Notas iniciais
Olha só quem não morreu! rs Pois é, não foi dessa vez que os templários conseguiram me pegar. Aposto que todo mundo pensou que eu tinha abandonado a fic, né? Não culpo vocês, a demora dessa vez foi demais, eu sei. Peço desculpas aos meus queridos leitores por isso. O primeiro semestre da facul foi tenso pra me adaptar e eu praticamente não tive tempo pra nada. Mas agora prometo que vou me adiantar e tentar publicar capítulos com mais frequência. Vamos lá pra mais um? Bora então! Boa leitura!

O silêncio se fez e Altaïr simplesmente ignorou a reação de Maria e a recebeu normalmente como se nada tivesse acontecido, indo ao encontro dela para cumprimentá-la carinhosamente, do jeito dele, é claro:

— Que bom te ver, meu amor. — Ouvir o homem que eu amava dizer aquilo para outra mulher partia meu coração, ali precisei ser forte pra não demonstrar. Ele se aproximou para abraçá-la, porém ela o empurrou e veio até mim, ainda furiosa, assustadoramente furiosa. Os olhos e expressão de Maria me deixaram muito amedrontada, fiquei até sem reação diante dela que chegou já prestes a me bater, e teria me batido se Altaïr não tivesse sido rápido o bastante para entrar na frente e intervir, segurando-a firmemente pelos braços. — Não. — Foi tudo o que ele disse, repreendendo a mulher apenas com seu olhar misterioso e intimidador por baixo do capuz.

— Me solta, Altaïr! Essa garota é uma...

— Erika está ferida. — Explicou, curto e direto, interrompendo Maria e sua tentativa desesperada de se soltar para me atacar, o tom de voz do assassino era rude em desaprovação e sua postura firme. O silêncio voltou a reinar por mais alguns segundos enquanto os dois se encaravam até que, por fim, Altaïr a soltou devagar, despreocupadamente. — Preciso ajudá-la. — Complementou, demonstrando preocupação do melhor jeito que sua frieza e seriedade permitiam. — Encontre uma das governantas e peça para que traga tecidos e água morna o mais rápido possível para que eu possa cuidar destes ferimentos.

— Está me dando uma ordem? — Questionou Maria com toda sua ousadia, parecendo não acreditar no que acabara de ouvir, ou talvez, quem sabe, não acreditasse na forma atenciosa como seu amado estava tratando a mulher que ela certamente agora via como uma ameaça, uma rival.

— Não temos tempo para discussões desnecessárias, Maria. — Repreendeu-a outra vez. — Vá! Depressa! — A mulher obedeceu e se retirou, visivelmente irritada, me seguindo com seu olhar até finalmente sair do quarto. Somente então me senti mais calma, respirei fundo e me acomodei melhor na cama, olhando para Altaïr ali parado em minha frente sem saber ao certo o que dizer, o cansaço e a dor também não ajudavam. — Peço desculpas pelo comportamento de Maria, ela é uma mulher...

— Intrometida? Violenta? Imatura? Não, espera. Já sei: Mal educada? — O interrompi vendo que ele estava demorando para completar a frase e tomei a liberdade de fazer isso eu mesma, não resisti, precisava demonstrar a minha irritação em relação à Maria mesmo que fosse de uma forma mais descontraída, acabei até rindo.

— Eu iria dizer “de personalidade forte”. — Complementou e pareceu um pouco sem jeito, se eu não o conhecesse diria que estava se segurando para não rir. — Na verdade, vocês duas são. E são bem parecidas. — Constatou, disfarçando e falando mais sério.

— Ei! Pode ir parando com isso, Altaïr. Eu não sou parecida com ela, não mesmo. — Cruzei os braços e olhei feio para ele.

— É mais parecida do que imagina. Está demonstrando isto neste exato momento. — Insistiu, seguro de si.

— Já disse que não sou. — Rebati, já começando a ficar irritada e deixando isso transparecer no tom da minha voz.

— Vê? — Estendeu a mão na minha direção, reafirmando.

— Humph. — Resmunguei, deixei que ele pensasse que tivesse vencido, afinal eu não estava muito bem naquele momento pra discutir. Quando a tal governanta finalmente chegou Maria veio junto e ficou de longe observando Altaïr cuidar dos meus ferimentos, me olhando como se quisesse me estrangular e depois do que havia acontecido minutos atrás eu não duvidava que ela realmente quisesse, aquele ambiente não estava nada agradável.

— Fique calma, Erika. Você parece muito tensa, ficar assim só vai tornar a dor ainda pior. — Sugeriu o assassino de uma forma até que gentil enquanto limpava o sangue das feridas cuidadosamente. Para ele era fácil falar, afinal era eu quem estava machucada e ainda tendo que lidar com a pressão que sofria daquela mulher ali. — Isto vai doer um pouco.— Alertou ao passar um líquido esverdeado, que era uma espécie de mistura de ervas, sobre a minha perna. A dor foi instantânea, aquilo ardeu tanto que eu involuntariamente agarrei o lençol com força enquanto franzia os olhos e mordia os lábios, por mais que tentasse ser forte e quisesse evitar, acabei até gemendo de dor. — Você teve muita sorte por não ter quebrado esta perna, porém, ainda assim, é uma lesão que vai precisar de cuidados. — Disse o assassino em um tom bem sério enquanto cobria a minha perna com bandagens levemente apertadas com a intenção de impedir a movimentação, foi quase uma bronca. — Fique algumas semanas de repouso e procure não movê-la. — Pareceu mais uma ordem do que um conselho de saúde, mas talvez esse fosse mesmo o jeito de Altaïr demonstrar o quanto se preocupava.

— Está bem, doutor assassino. — Respondi brincando, rindo baixinho. — É... Isso não soa nada legal. Não é irônico você matar pessoas e estar aqui cuidando...

— Erika, isto é sério. — Me cortou de forma rude, ele realmente não tinha senso de humor. — Quero que faça visitas aos aposentos dela todos os dias e garanta que será bem cuidada. Eu mesmo irei até lá acompanhar o tratamento e liberá-la para que volte às suas atividades aqui na irmandade quando estiver totalmente recuperada. — Deu as ordens para a governanta. Por mais que eu não gostasse de ser vigiada e tratada como incapaz, confesso que gostei da segunda parte, toda e qualquer visita do assassino que eu amava era muito bem vinda e me faria bem, mesmo se eu não estivesse doente.

— Sim, senhor. — Respondeu a mulher, prontamente.

— Venha. Deixe-me levá-la. — Sabendo que eu não teria condições de sair dali sozinha, Altaïr gentilmente me pegou no colo com cuidado e caminhou para fora do quarto me carregando. Maria, que cada vez parecia ainda mais inconformada, o seguiu como se fosse um guarda em seu período de vigilância, continuando a me pressionar com seu olhar furioso e ameaçador. A governanta veio logo atrás, trazendo minhas coisas. Foi uma experiência bem inusitada e, de certa forma, engraçada, passar pelos longos corredores, cruzar o pátio de treinamento e subir as escadas até as torres da imponente fortaleza da irmandade sendo carregada por ninguém menos do que o próprio mentor, os olhares curiosos foram inevitáveis. Não posso negar que adorei aquilo, era até um pouco romântico, deixei escapar um belo sorriso e um olhar apaixonado, sonhando com o dia em que ele me carregaria daquela mesma forma, vestida de noiva, um sonho que eu sabia o quanto era impossível. Por um instante cheguei a invejar a sorte da minha “rival”, mesmo sabendo seu terrível destino. — Descanse. — Sugeriu Altaïr, depois de cuidadosamente me deixar sobre a cama, desta vez falando de um jeito não tão sério. Não demorou para se retirar, Maria o seguiu, mas antes lançou seu olhar ameaçador uma última vez e fez um sinal com os dedos para deixar claro que estaria de olho em mim.

Os dias que se seguiram foram longos, chatos e entediantes, no começo eu até segui o conselho do assassino e descansei bastante até recuperar minhas energias, porém, depois de uma semana eu já não aguentava mais ficar trancada naquele maldito quarto. Para alguém como eu, que prezava pela liberdade e não conseguia viver sem ela, aquilo era um verdadeiro inferno. Eu não conseguiria suportar ficar nem mais um dia trancada daquela forma.

— Eu sei como se sente... Sozinha... Presa... Esquecida... Inútil... — Era a mesma voz misteriosa que havia falado comigo em Roma e me aconselhado a ir até o Vault no Vaticano. Falava vagamente, seu tom era triste e melancólico. Assim como na vez anterior, a voz parecia ecoar por todo o ambiente, como se não fosse coisa da minha mente exausta, de qualquer forma, cheguei a pensar que podia estar enlouquecendo depois de tanto tempo trancada sozinha. Ouvir aquilo no meio da noite era assustador e me fez recuar na cama, ficando toda encolhida e olhando ao redor repetidamente, desesperada em busca de respostas.

— Quem é você? O que quer comigo? — Perguntei hesitante depois de alguns segundos, com a voz trêmula e um pouco falha.

— Não me reconhece, Erika? — Riu ao questionar, me deixando mais assustada do que antes. Fechei os olhos e me encolhi ainda mais, cobrindo o corpo todo, inclusive a cabeça, com o cobertor, como se pudesse de alguma forma me proteger. Fiquei em silêncio, desejando que aquele pesadelo acabasse. — Desculpe se te assustei. Não foi minha intenção. Isso tudo ainda é muito confuso para mim. — Passou a falar de uma forma um pouco mais gentil, mesmo assim, aquela voz continuava soando um pouco assustadora.

— Uma voz que surge do além no meio da noite e diz que não quer me assustar? Seja lá quem for, você só pode estar fazendo uma brincadeira de muito mal gosto. — Falei com a voz ainda um pouco trêmula, retirando o cobertor da cabeça e tomando coragem. A voz misteriosa voltou a rir. — Já chega! Não tem a mínima graça. Vá embora! — Gritei. Por mais que tentasse esconder, eu ainda estava com medo. — Se isso for coisa do Vinny eu juro que mato ele. — Pensei alto e acabei falando.

— Você realmente não me reconhece, não é? — Perguntou, parando de rir.

— Com essa voz cheia de eco e delay que assusta qualquer um fica difícil. Se você parar de gracinha e tirar os efeitos, quem sabe. — Á aquela altura eu já estava cansada do que, para mim, parecia ser uma brincadeira idiota e com isso não demonstrava mais tanto medo, mesmo ainda sentindo. Era realmente muito difícil reconhecer aquela voz estranha, porém, desde a primeira vez que a ouvi eu havia notado algo familiar. Mas quem seria? Um precursor? Apesar de ter conhecimento sobre o Vault, não parecia muito com um membro sábio da primeira civilização, como eu antes imaginava que fosse. Pelo contrário, agia como se fossemos amigos próximos. Talvez fosse mesmo coisa do Vinny e do Felipe, ou de algum colega assassino de outra equipe.

— Efeitos? Que efeitos? — Pareceu confuso. A voz começava a falhar e cortar, como quando há um problema no sinal de transmissão de rádio.

— Deixa de ser cínico! Como se você não soubesse. — Disse revirando os olhos, começando a ficar irritada com aquilo. — Por que não aparece de uma vez?

— Estou tentando projetar minha imagem, mas estamos muito distantes e a conexão é instável. — Deu uma pausa, voltando a falar em seu tom triste e melancólico. As tais falhas na comunicação continuavam acontecendo cada vez mais. — Ainda estou muito fraco...

— Fraco? Como assim fraco?

— Ela tem o controle, vocês precisam detê-la antes que seja tarde. — Agora parecia desesperado. Naquele momento as falhas eram mais fortes, foi difícil entender o que ele havia dito.

— Ela? Ela quem? — Não obtive resposta, o que me deixou ainda mais irritada, e agora também nervosa. — Do que você está falando? Eu não estou entendendo.

— Eu não posso... Não estou conseguindo manter... Ela está... — As falas passaram a ficar incompletas. — Encontre-me...

— Onde você está? — Também passei a compartilhar daquele sentimento de desespero.

— Por favor, encontre-me... — Pediu de uma forma tão desesperada que, mesmo não tendo a mínima ideia do que se tratava, fez com que eu tivesse uma estranha vontade de fazer algo a respeito.

— Onde? — Ergui o tom de voz. Mais uma vez, não obtive resposta. — O que está acontecendo? Quem é você? — O silêncio se fez e a comunicação teve fim ali. — Mas que droga! — Joguei a almofada longe, extremamente irritada por não poder fazer nada. Respirei fundo, tentando me acalmar. Não foi fácil parar de pensar naquilo, minha mente estava confusa e cheia de perguntas, as quais não me deixaram dormir muito bem naquela noite.

Para o meu próprio bem, eu precisava descobrir uma forma de mudar aquela espécie de “prisão domiciliar” na qual eu estava vivendo, me faria muito bem ter umas distrações, impedindo que eu pensasse ainda mais naquela voz estranha e viesse a ficar pior de saúde do que eu já estava. Passei então a observar os horários nos quais a governanta me visitava e notei que era mais comum ela ficar ausente durante a noite, então acabou sendo o período que escolhi para dar umas “escapadinhas”. Foi difícil me locomover no início, mas logo resolvi improvisando um apoio com um bastão de madeira igual aos que eram usados nos treinos. Em uma dessas noites que saí para tomar um ar e observar as estrelas, eu caminhava cuidadosamente por um corredor quando em um momento de distração em que eu olhava para o lado acabei esbarrando com alguém e derrubando o bastão no qual me apoiava, foi por pouco que não caí junto, desesperada, precisei ser rápida para me agarrar na parede. O susto foi bem grande, ainda maior quando eu me virei para pedir desculpas e vi quem era a pessoa.

— Erika? Você voltou! — Malik me cumprimentou sorrindo, parecia feliz em me ver. Até esqueceu o livro que havia derrubado no chão. — Segurança e paz, irmã.

— Sim, já fazem alguns dias. — Falei sem jeito, envergonhada por conta da minha deplorável situação ali agarrada à parede ainda me recuperando do susto.

— Algum problema? — Perguntou, pelo visto eu não era a única distraída ali, afinal meu problema era óbvio e bem visível.

— Bem... — Olhei para a minha perna imobilizada e depois para o bastão caído no chão.

— Ora, mas que pergunta a minha. Deixe-me ajudá-la. — Também ficou sem jeito e rapidamente recolheu o bastão, entregando-o para mim. — Aqui está, irmã. Precisa de mais alguma coisa? Pode apoiar-se em mim caso tenha dificuldade ou se mesmo assim não estiver em condições de caminhar eu posso solicitar que alguém...

— Não, não... Estou bem. Obrigada. — O interrompi enquanto eu cautelosamente me afastava da parede e voltava e me apoiar no bastão. — Só vim tomar um ar. Cansei de ficar trancada no meu quarto. Altaïr faz questão de que eu fique em repouso por vários dias, mas isso é entediante demais então eu decidi...

— Decidiu desobedecê-lo e escapar durante a noite feito uma criança rebelde e irresponsável. — Complementou, me repreendendo. — Por isso estava tão assustada.

— É... Então... — Desviei o olhar, tentando disfarçar como aquilo me deixou ainda mais envergonhada. Malik nunca tinha me repreendido daquela forma, chegou até a erguer um pouco o tom da voz. E o pior é que ele tinha toda a razão. — Você... Vai contar? — Perguntei, com medo do que poderia acontecer caso Altaïr descobrisse.

— Eu deveria, mas não vou. Deixarei que Altaïr veja por si próprio. — Respondeu Malik, do mesmo jeito firme e autoritário de antes. — E acredite, ele verá.

— Eu duvido muito. Desde o dia em que ele me deixou em meu quarto para descansar eu não o vi mais. Sequer apareceu para acompanhar a minha recuperação como disse que faria. — Rebati, deixando o meu desapontamento bem claro. Eu realmente me sentia esquecida e abandonada pelo assassino.

— Altaïr é nosso mentor agora e como tal tem suas responsabilidades para com a irmandade. Isso não significa que ele não se preocupa ou que você não é importante, se é o que está pensando. Só deve estar ocupado... E tenho certeza que assim que puder ele irá vê-la. — Deu uma pausa e finalmente recolheu seu livro do chão. — Na verdade, ele se preocupa e muito com você. Acompanhe-me e verá. — Disse de uma forma mais gentil e saiu andando, demorei para assimilar aquilo e fiquei ali por alguns segundos, quando vi Malik já estava bem a frente. Pra mim ainda era bem estranho imaginar e acreditar que eu era alguém importante para Altaïr.

— Espera! — Me apressei para alcançá-lo, não foi nada fácil na condição em que eu estava, por sorte ele me ouviu e parou. — Como assim “ele se preocupa e muito”?

— No tempo em que você esteve fora, Altaïr puniu os nossos irmãos que estavam lhe desrespeitando e exigiu que todos a vejam e tratem como igual. — Malik voltou a caminhar e eu o acompanhei, passamos a andar um ao lado do outro. — Ele se mostra preocupado com o seu bem estar e sua adaptação aqui na irmandade, chegou a cogitar que você tivesse partido por se sentir incomodada com a forma que os outros estavam lhe tratando.

— É... Eu sei. — Lembrei do que eu havia lido nos pergaminhos. — Eu precisei partir por outros motivos alheios a minha vontade, mas não posso negar que ser recebida assim é desmotivador. Eu não entendo esse comportamento, como irmandade deveríamos ser unidos, independente das nossas diferenças, para lutar pelos ideais nos quais acreditamos. Sempre achei que os assassinos antigos fossem mais sábios e pacíficos, porém alguns se mostram extremamente ignorantes, outros violentos... Abbas quis me matar, sem motivo algum. — Desabafei, confusa e claramente desapontada com os recentes acontecimentos.

— Sempre irão existir aqueles que agem na ignorância e violência. Em qualquer lugar, até mesmo entre nós. Não há como evitar, é a natureza humana. — Ele falava calmamente, parecia estar refletindo. — Você é uma das primeiras mulheres que se unem à irmandade. Eu sei que pode estar sendo difícil agora, mas com o tempo nossos irmãos aprenderão a respeitá-la e... Admirá-la. — Parou de falar por alguns segundos e sorriu para mim de uma forma que me deixou bem sem graça. — Quanto ao Abbas, acredito que ele faça estas coisas querendo atingir não você, mas sim Altaïr. É uma longa história, os dois...

— Faz sentido, levando em consideração o que vai acontecer no futuro. — Acabei pensando um pouco alto e falando o que não devia, interrompendo-o sem perceber.

— O que disse? — Perguntou Malik, agora confuso.

— Eu? Ah... Eu dizia que sei como é a relação entre os dois... É... Complicada... — Disfarcei da melhor forma que consegui, o que não foi nada convincente, é claro. —...Prossiga.

— Abbas também recebeu punição, foi suspenso de suas atividades como assassino por tempo indeterminado e agora está executando algumas tarefas designadas por mim, de acordo com a necessidade da irmandade. Esta semana eu o coloquei para cuidar da limpeza das lâminas. — Entramos em uma enorme sala onde eram guardadas centenas de espadas, adagas e vários outros tipos de armas brancas. Sorri de imediato, sem saber para onde olhar, perdida entre tantas, que eram verdadeiras obras de arte. Abbas estava em um canto polindo um machado e pela cara feia dele não gostou nada de me ver, simplesmente o ignorei. Comecei a caminhar de um lado para o outro, admirando aquelas belas armas e procurando alguma que eu gostasse em especial, o que não foi fácil.

— Gostei dessa, dessa, e dessa também. Aquela ali é linda! Nossa! Olha só aquela outra trabalhada em pedras. É muito linda! — Falava toda entusiasmada.

— Ah! Vejo que eu a trouxe ao lugar certo. — Brincou Malik, segurando o riso.

— Na verdade, se eu pudesse ficaria com todas elas. — Complementei, rindo. — Mas como não posso, acho que... — Já ia me aproximando da espada mais bela e bem decorada que havia ali.

— Não se deve escolher uma arma pela sua beleza, assim como não se deve julgar um livro pela capa. — Alertou Malik, me observando.

— É... Você tem razão. — Passei então a procurar por uma espada que aparentasse ser forte e imponente, como eu desejava ser em batalha. Uma delas me chamou atenção, uma cimitarra bem robusta, cuja lâmina era longa e espessa. Sequer precisei manuseá-la para notar como era pesada e logo deduzi que com ela poderia causar mais dano. — Esta aqui. — Disse eu, segura da minha escolha. Pra ser sincera, eu nem sabia se podia mesmo escolher uma, mas não pude evitar. — Eu... Posso ficar? — Perguntei, sorrindo meio sem jeito.

— Tem certeza de que fez a escolha certa? É uma arma bem pesada e pode ser difícil de manusear, tornando a movimentação no combate lenta. — Alertou mais uma vez.

— Nada que um bom treinamento não resolva. — Respondi instantaneamente, ainda segura de minha decisão.

— Se você tem certeza, por mim está tudo bem. Pode ficar. Pedirei que a levem até seus aposentos. — Malik caminhou para fora da sala. — Agora venha comigo.

— Obrigada. — Esbocei um largo sorriso, toda feliz. — Ei! Tá sujo ali, olha. Limpa direitinho, viu? — Não resisti e acabei provocando Abbas, apontando o dedo e rindo numa atitude bem infantil, eu sei que não era certo, mas o idiota merecia aquilo e muito mais. Saí da sala e voltei a acompanhar Malik, caminhando junto a ele pelo corredor.

— Na verdade eu não a levei até lá para escolher uma nova arma e sim para que visse Abbas cumprindo suas tarefas e também para ver qual seria a reação dele ao vê-la. — Explicou quando já estávamos um pouco longe.

— Ele ficou calado.

— E é isso que me preocupa. — Deu uma breve pausa. — Ás vezes parece que ele está tramando alguma coisa.

— Ah, você nem faz ideia do quanto. — Mais uma vez, acabei pensando alto e precisei disfarçar. — É... Então... Para onde estamos indo agora?

— Até a minha sala, tenho algo que certamente vai lhe interessar. — Seguiu caminhando até a tal sala, lá dentro haviam vários papeis sobre a mesa dele, dentre os quais Malik recolheu alguns que de certa forma me pareciam familiares e perguntou: — Lembra-se de quando eu disse que faria o possível para ajudá-la?

— Lembro sim, por que?

— Eu encontrei alguns papeis dentre as anotações de Altaïr nos quais nosso mentor descreve como foram os dias em sua ausência, acredito que você vai gostar do que irá ler, considerando o que sente por ele. — Me entregou os tais papeis e eu pude confirmar o que já suspeitava, eram os pergaminhos que chegariam em minhas mãos, mais de 800 anos no futuro.

— Mas... — Não pude esconder a forma como aquilo me deixou surpresa e ao mesmo tempo confusa, muito confusa.

— O que houve, irmã? — Perguntou Malik, aflito e agora também confuso ao ver uma reação que ele provavelmente não esperava.

— Eu já li isso. Esses papeis... Eles foram entregues para mim no futuro, no momento exato em que eu precisava lê-los, pouco antes de eu voltar. E foi justamente lendo eles que eu soube que precisava voltar, independente das consequências, pois já era um fato registrado na história. — Falei caminhando devagar de um lado para o outro, refletindo sobre o que havia acontecido e tentando entender aquela linha temporal bagunçada. — Aqui, olha. — Me aproximei de Malik, mostrando uma das folhas para ele e tentando explicar o que era complicado demais até para mim. — Aqui Altaïr narra o momento em que eu volto e o que acontece em seguida, ele narra inclusive que eu tinha em mãos os tais pergaminhos que nem haviam sido escritos ainda. Entende o que eu estou dizendo? Sei que é confuso...

— Muito confuso, não sei se estou entendendo. — Me interrompeu e pegou a folha, passando a ler com mais calma.

— É como um ciclo temporal sem fim, no estilo “inception”, sabe? — Deixei os outros papeis sobre a mesa e com a mão livre fiz um sinal, girando o dedo. Malik olhou para mim, ainda mais confuso, como se eu estivesse falando chinês, e voltou a ler o papel sem dizer nada. — É um acontecimento que tem como efeito gerar o próprio acontecimento em si. Entendeu? — Tentei explicar de uma forma mais simples e clara.

— Ah, então estes papeis são os que você recebeu no futuro, que na verdade já é seu passado, e lhe fizeram cumprir o que estava escrito neles e voltar aqui antes mesmo deles serem escritos por Altaïr, narrando o que aconteceu quando você voltou e citando os próprios papeis em si, que estavam com você depois de centenas de anos, agora recentemente escritos e em suas mãos. — Deu uma pausa e respirou, deixando a folha junto às outras. — É isso?

— É! Isso mesmo! Quer dizer, eu acho... — Falei vagamente e comecei a rir. — Dá dor de cabeça só de pensar nessas coisas, não? — Brinquei, rimos juntos. — O que eu não entendo é: Se esses papeis estão comigo agora, como eles vão chegar até mim no futuro, que é meu passado, para que tudo aconteça como aconteceu? — Voltei a caminhar de um lado para o outro, pensativa, tentando encontrar uma resposta. À aquela altura minha perna lesionada já estava doendo por conta do esforço que eu não deveria fazer.

— Talvez você mesma deva se encarregar de que sejam enviados para si, uma vez que só você sabe o momento exato em que deve recebê-los. — Cogitou, como se aquilo fosse a coisa mais simples e normal do mundo. Fiquei calada por alguns segundos até cair e ficha e perceber que o que ele havia dito fazia todo sentido, somente eu sabia o dia e a hora exata em que deveria receber os pergaminhos para que o que estava registrado neles acontecesse.

— Malik, você é um gênio! — Falei toda feliz, soltando o bastão no qual eu me apoiava para abraçar o assassino com força. Quase caí, mas valeu a pena, afinal além de responder a pergunta que tanto me incomodava ele ainda me fez lembrar de algo importante ao me trazer aqueles papeis.

— Mas o que eu disse é óbvio, não? — Questionou ao desfazermos o abraço, um pouco sem jeito. Mais uma vez me ajudou, pegando o bastão do chão enquanto eu me apoiava na mesa. — Vai acabar piorando sua situação se não tiver cuidado. Você deveria estar em repouso. — Disse naquele tom autoritário de bronca outra vez, me entregando o bastão e logo depois os papeis. — Volte ao seus aposentos e descanse, irmã. — Sugeriu, de uma forma um pouco mais gentil.

— Eu vou, mas antes quero lhe pedir um favor. Posso? — Perguntei, um pouco insegura.

— Mas é claro que pode. Ajudarei no que for possível. — Respondeu prontamente.

— Sendo o segundo no comando da irmandade e alguém de extrema confiança para Altaïr, imagino que você deve ter total acesso às anotações dele, não? Do contrário, não teria como me trazer estes papeis. — Deduzi, pensativa.

— Sim, tenho. Mas por que a pergunta? — Pareceu um pouco confuso.

— Que beleza! — Sorri de imediato. — Chega mais!

— O que? — Não entendeu, como era de se esperar.

— Não, nada. Esquece. — Dei uma pausa, me aproximei dele e passei a falar um pouco mais baixo, temendo ser ouvida: — A partir de hoje, fique atento para tudo o que Altaïr escreve e caso eu seja mencionada, preciso que você se livre destas anotações. Não deve haver nenhum registro referente a mim no passado, muito menos relacionado à ele, é extremamente perigoso e pode fazer com que o futuro seja alterado. — Dei outra pausa, desta vez uma mais demorada. — Pode cuidar disso pra mim? — Mesmo falando baixo, procurei falar da forma mais séria possível, esperando que Malik compreendesse a gravidade da situação e a importância daquela tarefa que eu tinha para ele.

— Eu não deveria trair a confiança do nosso mentor desta forma, mas considerando o que pode acontecer creio que ajudá-la é o certo a se fazer. — Respondeu, não muito contente.

— Bem... Tecnicamente você já traiu a confiança dele ao me trazer esses papeis aqui para...

— Erika! — Malik chamou minha atenção, erguendo a voz.

— Mas foi por um bom motivo que acabou sendo essencial para que as coisas acontecessem. — Complementei, um pouco nervosa. — É diferente...

— Então acredito que seja melhor preservar as anotações que eu recolher ao invés de simplesmente destruí-las, afinal podem ter informações valiosas para o futuro, assim como estas em suas mãos. — Mais uma vez destacou algo tão óbvio que eu até senti vergonha de ter deixado passar.

— Faz todo sentido. Podem mesmo ser úteis. Mas vai precisar escondê-las bem.

— Não será uma tarefa muito difícil. — Olhou para a janela e depois para mim. — Agora vá descansar, já está tarde. Não seja negligente com sua saúde.

— Está bem. — Comecei a caminhar até a porta. — Obrigada, Malik. Por tudo. — Disse eu com um belo sorriso antes de me retirar.

De volta ao quarto, passei o resto da noite na cama virando de um lado para o outro sem conseguir dormir. Por várias vezes pensei em ir até os aposentos de Altaïr e acabar de uma vez por todas com a saudade que eu sentia dele, mas não tive coragem, temia deixá-lo irritado por desobedecer suas ordens e temia ainda mais que percebesse o que eu sentia por ele, se é que ainda não tinha percebido. Mesmo depois de reler os pergaminhos, ainda era difícil acreditar que um homem incrível como ele pudesse realmente sentir algo por mim... Talvez estivesse apenas confuso como o próprio havia descrito, talvez todo esse lance de futuro ainda fosse muito novo e fascinante, até mesmo para alguém tão sábio e a frente de seu tempo como Altaïr, que há muitos meses já estava lidando com uma tecnologia quase que incompreensível para a raça humana, a poderosa ferramenta precursora capaz de iludir e controlar as mentes de todos, bem... Quase todos, afinal o próprio assassino era um dos poucos que conseguia resistir.

A lembrança daquela voz misteriosa e das coisas estranhas que havia me dito também me preocupava, eu precisava descobrir uma forma de entrar em contato, uma forma de “encontrá-lo” como o mesmo havia pedido tanto. O que estaria acontecendo? Por que esse individuo que eu nem sequer sabia quem era havia me procurado e me pedido ajuda? Eu tinha que descobrir, e logo.

Cansada de tentar dormir, resolvi “escapar” mais uma vez e ir observar o nascer do sol, acreditando que talvez pudesse me acalmar. Ao sair precisei ir por caminhos diferentes dos que costumava usar, tudo para evitar ser vista pelos outros assassinos que já bem cedo estavam caminhando pelos corredores da fortaleza. Fui até o rio próximo às montanhas que cercavam Masyaf e, ao chegar, exausta pelo esforço da caminhada e sentindo um pouco de dor na minha perna ferida, a primeira coisa que fiz foi me sentar encostada em algumas pedras para recuperar o fôlego enquanto assistia o sol surgir no horizonte. Minha surpresa foi grande quando encontrei as armas e o manto característicos de um assassino sobre as tais pedras, imediatamente deduzi o pior, porém, surpresa era apelido pro que senti ao ver de longe ninguém menos do que Altaïr se banhando nas águas do rio. Fiquei sem reação por um bom tempo, parecendo uma estátua, até finalmente cair na real e me esconder atrás de um rochedo o mais rápido que minha condição permitiu, por sorte, antes que Altaïr pudesse me ver. De lá, passei a observar discreta e cautelosamente, admirando-o enquanto se banhava: Seu corpo atlético definido, perfeitamente esculpido como em uma obra de arte clássica; sua pele morena molhada refletindo a luz do sol; sua expressão séria e imponente; seus olhos dourados que pareciam encarar sem nem sequer me olhar diretamente. Eu não conseguia tirar os olhos dele e sem perceber passei de uma garota boba apaixonada sorridente para uma mulher excitada que mordia os lábios enquanto o assistia naquele momento que, de tão íntimo e tão belo, parecia até uma cena de filme.

Créditos para a artista MistressAinley (veja a imagem original aqui)

Desejei estar ali com ele e partilhar de tal momento, porém eu sabia que aquilo jamais iria acontecer, ainda mais considerando que Altaïr já estava envolvendo-se com outra mulher e a amava, mesmo estando confuso ou seja lá o que ele realmente sentia por mim, para a minha tristeza era com Maria que o assassino tinha uma relação e um futuro pela frente. Eu também tinha consciência do quão era errado invadir a privacidade dele ao observá-lo escondida e que, pela forma como eu havia sido educada, não deveria fazê-lo, muito menos desejando-o, mesmo sendo quase que inevitável não assistir aquele belo homem que eu tanto amava e pelo qual me sentia atraída deslizar suas mãos pelo seu corpo enquanto as gotas de água percorriam suas belas formas. Mesmo assim, a minha educação falou mais alto e, quando notei que Altaïr estava prestes a sair e expor seu corpo nu por completo, do qual eu só havia observado da cintura para cima, saí de trás do rochedo no qual me escondia e apoiava, peguei meu bastão e, contra minha vontade interna, comecei a caminhar de volta para a fortaleza, até o momento em que ouvi uma voz:

— O que você faz aqui? — Era Altaïr, de longe, claramente bem zangado. Senti um frio enorme na barriga e minhas pernas tremeram, o susto foi tão grande que pensei que teria um infarto ali mesmo. Fiquei parada por alguns segundos, pensando em como sairia daquela situação extremamente constrangedora.

— Eu... — Minha voz falhou, virei sem saber como iria encontrá-lo para vê-lo aproximar-se de mim com uma espécie de toalha presa à cintura e vestindo uma capa comprida até quase nos pés que se assemelhava com um roupão, porém de tecido mais fino e leve, ambos da cor branca. O assassino estava ali parado a menos de um metro de distância de mim, me encarando friamente e aguardando uma resposta, enquanto eu, extremamente nervosa e ao mesmo tempo envergonhada, mal conseguia falar. Seu abdômen e peitoral ainda estavam a mostra, assim como eu também podia ver seus pés descalços e suas pernas até um pouco acima do joelho. Foi impossível não olhar pra ele de cima à baixo e precisei até me lembrar da minha boa educação e me conter mais uma vez, tentando disfarçar o óbvio e torcendo para que Altaïr não percebesse como eu o estava “secando”, por um instante foi como se a vergonha e o nervosismo que eu sentia tivessem passado. Aquela era a primeira vez que eu o via de perto sem o capuz direito, afinal eu já tinha visto antes quando o salvei do afogamento, mas o desespero não permitiu que eu pudesse observar atentamente suas belas feições, seus olhos cheios de mistério, seu cabelo castanho curto, molhado e levemente bagunçado. Ali eu pude notar ainda mais a semelhança entre ele e seu descendente, era tão grande que chegava a assustar, poucos detalhes, como a cor dos olhos e o tom da pele, separavam os dois de serem absolutamente idênticos.

— Erika, eu lhe fiz uma pergunta. — Insistiu, todo imponente, quebrando o silêncio, me fazendo “acordar” e perceber quanto tempo já havia se passado.

— Eu... Eu... É... Então... — Falava pausadamente fazia movimentos aleatórios com as mãos, desviando o olhar para a bela paisagem que nos cercava por simplesmente não conseguir mais olhar para Altaïr. — Eu estava... Entediada. Sabe? E então eu achei que... Talvez, sei lá... — Dei uma pausa e respirei fundo, tentando me acalmar. — Uma caminhada e um pouco de ar puro fosse me fazer bem. — Complementei, falando um pouco rápido e disfarçando, totalmente sem jeito.

— Você não deveria estar aqui sob hipótese alguma, sua saúde é minha responsabilidade e ordenei que ficasse em repouso até que eu fosse visitá-la e constatasse que havia se recuperado. — Me deu uma verdadeira bronca, fiquei ainda mais sem jeito do que eu já estava.

— O problema é que você não vem, não é? — Pensei um pouco alto e acabei falando, por sorte, no meu idioma.

— O que disse? — Questionou, parecendo bem mais zangado do que antes.

— Não, nada. — Disfarcei, abaixando a cabeça.

— Não gosto de ser desobedecido, Erika. E muito menos em um caso como este. Se algo tivesse lhe acontecido eu não me perdoa... — Parou de falar por algum motivo e o silêncio voltou a tomar conta do lugar outra vez por alguns segundos. Se eu não o conhecesse com toda sua seriedade, imponência e frieza, diria que ele também havia ficado sem jeito e que talvez não quisesse demonstrar que se importava tanto.

— Olha, eu não queria desobedecer, só estava cansada de ficar trancada naquele quarto. — Falei da forma mais calma que eu conseguia naquele momento. — E já estou bem, me sinto bem melhor. — Menti e esbocei um sorriso forçado pra disfarçar, na verdade minha perna ainda estava doendo bastante.

— Não, não está. — Foi curto e grosso. O silêncio se fez de novo e foi bem constrangedor. — Vou pedir que alguém leve você de volta aos seus aposentos e ficará em repouso até que eu mesmo veja que está totalmente recuperada. E para garantir que isto não se repita, as criadas cuidarão de você e lhe farão companhia durante o dia e a noite.

— Ah, que ótimo! Estou de castigo no quarto agora. — Pensei alto e falei mais uma vez, revirando os olhos.

E foi exatamente assim por mais uma longa semana, onde eu não tive o mínimo de liberdade e passei boa parte do tempo deitada na cama estudando as databases do Animus e gravando meus relatórios de missão, tamanho era o meu tédio, Anne ficaria até orgulhosa. Achei que aquele inferno nunca fosse acabar até que finalmente, durante uma bela noite, Altaïr apareceu, vestindo um manto negro sobre seu tradicional manto branco de mestre assassino, que indicava sua posição absoluta como mentor da irmandade e, a forma como o mesmo simplesmente ficou parado em frente à porta aberta até que eu o notasse ali fez com que parecesse ainda mais “badass” do que já aparentava. Considerando que já nos conhecíamos há um tempo e éramos de certa forma até que próximos, às vezes eu involuntariamente acabava esquecendo o quanto Altaïr era importante, não apenas para a irmandade como também para a história em si, porém, aquele breve momento serviu para que eu me lembrasse e, mais uma vez, tivesse consciência de que eu estava lidando com algo tão frágil e tão perigoso como o tempo, e as consequências que os meus atos ali teriam, para a linha temporal e também pra vida das pessoas com quem eu estava em contato. Sorri, admirada ao vê-lo vestido daquele jeito, fazendo jus à verdadeira lenda que ele era.

— Olha só! Uma visita exclusiva de ninguém menos do que o nosso mentor. É uma honra! — Brinquei, falando de forma toda pomposa e rindo baixo enquanto o via entrar e caminhar na minha direção. Sentei na cama de imediato, olhando para aquele homem que eu tanto amava, extremamente feliz por finalmente ver ele de novo.

— Peço desculpas por não ter vindo antes, estive ocupado com alguns... — Deu uma breve pausa. —...Afazeres. — Complementou, parecendo meio distante.

— E com “afazeres” você se refere à Maçã? — Perguntei quase que no mesmo instante, sabendo que o deixaria sem palavras, confuso sobre como eu sabia tanto. E foi exatamente o que aconteceu.

— Deixe-me ver como está sua perna. — Disse em um tom levemente gentil para os padrões dele, aproximando-se ainda mais da cama. Cuidadosamente, ergueu minha túnica até a altura do joelho e analisou a perna, tocando minha pele de uma forma até que suave, perto do que eu esperava. Arrepiei de imediato ao sentir o toque dele, até tentei disfarçar desviando o olhar para um ponto qualquer e esperando que Altaïr acompanhasse, mas não teve como, só me restou torcer para que o assassino não tivesse percebido. — Como você está se sentindo? — Perguntou, ainda com a mão sobre a minha perna. “Ah, se eu pudesse dizer!” foi o que pensei na hora. E talvez eu pudesse, não diretamente, mas com sinais. Talvez eu devesse mostrar como eu realmente me sentia em relação a ele, mesmo sabendo o quão arriscado era, já não suportava mais esconder, ou melhor, tentar esconder, uma vez que era até bem evidente. Coloquei minha mão sobre a dele, sem dizer nada, nossos olhares se encontraram e, por alguns segundos, ficamos nos olhando e eu voltei a sorrir, um belo e apaixonado sorriso.

— Maravilhosamente bem. — Deixei escapar sem nem perceber e quando me dei conta desfiz o sorriso na hora e disfarcei, tirando minha mão rapidamente e falando de um jeito mais sério, temendo a reação dele: — Já consigo caminhar normalmente e não sinto mais dores.

— Excelente! — Pareceu animado, considerando a forma como costumava falar e, naquele momento, jurei que finalmente e pela primeira vez o veria sorrir para mim abertamente sem disfarçar, mas não, não sorriu. — Acompanhe-me, por favor. — Pediu gentilmente, afastando-se devagar e caminhando para fora do quarto. Ainda era estranho ver Altaïr sendo tão gentil comigo, especialmente depois daquela bronca.

— Isso significa que estou livre? Quero dizer... Você sabe... — Me levantei da cama o mais rápido que pude e corri atrás dele, toda atrapalhada.

— Sim, já pode voltar às suas atividades. — Caminhava pelo corredor e eu o seguia. — E, como disse que está aqui para ajudar-me, creio que já é hora de...

— Fala logo que precisa da minha ajuda, Altaïr. Não tem porque ficar de conversinha enrolando. — O interrompi, voltando a rir. Passei a andar mais rápido, caminhando ao lado dele. O assassino ficou calado por alguns segundos, sem ter o que dizer mais uma vez, eu adorava deixar ele assim sem respostas, era engraçado. — Diz aí! Do que você precisa? — Parei de rir e perguntei de um jeito mais amigável.

— É a Maçã... — Respondeu vagamente, entramos juntos em sua sala e ele fechou a porta, somente então prosseguiu: —...Ela segue me mostrando um mapa desde a primeira vez em que eu a tive em mãos, quando derrotei Al Mualim e seus “fantasmas”. Acredito que o artefato esteja querendo me dizer algo, porém não faço ideia do que possa ser. Você sendo do futuro talvez tenha alguma informação que eu não possuo e consiga compreender. — Falou de uma forma tão humilde para alguém que, embora estivesse mudando, ainda tinha um pouco de arrogância, nem parecia o Altaïr que eu conhecia, nunca imaginei que fosse vê-lo admitir que eu sabia mais do que ele. Tirou de uma pequena bolsa presa ao seu cinto a Maçã que imediatamente começou a pulsar e emitir seu brilho ofuscante assim que o assassino a tocou. Quando eu a vi, mais uma vez foi como se tudo ao meu redor não tivesse a mínima importância, tomou minha atenção de um jeito que nem percebi e quando me dei conta já estava olhando fixamente para ela, mas felizmente esse efeito estranho e assustador durou apenas alguns segundos até que eu voltasse a prestar atenção em Altaïr, que dizia: — Vê esses pontos marcados no mapa? O que significam? E por que são tantos? — Questionou ao segurar o artefato na altura do peito enquanto este exibia uma imagem em holograma do mapa mundi, que girava devagar mostrando vários pontos marcando diversos locais ao redor do globo. — Estes outros lugares... Seriam terras desconhecidas que precisam ser descobertas ou que ainda não existem? — Deixou a Maçã sobre a mesa, apontando para os locais marcados no mapa.

— Redescobertas. — Corrigi, rindo baixinho. Era engraçado ver ele tão interessado e, de certa forma, animado, tomado por sua sede de conhecimento. — Esses lugares existem. Aqui! — Me aproximei e apontei no mapa. — Nova York, onde, no meu tempo, vivo e trabalho com a minha equipe.

— Se você conhece estes lugares então certamente sabe me dizer o que estes pontos significam. — Já começava a parecer impaciente.

— Sim, sei. — Afirmei, sorrindo.

— Pois então...

— Mas não devo dizer. — Desfiz o sorriso e procurei ser convincente, tentando não parecer tão insegura a respeito do que poderia ou não fazer. Além disso, era difícil me controlar perto dele, temia que acabaria falando demais.

— Desde que chegou você afirma que está aqui em uma missão para ajudar. Se não deve compartilhar as informações que tem, como pretende ajudar-me então? Ou mentiu sobre isto também, da mesma maneira que mentiu sobre sua posição em nossos ranks? — Questionou, visivelmente furioso. Até fiquei assustada e, por alguns segundos, sem ter o que dizer. — Afinal, por que está aqui? — Insistiu, no mesmo tom de voz imponente e autoritário.

— Para guiá-lo. — Falei hesitante, ainda assustada. Respirei fundo e tomei coragem para olhar nos olhos dele e encará-lo sem medo, naquele momento eu precisei ser firme e segura de verdade. — Só porque eu sei não significa que eu deva dar-lhe todas as respostas, Altaïr. Eu não posso fazer suas descobertas por você, porém, posso guiá-lo para que chegue até elas como deve ser e é assim que pretendo ajudar. — O silêncio tomou conta do lugar, e eu prossegui: — É a sua vida, sua história. É o seu legado, não meu. Você deve encontrar seu caminho...

— Você está certa. — Respondeu o assassino depois de alguns segundos, aparentemente refletindo e se dando conta de que estava agindo de forma errada, precipitadamente por conta de sua extrema curiosidade. Naquele momento não estava mais tão irritado e usava de uma voz um pouco mais calma, falando mais baixo: — Desculpe-me por isso. Eu não deveria pressioná-la desta forma. Tenho passado muito tempo estudando este artefato e a cada dia surgem mais e mais perguntas. Foram semanas? Meses? Eu não sei... Eu... — Parecia bem aflito, confuso, cansado... Parei por alguns segundos para pensar em como deveria ser para ele e me senti no dever de tentar melhorar aquela situação.

— Está tudo bem, eu compreendo. — Me aproximei devagar, falando gentilmente.

— Malik e os outros acreditam que eu deveria abandonar estes estudos, talvez tenham razão. — Colocou a mão sobre a Maçã na mesa e a desativou, fazendo com que parasse de emitir sua luz ofuscante e pondo fim à exibição do mapa.

— Não. Não deveria. Eu imagino o quanto deve ser difícil, confuso e desgastante, mas se existe alguém capaz de decifrar esse artefato com certeza esse alguém é você. — Ao falar minha voz era doce e suave, deixando transparecer o quanto eu o admirava, como já havia feito muitas vezes. Toquei no ombro dele, voltando a sorrir. — Como eu estava dizendo: Você deve encontrar seu caminho... E eu vou estar aqui, ao seu lado. — Segurei as mãos dele, nossos olhares se encontraram outra vez e nos aproximamos ainda mais um do outro, bem devagar, quando percebi estávamos a poucos centímetros de nossos lábios se encontrarem e foi aí que ambos despertamos e, sem dizer nada, soltamos as mãos e nos afastamos um do outro. O silêncio reinou por algum tempo, enquanto nós dois nos olhávamos em um momento que me deixou totalmente sem graça, tentei fingir que aquilo nunca havia acontecido, embora meu desejo mais forte fosse beijá-lo ali mesmo, um desejo que precisei reprimir.

— Agradeço pelas palavras, muito gentil da sua parte. — Altaïr quebrou o silêncio com sua voz séria, aproximando-se da mesa e pegando o artefato em mãos.

— Eu... Posso? — Perguntei, me referindo a Maçã nas mãos dele, fazia tempo que eu queria analisar aquele objeto tão lendário e misterioso. O assassino me olhou de cima a baixo, ficou alguns segundos calado e, para minha surpresa, chegou mais perto e a entregou em minhas mãos. Naquele momento eu tive certeza de que Altaïr confiava plenamente em mim para ser capaz de me entregar algo que, de tão poderoso, para ele, não era digno da posse de ninguém, nem mesmo dele próprio. Minha alegria foi tanta que não consegui esconder, sorri de imediato, um belo sorriso apaixonado de quem sentia-se, de alguma forma, especial.

— Tenha cuidado. — Alertou.

— Incrível! — Falei admirada, observando o artefato. Era curioso a forma com que remetia ao passado, considerando a aparência do metal, e ao futuro, considerando sua tecnologia extremamente avançada ao ponto de ser confundida com magia por muitos ao longo da história. O objeto era bem mais leve do que imaginava e eu podia segurar tranquilamente com apenas uma das mãos sem nem cansar o braço, embora fosse de metal, emitia um leve calor, como se aquilo estivesse realmente vivo. Pensei se deveria ativar ou não, eu sabia o quão perigoso era e como apenas poucas pessoas podiam ter o controle da Maçã, porém, por mais arriscado que fosse, eu queria muito saber como era utilizá-la, talvez assim eu pudesse compreender melhor a tecnologia da primeira civilização e ter uma ideia de com o que Altaïr estava lidando, aquilo era essencial para a minha missão. Me perguntei como deveria fazer para ativar... Seria falando ou apenas pensando? Foi quando simplesmente pensei e, no mesmo instante, a Maçã voltou a exibir sua luz ofuscante que surgiu de seu interior e se propagou, iluminando todo o ambiente, eu a tinha ativado. Senti sua energia percorrer das pontas dos meus dedos até o meu braço, algo que foi bastante incômodo e me deixou assustada.

— Não tenha medo. Respire e procure acalmar-se. — Sugeriu o assassino ao notar meu desespero, falando baixo com uma voz levemente mais gentil. Segui o conselho dele e tentei me acalmar, enquanto a energia seguia do meu braço para o meu peito e logo depois passou a fluir por todo meu corpo, fazendo com que o artefato pulsasse, como se fossemos apenas um. Eu nunca havia tido uma experiência como aquela, era algo... Surreal. Podia sentir todo aquele imenso poder, um poder que deixaria muita gente insana e que temi que fosse me enlouquecer também. Vi inúmeras imagens, visões do passado e do futuro, todas embaralhadas e que pareciam não ter fim. Extremamente confusa e com a mente cheia, não consegui fazer com que aquilo parasse e comecei a me desesperar outra vez. — Esvazie sua mente. — Altaïr sugeriu outra vez, chegando ainda mais perto. Porém, eu quase não o podia ouvir e não o via muito bem, era como se eu estivesse em transe. — Erika, esvazie sua mente! — Insistiu, falando um pouco mais alto, enquanto eu tentava reagir e tomar o controle. — Não lute contra ela. Esvazie sua mente e só assim poderá controlá-la! — Disse de uma forma que pareceu muito preocupado, até demais para quem era sempre tão frio e sério.

— Eu não consigo... É... Muito forte... — Respondi com dificuldade.

— Você consegue. Apenas fique calma. — Mesmo estando preocupado, passou a falar de um jeito mais suave, na certa tentando me acalmar.

Em meio às imagens uma figura estranha que eu desconhecia se materializou em minha mente, era uma figura feminina holográfica meio distorcida e fora de padrão com uma voz imponente, dizendo furiosa: “Você não deveria estar aqui. Não deveria interferir com o que não lhe diz respeito, mas assim como todos da sua espécie, você não é capaz de saber a verdade e insiste no que não deve ser... Quem é você para lidar com a linha temporal? Você é fraca! Eu poderia matá-la facilmente neste instante, apenas sobrecarregando sua frágil mente inferior, mas deixarei que vá, para que espalhe esta mensagem e todos saibam que sou eu quem está no controle, seja no passado ou no presente e, em breve, no futuro. Vá! Retorne ao seu tempo! E nunca mais interfira no passado, ou as consequências serão devastadoras, para você e para aqueles que ama.”

— Não! — Foi tudo o que consegui dizer, ou melhor, gritar. Aquilo tudo era demais pra mim. Já não via e nem escutava mais nada, já não tinha mais forças, tudo parou, houve um silêncio absoluto... Senti que iria entrar em colapso a qualquer instante, e foi só então que, ao quase desmaiar, por consequência esvaziei minha mente e tomei o controle no ultimo instante. A energia do artefato voltou a fluir pelo meu corpo, e pareceu restaurar a minha própria energia como se me desse uma provisão de vida, em questão de poucos segundos eu havia me recuperado plenamente daquele estado crítico em que me encontrava. Vi Altaïr parado na minha frente, inicialmente parecia extremamente preocupado e prestes a intervir, porém logo que notou minha recuperação se mostrou mais calmo e satisfeito, eu diria até orgulhoso, talvez.

— Está tudo bem? Como se sente? — Perguntou gentilmente.

— Estou bem, não se preocupe. O pior já passou. — Respondi de forma calma, tentando ignorar aquela experiência assustadora que eu havia tido segundos atrás e manter a mente limpa como o assassino havia sugerido, por sorte, estava dando certo, talvez fosse a presença e o apoio dele ali que me deixasse mais calma e me fizesse sentir mais segura. — Estou no controle. — Pensei no que eu queria exibir e no mesmo instante fiz com que a Maçã projetasse novamente a imagem do mapa, fazendo-o parar de girar e dando um “zoom” no ponto marcado mais próximo de onde nos encontrávamos.

— Muito bom, Erika. — Falou no mesmo tom gentil. Acho que foi a primeira vez que recebi um elogio dele, de fato ele deveria estar bem orgulhoso, só não sabia ou não queria demonstrar. — Consegue manter?

— Acho que sim. — Sorri de leve, segurando o artefato com firmeza e tentando permanecer focada naquilo. Altaïr pareceu bem interessado naquele ponto em específico, pegou uns mapas em sua mesa e os comparou com o holográfico, fazendo algumas anotações em um pergaminho.

— Este fica em Alamut. O que pode haver lá? — Questionou, pensativo. Caminhando devagar pela sala.

— Por que não descobrimos? — Rebati, sorrindo. Desativei a Maçã e me aproximei dele para devolvê-la. — Aqui está. — Eu brincava com o artefato, jogando-o de uma mão para a outra e girando na ponta do dedo como se estivesse com uma bola.

— Isto não é um brinquedo de criança. — Me repreendeu, nada contente, tomando a Maçã da minha mão.

— Ei! Eu não sou uma criança. — Cruzei os braços, revirando os olhos.

— Mas às vezes age como uma. Mostre algum respeito! — Retrucou.

— Está bem... Desculpe. Só me empolguei, sabe... — Falei toda sem jeito, desviando o olhar para um ponto qualquer. — Na verdade eu... — Dei uma pausa e passei a falar mais sério. — Eu me sinto honrada por você ter confiado algo tão perigoso em minhas mãos.

— Eu sabia que você era capaz. — Voltou a falar de um jeito mais gentil enquanto guardava o artefato na pequena bolsa presa ao seu cinto, outra vez se mostrando satisfeito.

— Altaïr? — Pensei em contar a ele sobre o que realmente havia acontecido quando eu ativei a Maçã, sobre a voz que tinha me ameaçado, porém, achei melhor não deixá-lo preocupado com aquilo e, principalmente, não queria envolvê-lo com quem agora era minha mais nova inimiga e claramente estava disposta a fazer qualquer coisa para me impedir de cumprir minha missão.

— Sim? — Respondeu prontamente.

— Não, nada. — Disfarcei. — Tenha uma boa noite.

— Você também, minha... — Interrompeu a si mesmo e complementou rapidamente: — ...Irmã.

Foi mais uma noite que quase não consegui dormir, assustada com tudo o que estava acontecendo: As duas vozes misteriosas... Uma masculina que aparentemente parecia estar ao meu lado e precisava da minha ajuda; outra feminina que havia me ameaçado com tanto ódio de uma forma tão cruel e praticamente ordenado que eu voltasse ao meu tempo. Fiquei pensando se talvez essas vozes tivessem alguma ligação. Seria à essa estranha mulher a quem o misterioso homem havia se referido quando disse que “ela tem o controle”? Afinal, ela havia se gabado de estar no controle como forma de intimidação. Só podia ser ela! Era muita coincidência. E, se fosse, eu realmente precisava detê-la de alguma forma. Depois de ouvir ela falar com tanto ódio e testemunhar seu poder, sendo capaz de projetar-se em minha mente e usar um artefato precursor extremamente poderoso contra mim, temia o que estaria por vir. Por mais que tentasse esconder, a verdade é que eu tinha muito medo de tudo o que estava acontecendo. Quem era ela? Como e por que estaria fazendo isso? Eu tinha tantas perguntas... E nenhuma resposta. Parecia que eu ia enlouquecer. Tudo era tão estranho e confuso, tão assustador... Eu precisava ser forte.

Na manhã seguinte, resolvi ocupar minha mente e me exercitar um pouco, fazia um bom tempo que eu não treinava na arena do pátio com os outros assassinos, talvez um pouco de ação fosse me fazer bem depois de tanto tempo trancada e de tanta coisa perturbando minha cabeça. Vesti uma roupa leve e confortável, peguei minha bela e imponente espada, toda animada para estreá-la. Ao chegar logo de cara encontrei Labib, como era de se esperar orgulhoso de seus alunos, elogiando-os entre movimentos e golpes bem executados.

— Ah, Erika! Segurança e paz, irmã. Quanto tempo não a vejo por aqui. — Me recebeu gentilmente, sorrindo. — Soube que estava ferida. Como se sente? Melhor, eu espero.

— Estou ótima! Pronta pra testar essa belezinha aqui. — Respondi no mesmo instante, deixando claro o meu entusiasmo, retirando aquela espada grande e pesada do coldre no cinto e a exibindo com orgulho.

— É realmente uma bela espada. Robusta e bem forjada. — Aproximou-se mais, analisando a lâmina. — Mas, sinto dizer, seus treinos foram suspensos. — Usou de um tom mais sério, indo direto ao ponto.

— O que? — Não acreditei no que tinha ouvido, minha animação acabou ali, guardei a espada de volta na hora e por pouco não a derrubei. — Como assim “suspensos”? — Questionei, erguendo um pouco a voz.

— Ordens do nosso mentor Altaïr. — Respondeu no mesmo tom sério de antes.

— Mas eu já estou totalmente recuperada. — Argumentei, confusa. — E foi ele mesmo quem me liberou daquela prisão, digo... Dos dias de repouso e disse que eu poderia voltar às minhas atividades. — Complementei, ainda sem entender e já começando a ficar irritada.

— Sim, estou vendo. E fico aliviado que esteja recuperada. — Comentou de uma forma mais gentil, mas logo voltou a falar sério outra vez: — Mas são ordens diretas e eu não posso desobedecê-las. Mesmo na posição de mestre, receio que eu não possa fazer nada à respeito. — Tocou meu ombro, em uma demonstração solidária, na certa notando minha raiva crescente. — Sinto muito, Erika.

Saí de lá extremamente irritada, passando por todos, direto para a sala de Altaïr, abrindo as portas com um chute e indo até ele apontando o dedo, com a testa franzida e os dentes trincando, erguendo a voz, tomada pela raiva e sem medo algum: — Que história é essa de que meus treinos foram suspensos, hein?

— Como ousa entrar aqui desta forma? Onde estão os seus modos? — O assassino estava sentado fazendo anotações e levantou no mesmo instante em que cheguei, incrédulo e bastante irritado para quem era sempre tão sério, talvez nunca tivessem desafiado sua autoridade daquele jeito antes. — Pensa que só porque vem de longe e de outra época que vou tolerar um comportamento destes? Eu deveria era...

— Por que suspendeu os meus treinos, Altaïr? — Insisti, interrompendo o que ele estava dizendo, praticamente ignorando.

— Antes de ter a resposta que aqui veio buscar com tanta “determinação”, quero que volte e comporte-se como deveria mediante ao seu mentor. — Exigiu, me encarando friamente. — Ou prefere ser punida por sua insolência e desrespeito? Se acredita que eu não faria por você ser provavelmente a primeira mulher nesta irmandade, devo alertá-la que está cometendo um grande erro ao desafiar-me desta forma. — Ainda me olhava friamente e me analisava, enquanto eu permanecia calada sem saber o que dizer. Ergueu um pouco a cabeça, demonstrando que aguardava uma atitude. Houve um silêncio e nos encaramos por um certo tempo, tempo suficiente para que eu pudesse respirar fundo e tentar me acalmar. Mesmo ainda estando com raiva, por mais que não quisesse, acabei cedendo, só pra ter minha resposta. É, ele com certeza sabia muito bem que eu tomaria essa atitude, sabia que venceria.

Revirando os olhos, virei de costas e me retirei da sala dele, fechando as portas. Aguardei alguns segundos do lado de fora, lutando contra o meu orgulho, uma batalha que foi bem difícil de vencer.

— Posso entrar? — Perguntei com uma voz gentil bem forçada, batendo na porta de leve.

— Entre. — Respondeu todo sério como de costume. Ao entrar vi que outra vez Altaïr estava sentado, mas não escrevendo, desta vez ele me observava para ter certeza de que eu faria direito. — O que deseja? — Perguntou normalmente, como se não soubesse.

— Com licença... — Entrei e me aproximei devagar. — Desculpe incomodá-lo, mentor. Estou aqui porque gostaria de saber o motivo pelo qual, segundo o Mestre Labib, minhas sessões de treinamento foram suspensas sob vossas ordens. — Falei tudo aquilo com a mesma voz forçada de antes, deixando bem clara a minha insatisfação. Se era uma atuação que o assassino queria, foi uma atuação que ele teve, uma péssima atuação... Cheguei a lembrar de todas as regras exageradas de formalidade e etiqueta que fui obrigada a seguir durante a infância e adolescência, regras chatas e idiotas que eu optei por abandonar.

— Eu estava certo de que, como inglesa, você tinha bons modos. Precisa passar a usá-los com mais frequência, verá que lhe trarão bons frutos e evitarão situações como esta. — Falou de um jeito que parecia até meu pai, assim que ouvi voltei a revirar os olhos. Comecei a pensar em coisas aleatórias, querendo evitar ter aquelas lembranças do meu passado em Londres. — Agora podemos conversar. — Deu uma pausa. — Eu ordenei que seu treinamento fosse suspenso porque soube do próprio Labib que você não estava tendo muito progresso.

— Mas... — O interrompi, já voltando a ficar irritada outra vez.

—Espere! Eu ainda não concluí. — Me repreendeu antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa. — Ele me relatou que teve dificuldade em mantê-la focada durante os exercícios e acredita que seja devido á enorme diferença de idade, porém, está claro que este não é o único problema, você vem de muito longe... Outro tempo, outra cultura, eu diria até mesmo outro “mundo”. E por mais que eu preze pela igualdade e não queira tratar nenhum de nossos irmãos de maneira diferente para que não pensem que alguns tem privilégios, nessas circunstâncias, acredito que tomei a decisão correta. De todos aqui, sou a pessoa com quem você tem mais contato, posso dizer que lhe conheço, embora há muitas coisas que eu não compreenda... E talvez jamais irei compreender, de qualquer forma, creio que podemos aprender muito um com o outro. — Deu mais uma pausa, um pouco mais curta que a anterior e foi direto ao ponto: — Portanto, decidi que irei treiná-la.

Notas finais
Se agora a Erika não aprender de vez a lutar, não tem jeito mesmo. haha Espero que tenham gostado. Não esqueçam de comentar. O feedback de vocês leitores é muito importante. :D