Notas iniciais
Achou que tinha acabado? Acabou nãaao! hehe Boa leitura! AVISO IMPORTANTE: Esse capítulo é diferente dos demais e alterna entre dois narradores, sendo eles: Erika (a protagonista narrando os eventos da história como nós já conhecemos blá blá blá) e Altaïr (sim, amiguinhos! [me senti o Dollynho agora huehue], nosso querido mentor amante de inglesas e maçãs douradas vai narrar os acontecimentos durante a ausência de Erika). Então tenham cuidado para não se confundirem durante a leitura. .

— Tá bom. Como pode uma carta escrita há mais de 800 anos por ninguém menos que o próprio Altaïr ter vindo parar justamente nas suas mãos? — Questionou Anne, zombando de mim. — Conta outra.

— Eu não sei, mas é a letra dele. Tenho certeza. — Dei uma breve pausa. Mais uma vez precisei me conter pra não responder Anne da forma que ela merecia. — E não é uma carta, tá mais pra algo como uma página de um diário.

— Eu tenho imagens de algumas páginas do codex escrito por ele na database. Podemos comparar. — Sugeriu Felipe, gentilmente. — Vamos minhas divas... — Sorriu, todo animado. Se referia à Anne e a mim pelo modo como nos olhou. Saiu andando na frente, mas logo virou para trás e olhou pro Vinny. — E você também, recalcada. — Complementou, rindo.

Coloquei o pergaminho junto aos outros na caixa e a levei comigo enquanto acompanhava Felipe até a sala de pesquisas. A deixei sobre a mesa enquanto aguardava para ver as tais imagens.

— Vamos ver. — Felipe pegou um dos pergaminhos e cuidadosamente o scaneou. Primeiramente colocou as duas imagens, a de uma página do codex e a do pergaminho, lado a lado na tela do computador e, em seguida, sobrepôs as duas em camadas com a mesma opacidade cada uma e moveu-as de modo que as letras de uma palavra qualquer que ambos os documentos tinham em comum ficassem perfeitamente sobrepostas, sem qualquer diferença. — Definitivamente, essa é a letra do Altaïr. Fascinante! — Concluiu Felipe, ainda mais animado do que já estava antes, claramente contendo-se para parecer mais profissional em frente da Anne.

— Eu sabia! — Falei cheia de confiança, sorrindo.

— É no mínimo curiosa a forma como esses pergaminhos chegaram até aqui. Seriam eles uma espécie de mensagem ou algo assim? — Vinny cogitou a hipótese, olhando para a tela do computador. — Talvez uma mensagem pra você, Erika.

— Pra mim?

— Se foram entregues especificamente pra você algum motivo deve ter, não concorda?

— Ai, que mara! Nem acredito que tô com documentos tão preciosos como esses em minhas próprias mãos. — Felipe examinava os pergaminhos e agora deixava seu entusiasmo mais evidente. — Já tava mesmo na hora de aparecer algo realmente interessante pra fazer, ninguém merece ficar escrevendo e atualizando database todo dia.

— O que disse? — Questionou Anne, nada contente com o que acabara de ouvir.

— Hm... Será? — Interrompi os dois e entrei na frente de Felipe, que me deixou passar só pra evitar a provável bronca que receberia de Anne. Pensando no que Vinny havia dito, resolve analisar melhor o pergaminho que eu tinha lido algumas breves linhas minutos antes e acabei tendo outra surpresa: — Ele fala de você, Anne. De uma conversa entre vocês dois. É praticamente uma transcrição, escuta só...

— Não! — Anne me interrompeu, quase gritando. — Erika, não se atreva a ler isso. Saber o que vai acontecer é perigoso demais e pode alterar os acontecimentos. Quantas vezes eu vou ter que falar sobre consequências? — A bronca acabou sobrando pra mim, como se eu precisasse ouvir mais sermão do que já tinha ouvido. — É por causa de atitudes como essa que eu estou indo agora para o passado consertar a merda que você fez. Já não foi o bastante? — Pegou seu revolver, a única arma que iria levar além da própria lâmina oculta, e a colocou no coldre na cintura, pegou também o meu Apple Watch modificado, caso fosse preciso criar a abertura temporal automaticamente em uma situação de risco. — Vocês dois! — Apontou para Vinny e Felipe. — Vamos! Eu não tenho o dia todo. — Deitou-se na poltrona do Animus. — Hora de cumprir a história e ir conversar com o Altaïr. — Brincou, olhando pra mim, que revirei os olhos de imediato.

— Vai precisar disso. — Vinny entregou uma espécie de ponto eletrônico, um único fone com microfone sem fio, bem discreto e elegante. — Está conectado com o relógio e fará tradução simultânea do que Altaïr disser para o nosso idioma e vice versa. Esse sistema de tradução que criei ainda está em desenvolvimento, portanto pode não funcionar muito bem quando você estiver conversando com várias pessoas ao mesmo tempo ou em locais com grandes aglomerações. — Explicou gentil e cuidadosamente.

— Certo. Dexter deve chegar a qualquer momento, diga a ele que eu deixei um cronograma com algumas tarefas pré-estabelecidas na minha sala e que, caso tenha alguma dúvida ou algo aconteça durante a minha ausência, ele deve entrar em contato com Gavin. — Deu uma breve pausa. — Fui clara?

— Sim, senhora. — Respondeu Vinny.

— Ótimo! Tudo pronto?

— Sim. Os cálculos estão concluídos. Criando abertura temporal...

Foi extremamente difícil ver Anne partindo no meu lugar, senti um aperto no peito e uma sensação enorme de impotência por não ter podido fazer nada para reverter tal situação. Discretamente, peguei a caixa com todos os pergaminhos e fui para o meu quarto onde eu poderia lê-los com calma e talvez descobrir porque tinham sido entregues especificamente para mim. De nada adiantou, Vinny e Felipe me seguiram e praticamente invadiram meu quarto antes que eu sequer pudesse começar a ler.

— Tá achando que pode simplesmente pegar os meus documentos históricos e sumir assim, amiga? Ah, mas não pode mesmo! — Disse Felipe ao entrar em uma mistura estranha de indignação com humor.

— Seus? Quem disse que eles são seus? — Questionei, cruzando os braços e o encarando. — Foram entregues pra mim.

— Eu sou o responsável pelo departamento de história, nada mais justo que fiquem comigo. — Retrucou.

— Vai ler isso ou não vai? — Vinny foi direto ao ponto.

— Olha só! Eu achei que você como bom pau mandado da Anne qie é não fosse querer saber também. — Brinquei, rindo baixo.

— Olha aqui, eu não sou nenhum...

— É sim! — Felipe o interrompeu enfatizando, deixando Vinny ainda mais nervoso do que já parecia estar. — Também quero saber dos babados. Pode ir lendo, vai! E vou gravar, assim me poupa ter o trabalho de traduzir. — Deixou um pequeno gravador sobre a minha mesa de trabalho e se sentou ao meu lado na cama, Vinny preferiu sentar-se na cadeira a esquerda da tal mesa.

— Espertinho você!

— Lê logo! — Insistiu.

— Tá bom, ta bom! — Os pergaminhos tinham pequenos números indicando a ordem, peguei o que era indicado como primeiro e o abri cuidadosamente. — Vamos lá...

"As lembranças pareciam me atormentar, repetindo-se na minha mente sem parecer ter fim. Tudo foi tão rápido, tive apenas alguns breves segundos para entrar nos aposentos de Erika e vê-la partir naquilo que era uma espécie de portal, tão ofuscante quanto a luz do sol e que, por mais que eu não quisesse admitir, me deixou extremamente surpreso e assustado, ao ver que a mulher iria embora, aparentemente para sempre, considerando os acontecimentos anteriores e o fato de que a mesma carregava todos os seus pertences consigo. Não sei se ela chegou a ouvir as breves palavras que consegui dizer, talvez tenha preferido ignorá-las, talvez quisesse partir sem que eu soubesse. Questionei se teria sido a minha insistência, guiada pela curiosidade e pela sede de conhecimento, que havia feito Erika desistir de sua missão tão repentinamente, temendo que pudesse alterar os acontecimentos e causar danos irreversíveis no futuro. Mas seria mesmo possível mudar o futuro? Ou seriam os acontecimentos fixos no tempo, de maneira que, todos os eventos já estivessem pré-determinados? E se fosse possível, como Erika temia, seriamos nós dignos de tal poder sem limites imagináveis e fortes o suficiente para carregar tal fardo? Certamente não, só em pensar já era extremamente assustador, pude então entender porque a mulher havia partido, ou pelo menos tentar, afinal, tudo aquilo ainda era difícil de compreender.

Inicialmente tive esperanças de que eu estivesse enganado e ela pudesse voltar, porém, essa esperança foi se enfraquecendo gradualmente conforme os dias se passaram, depois as semanas, os meses... Durante os três meses em que a mulher esteve ausente não houve sequer um dia no qual eu não pensasse nela e sentisse sua falta, o que me deixou extremamente confuso sobre o que eu poderia estar sentindo, uma vez que no início eu sequer confiava nela e fazia questão de que a mesma fosse embora. Cheguei a pensar que tais sentimentos pudessem ter surgido ocasionalmente pelo fato de eu estar impressionado ao conhecer alguém que vinha de um futuro distante, mas depois de relembrar os momentos nos quais tivemos contato, acabei por concluir que o que realmente me atraía em Erika era sua coragem, determinação, inteligência e ousadia, qualidades que, coincidentemente, também me atraíam em Maria. Era irônico pensar que, há tão pouco tempo, eu acreditava que jamais seria capaz de sentir por uma mulher o que senti por Adha, e agora eu me via totalmente confuso, divido entre duas mulheres parecidas e, ao mesmo tempo, tão diferentes".

— Ui! Parece que alguém lá no passado gosta de você. — Comentou Felipe todo animadinho, interrompendo minha leitura.

— Ah, cala a boca! Não tem nada a ver. — Cobri o rosto, extremamente envergonhada. Por mais que eu tivesse amado ler tudo aquilo, as palavras de Altaïr também me deixaram naturalmente sem jeito na frente dos meus dois amigos, ainda mais agora que eles sabiam o que eu sentia pelo assassino. — Ele só está confuso, é normal. — Disfarcei, tentando parecer mais séria.

— Ai amiga, para de tentar fazer a egípcia que você não me engana não. Eu te conheço e sei muito bem que você tá amando tudo isso, e com razão. Olha só como o boy fala de você. Tá mais do que na cara que ele te ama! — Insistiu.

— Isso é mesmo um problema. Não deveria acontecer. — Alertou Vinny, claramente preocupado.

— Será que eu posso continuar lendo? — Chamei a atenção dos dois, erguendo o tom de voz e olhando feio pra eles.

— Vai, continua. — Respondeu Vinny.

“Questionei-me também se não havia sido algum outro fator o responsável pela partida repentina de Erika. Estaria ela insatisfeita com a irmandade? A julgar pelo que eu já havia constatado, a presença de uma mulher como uma igual entre os nossos irmãos poderia não ser bem aceita por alguns, eles ainda tinham muito o que aprender e Abbas era um exemplo disso. Teriam as atitudes dele, bem como as de outros assassinos, desencorajado Erika a ficar? Sendo uma novice e tendo vindo de tão longe talvez fosse complicado se adaptar aos nossos costumes. Estariam os treinos de combate muito difíceis para ela?

Nos primeiros dias, depois de muito refletir, resolvi investigar o que poderia ter acontecido. No pátio de treinamento, encontrei com Labib, mestre assassino e um dos instrutores, solicitei que interrompesse os exercícios de defesa por alguns breves minutos e que me acompanhasse em uma caminhada.

— Mentor! É uma honra! — Cumprimentou-me com uma leve reverência.

— Estou aqui para saber sobre Erika. — Fui direto ao assunto.

— Ah! A nossa mais nova irmã. Claro! O que deseja saber? — Perguntou gentilmente.

— Como tem sido o treinamento dela? Está se adaptando? Fez algum progresso? — Caminhava ao lado dele, devagar.

— Bem... Eu tenho analisado o desempenho e o comportamento dela, posso dizer com toda certeza que ela tem talento, e muita coragem também, o senhor mesmo viu o que aconteceu com...

— Sim, eu vi. — Interrompi o homem quando percebi que este falaria a respeito do incidente com Abbas, assunto que eu pretendia tratar depois. — Prossiga.

— Ela tem talento e muita coragem, mas... — Fez uma pausa. A expressão de Labib mudou de entusiasmo ao falar das qualidades da mulher para desapontamento. — ...Por algum motivo que eu desconheço está sempre dispersa, como se estivesse presente apenas fisicamente e a mente dela estivesse em outro lugar. Tem sido extremamente difícil conseguir que ela permaneça focada nos exercícios e eu duvido que tenha feito algum progresso desde que começamos.”

— Por que eu não estou surpreso com você não prestando atenção no treinamento? — Desta vez quem comentou e me interrompeu foi Vinny.

— Olha, amiga. Com um monte de boy magia treinando sem camisa eu prestaria atenção até demais. Ai que sonho! — Brincou Felipe.

— Não é bem assim não. — Ri baixinho. — E o que acontece é que... Ah, esquece! — Desisti de tentar explicar e prossegui com a leitura.

"— E o que pretende fazer a respeito? — Perguntei fitando-o com uma expressão séria.

— Não sei. Talvez eu não seja o instrutor mais adequado para alguém como Erika. — Respondeu, um pouco receoso. — Quero dizer... Ela é jovem e eu já sou um homem velho. Acredito que um mestre mais jovem como Rauf saberia lidar melhor com ela e naturalmente teria mais sucesso.

— Então está dizendo que não pode ensiná-la? — Interrompi a caminhada, olhando para ele.

— Não, senhor... Eu só... Foi apenas uma sugestão. — Claramente se sentiu intimidado, pude ver nos olhos dele.

— Mais alguma coisa a dizer?

— Sim. Eu também notei que Erika não parece se sentir segura em meio aos nossos irmãos, sinto que alguma coisa a incomoda. — Tentou se recompor, porém, ainda parecia intimidado.

— Era justamente sobre isso que eu gostaria de falar. Tem visto Abbas ou algum outro de nossos irmãos desrespeitá-la ou incomodá-la de alguma forma? — Olhei nos olhos dele enquanto perguntava, eu precisava ter certeza do que estava acontecendo e temia que, por medo ou qualquer outro motivo, o homem não fosse totalmente sincero.

— Ás vezes eu ouço alguns comentários maldosos sim e cobro os responsáveis exigindo respeito, mas o senhor sabe como são essas coisas... Eles fingem que escutam, porém, insistem. — Como eu esperava, ele se mostrou um pouco amedrontado ao falar. — Ela não tem aparecido nos treinos nesses últimos dias e...

— Quero que envie os responsáveis por tais comentários até a minha sala hoje mesmo. Terei uma conversa com eles. Isso acaba aqui. — Procurei ser bem claro e objetivo. — E quanto à Erika, não compareceu porque eu a enviei como informante em uma missão. Não tenho previsão para quanto ela volta. — Precisei mentir e o fiz com perfeição, porém, tal mentira tinha um fundo de verdade. Eu realmente não sabia quando ela voltaria, e se voltaria.

— Certo. Farei isso hoje mesmo. — Afirmou, embora seu medo fosse facilmente visível.

— E eu preciso que seja firme, é o que espero de um mestre. — O repreendi. — Se tiver algum problema, não hesite em me informar.

— Sim, senhor. — Assentiu com a cabeça. — Eu sinto muito por isso... Por não ser capaz de fazer mais por Erika. — Mais uma vez, se mostrou desapontado, e de fato deveria estar, considerando o mestre talentoso que era.

— Está tudo bem. — Tentei parecer mais gentil, mesmo falando de forma séria. — Quando ela voltar eu verei o que podemos fazer a respeito. Se voltar... — Acabei deixando escapar um pensamento em voz alta. — Obrigado pelas informações. Já pode prosseguir com o treinamento. — Complementei, antes que Labib fizesse alguma pergunta.

— Foi um prazer, mentor. Espero tê-lo ajudado. — Outra vez, fez uma curta reverência. — Segurança e paz.

Cumprindo o que eu havia dito, tive uma conversa com todos os responsáveis por comentários maldosos reunidos em minha sala, entre eles, o próprio Abbas, que não se mostrou nada amigável e tentou não apenas me atingir como também colocar os meus irmãos contra mim, em um comportamento que julguei preocupante.

— ...Erika é nossa irmã e deve ser respeitada como tal. Ela também é uma assassina assim como cada um de vocês aqui presentes, devem vê-la e tratá-la como igual. — Falei de forma mais calma, a fim de transmitir-lhes tal ensinamento, porém, sem perder a firmeza, fitava-os com uma expressão séria e um olhar atento. — Vocês cumprirão treinamento em tempo integral, para que assim não tenham tempo de desrespeitar seus semelhantes. — Fiz uma pausa. — Já podem se retirar.

— Altaïr, o defensor das mulheres. Até mesmo das infiéis. — Comentou Abbas, claramente referindo-se à Maria e sua antiga lealdade, causando questionamentos entre os demais enquanto todos se retiravam.

— Abbas, você fica. — Ordenei quando o mesmo já estava prestes a ir embora. — Eu assisti o incidente no pátio de treinamento dias atrás. Você não só faltou com o respeito com nossa irmã Erika como também a colocou em perigo e atentou contra a vida dela. — Agora, falava com ainda mais firmeza. — Tal comportamento é inadmissível, e não vou permitir que saia impune. Você está suspenso de suas atividades por tempo indeterminado, entregue suas armas ao Malik e ele irá te designar as tarefas que deve cumprir de acordo com as necessidades da irmandade.

— Como quiser... Mentor. — Respondeu referindo-se a mim e a minha posição de forma sarcástica, pude ver o ódio nos olhos dele, um ódio que eu já conhecia bem.

Alguns dias depois, em meus aposentos, analisava o estranho dispositivo que Erika havia deixado para trás, imaginando que, se conseguisse descobrir como este funcionava, eu pudesse obter alguma informação importante sobre ela, talvez até mesmo o porque de ter partido ou quem sabe alguma forma de contatá-la. Horas se passaram e não obtive progresso algum, o tal dispositivo só exibia uma imagem do que pareciam ser grandes torres de metal e pilares tão altos quanto o próprio céu, extremamente iluminados em uma bela noite. Perguntei-me o significado daquela imagem... Seria aquele o futuro em que Erika vivia? Era o que eu conseguia deduzir. Tudo aquilo era tão confuso e estranho para mim... Eu diria até incompreensível. Mas será que eu deveria compreender? Pensei em perguntar à Maçã como aquele dispositivo funcionava, eu sabia que ela me diria como, bastava que eu a tocasse... E, por um instante quase o fiz, porém, ao lembrar do que Erika havia dito sobre as consequências do meu contato com tecnologia do futuro, afastei minha mão antes que pudesse tocá-la, resistindo à tentação.

Mais alguns dias se passaram e um uma noite das muitas que não consegui dormi pensando em Erika, resolvi finalmente consultar a Maçã, mas desta vez com um propósito diferente. Sentado em minha poltrona, segurei o artefato em minha mão, fazendo-o emitir sua luz ofuscante e pulsar como se estivesse vivo enquanto a energia deste percorria das pontas dos meus dedos até o meu peito e depois para todo o meu corpo, preenchendo-me de forma que eu pudesse sentir seu imenso poder como se este fosse parte de mim. 'Mostre-me Erika' pensei, e de imediato uma luz se projetou, exibindo imagens da mesma no que parecia ser o futuro de onde ela vinha, algumas destas imagens eram tão incompreensíveis para mim quanto a que eu havia visto no estranho dispositivo, porém, por muitas vezes, vi Erika junto a outros indivíduos, sendo estes dois homens e uma mulher. Quem seriam eles? Sua família? Seus amigos? Seus irmãos de credo?"

— Espera... Ele viu a gente? É isso mesmo? — Vinny interrompeu a leitura mais uma vez, parecia incrédulo.

— Pela descrição dele tudo indica que sim. — Respondi, sorrindo. — Não é incrível?

— Fascinante! Então a Maçã é realmente capaz de mostrar o futuro. Me pergunto o que mais pode fazer... Como eu gostaria de poder estudá-la.

— Ai tomara que ele não tenha me visto pelada né... Aloka! — Comentou Felipe, rindo.

— Erika, por favor, continue. Tire essa imagem traumatizante da minha mente. — Sugeriu Vinny quase que implorando, revirando os olhos.

"Nestas imagens, Erika se mostrava atormentada por algo que por algum motivo a entristecia, diferente da imagem da mulher sorridente que eu tinha em minha mente ao lembrar de quando ela ainda estava aqui. O que a aborrecia? Teria isso alguma conexão com o fato pelo qual a mesma decidiu partir?

— Segurança e paz, irmão. — Ouvi a voz de Malik e então percebi que ele estava ali ao meu lado observando tudo. Deixei a Maçã sobre o meu colo, cessando assim as imagens que antes eram exibidas, respirei fundo e olhei para aquele meu grande amigo, um verdadeiro irmão, parado em minha frente, enquanto eu permanecia calado. — Estou aqui a pedido de Maria, que me contou que você não tem dormido a noite e está preocupada. Eu iria perguntar o que estava acontecendo, mas agora vejo com meus próprios olhos.

— Erika foi embora, sem ao menos dizer o motivo. Eu pensei que ela fosse voltar, mas já se fazem muitos dias... Acredito que ela partiu para sempre. — Guardei a Maçã em meu manto e levantei-me, caminhando pela sala. — Diga a Maria que estou bem e já vou.

— Altaïr, não há problema em não estar bem. Você tem sentimentos por Erika, isso é óbvio! Do contrário não estaria aqui. Pare de agir como um idiota escondendo o que sente. — Repreendeu-me como costumava fazer nos dias em que eu era um homem completamente diferente, sem ter medo de dizer o que eu precisava ouvir e, de fato, ele tinha razão, embora eu não admitisse.

— Estou confuso. — Foi tudo o que consegui dizer.

— Eu sei. — Tocou meu ombro, agora falava de forma mais gentil. — E estou aqui ao seu lado para o que precisar, como irmão.

— Ela irá voltar? — Perguntei, pensando alto.

— Isso só o tempo pode dizer, enquanto isso mantenha-se focado em cumprir seu papel aqui e agora, precisamos de você. A vida é como um rio, sempre seguindo em frente.

— Você está certo. Obrigado, Malik. — Falei da forma mais gentil que o meu estado permitia.

— Vou deixar que reflita. Não hesite em me chamar caso seja preciso. Tenha um bom descanso, vai se sentir melhor pela manhã.

Quando se completaram três meses que Erika havia partido eu decidi tentar aceitar o fato de que era o fim, Malik tinha razão, eu precisava seguir em frente se quisesse ser capaz de guiar a irmandade pelo caminho certo. Resolvi me focar no estudo da Maçã, tal artefato precisa ser entendido e irá ser entendido. Será ela uma arma? Um catálogo? De alguma forma os dois? Eu sei que a Maçã tem uma história a contar... Que esconde em seu interior um vasto conhecimento, eu posso sentir! 'Aquele que aumenta o conhecimento, aumenta a tristeza' eram as palavras do homem que um dia foi como um pai para mim, palavras que agora fazem todo o sentido, mas que não me farão desistir... Não, eu não irei desistir até encontrar a verdade.

Em um dia qualquer, enquanto fazia minhas anotações no meu diário, vi uma luz surgir atrás de mim, inicialmente imaginei que fosse alguém abrindo a porta dos meus aposentos a minha procura, talvez Maria, porém, notei que esta luz era incomum e a esperança de que pudesse ser Erika finalmente voltando surgiu em minha mente de forma natural e imediata, em um segundo foi como se o meu esforço para esquecer de tudo aquilo e seguir em frente jamais tivessem existido.

Levantei-me o mais rápido que pude e ao virar-me para conferir o que acontecia tive a surpresa e a decepção de encontrar outra pessoa parada em minha frente enquanto o estranho portal se fechava logo atrás dela. Era uma mulher de aparentemente trinta anos, tinha cabelos castanhos curtos quase como os de um homem, olhos azuis e pele clara, vestia roupas tão estranhas quanto as de Erika, o que junto à maneira como havia surgido, me fez deduzir que vinha da mesma época. Acabei lembrando-me das imagens que vi ao consultar a Maçã, dentre as quais pude ver aquela mulher junto de Erika e outros indivíduos desconhecidos. Permaneci calado, olhando fixamente nos olhos dela com uma expressão séria e intimidadora ao passo de que, embora também tivesse uma postura firme, ela pareceu admirada ao ver-me, por motivos que eu desconhecia.

— Você me ouve? Consegue compreender o que estou dizendo? — Ela perguntou quebrando o silêncio, estranhamente falando ao mesmo tempo no idioma dela e no meu, porém, a voz que falava no meu idioma era completamente diferente e soava de um jeito diferente que eu nunca havia ouvido antes, não era natural. Ao falar colocou a mão sobre um dispositivo estranho que estava preso à sua orelha.

— Quem é você? O que faz aqui? Onde está Erika? Ela me deve algumas explicações. — Aproximei-me, fazendo o movimento com o pulso para ativar o mecanismo da minha lâmina oculta, a qual coloquei próxima ao pescoço da mulher enquanto a analisava friamente, aguardando sedento por respostas.

— Seu legado realmente faz jus a quem você é. O que mais esperar do grande Altaïr Ibn-La’Ahad a não ser uma recepção cheia de questionamentos com uma dose de atitude? — Continuou ali parada e falou tão naturalmente como se me conhecesse e não temesse perder a própria vida.

— Eu não vou perguntar outra vez. — Adverti de forma mais rude, olhando no fundo dos olhos dela.

— É claro que não vai. Agora pare de tentar me intimidar, isso não funciona comigo. Na verdade, geralmente sou eu quem faz esse tipo de coisa. Está lidando com uma mestre, assim como você. — Se mostrou segura, chegou até mesmo a sorrir levemente. — Sou Anne, mestre assassina no comando da equipe de Erika e estou aqui para substituí-la nessa missão. — Complementou.

— Substituí-la? Como assim substituí-la? — Minha fúria ao ouvir aquilo era notável.

— Erika está suspensa dessa missão.

— Por que?

— Eu a suspendi por ter cometido um erro que colocou o futuro em risco. Ela deixou um smartphone... Um dispositivo de tecnologia avançada aqui no passado. — Fez uma pausa, não parecia se intimidar como havia afirmado, permanecia no mesmo lugar mesmo ao ver-me furioso com minha lâmina ainda próxima de sua garganta. — Por acaso você o viu?

— Se refere a isto? — Com a mão livre peguei o dispositivo outrora guardado na pequena bolsa de couro atrás do meu cinto e o mostrei a ela. — Eu o encontrei no chão de minha sala, imagino que Erika deve tê-lo deixado cair por acidente.

— Esse mesmo. Se não se importa em devolver. — Estendeu a mão.

— Certamente irei devolver... — Fiz uma breve pausa. — ...Para Erika, quando ela voltar. — Complementei, guardando o dispositivo de volta onde estava.

— Ela não irá voltar. — Afirmou, pude notar que minha atitude não a agradou.

— O dispositivo está seguro comigo e, como eu disse, estará nas mãos dela, o problema pelo qual você a suspendeu da missão foi resolvido. Ela pode voltar. — Praticamente ordenei.

— Eu sou a mestre no comando dessa missão. Não pense que pode passar por cima da minha autoridade. — Agora a mulher parecia tão furiosa quanto eu e não fez questão alguma de esconder.

— Eu sou o mentor desta irmandade. Não pense que pode passar por cima da minha. — Cerrei os olhos, fitando-a como se fosse matá-la ali mesmo.

— Erika é uma novice e como tal não tem as habilidades necessárias e a capacidade para executar uma missão dessa importância. Eu só permiti que ela viesse antes por ter tido contato com você, o que se mostrou um erro... Eu mesma deveria ter vindo.

— A “novice” de quem você fala salvou minha vida, enfrentou um verdadeiro exército de cruzados sem sequer saber lutar e tem mais coragem do que metade dos meus homens. Como mestre você certamente deveria conhecer melhor os seus aprendizes.

— Como se atreve a dizer o que eu devo ou não fazer? — Naquele momento os olhares mortais se cruzaram em uma disputa de autoridade.

— Da mesma forma que você se atreveu a suspender Erika sem antes me consultar.

— É a minha missão! — Ergueu a voz, passando a gritar.

— Não, é dela. E eu ordeno que ela volte. — Afirmei, desativando a lâmina oculta. — Você já pode ir. Vá e transmita minha ordem antes que eu mude de ideia.

— Se acha que vou obedecer somente por você ser quem é está muito enganado.

— Eu sei que vai. Vocês assassinos do futuro demonstram ter um forte respeito e uma grande admiração por mim, eu não sei o motivo, porém, sei que isso fará com que cumpra minha ordem. — Precisei ser sagaz, estava lidando com algo desconhecido e talvez incerto, uma dedução que fiz ao analisar o comportamento dela, que embora enfurecida claramente procurava se conter diante de mim, e de Erika, que não hesitava em falar o quanto eu era lendário. Mas por que? O que eu faria de tão importante no futuro? Era difícil não me questionar quanto a isso e ainda mais difícil não ser arrogante em uma situação na qual, se eu quisesse ter sucesso, era mais do que preciso. De qualquer forma, eu não iria me deixar seduzir por aquilo, não cometeria o mesmo erro duas vezes... Eu era um novo homem.

— Estou aqui para ficar, goste você ou não. — Ativou sua própria lâmina oculta e colocou-a próxima ao meu pescoço. — Você escolhe, Altaïr. Como vai ser? Vamos nos entender como membros da mesma causa que somos ou vai ser do jeito difícil?

— Não me obrigue a fazer o que eu não devo. — Reativei minha lâmina e coloquei-a próxima ao pescoço dela também, da mesma forma que havia feito antes. Agora estávamos mais uma vez em uma disputa de autoridade fitando um ao outro com olhares mortais."

— Por que parou, Erika? Precisamos saber o que acontece. — Vinny parecia atônito, assim como Felipe também.

— O que acontece, mulher? Fala! — Insistiu Felipe.

— Nesse momento, segundo o texto escrito pelo próprio Altaïr, eu... Eu apareço lá. — Respondi, ainda não acreditando no que eu havia acabado de ler.

— Como você pode aparecer lá se está aqui com a gente? — Questionou Felipe, confuso.

— Porque isso foi escrito depois do que aconteceu. É um evento que faz parte da história. — Não consegui evitar e acabei sorrindo. — E é por isso que eu preciso ir pra lá agora mesmo! — Me levantei da cama toda animada, correndo para a sala de pesquisas ainda com o pergaminho na mão, os dois também se levantaram e correram logo atrás de mim.

— Erika, não! Você não pode fazer isso! — Vinny me segurou pelo braço, visivelmente preocupado. — Anne está lá, imagine o que pode acontecer.

— A questão é essa: Eu não preciso imaginar. — Me soltei, olhando feio pra ele. — O que vai acontecer está escrito bem aqui! O que você quer? Que eu mude a história? — Apontei para o texto no pergaminho.

— Ela tem razão, a história não deve ser mudada. E aqueles dois se enfrentando não é boa coisa e pode acabar muito mal se ninguém intervir. — Felipe já se sentou perto dos computadores para preparar o sistema.

— É perigoso! Você sabe o que vai acontecer e isso não é certo. — Insistiu Vinny.

— Perigoso é não cumprir o que deve acontecer e colocar tudo em risco por medo, não acha? — Indaguei enquanto me deitava na poltrona do Animus.

— Eu não acredito que estou concordando com isso! — Vinny cobriu o rosto com as mãos, nervoso. — Anne vai me matar!

— Fica tranquilo, eu assumo a responsabilidade. — Enrolei o pergaminho e o prendi no meu cinto. Não conseguia conter a ansiedade de rever Altaïr depois de tanto tempo, e somente com essa ansiedade combinada ao que eu já sentia por ele que fui capaz de ter atitude e coragem suficiente para fazer aquilo que tinha tudo para acabar bem mal. — Por favor, Vinny! Preciso de você para que os cálculos sejam exatos, tenho que chegar no momento certo. — Insisti, quase que implorando.

— Está bem, mas se algo errado acontecer a culpa será toda sua. — Acabou se dando por vencido.

— Manda ver! — Eu já estava quase roendo as unhas, não agüentava mais esperar.

— Não vai levar mais nada? — Perguntou Felipe.

— Não, hoje não.

— Você quem sabe né...

— Cálculos prontos. 15 de Abril de 1193. — Vinny conferiu os dados na tela do computador central. — Criando abertura temporal em 3...

Foi muito rápido, só me lembro de ter caído no chão assim que cheguei ao passado, tendo um pouco de dificuldade para me levantar. Eram os efeitos da viagem no tempo se manifestando mais uma vez e me fazendo passar vergonha na frente de Altaïr e de Anne, ambos incrédulos ao me ver ali.

— Erika? O que você está fazendo aqui? — Anne me encarou como se fosse me matar.

— Você está bem? — Altaïr desativou sua lâmina oculta e se afastou de Anne, vindo ao meu encontro. — Consegue caminhar? — Me ajudou a levantar e colocou meu braço em volta do ombro dele, sustentando boa parte do meu peso.

— Estou. É... Acho que estou. — Falei ainda confusa pela viagem. Fiquei ali apoiada nele até que me sentisse um pouco melhor, aproveitando o momento, é claro, que não durou muito, logo ele me ajudou a sentar em uma cadeira.

— Você não deveria estar aqui! — Anne estava furiosa, pra variar.

— Que coisa engraçada, né? A vida... — Falei de forma bem vaga, rindo. Quem me visse acharia que eu estava bêbada, mas era a soma dos efeitos da viagem com a minha extrema felicidade em estar novamente junto do homem que eu amava, a minha vontade era de abraçá-lo e beijá-lo ali mesmo e por um instante me imaginei fazendo isso, esboçando um belo sorriso apaixonado enquanto olhava para ele.

— Olha só pra ela! Você realmente acha que essa garota é capaz de cumprir uma missão? Mal cumpre as minhas ordens. — Desabafou Anne.

— Talvez você não seja tão boa em dar ordens como imagina ser. — Altaïr provocou e eu não pude evitar a não ser rir.

— Ai! Essa doeu. Eu não deixava. — Coloquei a mão sobre a boca, tentando conter o riso. Eu estava cheia de “marra” como se estivesse acompanhando e incitando uma daquelas brigas entre amigos dos tempos de escola.

— Está vendo? Ela não tem o mínimo de respeito e comprometimento.

— Isso pode ser ensinado com o tempo...

— ...Só é preciso paciência. — Interrompi Altaïr, completando o que ele iria dizer, lendo no pergaminho.

— Eu iria dizer isso. — Falou claramente confuso, e ficou ainda mais confuso ao ver que eu havia repetido em perfeita sincronia com ele. — E isso! — Mais uma vez, falamos juntos exatamente a mesma coisa. — O que está acontecendo? — Outra vez, e desta vez o assassino pareceu assustado, como eu o vi poucas vezes. — Pare! — Pra variar, repeti de novo. — Eu disse, já chega. — Repeti uma última vez, voltando a rir enquanto eu o via apontar pra mim já começando a ficar irritado.

— Desculpe, foi mais forte do que eu. — Também li a minha própria fala no pergaminho, o que era bem estranho e me fez sentir como uma atriz interpretando uma cena.

— Por que está dizendo exatamente a mesma coisa que eu? — Questionou, olhando feio pra mim. — Isso é algum tipo de brincadeira, Erika?

— Porque eu sei exatamente o que você vai dizer. — Respondi como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— E como você pode saber o que vou dizer antes mesmo de eu dizer? — Continuava se mostrando confuso e não parecendo gostar nada daquilo.

— Eu tenho a transcrição dessa conversa. — Balancei o pergaminho de leve. — É o que estou lendo agora.

— Como você...

— Como eu consegui? Sou uma viajante do tempo... Consegui no futuro, é claro! — O interrompi outra vez, esboçando um belo sorriso, porém, desta vez vi as palavras escritas no pergaminho mudarem bem na frente dos meus olhos como mágica, assim como a minha expressão ao ver aquilo. — Espera. Isso não deveria estar escrito, simplesmente... Mudou!? — Deixei o pergaminho sobre a mesa, assustada.

— Parabéns! Você acaba de mudar a história. — Falou Anne em um tom de voz irônico, desativando sua lâmina e batendo palmas logo em seguida. — O que eu disse, Altaïr? Ela não tem nenhum comprometimento.

— Essa missão é dela e eu tenho certeza que Erika fará um bom trabalho. — Se aproximou devagar, querendo pegar o pergaminho.

— Não, não. — O peguei outra vez e guardei de volta no meu cinto, antes que o assassino o fizesse e lesse o que não deveria. — Spoilers! — Ri baixinho, olhando pra ele.

— Vê? — Foi só então que percebi que Altaïr tinha tentado pegar o pergaminho não por curiosidade como imaginei, mas sim porque sabia que eu teria comprometimento o bastante para impedi-lo. Uma atitude genial! — Eu confio nela. — Complementou, afirmando segura e gentilmente. Por mais que estivéssemos nos dando bem já há um certo tempo, ver ele ser tão gentil abertamente ainda soava bem estranho e me fazia pensar no que Vinny o Felipe haviam dito sobre Altaïr gostar de mim e em tudo o que eu havia lido nos pergaminhos. Estaria o assassino sentindo algo por mim também? Aquilo parecia tão impossível. Estaria ele apenas confuso como eu acreditava? Somente o tempo poderia responder.

— Se você diz... — Anne cruzou os braços, apenas observando.

— Aqui está. — Altaïr me entregou o meu smartphone. — Eu o guardei comigo até que você voltasse. Por algum motivo que desconheço estranhamente parou de exibir aquela tal imagem estranha há algum tempo. Espero não ter feito nada de errado.

— Ah, está sem bateria. Normal. Nunca dura mais que alguns dias. — Falei rindo, observando o aparelho. O prendi no cinto junto com o pergaminho.

— Sem o que? — Obviamente ele não entendeu nada do que eu disse, e nem tinha como entender.

— Nada não. Esquece. — Disfarcei e mudei para um tom de voz mais sério. — Você por acaso não...

— Não. — Me interrompeu, já captando a mensagem. — Inicialmente eu pensei sim em usar a Maçã para descobrir como funciona, porém, lembrei-me do que você havia dito sobre as consequências do meu contato com tecnologias do futuro e decidi conter a minha curiosidade, respeitando sua decisão. — Naquele momento Anne deu um leve sorriso, o que eu não via há muito tempo... Foi estranho até demais.

— Você contendo sua curiosidade é uma nova. — Brinquei, voltando a rir.

— Acho que é hora de eu ir. — Disse Anne, e eu nem acreditei ao ver ela ceder daquela forma, precisei de alguns segundos para me acostumar com a ideia.

— Espera, você? — Perguntei só pra ter certeza de que eu não estava delirando, ainda incrédula.

— Eu te julguei errado, Erika. Sinto muito. — Deu uma breve pausa, pude notar o quão era difícil para ela admitir que errou. — Ele tem razão, você é capaz de fazer um bom trabalho. E se alguém tão sábio como Altaïr confia em você, quem sou eu pra dizer o contrário? — Mexeu no Apple Watch e logo pude ver a imagem de Vinny se projetar. — Enviando as coordenadas, estou voltando.

— Sim, senhora. — Vinny respondeu prontamente, mas sem esconder sua surpresa com a decisão de Anne. — Ah... Olá, Altaïr! — Disse sem jeito, acenando.

— Ele não te entende, gênio! — Alertei, rindo.

— Eu sei, mas mesmo assim é legal. — Riu junto comigo.

— Você é livre para ficar se assim decidir, desde que não interfira em nada. — Sugeriu Altaïr, olhando para Anne e falando de forma até gentil.

— Obrigada, mas tenho uma equipe para coordenar. — Retirou o relógio do pulso e o jogou pra mim. — Te aguardo na sala de pesquisas para preencher os relatórios e pegar suas coisas. — A abertura temporal se fez, tanto eu quando Altaïr colocamos o braço na frente do rosto para cobrir os olhos e nos proteger da luz ofuscante.

— Você me deve explicações. — Disse o assassino em um tom de voz sério e imponente assim que Anne partiu e o "portal", como ele mesmo chamava, se fechou.

— Devo é? — Perguntei enquanto ajeitava o Apple Watch no meu pulso, como se não soubesse do que ele falava.

— Você foi embora sem ao menos avisar e, além disso, ignorou completamente as minhas palavras quando tentei impedi-la. — Olhava para mim com uma expressão séria. Se mostrava visivelmente impaciente e considerando o que eu sabia de fato ele deveria estar depois de tanto tempo.

— Houve algumas complicações com o sistema do Animus... A máquina que me permite viajar no tempo, lembra? Eu precisei partir o quanto antes, com o risco de ficar presa no passado. — Me levantei e me aproximei dele, tocando seu ombro. — Desculpe por isso, eu não pude fazer nada. Quando você chegou já era tarde.

— Fala como se ficar aqui fosse algo ruim. — Olhou em meus olhos, nada contente... Eu diria até decepcionado. — Você julga o minha era inferior?

— Não, não... Eu não quis... Não é isso, é que... — Me afastei, totalmente sem jeito. — Eu só fiquei assustada.

— Tudo bem. — Deu uma breve pausa, pensativo. — Estou feliz por você estar aqui novamente. — Falou gentilmente, de um jeito que soou até carinhoso.

— Eu também. — Sorri feito uma boba apaixonada. Mesmo tentando, não me contive e acabei abraçando ele. Tive uma grande surpresa ao ver que Altaïr não só retribuiu como também permaneceu ali abraçado a mim por um certo tempo. Comparada a reação que o assassino teve na última vez que o abracei era um progresso e tanto. Apoiei minha cabeça sobre o peito dele, desejando que aquele breve momento durasse mais. — Eu... Acho... É melhor eu ir... Sabe? Cumprir minhas tarefas e buscar minhas coisas antes que Anne mude de ideia. — Falei toda atrapalhada quando ambos desfizemos o abraço, ainda esboçando um belo sorriso.

— E quando volta? — Questionou, outra vez demonstrando estar impaciente.

— O mais breve possível. — Contatei Vinny pelo relógio e mais uma vez a imagem dele se projetou em um holograma.

— Tudo pronto. Criando abertura temporal...

— Essa foi rápida. Estamos progredindo — Brinquei, rindo baixo.

— Muito engraçado! Como se fosse fácil fazer todos esses cálculos. — Vinny me repreendeu.

— Eu volto, tá? — Disse antes de atravessar a passagem, sorrindo carinhosamente.

— Vou estar esperando. — Altaïr falou de forma fria e cética, colocando o braço sobre o rosto mais uma vez.

De volta a sala de pesquisas, preenchia os relatórios e arrumava as minhas coisas na mochila o mais rápido que podia, com pressa para a “viagem”. Ouvi alguns passos e quando me virei vi Dexter se aproximando:

— Erika, eu quero me desculpar pelo que aconteceu ontem no hotel e dizer que... — Olhou para todas aquelas coisas, visivelmente confuso. — O que é isso? Vai a algum lugar?

— Eu não te informei? Erika vai voltar para a missão no passado. — Anne surgiu na hora exata como costumava fazer e respondeu a pergunta por mim.

— Então acho que não sou mais necessário aqui. — Não foi difícil perceber que Dexter não gostou nada de ouvir aquilo.

— Pelo contrário, agora que ela vai estar outra vez com Altaïr vou precisar de apoio aqui. E nada melhor para nossa equipe do que a ajuda de outro mestre.

— Espera... Com quem? — Pude ver nos olhos de Dexter que ele imediatamente reconheceu o nome e pela forma como me encarou ficou furioso, na certa tinha se lembrado da noite passada quando eu havia chamado pelo assassino sem querer naquilo que foi uma situação constrangedora, pelo visto não adiantou disfarçar. Fiquei sem palavras, desejando poder sumir dali, simplesmente desaparecer.

Notas finais
Deu ruim, Erika. haha Espero que tenham gostado. Não esqueçam de comentar. O feedback de vocês leitores é muito importante. :D