Notas iniciais
E aí, irmandade! Tudo tranquilo e assassinável? huehue Como foi o fim de ano de vocês? Aqui estou eu não com um, mas sim DOIS capítulos novos depois de tanto tempo ausente em missão, (considerem como presente de natal mega atrasado). xD Boa leitura! AVISO IMPORTANTE: Toda vez em que um novo personagem for introduzido na história haverá um link no nome dele, cliquem no link para visualizar a página da database do Animus referente a ele para obter mais informações sobre o mesmo. Na história, a database do Animus é criada por Felipe e ás vezes recebe comentários dele e/ou de Vinny.

— Me leva de volta! — Foi a primeira coisa que eu disse assim que cheguei ao presente, desesperadamente, ao me levantar da poltrona do Animus o mais rápido que podia e deixar as coisas pesadas que eu carregava caírem no chão, quase caindo junto também. Sentia uma forte tontura e minha visão estava embaçada, efeitos da viagem aos quais eu ainda precisava me acostumar.

— Erika, cuidado! — Vinny me segurou pelo braço antes que eu caísse. — Viajar mais de 800 anos no tempo é desgastante. Você precisa descansar. Vamos, deite-se.

— Vinny, me leva de volta. — Insisti, erguendo um pouco o tom de voz. Me afastei dele, que já ia me levando de volta para a poltrona. Irritada, o encarei como se fosse bater nele ali mesmo, apesar de não poder vê-lo direito por conta da minha visão ainda estar desfocada. Manter-me em pé não era uma tarefa tão simples, porém, tive que permanecer firme.

— Eu não posso, Erika. Os níveis de interferência estão extremamente altos, isso já está causando falhas e mais falhas no sistema, que pode cair a qualquer hora. Você tem sorte de ter conseguido voltar a tempo e em seguran...

— Eu não me importo. Me leva de volta agora! — Gritei, deixando o desespero dar lugar à fúria, empurrei a primeira coisa que encontrei pela frente que, pelo pouco que pude ver, era um notebook junto com alguns livros e papeis. Derrubei tudo da mesa de forma bruta e irracional, que deixou até o Vinny assustado e fez com que ele se afastasse. Mais uma vez, por pouco não caí, escorei-me sobre a própria mesa e fiquei ali por alguns segundos até que me sentisse bem o suficiente para ficar em pé outra vez.

— Qual é o seu problema, garota? — Vinny me encarou com total estranhamento, como se não me reconhecesse. E não foi nada legal minha visão ter voltado ao normal justamente nesse momento para que eu visse isso. Abaixou-se por um instante para recolher as coisas que eu havia derrubado e as deixou sobre outra mesa. O estrago foi considerável, a tela do notebook estava toda trincada e várias das teclas haviam se soltado do teclado. — Por que você está agindo assim? — Perguntou relutantemente.

— Você não entenderia. — Falei um pouco mais baixo, vendo o que eu havia acabado de fazer e deixando a fúria de lado, envergonhada. Coloquei a mão na testa, sentindo um pouco de dor de cabeça.

— Tente explicar. — Aproximou-se devagar, eu podia perceber que ele ainda parecia um pouco assustado.

— Não. Melhor não. — Falei movendo a cabeça em sinal negativo.

— Ah, ótimo! O sistema caiu de vez. — Olhou por alguns segundos para as telas dos monitores, nada contente. Era como se estivéssemos sem energia, tudo parou de funcionar e de um jeito muito estranho, aquilo não parecia ser causado por simples falhas no sistema. — Erika, eu te conheço há anos pra saber que esse seu comportamento não é normal. O que está acontecendo? — Vinny disse de forma bem gentil, voltando a me observar e chegando bem mais perto.

— Qual é o babado? Não quero ficar de fora da fofoca. — Felipe entrou na sala todo espalhafatoso, como de costume.

— Há quanto tempo você está aqui? — Perguntou Vinny, olhando para Felipe com uma expressão não muito amigável.

— O suficiente pra ouvir tudinho e concordar que a nossa querida amiga não está nada bem. E olha que nunca achei que eu iria concordar com uma recalcada como você. — Disse enquanto caminhava até nós. — Me dá licença, sim? — Felipe empurrou Vinny bem de leve, graciosamente e com apenas uma das mãos, só para tomar o seu lugar visando provocá-lo. — O que houve, minha rainha? Por que você está toda desesperada e irritada como se tivesse perdido o show da Britney, hein?

— Bem... — Pensava em como contaria tudo a eles. Eu não queria dizer, mas com dois grandes amigos tão preocupados era difícil não falar.

— Não vem com essa de “bem”. Pode ir falando, rapidinho, vai. É pra hoje, amiga! Não sou a múmia da Cher não... Que pode te ouvir por mil anos. — Felipe estava todo agitado e parecia bem curioso.

— Você vai deixar ela falar ou não vai? — Vinny o repreendeu, olhando feio.

— Ui! Estressada. — Zombou Felipe, antes de se calar.

— Então... Quando eu voltei pro passado... — Comecei a contar tudo em detalhes sobre o que havia acontecido nos dias em que estive fora, da forma menos desesperada que consegui. Falei por vários minutos sem que me interrompessem, quando finalmente terminei eu estava fazia tempo sentada sobre a mesa vazia da qual havia derrubado as coisas, e os dois, Vinny sentado no chão encostado na parede e Felipe todo à vontade em uma cadeira giratória, ainda me ouviam atentamente. — ...E foi aí que eu olhei pra trás por um segundo e vi Altaïr desesperado, certamente pensando que eu estava indo embora para sempre. E eu nem tive tempo de reagir porque aquela maldita abertura temporal se fechou antes que eu pudesse fazer qualquer coisa. — Meu tom de voz demonstrava claramente a agonia que eu havia sentido e continuava a sentir, unida à sensação de impotência por não ter sido capaz de fazer nada. Minha consciência estava pesada por ter deixado o assassino no passado daquela forma cruel, ainda mais depois de, de certa forma, ter discutido com ele. — E é por isso que eu preciso voltar o quanto antes! — Levantei e fui checar os computadores, o sistema ainda estava offline, tentei reiniciar tudo, mas não tive nenhuma resposta.

— Como você mesma está vendo, eu receio que isso não vai ser possível. Sinto muito. — Vinny se levantou devagar e juntou-se a mim, tentou dar um reboot de emergência, que também não funcionou. — Eu nunca vi nada como isso. — Falou com a mão no queixo, pensativo.

— Por favor, me diz que você pode consertar. Diz que vai resolver isso e que eu vou poder voltar no tempo outra vez. — Cheguei mais perto dele, olhando-o nos olhos, quase que implorando. Eu realmente estava assustada com a possibilidade de nunca mais poder voltar, ou melhor dizendo, de nunca mais ver Altaïr.

— Eu não sei... Vou precisar analisar melhor primeiro. A situação é complicada. — Vinny falava de uma forma até que calma para quem de certa forma tinha acabado de “perder” todo seu precioso sistema, quando deu uma breve pausa e me observou por alguns segundos. — Isso é realmente muito estranho. — Começou a caminhar ao meu redor, me observando. Mais uma vez ele parecia pensativo. — Como eu disse minutos atrás, antes você não queria ir para o passado e eu achei que ficaria feliz por estar aqui com a gente no presente outra vez, mas parece que é o oposto. Por que quer tanto voltar, Erika?

— Só você não percebeu ainda. — Felipe riu de forma bem debochada, todo cheio de si. Também se levantou e juntou-se a nós. — E ainda te chamam de gênio. — Provocou mais uma vez.

— Espera aí, não me diga que você... — Deu uma breve pausa como se não quisesse completar a frase. — Erika, você gosta do Altaïr? — Foi direto ao ponto, me olhando incrédulo, de uma forma bem exagerada, como se eu tivesse feito algo muito ruim. Parecia não me reconhecer mais uma vez.

— Eeeu? — Coloquei a mão no peito e fingi estar surpresa, tentei disfarçar o indisfarçável de um jeito cômico e comecei a rir de forma bem forçada. — Você tá louco? Bebeu, foi? Olha as idéia.

— Ela não gosta, ela ama. Encontrou o príncipe encantado, né amiga? — Felipe voltou a rir, todo animado. — Ou seria o assassino encantado?

— Erika? — Insistiu Vinny. — Eu fiz uma pergunta.

— Mas que merda! Como vocês sabem? — Cruzei os braços, encarando os dois.

— Tá estampado no seu rosto, amiga. Qualquer pessoa que prestar o mínimo de atenção vai saber. — Felipe continuou rindo.

— Mais um. — Disse baixinho, nada contente, me lembrando que o Malik havia dito a mesma coisa. — Tá tão evidente assim, é?

— Sim, parece até que você tem um daqueles letreiros de clube de strip piscantes em neon na sua testa escrito: “Olhem pra mim! Estou apaixonada pelo Altaïr”. — Riu de forma ainda mais debochada. — Não que eu frequente esse tipo de lugar, tô só dizendo. — Complementou em um tom mais sério e logo voltou a rir outra vez.

— Idiota! — Irritada, empurrei Felipe de leve e comecei a caminhar pela sala, morrendo de vergonha.

— Ah, isso é ruim. — Falou Vinny ao cobrir o rosto com a mão no famoso “facepalm”. — Eu disse ruim? Isso é péssimo!

— Espertinha! Mal foi pro passado e já arranjou um boy. E que boy hein? Bicha, a senhora é destruidora mesmo! Arrasou! — Felipe se aproximou de mim novamente, segurou minha mão e a ergueu me fazendo girar. Em seguida, pegou a minha outra mão e segurando as duas deu alguns pulinhos, mais uma vez todo animado. — Aposto que ele não resistiu a esse corpinho que daria inveja até na Beyoncé. Vai, conta tudo!

— Mesmo que eu quisesse não tenho nada pra contar. Altaïr não faz nem ideia do que eu sinto e é melhor que continue assim. — Doeu demais dizer aquilo, acho que minha tristeza e decepção ficaram evidentes. — Ele já está com a Maria... — Falei baixinho, de forma bem vaga e hesitante. Abaixei a cabeça.

— E o futuro dele é com ela. — Complementou Vinny, em um tom sério, quase que me repreendendo. — Eu sinto muito, Erika, mas você não pode mudar o que...

— É, eu sei bem. — O interrompi antes que o sermão começasse, erguendo a cabeça e o olhando feio, confesso que tive que me segurar, a verdade doía tanto que por pouco não chorei ali mesmo na frente deles dois.

— Mas é um insensível mesmo! — Felipe me abraçou carinhosamente, apoiando minha cabeça no ombro dele.

— Insensível, eu? Só estou dizendo que...

— Chega de falar disso. — Interrompi Vinny outra vez, me afastei devagar de Felipe e respirei fundo. Queria evitar o assunto, fingir que estava tudo bem... Mas não estava. — Não é só por causa de Altaïr que eu preciso voltar. Tem outra coisa.

— Que outra coisa? — Perguntou Vinny.

— Eu sem querer... — Procurava como dizer. — Sem querer mesmo, sabe... ? — Fazia alguns gestos com as mãos, um pouco nervosa.

— Fala logo, mulher! — Exclamou Felipe.

— Eu sem querer acabei deixando meu smartphone no passado. — Falei de uma vez, querendo sumir dali no mesmo instante. Por mais que eu estivesse envergonhada e quisesse esconder meu erro, era algo que eles, como membros da minha equipe, precisavam saber.

— Isso é brincadeira, né? — Vinny perguntou como se rezasse para que fosse. — Me diz que é brincadeira.

— Não. Eu sem querer deixei cair do meu manto e Altaïr o encontrou. — Desviei o olhar por alguns segundos, tentando disfarçar como se nada estivesse acontecendo.

— Erika, você tem ideia da gravidade do que está me dizendo? — Vinny se aproximou, me olhando nos olhos, parecia perplexo. — Essa é uma das regras mais importantes da viagem no tempo: Não deixe nada para trás. Não permita que indivíduos do passado entrem em contato com tecnologia do futuro também é uma delas. E você...

— Existem regras pra viagem no tempo, é? — O interrompi de propósito, confesso. Mesmo sabendo o quanto a situação era séria eu acabei rindo ao fazer a pergunta, em uma tentativa falha de descontrair.

— Mas é claro que existem! — Exclamou, erguendo um pouco o tom de voz. Parecia estar ficando bem irritado e, por mais que eu detestasse admitir, tinha total razão.

— Ninguém me disse nada sobre isso. — Falei da forma mais natural possível, mais uma vez fazendo graça e rindo, era o meu jeito de acalmar a mim mesma em situações como aquela.

— Porque é óbvio! E você quebrou as duas regras, e pior, não foi com qualquer um não, foi com o cara que simplesmente decifrou e teve total controle de um artefato precursor há mais de 800 anos atrás. Se ele fez isso com algo que é extremamente complexo até mesmo para nós, eu te pergunto: O que ele não faria com dispositivo da tecnologia atual? — Ao falar, Vinny fazia vários gestos com as mãos e se mostrava cada vez mais irritado, foram raras as vezes que eu havia visto ele assim.

— Eu sinto muito, mas vou ter que concordar mais uma vez com essa recalcada aí, Erika. E essa é a segunda vez hoje. Credo! Deve ser por isso que tá chovendo. — Disse Felipe, desapontado. — Como especialista na área eu preciso dizer que o que você fez certamente vai alterar toda a história como a conhecemos. — Complementou, de forma mais seria e profissional, mas ainda assim bem desapontado.

— Tá, eu fiz merda! Pisei na bola, dei mancada, fudi com tudo. Enfim... Errei, admito. Mas qual é? Eu posso muito bem voltar e consertar isso a tempo. — Finalmente deixei o cinismo e a brincadeira de lado para assumir o meu erro, pelo qual me sentia muito envergonhada. Não nego que a possibilidade de ter alterado a história me assustava demais, era o que eu temia desde o início. — Posso, não é? — Perguntei, já deixando transparecer meu medo.

— Mesmo que eu consiga consertar, o que eu ainda não tenho certeza, isso é algo muito sério. — Vinny deu uma pausa e respirou fundo, agora não parecia mais tão irritado quanto antes, mas falava em um tom de voz bem sério, e assim como Felipe, se mostrava desapontado. — Desculpe, Erika. Mas eu vou ter que falar sobre isso com a Anne.

— Você o que? — Questionou Anne assim que soube, furiosa, já erguendo a voz e me encarando como se fosse me matar ali mesmo na frente de todos.

— Foi sem querer... Eu... Deixei cair e... — Nervosa, eu tentava explicar sem muito sucesso e fazia gestos com as mãos. Dei alguns passos para trás e abaixei a cabeça, extremamente envergonhada e com medo do que viria a seguir. — Ele acabou encontrando, foi...

— Eu não quero saber! — Me interrompeu rudemente, gritando em voz alta, que ecoou por toda a sala. Vinny e Felipe presenciavam tudo, parados atrás de mim e calados. — Quando você aceitou essa missão sabia muito bem no que estava se metendo e das consequências.

— E eu sei. É por isso que vou voltar e consertar isso. — Ainda de cabeça baixa, falei da forma mais calma que consegui.

— Não, não vai. Você já fez o bastante.

— Mas... — Tentei intervir, temendo o pior. Olhei brevemente para os lados e depois para Anne, como se não quisesse acreditar.

— Está dispensada da missão. — Foi bem direta, e ao ouvir aquilo meu mundo caiu, aquelas palavras bateram em mim como um soco no estômago. Incrédula, levei a mão ao peito e arregalei os olhos, cheguei a prender a respiração por alguns segundos, sem saber o que dizer. Um silêncio constrangedor se fez na sala de Anne.

— Espera, Anne. Por favor. Acho que devemos dar uma chance para ela consertar isso. — Disse Felipe gentil e educadamente ao se aproximar e colocar o braço em volta do meu ombro em um gesto carinhoso de apoio, sendo tão próximos, ele com certeza sabia como eu estava me sentindo e pelo seu olhar triste parecia tão abalado quanto.

— Ela já teve a chance dela e olha só no que deu. É isso o que acontece quando enviamos novices em uma missão para a qual não estão qualificados. — Rebateu quase que de imediato, outra vez de forma rude e esbanjando arrogância. — Eu já imaginava que algo assim pudesse acontecer.

— Uma segunda chance então, por favor. Todos merecem uma segunda chance. — Insistiu Felipe, no mesmo tom gentil e educado.

— Não. Já está decidido. — Enfatizou. — E ela tem sorte por eu não a expulsar da irmandade. Só não faço isso porque temos muito trabalho a ser feito e precisamos que o nosso sistema esteja operante novamente o mais rápido possível.

— E quem vai resolver essa bagunça no passado? Não podemos deixar isso assim como está. Ai que horror! Seria um desastre. — Sendo um pouco mais ousado e mostrando estar extremamente preocupado, Felipe passou a falar da forma espalhafatosa como costumava, até se lembrar com quem estava falando e se corrigir para uma postura mais séria. — Quero dizer... A história vai...

— Eu vou. Assim que tudo estiver funcionando eu vou viajar ao passado para resolver esse problema. E também vou concluir a missão, na qual eu deveria ter partido desde o início. — Se auto-afirmou, cheia de si.

— Não! — Gritei, finalmente dizendo alguma coisa e tomando uma atitude. Ouvir aquilo foi demais pra mim, eu simplesmente não consegui me controlar de tanta raiva. Felipe precisou me segurar firme, prevendo que eu iria avançar feito um cão bravo.

— Como é? — Anne cerrou os olhos e me encarou mais uma vez com seu olhar mortal, na certa meu curto ato de “insubordinação” a havia surpreendido.

— Altaïr é... — Disse eu de forma bem vaga, minha raiva era tanta que por muito pouco não acabei falando bobeira e deixando bem claro o que sentia pelo assassino. Quando percebi, tentei consertar da melhor maneira que pude, mas ainda assim deixando a minha raiva transparecer. — Ele é alguém difícil de lidar. Não vai confiar em você.

— Isso é problema meu agora. Não te diz respeito. — Rebateu, aproximando-se devagar. — Por acaso ele confia em você?

— Confia. Não foi fácil, mas agora ele confia. — Falei segura de mim, me lembrando de quando eu o desafiei com a minha arma.

— E baseado nessa tal confiança, qual foi o seu progresso até agora? — Questionou, de forma sarcástica. — Eu não vejo nenhuma Piece of Eden com você.

— Isso leva tempo. — Rebati, olhávamos uma nos olhos da outra enquanto nos enfrentávamos. O clima era bem tenso.

— Nós não temos tempo. Todo dia, mais e mais de nossos irmãos morrem nessa guerra contra os templários, caso você ainda não tenha percebido. Somos poucos pelo mundo e se as coisas continuarem como estão, muito em breve nós também não estaremos mais aqui. — Aproximou-se ainda mais ao falar, ficando próxima o bastante para que eu pudesse sentir a fúria na respiração dela. — Agora vá logo antes que eu mude de ideia e te expulse de vez. — Olhou para Felipe e Vinny enquanto eu me retirava fazendo o possível e o impossível para me conter e não reagir da forma que queria. — E vocês também.

Os dias que se seguiram eu passei praticamente o tempo todo calada, apenas cumprindo ordens e ajudando no que era preciso. O fato de que eu não iria mais voltar ao passado e consequentemente nunca mais veria Altaïr me atingiu de uma forma tão intensa que quem me visse acharia facilmente que eu estava doente, em depressão... Minha tristeza estava praticamente estampada na cara para todo mundo ver, e eu sequer me importava em disfarçar. Foi impossível tirar o assassino da minha mente, passei noites em claro imaginando o que ele estaria pensando da minha partida e como teria reagido, a imagem dele pedindo para que eu não fosse embora parecia estar presa em minha cabeça, se repetindo sem parar. As coisas pioraram ainda mais quando passei a imaginar como Altaïr se comportaria com Anne, apesar de autoritária, ela tinha tudo para chamar a atenção dele com seu talento, ela era uma verdadeira mestre assassina. Só de pensar em tal possibilidade a raiva tomava conta de mim outra vez. Talvez seria melhor se eu tivesse sido expulsa da irmandade, eu realmente não ia conseguir aguentar ver a Anne no meu lugar, na minha missão... Encontrando o homem que eu amava.

Por mais que eu deteste admitir, tanta tristeza fez com que eu me questionasse se deveria mesmo continuar ali, pela primeira vez em quatro anos, cogitei a opção de voltar para a casa. Mas não, a minha vontade de lutar e fazer mais pela causa dos assassinos ainda era forte, mesmo que eu não suportasse a tristeza, aquilo não terminaria ali.

— Erika, preciso daquela caixa ali com os HDs externos. — Disse Vinny, enquanto checava o sistema, cujo mesmo estava no ar novamente, para o nosso alívio. Peguei a tal caixa e a entreguei nas mãos dele sem dizer absolutamente nada e com uma expressão nada amigável. — Olha... Me desculpa, tá? Eu estava preocupado com a gravidade da situação. O que queria que eu fizesse? Ela é nossa mestre e como tal precisava saber. — Deixou a caixa sobre a mesa e prosseguiu: — Agora vê se melhora essa cara. Bola pra frente!

— Fácil dizer quando não é você quem foi suspenso da missão. — Respondi de forma rude, revirando os olhos.

— Suspensa de ver o Altaïr você diz, não? — Brincou, rindo baixo.

— Que seja! — Falei no mesmo tom rude de antes.

— Sinto muito por isso. — Dizia Vinny agora de uma forma mais séria. — Eu não esperava que ela fosse te punir assim.

— Jura? — Perguntei, sendo sarcástica. — Parece até que não a conhece. — Complementei, cheia de raiva. — Aquela...

— E então? Como vão os procedimentos? — Anne entrou bem na hora em que eu estava prestes a insultá-la, e me arrependi de não tê-lo feito mesmo assim, confesso.

— O sistema foi recuperado e já está operante novamente, as falhas foram corrigidas. — Respondeu Vinny com um curto sorriso, orgulhoso de si.

— Excelente! É assim que eu gosto. — Aproximou-se, observando as telas dos computadores, também sorriu, mas não por muito tempo até voltar para sua posição imponente característica de chefe mandona. — Relatório... ?

— Aqui. — Entregou alguns papeis para ela o mais rápido que pôde. — A causa das interferências, das falhas e do desligamento total do sistema foi um vírus extremamente poderoso e desconhecido, eu realmente nunca vi nada igual. — Parecia tão preocupado quanto antes, mesmo já tendo resolvido o problema. — Precisei de dias para elaborar o código e criar um programa específico para a recuperação do sistema. Por muito pouco não perdemos tudo.

— Então é uma ótima oportunidade para você estudar esse vírus e passar a conhecê-lo, eu não quero que essa situação se repita. — Deixou os papeis na mesa e encarou Vinny de uma forma intimidadora. — Ouviu bem?

— Sim, senhora. Já o estou estudando. E reprogramei as nossas barreiras de segurança por precaução. — Falou baixinho, sem jeito. Aquilo me deixou com ainda mais raiva ainda, esse modo de agir dela me incomodava já fazia muito tempo.

— Ótimo! E quanto ao Animus?

— Refiz os cálculos base para a viagem e agora estou fazendo uma varredura completa para ter certeza de que está totalmente seguro, se tudo der certo, você poderá partir em breve.

— Certo. Me avise quando tudo estiver pronto. Quero partir o quanto antes. — Deu uma breve pausa. — E você, Erika. Quero ver os seus relatórios da missão em texto e em vídeo na minha mesa. Preciso saber de absolutamente tudo o que aconteceu durante o tempo em que você esteve no passado. — Disse antes de se retirar.

— Vou enfiar esses relatórios no meio do seu...

— Cuidado. — Alertou Vinny, me interrompendo. — Ela pode ouvir.

— Que ouça. Quero que se foda! — Já no meu limite da raiva, resolvi sair dali e ir para o meu quarto antes que as coisas ficassem piores.

Precisei fazer algumas edições nos vídeos de relatório da missão antes de entregá-los para Anne, pois neles meus sentimentos por Altaïr ficavam bem claros e era melhor que ela não soubesse, aliás, já tinha gente demais sabendo.

No dia seguinte, quando fui entregar os relatórios encontrei não apenas Felipe e Vinny como também outro rapaz na sala de Anne, o qual não pude ver quem era, pois estava de costas. Estranhamente, algo nele me era familiar, cheguei a ficar alguns segundos parada olhando para ele.

— Ah, finalmente! — Anne disse assim que entrei. — Vamos! Me entregue isso aí logo. — Ordenou. — E conheça Dexter Caulfield, ele é o mestre assassino que vai ficar no comando da equipe enquanto eu estiver fora. — No mesmo instante o rapaz se virou, devagar, como naquelas cenas em câmera lenta de filme. Quando o vi levei um verdadeiro susto, coloquei a mão no peito, sentindo até tontura e cheguei a pensar que fosse desmaiar ali mesmo, tamanha era minha surpresa. Foi um choque muito forte pra mim, fiquei sem palavras, apenas o observando, parada feito uma estátua.

— Não vai me dar um abraço? — Perguntou, todo sorridente, vindo na minha direção com os braços abertos.

— Dexter? Dexter é você mesmo? — Minha voz era tremula e um pouco falha, me aproximei dele devagar e me joguei em seus braços, com os olhos já cheios de lágrimas. Fiquei abraçada a ele por um certo tempo, a ficha ainda não tinha caído. — Eu não acredito.

— Achou que se livraria de mim assim tão fácil? — Riu baixinho. Desfizemos o abraço e olhamos um nos olhos do outro, por um instante foi como se todas as memórias felizes que eu tinha dos anos em que estive junto com ele voltassem de uma só vez, me peguei olhando para Dexter e esboçando um belo sorriso, com o rosto já banhado pelas minhas lágrimas de felicidade.

— Certo. Quem vai me explicar o que está acontecendo aqui? — Perguntou Anne, extremamente confusa.

— Eles cresceram juntos e na adolescência foram namorados até a Erika abandonar tudo para se unir a nós, os dois não se vêem há anos. — Felipe explicou rapidamente.

— Então eles são ex-namorados? — Perguntou Vinny.

— Não exatamente. Eles não tiveram tempo de colocar um fim na relação. — Complementou Felipe.

— E como você sabe de tudo isso? — Perguntou Anne.

— Porque eu não fico por fora dos babado, né querida. — Brincou, rindo.

— Você é um fofoqueiro, isso sim. — Vinny provocou.

— Recalcada. — Felipe continuou rindo.

— Vocês dois! — Anne nos chamou, nada contente, apontando o dedo. — Vão conversar e se resolver em outro lugar, na minha sala não. — Disse praticamente nos expulsando antes que sequer começássemos a conversar.

— Ah, mas eu queria ouvir. — Felipe falou baixinho, desapontado.

— Eu não disse? Fofoqueiro. — Vinny provocou mais uma vez.

— Claro, como quiser. Com licença. — Falou Dexter de forma educada. — Vamos? — Perguntou, outra vez sorrindo, enquanto eu ainda tentava assimilar o que estava acontecendo.

— Vamos... — Respondi de forma bem vaga.

Dexter me levou até um dos melhores e mais caros restaurantes da cidade, mesmo eu não estando vestida a caráter, ao contrário dele que estava todo elegante em seu terno estiloso de grife, parecia um verdadeiro príncipe. Reservou todas as mesas para que segundo ele nós não tivéssemos nenhum “incômodo”. Pediu os melhores vinhos das melhores safras e pratos como: sopa de frutos do mar com camarão, salmão e tamboril, ostras gratinadas e ravioli de queijo gruyére com picadinho de filé mignon e cogumelos. Tudo estava impecável e era de cair o queixo, parecia até que ele queria me impressionar e, o conhecendo como eu conhecia, eu não duvidaria disso.

— Então... Pra que tudo isso? — Perguntei eu, finalmente me recuperando do choque do re-encontro, porém, ainda confusa, e estranhando tudo aquilo. — Você sabe que eu não faço questão dessas coisas.

— Sim, eu sei. Você não mudou nada. — Riu baixinho, segurando uma taça de vinho. — Eu só achei que depois de tantos anos a ocasião exigisse algo mais... — Deu uma breve pausa. — Formal. — Complementou sorrindo mais uma vez, cheio de charme. — Mas se você preferir nós podemos ir a outro lugar.

— Não, tudo bem. Vai ser bom relembrar os velhos tempos de jantares luxuosos onde nós éramos o terror da alta sociedade, quebrando tudo, correndo de um lado para o outro, fazendo graça... — Falei fazendo gestos com as mãos, toda animada. Dei uma curta pausa e provei um gole do vinho. — Se lembra de quando fizemos guerra de comida com o bolo de casamento do primeiro ministro? — Cobri a boca com a mão e segurei o riso, por pouco não cuspi o vinho pra fora.

— Como não lembrar? Foi bolo pra todo lado, um verdadeiro caos. Não sei como não nos expulsaram. — Riu alto, colocando a mão sobre a testa.

— É, mas em compensação eu fiquei de castigo por meses. — Passei a rir junto a ele.

— Só você? Meus pais quase me mandaram pra escola militar. Consegue imaginar? Eu? Na escola militar?

— Te expulsariam de lá também. — Brinquei, jogando o guardanapo nele.

— Engraçadinha. — Jogou de volta, rindo.

— Mas o que faz aqui? Quero dizer... Você? Um mestre assassino? Como isso aconteceu? — Eu estava cheia de perguntas, e não era pra menos. Poucas vezes estive tão confusa.

— Quando você foi embora e me deixou aquela carta com todo aquele discurso de que “tinha encontrado algo pelo que lutar”, que tinha “descoberto coisas as quais não poderia simplesmente ignorar” e blá blá blá, eu confesso que fiquei revoltado, como todo adolescente apaixonado ficaria. Essa revolta me fez ir a fundo e procurar o verdadeiro motivo pelo qual você foi capaz de abandonar tudo, de me abandonar. — Falava em um tom sério, embora em certos momentos parecesse um pouco abalado, na certa eram as memórias. Eu até então não sabia como as coisas haviam sido depois que parti e o impacto que a minha decisão havia tido na vida dele, mas por mais que o mesmo tentasse esconder e ser forte, eu o conhecia bem o bastante para saber ali mesmo, que não havia sido nada fácil. — E depois de alguns meses procurando, depois de contratar os profissionais certos, eu consegui os seus dados da web e tive acesso a tudo que você havia descoberto. — Deu uma pausa e respirou fundo. — Eu passei semanas negando, como acredito que você também tenha passado, mas no fim acabei indo embora também e me uni á irmandade como você. E hoje estou aqui, finalmente.

— Eu... — Não sabia bem como dizer, procurava as palavras certas. — Eu sinto muito, por isso... Por tudo. Me desculpa, de verdade. — Voltei a derramar lágrimas pelos olhos, sem nem perceber, mas desta vez não eram de alegria. — Eu não deveria ter te colocado nisso. Eu deixei bem claro na carta que era perigoso e que você não deveria tentar me seguir. — Falava com a voz embargada, me sentia culpada. — Eu arruinei sua vida. — Abaixei a cabeça.

— Não diga isso. — Se levantou e pegou um dos guardanapos, gentilmente ergueu meu queixo de modo que eu olhasse em seus olhos e passou a secar minhas lágrimas, voltando a sorrir. — Você sabia muito bem que aquilo não seria o bastante pra me deter. Se tem uma coisa que me atrai é o perigo. — Deu uma breve pausa. — Só não me atrai mais do que você. — Riu baixinho, outra vez jogando todo o seu charme pra cima de mim. — E olha! Estou vivo e bem, e o mais importante: Estou com você novamente.

— Não foi fácil me encontrar, imagino. — Falei um pouco sem jeito.

— É, não foi. Eu precisei conquistar a confiança de muita gente para ter acesso às informações que precisava e isso levou muito tempo, nesse tempo decidi me esforçar para alcançar os ranks mais altos, e quando Anne disse que precisava de alguém para ficar no lugar dela por um tempo eu vi que era a oportunidade perfeita de te re-encontrar. — Segurava as minhas mãos carinhosamente enquanto falava.

— Nossa! Tudo isso em apenas quatro anos? É algo sem precedentes na irmandade. Você é realmente talentoso. — Sorri, impressionada. — Eu continuo sendo uma novice.

— Podemos dar um jeito nisso. Eu posso te ajudar. — Sugeriu, gentilmente.

— Pode? Como?

— Bem... Eu sou um mestre agora, então...

— Ah... É mesmo. — Desviei o olhar para um ponto qualquer e ri baixo, sem jeito. — Anne nunca permitiu que eu fizesse parte das missões e quando eu finalmente tive a oportunidade ela me dispensou, como se não bastasse, também tomou o meu lugar. — Disse de forma que a minha tristeza e raiva ficaram bem evidentes.

— Então essa missão extremamente importante da qual ela falou era sua? — Perguntou Dexter, surpreso. Voltou a se sentar e começou a comer.

— Sim. O que ela te falou? — Resolvi comer também, antes que a comida esfriasse.

— Não muita coisa, segundo ela, é extremamente sigiloso. Mas me disse por exemplo que se tratava de algo com viagem no tempo, eu até achei que fosse brincadeira, mas vindo de alguém como ela eu duvido muito que seja. Então... Sei lá. — Falou nos intervalos enquanto comia.

— Sim, é isso mesmo. Acredite se quiser. — Cheguei mais perto e falei bem baixinho: — Eu mesma já estive no passado.

— Tá de brincadeira, não é? — Ele parou de comer e me encarou como se eu fosse um ET.

— Não. Dias atrás eu estive na época das cruzadas, há mais de 800 anos no passado. — Por um instante voltei a lembrar de Altaïr e a minha expressão mudou de séria para triste em questão de segundos. Respirei fundo e tentei disfarçar mudando de assunto. — Ótima comida! Tudo está divino.

— Eu nunca achei que isso fosse possível. Como foi? — Parecia extremamente curioso, afinal... Quem não estaria? Era fácil compreender toda sua agitação instantânea.

— Falamos sobre isso depois. — Eu realmente não queria mais falar daquilo, ainda não tinha aceitado o fato de que eu nunca mais veria o meu amado assassino e provavelmente nunca aceitaria. Já estava cansada de pensar sobre o assunto e ficar deprimida, afinal essa tinha sido a minha realidade nos últimos dias, queria evitar e fingir que aquele problema não existia, pelo menos por uma noite. — Vamos aproveitar o nosso jantar. Fale mais sobre o que você fez nesses anos. — Sugeri da forma mais gentil que consegui, enquanto lutava para tirar Altaïr da minha cabeça, o que parecia ser quase impossível.

— Certo. Nos primeiros anos eu...

A conversa seguiu até altas horas da noite, sempre muito animada e descontraída. Eu não ria tanto há anos e foi bom ter um momento de descontração depois de tudo o que eu tinha passado nos últimos dias. Saindo do restaurante, Dexter me levou até um hotel cinco estrelas e reservou uma suíte presidencial digna de uma verdadeira rainha. Entramos juntos, rindo, já um pouco bêbados de vinho, tomamos champagne e brindamos como se comemorássemos algo importante, e talvez estivéssemos comemorando mesmo, afinal era um grande reencontro.

Enquanto eu deixava a taça sobre a mesa, vi ele se aproximar devagar. Acariciou meu rosto e me beijou logo em seguida, um longo beijo de tirar o fôlego que, talvez por saudade, correspondi da mesma forma. Senti Dexter me abraçar forte e deslizar suas mãos pelo meu corpo enquanto beijava meu pescoço fazendo com que eu me arrepiasse inteira. Por um instante, fechei os olhos e me entreguei em seus braços, imaginando estar nos braços de outro alguém.

— Altaïr... — Falei bem baixinho, sem perceber, simplesmente não consegui evitar. Quando me dei conta do que havia dito já era tarde.

— O que disse? — Dexter, que já estava tirando o meu vestido, se afastou e me encarou, nada contente. O clima romântico ficou tenso em questão de segundos.

— Eu disse... — Travei por alguns segundos. — Eu disse que é melhor eu ir. — Falei qualquer coisa que rimasse, antes que o desespero tomasse conta de mim e ele percebesse. Porém, ironicamente, era realmente o que eu queria fazer.

— Ir? Como assim, ir? — Questionou, visivelmente inconformado e, é claro, decepcionado. — Acabamos de chegar.

— É que... — Falei de forma bem vaga, não era fácil pensar no que dizer em uma situação como aquela, ainda mais no estado em que eu me encontrava.

— Erika, eu te conheço. O que está acontecendo? — Me interrompeu, voltando a se aproximar e olhando bem fundo nos meus olhos.

— Nada. — Ajeitei meu vestido e virei o rosto, evitando olhar para ele. Eu poderia ter dito a verdade e acabado com aquilo de uma vez por todas, mas simplesmente não consegui. E também, a volta repentina dele tinha me deixado muito confusa. Embora estivesse apaixonada por Altaïr, eu não podia negar que ainda tinha sentimentos por Dexter. Eu só precisava saber se esses sentimentos eram verdadeiros ou apenas fruto da emoção do re-encontro.

— Então você me abandona e some por quatro anos, eu largo tudo pra vir atrás de você e quando finalmente te reencontro e planejo uma noite agradável para nós dois você diz que “é melhor ir” e quando eu pergunto o motivo você diz que não é “nada”? — Ao falar, virou-se para encontrar meus olhos e passou a olhar no fundo deles da mesma forma de antes que, para alguém como eu, era bem invasiva e intimidadora. Deixou seu inconformismo e decepção transparecerem ainda mais, tanto que, parecia até que estava com raiva e isso me deixou um pouco assustada. — E quanto a nós, Erika? Como nós ficamos?

— Eu não sei. — Confusa, me afastei devagar, peguei minha jaqueta e minha bolsa que estavam sobre a mesa. — Eu preciso de um tempo. — Falei da forma mais séria que consegui considerando que o efeito da bebida não me favorecia muito. Saí dali sem dizer mais nada, deixando-o para trás sozinho no quarto.

— Erika, espera! — Foi a última coisa que ouvi ele falar, ou melhor, gritar antes que eu deixasse o prédio.

Pela manhã, acordei com uma forte dor de cabeça. Desanimada ao me lembrar do que havia acontecido na noite anterior, fiquei um tempo na cama, até finalmente ter coragem para me levantar e tomar um bom banho. Já vestida e faminta, fui até a cozinha preparar um café da manhã, mesmo já sendo praticamente hora do almoço.

— Ih... Que cara é essa, amiga? Você não parece nada bem hein. Quer conversar? — Felipe perguntou assim que me viu, enquanto fazia seu lanche natural e seu suco de laranja.

— Não, eu não quero falar sobre isso agora. Mas obrigada pela preocupação. — Respondi tentando não parecer rude.

— Aposto que o novo chefe gostosão aprontou alguma, não foi? — Deixou o que fazia de lado e se aproximou de mim.

— Olha, eu realmente não quero falar...

— Erika! Finalmente te achei. — Vinny chegou todo apressado, já me interrompendo, tinha uma caixa de madeira nas mãos. — Hoje cedo entregaram isso aqui e me disseram que era pra você. — Disse enquanto deixava a caixa comigo cuidadosamente.

— Entregaram aqui? — Perguntei, surpresa.

— Sim. — Confirmou.

— Esse lugar não era supostamente para ser secreto ou algo assim?

— Exato. E isso é o que me intriga. — Essa era mais uma daquelas vezes em que Vinny parecia pensativo.

— Quem entregou? — Observei melhor a caixa, era bem trabalhada em madeira e tinha um ar de mistério, parecia uma antiguidade.

— Um rapaz um pouco estranho que não falava muito bem a nossa língua, pelo sotaque, eu diria que ele vem do oriente médio.

— E ele disse quem era e como descobriu que eu estava aqui? — Continuava olhando para a caixa, curiosa e confusa ao mesmo tempo, pensando se deveria mesmo abri-la.

— Não, mas pelo seu comportamento eu acho que ele pertence á irmandade como nós. — Passou a observar a caixa junto a mim, certamente curioso. Felipe também chegou mais perto para olhar.

— Se for verdade, isso é um alívio. Significa que os templários não descobriram onde estamos.

— Você vai abrir logo ou vai ficar aí falando hein amiga? — Perguntou Felipe, impaciente.

— Se tivessem nos descoberto já estariam aqui. — Deduziu Vinny.

— Quem estaria aqui? — Anne entrou na cozinha na hora exata, já nos questionando.

— Um rapaz deixou uma caixa pra a Erika hoje cedo e nós não sabemos quem ele é como nos encontrou. — Vinny já foi explicando, todo obediente.

— E também não sabemos o que tem nessa caixa, que é o que eu quero saber... Né, amiga? — Disse Felipe em uma indireta que na verdade foi bem direta.

— E vocês não interrogaram ele? Simplesmente aceitaram a caixa e pronto? — Questionou Anne, nada contente.

— Eu não tive tempo, quando eu percebi ele já tinha ido embora. — Vinny tentou se justificar.

— Mas são uns inúteis mesmo! Deixa eu ver isso aqui. — Anne já foi logo pegando a caixa das minhas mãos de forma rude, sem o mínimo de cuidado. — Esse rapaz... O que ele disse?

— Disse que a caixa devia ser entregue para Erika Gilmour nessa exata data.

— E não disse mais nada? — Anne deu uma breve observada na caixa enquanto perguntava.

— Ele me cumprimentou dizendo alguma coisa que não entendi muito bem, mas que me é familiar e de alguma forma me remete a irmandade. Talvez seja um de nós.

— Isso é muito estranho. — Comentei depois de tanto tempo calada, não aguentava mais aquele suspense todo e já estava começando a entender como Felipe se sentia.

— Bom... Vamos abrir e acabar logo com isso, eu tenho mais o que fazer. — Falou Anne, prestes a abrir a caixa.

— E se isso for uma bomba? — Questionou Vinny.

— Que tipo de “gênio” colocaria uma bomba em uma caixa de madeira? Ah é... Um “gênio” como você. — Zombou Felipe, provocando Vinny, pra variar.

— Idiota! — Retrucou Vinny. — Iria se surpreender se soubesse o que alguém com um pouco mais de inteligência do que seres acéfalos como você é capaz de fazer.

— O que você falou, queridinha? Olha aqui, eu...

— Calados vocês dois! — Anne os interrompeu quando Felipe já ia pra cima de Vinny pronto pra fazer barraco, os dois ficaram caladinhos enquanto ela finalmente abria a caixa. — São pergaminhos. — Deixou a caixa sobre a mesa e pegou um deles, abrindo-o para observar, o mesmo tinha o tamanho de uma página de diário. — Parece bem velho. E não consigo entender nada do que está escrito.

— Cuidado! Esses documentos antigos costumam ser bem delicados. — Alertou Felipe, como todo estudioso de história faria. — Da licença, da licença, deixa eu ver essa belezinha. — Cuidadosamente, pegou o pergaminho das mãos de Anne e o estendeu sobre a mesa para analisá-lo enquanto todos observavam atentos. — É bem antigo mesmo, no mínimo uns 700 anos ou mais. Vou precisar fazer um teste de datação por carbono pra ter certeza.

— Espera... Eu acho que entendo o que está escrito. — Entrei na frente dele e passei a ler o pergaminho facilmente, parei poucos segundos depois, pegando-o em minhas mãos e caminhando pela cozinha com ele. Surpresa era pouco para descrever o que senti naquele instante, parei e fiquei calada, praticamente em transe com os olhos arregalados e boquiaberta, como numa daquelas reações exageradas de desenho animado.

— O que foi, mulher? Qual é o babado? Conta logo! — Felipe continuava impaciente e agora bem mais do que o normal, se tratando de uma antiguidade.

— Erika? — Vinny chamou por mim, preocupado.

— É do Altaïr. — Finalmente revelei, minha voz falha deixava bem claro a forma como aquilo havia me afetado forte e instantaneamente.

Notas finais
TAM TAM TAM TAAAAAM! O que será que está escrito nesse pergaminho? Segue que tem mais um. Espero que tenham gostado. Não esqueçam de comentar. O feedback de vocês leitores é muito importante. :D