se ele ainda não achava, com certeza iria me achar louca. Dei uma pausa, respirei fundo outra vez e falei um pouco mais baixo, sendo sincera ao admitir e me conformar com a situação: — E você é o único que pode me ajudar.
— Está bem. — Ezio me respondeu depois de alguns segundos em silêncio, tocando em meu ombro. — Encontre-me em frente à Ponte de Santo Ângelo daqui há algumas horas.
— Obrigada. — Sorri meio sem jeito, usando de um tom levemente mais gentil. Estranho ver o quão fácil foi para que ele confiasse em mim, ainda mais em comparação com Altaïr.
Depois de pegar todas as minhas coisas, aguardei pelo assassino na tal ponte como o mesmo pediu. Eu agora trajava uma roupa que havia pegado de uma das criadas para não chamar tanta atenção como quando cheguei em Roma e também já imaginando que fossemos nos infiltrar, seria um bom disfarce. Ezio não demorou muito para chegar, veio a cavalo, bem armado, vestindo seu belo e chamativo manto.
— Muito bom! Muito bom mesmo! Agora só falta uma placa escrito: “Olá! Eu sou um assassino”. — Falei em tom de deboche assim que ele desceu do cavalo, batendo palmas. — Eu realmente esperava mais do renomado mestre assassino e mentor Ezio Auditore da Firenze. — Provoquei, não resisti.
— Figlia di... (Filha da...) — Já ia me xingar, porém se conteve. — Ouça, não pense que pode chegar aqui e... — Apontava o dedo pra mim, ainda irritado. Deu uma pausa e respirou fundo. — Vamos entrar sem sermos notados, você deve...
— E certamente vamos conseguir com você vestido assim. — O interrompi, zombando uma segunda vez e rindo da forma como Ezio parecia perdido lutando entre manter a compostura e educação perto de uma “dama” ou expressar sua raiva mediante a tais comentários, aquilo era hilário, confesso. Ele revirou os olhos e ficou calado me encarando feio até que eu parasse de rir.
— Você deve fingir ser uma das criadas, já que optou por se vestir como tal. Eu vou seguir por cima da passagem que liga o Castelo de Santo Ângelo ao Vaticano. Nós iremos nos encontrar dentro do Palazzo (Palácio) Apostólico e de lá iremos juntos até o Vault. — Explicou o plano, de forma mais séria. — Se por algum motivo algo der errado, volte até aqui o mais rápido que conseguir, para que possamos fugir a cavalo e voltar ao esconderijo.
— Entendi. — Assenti com a cabeça.
— Procure agir com cautela para não levantar suspeitas e use a multidão ao seu favor de forma que não lhe notem. Tenha cuidado, há guardas em todos os lugares. — Advertiu e tomou a frente, caminhando pela ponte.
— Certo, certo... — Fui logo atrás dele, o vi caminhar junto aos pequenos grupos de cardeais como se fizesse parte deles, porém era extremamente fácil vê-lo e constatar que não, estava praticamente destacado entre os demais. — Eu estou te vendo. — Falei em um tom no qual ele pudesse me ouvir, rindo e apontando enquanto o acompanhava estando há apenas alguns metros de distância, por sorte naquela área não tinha nenhum guarda e portanto não havia perigo, pelo menos não por enquanto. Ezio apenas virou o pescoço e me encarou feio, o que me fez rir ainda mais e insistir na “brincadeira”: — Você sabe que dá pra te ver, não sabe? Quer dizer... A roupa deles é vermelha e a sua é branca. — Furioso, o assassino fez um sinal com a mão para que eu seguisse por outro caminho e falou alguma coisa baixinho em italiano que não consegui ouvir direito, mas que era certamente um xingamento. — Então tá, né... Quem avisa amigo é. — Disse eu ainda rindo, deixei de acompanhá-lo e fiquei ali parada observando de longe ele atravessar o restante da ponte e entrar no território do Vaticano junto com os cardeais, logo em seguida se separou deles para procurar por um lugar seguro e afastado pelo qual pudesse escalar até o topo da passarela sem chamar a atenção dos guardas e, ao vê-lo fazer aquilo com tanta maestria, desejei ser capaz de fazer o mesmo, mas não, eu estava longe de ter tal habilidade. Abaixei a cabeça e segui meu caminho, andando pela multidão e fingindo ser apenas mais uma civil entre tantos outros, porém sem deixar de ficar atenta ao que acontecia a minha volta. Vi outras criadas carregando cestos com roupas e quando uma delas se distraiu por alguns segundos discretamente roubei um cesto para compor meu disfarce e ajudá-lo a parecer mais convincente, uma atitude da qual não me orgulho tanto. Não tive muita dificuldade para chegar até o Palácio, na verdade, não tive nenhum dificuldade, cheguei a suspeitar, nem sequer haviam guardas nos portões... O que poderia estar acontecendo? Eu tive minha resposta quase que de imediato ao ouvir de longe guardas papais gritarem “Assassino!”. — Ah, Ezio! — Falei para mim mesma, respirando fundo e soltando o ar pela boca em descontentamento. Pensei em simplesmente cumprir minha parte do plano ao entrar e aguardar por ele como se não soubesse de nada, mas a minha consciência pesou imaginando que Ezio poderia estar precisando de ajuda e mesmo eu não sendo tão útil, e ele sendo um idiota conquistador barato que não me agradava em nada, me senti no dever de ajudá-lo. E lá fui eu me colocar em perigo, larguei o cesto com as roupas no chão e corri procurando uma forma de chegar no topo da passagem que não envolvesse escalar e saltar. Em um dos muros encontrei uma espécie de elevador com um mecanismo que usava contrapesos e cordas provavelmente para levantar cargas, em um ato de impulso, sem nem pensar duas vezes cortei a corda com a parte que havia sobrado do que antes era minha lâmina oculta, o que aliás não foi uma tarefa tão simples, e antes que pudesse perceber fui arremessada para cima, meu medo de altura fez com que eu gritasse feito doida e instintivamente fechasse os olhos rezando para que tudo acabasse bem... E para minha sorte acabou, aterrissei confortavelmente em um grande e macio monte de feno no topo da passarela, o que foi muito irônico considerando a tradição da irmandade.
Me levantei o mais rápido que pude e saquei minha pistola de dentro da mochila, com ela fui correndo ao encontro de Ezio, atirando em todos os guardas que encontrei pela frente. O assassino enfrentava bravamente sozinho uma dezena de guardas em uma luta dura na qual se via cada vez mais em desvantagem e, por mais habilidoso que fosse, não podia evitar de levar alguns golpes aqui e ali. Para cada homem que ele derrotava e matava surgiam mais dois ou três, provavelmente avisados pelos demais... Aquilo parecia não ter fim, eu precisava tomar uma atitude. Inevitavelmente cheguei a lembrar do recente acontecimento em Acre onde eu e Altaïr caímos em uma armadilha, porém, desta vez eu não estava nada afim de fugir. Comecei a simplesmente atirar contra os guardas que surgiam até que por fim parassem de aparecer, Ezio ainda enfrentava vários sozinho e eu que estava ali parada normalmente como se não estivessem me vendo tive tempo suficiente para recarregar a minha arma tranquilamente e voltar a atirar, a batalha estava tão intensa que nem o próprio Ezio me viu, só pareceu notar minha presença quando seus inimigos foram caindo mortos no chão um a um com tiros certeiros no peito. Ao todo, devo ter matado uns vinte sem nem suar, foi tão simples e fácil comparado ao que aconteceu no Acre que me questionei se aquilo era mesmo real, talvez fosse o disfarce... Quem imaginaria que todos aqueles tiros estavam vindo de uma pobre e inofensiva criada?
— Insieme per la vittoria! (Juntos pela vitória!) — Comemorou, erguendo sua espada ao ver que finalmente havia derrotado o último deles.
— “Tenha cuidado, há guardas em todos os lugares.” — Usei a frase dele contra ele mesmo, em um tom irônico.
— Sim, eles eram muitos, deveríamos ter trazido alguns de nossos irmãos conosco. — Concluiu o “gênio”, como se aquilo não fosse óbvio. Aproximou-se devagar, todo sorridente, parecia admirado: — Molto bene! (Muito bem!) Grazie (Obrigado) pela ajuda. — Deu uma pausa, olhando para todos aqueles homens no chão e depois para mim, ainda parada com a pistola na mão. — Sua arma é tão... Rápida. incrível! Nunca vi nada igual. Suponho que seja um novo projeto de meu amigo Leonardo.
— Não, não é. — Respondi em um tom mais sério, guardando a pistola na mochila antes que Ezio fizesse mais perguntas, alguém da época dele não deveria ter contato com tal tecnologia. — Devemos ir antes que outros deles apareçam.
— Certo. Acompanhe-me. — Embainhou sua espada e seguiu caminhando na frente, entramos por uma porta e descemos as longas escadas em espiral até o interior do Palácio, caminhamos calmamente pelos corredores vazios até chegarmos onde parecia ser a famosa Capela Sistina. Haviam dezenas de cardeais, uma verdadeira multidão, todos eles sentados nos bancos assistindo a celebração de uma missa.
— Magnífico! — Tirei alguns segundos para olhar para cima e admirar a deslumbrante arquitetura renascentista do local, falando bem baixo para não chamar a atenção. Já pensava em como iríamos passar despercebidos por todos aqueles homens quando Ezio simplesmente atirou para o alto com a pistola oculta de sua braçadeira esquerda, quebrando o silêncio com aquele barulho ensurdecedor do tiro e criando um grande tumulto instantâneo, fazendo com que todos ali saíssem correndo em pânico gritando histericamente, temendo perderem suas vidas. — O que houve com a aquela parte ”vamos entrar sem sermos notados” hein? — Questionei assim que o lugar ficou totalmente vazio, caminhando devagar e mais uma vez aproveitando para apreciar a beleza daquela verdadeira obra de arte que era a capela.
— Já sabem que estamos aqui então é melhor agirmos rápido... — Deu uma pausa. — Seja lá o que viemos fazer. — Falou mais baixo, se mostrando pensativo, provavelmente tentando adivinhar o que eu pretendia indo até lá. — E é melhor que o local esteja vazio para que possamos ter acesso ao Vault sem corrermos o risco de denunciar sua localização. — Complementou, em um tom mais sério.
— É, faz sentido. — Respondi vagamente, ainda distraída pela arte.
— Desculpe-me se queria assistir a missa. — Brincou, rindo baixo.
— Vai ter que se desculpar confessando com Vossa Santidade o Papa, não comigo. — Entrei na brincadeira, rindo sem nem perceber. Admito que, apesar de tudo, Ezio era um companheiro divertido para se fazer uma missão, muito mais divertido do que Altaïr, o qual praticamente ficava o tempo todo calado e só abria a boca para me repreender ou dar ordens, mesmo assim, eu não podia negar que sentia e muito a falta dele, queria voltar a vê-lo o quanto antes.
— Venha. Ajude-me aqui. — Caminhou até o altar e eu o segui prontamente. — Eu vou acionar este aqui, você cuida daquele do outro lado. — Disse referindo-se a duas espécies de “botões” que haviam nas paredes do altar, um em cada lado. Apenas assenti com a cabeça e fiz o que ele pediu, quando ambos pressionamos os botões, quase que de imediato uma passagem se abriu no chão, no maior estilo filme de aventura. — Damas primeiro. — Falou todo sorridente e cheio de charme, entendendo a mão e apontando para dentro da passagem, em mais uma daquelas tentativas baratas dele de me conquistar.
— Você não cansa não? — Revirei os olhos e desci as escadas caminhando por um corredor até uma câmara, o lugar era enorme e nas paredes haviam algumas inscrições as quais remetiam a diversos povos antigos, em alguns pontos uma luz azul brilhava suavemente, aquilo tudo parecia uma estranha mistura de tumba perdida com arquitetura futurista. — Nossa! Eu nunca vi nada igual. — Falei dando uma volta e olhando ao redor, fascinada como boa nerd que eu era.
— Por aqui. — Disse Ezio, certamente notando minha distração. Um pouco mais a frente e centralizada na câmara havia uma depressão de formato arredondado no chão que parecia bem funda, no mínimo uns 5 ou 6 metros. O assassino simplesmente saltou, aterrissando perfeitamente lá embaixo como se aquilo fosse simples de fazer, bom... Pra ele era. Olhei para baixo e instintivamente me afastei, sabendo que precisaria fazer o mesmo, era o meu velho medo mais uma vez. — Você não vem? — Questionou ele lá de baixo, olhando para mim, confuso.
— Vou sim, é que... — Desviei o olhar, tentando disfarçar.
— O que houve? — Aproximou-se, olhando para os lados e depois para cima novamente, ainda confuso.
— Nada. Só um minuto. — Pensava em como eu poderia descer sem precisar pular, nunca senti tanta falta de uma escada.
— Não temos muito tempo. Logo os guardas estarão aqui. — Alertou, se mostrando preocupado, e com razão. — Andiamo! (Vamos!) — Insistiu, já não parecia nada contente.
— Está bem. Espera... — Respirei fundo e tentei não pensar na altura, o que não foi uma tarefa nada fácil. Me aproximei devagar, sentando na beirada, Ezio olhava para mim como se quisesse dizer que aquilo não estava certo e só depois entendi o porque, pois quando finalmente me “soltei” fui com tudo no chão, sentindo o forte choque da queda nas pernas e perdendo o equilíbrio, caí e rolei, batendo um dos braços contra a pedra e por pouco não bati a cabeça também. Ali estirada no chão, gemi de dor, e também desejei poder sumir, tamanha era a vergonha que sentia.
— Ma che cosa? (Mas o que?) — O assassino pareceu não acreditar no que viu e levou alguns segundos para assimilar. — Dio mio! (Meu Deus!) Você está bem? — Veio correndo até mim, desesperado.
— Eu pareço estar bem por acaso? — Perguntei de forma rude, irritada tanto pela dor quanto pela vergonha, querendo gritar, mas minha voz até falhava.
— Não se mova. Deixe-me ver isso. — Disse gentilmente. Se abaixou para analisar o estrago, tocou meus braços e minhas pernas cuidadosamente, procurando por ferimentos mais graves. — Parece que não quebrou nada, mas esta perna vai precisar de cuidados. — Constatou, referindo-se a minha perna direita, a qual de fato doía bem mais. — Venha! Eu lhe ajudo a levantar. — Colocou meu braço esquerdo sobre seu ombro e devagar foi me erguendo, sustentando quase todo o meu peso. — É melhor voltarmos enquanto ainda podemos, você precisa de um médico.
— Não! — Falei quase que gritando, desesperada. — Já estamos aqui, vamos seguir em frente. — Complementei, de forma mais calma.
— Se insiste... É por sua conta e risco. — Ezio me levou para perto da parede na qual um pouco acima ficava a passagem. — Agarre-se às minhas costas, vou carregá-la até a entrada.
— É sério isso? — Perguntei, me sentindo péssima. Como se o que havia acontecido já não fosse humilhante o bastante, agora eu ainda seria carregada por ele feito uma criança brincando de cavalinho.
— Sim. Segure firme. — Advertiu, se abaixou de leve e me colocou sobre suas costas com cuidado, de forma que minhas mãos agarrassem seu ombro e minhas pernas a cintura dele. Escalou a parede normalmente, sem demonstrar dificuldade alguma, é... Pra um homem forte que era acostumado a usar armadura talvez meu peso não fizesse tanta diferença assim. Já na entrada, desci o mais rápido que pude e procurei esquecer daquela situação humilhante, fingir que não havia acontecido. — Tenha cuidado. Não é melhor que eu...
— Não, obrigada. Você já fez o bastante. — O interrompi. Tentei caminhar sozinha, me apoiei na parede até conseguir sustentar meu próprio peso sozinha... Ou quase, mas preferia sair mancando do que passar vergonha e precisar ser carregada feito uma inútil.
— Aqui estamos. Este é o Vault. — Disse o assassino ao passarmos pelo corredor e entrarmos na sala. O chão e as paredes eram feitos de mármore e bronze, tão lisos quanto vidro, e a luz azul agora brilhava mais intensamente e iluminava todo o lugar, até mesmo as inscrições, algumas até me lembravam chips de computador ou o estilo do filme TRON, a pegada futurista ali era bem maior, o que, é claro, me deixou ainda mais deslumbrada do que antes.
— Olha só isso! — Imediatamente pensei em abrir a mochila e pegar minha câmera, eu precisava registrar aquilo, porém só de tentar eu senti ainda mais dor e acabei desistindo, afinal eu também não queria que Ezio tivesse mais contato com tecnologia do futuro. — Funciona. Ótimo! Agora eu posso ir embora desse lugar. — Disse toda animada, quase não acreditando. Meu Apple Watch finalmente havia voltado a funcionar normalmente, tentei contatar Vinny, mas antes que eu pudesse fazê-lo vários feixes de luz surgiram, uma luz branca ofuscante que deu lugar à projeção em holograma de uma figura feminina um tanto quanto diferente. — Mas o que? — Perguntei confusa e maravilhada ao mesmo tempo, tirando a mão da frente do rosto, que antes protegia meus olhos da luz, e me aproximando devagar conforme conseguia caminhar.
— Minerva... — Falou o assassino de forma bem vaga, tão confuso quanto eu. — Oura vez? — Questionou.
— Espera... Você tá me dizendo que essa aí é...
— Pode me ouvir? — Minerva me interrompeu enquanto eu ainda tentava assimilar a presença dela ali, a voz da mesma ecoava por todo o lugar e ela parecia flutuar.
— Sim, estou aqui. — Afirmou Ezio, tomando a frente.
— Não, esta mensagem não é destinada a você. Você é o profeta e já cumpriu seu papel. — Confesso que não aguentei e acabei rindo do belo corte que ela deu nele, nem eu faria melhor. — Desta vez minhas palavras são para ela. — Estendeu a mão na minha direção, olhando para mim com uma expressão séria.
— Para mim? Mas... — Se já era difícil acreditar que ela estava ali na minha frente, imagine então acreditar que só estava ali para transmitir uma mensagem especialmente para mim, chegava até dar um frio na barriga.
— Você não deveria estar aqui, o seu lugar não é no passado. — Agora falava no meu próprio idioma, de forma séria e até levemente imponente. — Está lidando com coisas que não compreende.
— Eu tenho uma razão para estar no passado. — Usei de um tom sério, embora eu estivesse bem nervosa e levemente assustada. Minerva moveu levemente a cabeça de forma negativa e ficou em silêncio por alguns segundos, o chão e as paredes passaram a brilhar, emitindo uma luz dourada, e logo algumas imagens, também holográficas, surgiram pelo Vault.
— Antes do sol derramar sua fúria sobre nós, quando ainda tínhamos algum tempo para procurar uma forma de nos salvar, eu descobri os cálculos para a viagem temporal. — Afirmou, enquanto algumas imagens dela trabalhando e fazendo suas descobertas eram exibidas. — No início pareceu ser a ideia perfeita! Poderíamos voltar ao passado e alertar a nós mesmos sobre o que nos aguardava, a fim de ganhar tempo para encontrar uma solução ou colocar uma que já tínhamos, e que levaria séculos, em prática. Porém, analisando as possibilidades para o futuro vi que isso alteraria completamente o rumo dos acontecimentos na linha temporal, eu não estaria mais onde e quando deveria estar para descobrir os cálculos, gerando assim um...
— ...Paradoxo. — Falamos juntas, simultaneamente.
— O que iria destruir a realidade como nós a conhecíamos. — Deu uma breve pausa. — Eu poderia ter mudado as coisas, eu poderia ter impedido o nosso trágico fim, mas as chances de causar um desastre ainda maior fizeram com que eu abandonasse esta ideia. — Mais uma vez, conforme ela falava, as imagens ilustravam os acontecimentos narrados pela mesma. Seu tom de voz era triste e parecia se lamentar profundamente por não ter sido capaz de fazer mais. — Então, por precaução, eu escondi os cálculos no dispositivo que uso neste exato momento para comunicar-me com você através do tempo. — Deu outra pausa, olhando para o assassino, que visivelmente não estava entendendo nada. — O qual também usei para transmitir minha mensagem, uma vez que eu não podia alertar o passado, optei por alertar o futuro, na esperança de que o terrível desastre que nos destruiu não ocorresse novamente. — Voltou a olhar para mim e naquele momento sua expressão e tom de voz mudaram, parecia furiosa, o que me assustou e muito. — E agora vocês humanos usam o que descobri nesta guerra desnecessária. Não compreendem que o poder de alterar os acontecimentos é algo que ninguém jamais deveria possuir, há inúmeros riscos... Inúmeras consequências... Nem mesmo nós estávamos preparados para lidar com isso. Vocês não deveriam interferir no passado. — Minerva estava praticamente gritando e, por um instante, me lembrou a postura de Anne, tanto pelos gritos quanto pelo papo de consequências. Porém, ouvir aquilo dela com sua imensa sabedoria milenar era bem mais amedrontador. Assustada, me afastei, ficando ao lado de Ezio como se me sentisse mais segura perto dele e, de certa forma, naquele momento eu até me sentia.
— O que está acontecendo? — Questionou ele, confuso e eu diria até preocupado ao ver como eu estava. — Eu não entendo.
— Não é apenas a guerra... Tem muito mais em jogo. — Tomei coragem e falei, com a voz um pouco tremula e falha. — Precisamos encontrar uma forma de deter...
— Estou ciente disto. — Minerva me interrompeu antes que eu pudesse falar sobre a ameaça que Juno representava. E vendo a forma como havia me assustado, passou a falar de um jeito mais sereno, sem perder a seriedade. Apesar de tudo, estava muito claro que ela zelava pelo nosso bem. — Encontre-me aqui neste mesmo local quando voltar ao seu tempo para que possamos nos comunicar livremente, pois há coisas que “ele” não deve ouvir.
— Ele? Você quer dizer o Ezio? — Perguntei, um pouco mais calma, porém confusa, me virando para o assassino. — Tenho certeza de que ele não está entendendo uma palavra do que falamos e não vai... — Quando virei para olhar para Minerva novamente os vários feixes de luz surgiram outra vez e ela simplesmente sumiu. — Espera! — Pedi ao me aproximar devagar e com dificuldade devido aos meus ferimentos, mas já era tarde. — Droga! — Respirei fundo, por mais que eu estivesse confusa procurei não pensar naquilo, pelo menos por hora.
— Erika? Erika você está bem? — Já ia contatar Vinny quando o próprio apareceu, também em um holograma, parecia bem preocupado.
— Ah, Vinny! Finalmente! Que bom te ver. — Olhei para a minha roupa rasgada e meu braço machucado. — É... Quase. — Ri da minha própria desgraça, até mesmo para descontrair e me acalmar.
— Aqui diz que você está em Roma no ano de 1503 e... Espera... Esse aí do seu lado é...
— Sim, é. — Afirmei ainda rindo ao interrompê-lo. Bati de leve no ombro de Ezio pra tirar uma onda, o assassino ainda parecia totalmente confuso.
— Você teve sorte. — Vinny checava alguns dados. — Muita sorte.
— Diz isso porque não foi você que aguentou as cantadas, meu amigo. — Mudei para um tom mais sério.
— Não, você realmente teve sorte. — Vinny virou a tela do computador de forma que eu pudesse visualizar. — No momento que você partiu, automaticamente foi redirecionada para um campo de concentração durante a segunda guerra mundial. — Vinny agora parecia bem apavorado, como o vi poucas vezes.
— Como assim? Estou em Roma, lembra? — Outra vez eu estava assustada, e tinha todos os motivos para isso. E se antes eu me sentia confusa, naquele momento minha cabeça deu um nó.
— Isso porque logo depois você foi redirecionada uma segunda vez para o período da renascença onde está agora. — Complementou.
— Deixa eu adivinhar: As falhas no sistema outra vez? — Deduzi, lembrando do que houve com os meus equipamentos.
— Sim, houveram algumas falhas, mas, se não fosse improvável e praticamente impossível eu diria que alguém invadiu o nosso sistema para...
— Impossível? Querida, se até o sistema da NASA já foi invadida por que seria impossível invadirem o nosso? Vocês programadores... Se acham os todo poderosos. — Felipe o interrompeu, falando em tom de deboche.
— Cala a boca você! Esse é um assunto sério. — Repreendeu Vinny. — Bom... Acho que não. Se tivessem nos invadido eu com certeza saberia. — Deu uma pausa. — O mais assustador é que ambos os cálculos para te levar até esses eventos parecem ter surgido de dentro do próprio sistema. Eu nunca vi nada igual!
— Então... Estamos lidando com a Skynet? É isso? — Brinquei, mais uma vez tentando descontrair o ambiente e evitando ficar ainda mais nervosa do que eu já estava, antes que eu entrasse em pânico.
— Eu não sei o que está acontecendo. — Respirou fundo, estava bem frustrado para um verdadeiro gênio que era capaz de fazer praticamente qualquer coisa relacionada a tecnologia. — Erika, isso é extremamente perigoso. Eu acho que é melhor que você volte até que eu possa descobrir o que realmente está acontecendo e resolver de uma vez por todas.
— Ouviu ele, Erika? — Dexter surgiu, ainda parecia furioso e bem mais preocupado do que o próprio Vinny. — Você deve voltar.
— Não. — Fui bem direta. Por mais que eu temesse e muito o que pudesse me acontecer, não queria voltar por motivos óbvios. — Pode me redirecionar de volta para Masyaf em 1193, Vinny? — Perguntei, da forma mais segura que consegui.
— Posso tentar, mas não tenho certeza se...
— Erika, volte agora! — Ordenou Dexter, quase gritando.
— Então manda ver. — O ignorei, mantendo o mesmo tom de antes ao pedir para Vinny.
— Erika, isso é uma ordem! Volte agora! — Insistiu Dexter.
— Você não é meu mestre. — Rebati, outra vez sendo bem direta. Até deixei Dexter sem palavras por alguns segundos.
— Tem certeza de que quer mesmo isso, Erika? Se algo errado acontecer eu não vou poder intervir, na última vez o sistema falhou e demorou a voltar. — Advertiu Vinny.
— Tenho. — Afirmei.
— Pare de agir feito uma criança rebelde. Não ouviu o quanto é perigoso? — Dexter tentou intervir mais uma vez. — Alguém está tentando te matar!
— Você é... Um deles? — Ezio finalmente disse algo, se mostrava ainda mais confuso do que antes e claramente tinha associado a projeção em holograma da minha equipe com a de Minerva e deduzido que eu também era um dos membros da primeira civilização.
— Não, amore mio (meu amor). Nós somos do futuro. — Se intrometeu Felipe, todo sorridente e visivelmente interessado no assassino. Foi até engraçado ver aquilo, mesmo eu não tendo gostado nada do fato dele ter revelado o que não deveria.
— Isso! Fala mais. Não vai alterar o passado não. — Vinny o repreendeu mais uma vez, falando sarcasticamente.
— Ele me chamou de...
— É, chamou. — Ri baixinho, interrompendo a reação hilária de Ezio. — Você se acostuma.
— Certo... É... Então... Estou fazendo os cálculos. Vai levar só alguns segundos. — Informou Vinny, de repente pareceu incomodado.
— Isso é loucura! — Desabafou Dexter e logo depois foi embora, nada contente.
— Bom... — Respirei fundo. Me virei para Ezio e toquei em seu ombro. — Preciso ir...
— Ir? Mas... — Lamentou o assassino, desapontado.
— Eu acho que acabei sendo um pouco rude. Me desculpe por isso. É que caras como você me tiram do sério e me deixam louca. — Disse de uma forma um pouco mais gentil. — Obrigada pela ajuda! — Me aproximei devagar e com cuidado abracei ele, porém logo desfiz o abraço, pois devido ao meu “acidente” eu ainda sentia muita dor.
— Foi um prazer ajudar, irmã. — Segurou minha mão, sorrindo. — Então eu a deixo louca? — Perguntou rindo de leve, confundindo as coisas e usando uma conotação bem diferente. Ainda bem que Dexter não viu nada daquilo ou ficaria ainda mais irritado, se eu o conhecia bem ele seria até capaz de viajar ao passado somente para brigar e tirar aquilo a limpo.
— Está vendo? — Fechei a cara, soltei minha mão da dele e me afastei, precisei me segurar para não dar outro tapa na cara daquele idiota metido a conquistador. — É disso que eu estou falando. Você é um... — Resolvi deixar aquilo de lado, não valia a pena. — Ah, esquece vai.
— Abertura temporal em 3...
— Demorou! Tô vazando. Fui! — Sequer esperei Vinny terminar a contagem que ele sempre fazia e atravessei o “portal” assim que o mesmo surgiu.
Fui parar no meio de longos e extensos corredores e me aliviei ao ver vários assassinos com o traje característico da irmandade levantina passarem por mim, era um sinal de que eu estava na época certa, mesmo assim, precisei checar, afinal, depois do que havia acontecido todo cuidado era pouco.
— Vinny? — Chamei, olhando para os lados, sem saber se seria respondida ou não.
— Sim. — A imagem holográfica dele se projetou. — O que houve?
— Preciso da data, por favor. — Me encostei na parede, ainda não conseguia ficar em pé por muito tempo e dor continuava me atormentando.
— Não poderia simplesmente perguntar a alguém, Erika? — Questionou, rindo baixo.
— Ah, claro! Eu poderia muito bem chegar pra alguém e dizer: “Olá! Em que ano estamos?” — Acabei rindo também. — Como se eu já não parecesse estranha o bastante.
— É, esse é um bom ponto. — Deu uma pausa e mudou para um tom mais sério. — 22 de Abril de 1193.
— Ótimo, me passa os diagnósticos da viagem também. — Comecei a caminhar devagar, me apoiando na parede.
— Os parâmetros estão normais, nenhum sinal de falhas.
— Excelente! Obrigada.
— Se precisar de algo é só entrar em contato.
— Certo.
— Boa sorte. — Disse Vinny gentilmente antes da imagem dele se desfazer e pôr fim à comunicação.
Segui pelo corredor até os aposentos de Altaïr, ao entrar notei que o local estava vazio, deixei minhas coisas sobre uma mesa na qual também haviam vários papeis com anotações, provavelmente fruto das horas de estudo e reflexão dele. Resolvi esperar até que o assassino retornasse, me sentei na cama e lá fiquei por vários minutos, devido ao meu estado e também ao cansaço estremo, acabei deitando e adormecendo ali mesmo instintivamente sem nem perceber. Acordei assustada ao ver Altaïr parado me observando, por um instante achei até que estivesse sonhando, pois eu podia jurar que o vi sorrir, mas no momento em que praticamente pulei da cama pelo enorme susto que levei ele me olhou com sua expressão fria e estática, não parecia muito contente.
— O que faz aqui? — Perguntou, sendo curto e grosso.
— Bom dia pra você também. — Respondi, rindo meio forçado para disfarçar. — Eu estava te esperando. — Falei na maior inocência, só percebendo segundos depois o quanto aquilo soou estranho uma vez que antes eu estava deitada na cama dele. — Digo... Esperando você voltar aqui... Sabe... — Tenho certeza de que corei de imediato, estava morrendo de vergonha. — Eu cheguei e você não estava, então... — Tentei consertar explicando e fazendo alguns gestos, sem muito sucesso, acho que só piorei as coisas.
— Então você simplesmente entrou nos meus aposentos sem permissão e fez o que bem queria? — Questionou, parecia me analisar.
— Me desculpe. Eu não estava muito bem. Na verdade, ainda não estou. — Falei de uma forma mais calma, retirando meu sobretudo rasgado com dificuldade e revelando várias escoriações pelos braços, especialmente o direito. Comecei a caminhar pelo quarto, procurando por panos e um pouco de água para limpar os ferimentos, mas ao fazê-lo quase caí, foi por muito pouco.
— Você não está nada bem mesmo. — Constatou, como se ainda precisasse. — Tenha cuidado. Devagar. — Advertiu, e ao perceber que eu ia cair Altaïr se apressou para me segurar e cuidadosamente me trouxe de volta para a cama, praticamente me carregando no colo e me deixando sobre ela. Em se tratando dele, dessa vez eu gostei e muito, não nego. — Vamos. Sente-se aqui e deixe-me ver. — Ergueu o vestido de criada que eu ainda usava até a altura do joelho, confesso que me arrepiei ao sentir o toque dele na minha pele e com certeza devo ter corado outra vez. Minha perna direita estava horrível, inchada e toda roxa, eu sabia que não havia quebrado, mas não duvidava de que pudesse ser um ferimento grave. — Esta aqui vai dar trabalho para cuidar. O que aconteceu?
— É uma longa história. Em resumo eu estava...
— Mas o que significa isso? — Maria entrou bem na hora errada e no momento errado, flagrando a “bela” cena onde eu me encontrava sentada na cama com o assassino ao meu lado tocando minha perna de uma forma que, aos olhos dela, certamente pareceria outra coisa bem diferente. Se antes eu me sentia constrangida pelo que eu havia dito sem querer, agora então eu não sabia onde enfiar a cara. O olhar fuzilante e o tom de voz alterado da minha “rival” e conterrânea inglesa demonstravam uma fúria que me fez pensar que ela me mataria ali mesmo.
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