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Notas iniciais
Esses últimos anos tem sido difíceis, difíceis para todos nós, que nos vemos caminhando rumo á total destruição de nossa irmandade, a qual já está perto da extinção de seus membros desde o início do século 21. As poucas equipes que ainda restam espalhadas pelo mundo, quando não estão lutando por nossos ideias de paz e liberdade, procuram abrir os olhos das pessoas para a verdade... A verdade que poucos são capazes de enxergar. Felizmente, eu fui uma que conseguiu ver. Meu nome é Erika Gilmour, tenho 21 anos e venho de uma família tradicional de nobres britânicos. Até os meus 17 anos acreditava saber tudo o que precisava e estar no caminho certo, realizando o desejo da minha família e estudando dia e noite para me tornar a futura primeira-ministra. O único futuro que imaginava para mim era viver no palácio de Buckingham cercada de luxo e de poder, o que para muitos parecia a vida perfeita... Não para mim. Dizem que nosso futuro é traçado desde o dia em que nascemos e não pode ser mudado, mas eu resolvi mudar o meu.
...
Janeiro de 2015 – Nova Iorque
...
– Mais uma de nossas equipes foi dizimada ontem pelos agentes da Abstergo. Estamos perdendo essa guerra... Malditos templários! – Alertou Anne ao entrar no meu quarto. Inicialmente parecia abatida para quem comanda uma equipe com pulso firme, mas pude ver isso se transformar em raiva e revolta quando falou dos nossos inimigos.
– Podemos estar perdendo uma batalha, mas ainda não perdemos a guerra. – Respondi em um tom seguro, embora também estivesse abatida com a notícia. Eram nossos “irmãos” lá fora.
– Queria ter metade do seu otimismo, Erika. Infelizmente a vida real é bem diferente dos contos de fada. – Retrucou de forma um pouco rude ao se retirar. – Quero essas informações na minha mesa amanhã bem cedo. – Falou em voz alta quase que gritando já longe, se referindo as informações que eu estava registrando no meu laptop sobre as recentes missões das equipes de Nova Iorque.
Trabalhei praticamente a noite toda, quando me dei conta já estava amanhecendo e nesse meio tempo não pude deixar de pensar que eu poderia, que eu deveria, estar fazendo mais pela nossa causa. E foi pensando nisso que tomei um decisão.
– Quero fazer parte das equipes que saem em missão. – Afirmei com toda convicção em um tom de voz que demonstrava segurança ao deixar o HD externo com as informações sobre a mesa de Anne.
– O que disse? – Anne parou imediatamente o que estava fazendo, não por não ter ouvido e sim por visivelmente não ter acreditado no que ouviu. Se levantou e pelo seu olhar eu já esperava que seria rude como somente ela sabia ser.
– Eu disse que quero ser uma assassina de verdade, participar ativamente e fazer mais pela nossa causa. Decidi que quero estar onde a ação está. – Enfatizei, mantendo a minha convicção e ainda me sentindo segura.
– Isso é algum tipo de brincadeira, Erika? – Perguntou Anne com um olhar fuzilante. – Você decidiu? Quem é você para decidir alguma coisa aqui? – Ao falar se aproximou lentamente e parou em minha frente, quem não conhecesse seu modo autoritário ficaria assustado. – Você é só uma novice e se não dá valor ao seu trabalho sugiro que volte para a sua vidinha de luxo e riqueza.
– Mas eu não... – Dei uma breve pausa, ainda assimilando o que havia ouvido. Naquele instante a minha confiança em mim mesma estava sendo colocada a prova, assim como minha coragem. – Em nenhum momento eu disse que não dou valor ao meu trabalho. Eu só acho que...
– Você não acha nada. Você não faz a mínima ideia do que é preciso para estar lá fora, eu faço. Ou preciso te lembrar de que já atuei e ainda atuo em missões de alto risco? – Em certos momentos apontava para mim ao falar, fazendo jus ao esteriótipo de chefe mandona.
– Não, não precisa. Mas... – Insisti mais uma vez.
– Nada de “mas”. Assunto encerrado. Eu sou a mestre aqui! Sua superior em rank e em habilidade, eu sei o meu lugar. Está na hora de você saber onde é o seu. Caso contrário, acho que fez a escolha errada ao vir pra cá. – Finalizou, voltando para sua mesa, enquanto eu permaneci calada por alguns segundos, ali parada como uma estátua. – Agora me traz um café. – Ordenou.
– Sim, mestre. – Respondi em voz baixa, respirei fundo e me retirei, decepcionada e por mais forte que fosse, por mais que quisesse negar, abalada com o que acabara de ouvir.
– Quando tiver alguma habilidade digna de uma verdadeira assassina volte aqui que conversamos. – A ouvi debochar assim que saí e nisso tive um estalo, uma ideia que parecia loucura e que de certo modo era, mas poderia dar certo.
Ignorei a ordem de Anne e corri para a sala de pesquisas, procurando por Vinny, ao chegar encontrei Felipe sentado atualizando a database.
– Cadê o Vinny? – Perguntei claramente apressada.
– Oi pra você também, amiga. – Respondeu Felipe, rindo de forma sarcástica. – Senta aqui, se acalma... Quer um cafezinho? – Sugeriu de um jeito mais gentil, porém ainda rindo um pouco.
– Nem me fale de café, por favor.
– Você parece apressada. Onde é o incêndio?
– Não é nada, deixa quieto... – Me virei prestes a me retirar. – Fala pro Vinny vir falar comigo quando ele chegar, por favor. Eu preciso da ajuda dele urgente.
– Se é urgente então como pode “não ser nada”? – Deslizou para trás e girou com a cadeira rotativa, se levantou, vindo até mim. – Vai! Fala logo! O que ta acontecendo? Eu posso não ser o Vinny e graças a Deus que não sou aquela recalcada. – Brincou, rindo baixo. –... Mas no que puder eu vou ajudar.
– Hum... – Murmurei, pensando se contava para ele. Não que eu não tivesse confiança, éramos grandes amigos, mas tinha medo do que ele acharia da minha ideia.
– Vai, amiga! Fala! – Insistiu.
– Tá bom... – Acabei cedendo. Caminhei pela sala, calada por alguns segundos enquanto pensava como dizer, parei na frente dele e resolvi ser direta dizendo de uma vez. – Preciso usar o Animus.
– Você? Mas pra que? – Felipe me olhou como se eu tivesse falado grego.
– Pra conseguir as habilidades que preciso para me tornar uma verdadeira assassina. Com o bleeding effect isso seria rápido, eu poderia aprender em poucos dias o que se aprende em anos de treinamento.
– Amiga, desculpa mas... Ficou louca? – Agora ele me olhava como se eu tivesse dito um absurdo e de fato eu tinha dito. – Se não ficou louca com certeza vai ficar se for exposta ao bleeding effect. Acha mesmo que vale a pena correr esse risco? Você sabe o que acontece com quem é afetado, não sabe?
– Sim, eu sei. E na minha situação atual é a única opção.
– Situação atual? Do que está falando?
– Anne, ela não compreende o meu desejo de querer fazer mais pela nossa causa, de querer estar lá fora lutando de verdade. – Falei com certa revolta. – Me ridicularizou, praticamente disse que eu não tinha habilidade pra isso.
– Ahhh... Então é isso. – Se aproximou mais e segurou minhas mãos. – Olha, amiga, eu acho que a Anne só quer te proteger, ela sabe muito bem como são as coisas lá fora. Eu sei que ela ás vezes é meio rude, mas é o jeito dela de mostrar que se importa.
– Proteger? Eu fui protegida a minha vida toda. Se eu quisesse ficar trancada sob proteção ainda estaria em Londres com meus pais e não aqui. Eu vim pra cá pra fazer alguma coisa, alguma coisa pela qual valha a pena correr riscos. Eu quero lutar! – Me empolguei, deixando os meus sentimentos tomarem conta e falando de forma bem expressiva. Felipe me abraçou e ficamos alguns segundos ali juntos.
– Vem! Eu vou te ajudar. – Se afastou e me puxou pela mão.
– Vai? – Sorri quase que não acreditando.
– Vou, mas isso fica entre nós e a responsabilidade por essa loucura é toda sua, bixa teimosa. – Me levou até a estação do Animus que tínhamos instalada no canto da sala, estava coberto com uma lona, a qual ele tirou devagar.
– Está... Diferente. – Falei ao me aproximar, um pouco preocupada, afinal apesar de já ter visto era a primeira vez que iria usá-lo. – Será que o Vinny está fazendo reparos?
– Eu vi ele mexendo ontem, mas acho que era só uma atualização ou vistoria de rotina. Costumamos receber frequentemente membros de outras equipes aqui para usá-lo.
– Não é perigoso usar sem avisar o Vinny antes? – Perguntei com certo receio.
– Ué? Vai amarelar agora? Não era você que tava doidinha pra usar? Agora fica aí cheia de negócinho. – Riu, debochando como se eu fosse covarde.
– Não. Eu vou. Pode iniciar o sistema. – Respondi com determinação e logo me acomodei na poltrona, aguardando calmamente.
– Certo... – Felipe se sentou de frente para mim para que pudesse monitorar a simulação pelo computador próximo ao Animus e executar algum comando quando necessário. – Iniciando o sistema... Vai querer usar um ancestral seu ou prefere um de algum doador que já tenhamos no banco de dados?
– Já que vou adquirir habilidades então que seja um assassino lendário.
– Hum... Ezio Auditore? Talvez Connor? – Sugeriu de forma gentil.
– Ninguém é mais lendário do que Altaïr Ibn-La'Ahad. – Afirmei, demonstrando evidente admiração.
– Arrasou! – Exclamou. – Vamos para as Cruzadas então. Iniciando simulação...
Quase que imediatamente vi uma luz ofuscante e fechei os olhos instintivamente. Os abri alguns segundos depois e tive uma visão estranha como se estivesse viajando no hiperespaço ao estilo dos filmes de ficção ciêntífica. Imaginei que fosse algo natural, talvez um efeito visual da simulação do Animus, e voltei a fechar os olhos. Lentamente senti meu corpo estremecer e isso me deixou assustada, a força com que estremecia aumentava gradualmente e chegou em um ponto no qual somado ao desespero passei a pensar que eu estivesse tendo um ataque e que morreria ali mesmo, não demorou para que eu perdesse os sentidos.

Quando recobrei os sentidos e abri os olhos novamente me deparei outra vez com uma luz ofuscante, porém agora era a luz do sol escaldante do deserto. Com dificuldade, tentei me levantar. Me sentindo fraca e desorientada, caí na primeira tentativa e fiquei ali sentada por alguns instantes até que me sentisse pelo menos um pouco melhor e pudesse levantar sem tanto esforço. Comecei a caminhar, sentindo o calor quase que intolerável em meio ao que parecia ser um “mar” de areia sem fim. Olhei para minhas mãos de pele clara avermelhada e me dei conta de que era eu ali. Teria algo dado errado? Eu não sabia dizer, era a minha primeira vez no Animus. Também não sabia se eu deveria estar tendo sensações tão reais para uma simulação... Real era a palavra correta, por mais que a computação gráfica fosse avançada, nada ali parecia ser uma projeção em terceira dimensão, tudo parecia tão real quanto a sala na qual estava minutos atrás, assustadoramente real. Mas pelo básico que eu tinha conhecimento, não deveria ser eu ali e sim um avatar do ancestral, no caso Altaïr, com o qual eu reviveria as memórias do mesmo e o que acontecia naquele instante se parecia com tudo, menos com memórias de outro indivíduo.
– Felipe? – Tentei entrar em contato, olhando pra cima e depois para os dois lados. – FELIPE, ME TIRA DAQUI! POR FAVOR, ME TIRA DAQUI! – Não pude evitar, como qualquer um faria naquela situação entrei em desespero, gritando a plenos pulmões na esperança de que Felipe pudesse me tirar de lá. – ALGUMA COISA DEU ERRADO! ME TIRA DAQUI PELO AMOR DE DEUS! – Insisti, cobrindo o rosto com as mãos e me jogando ao chão de joelhos, com a cabeça baixa. Fique ali por alguns minutos tentando negar que estava presa em algo que nem sequer fazia ideia do que era, tentando conter o desespero, o medo e também as lágrimas. Quando já não sabia mais o que fazer, resolvi enxugar o rosto e voltar a caminhar pelo deserto, sem rumo, sem esperança de voltar, pensando no terrível e aparentemente irreversível erro que havia cometido. Caminhei por várias horas até o pôr-do-sol, quando me vi exausta e sem forças imaginando que meu fim seria ali mesmo. Em um certo momento ao olhar para frente vi o que parecia ser um poço não muito longe de onde eu estava no qual alguém aparentemente pegava água. Seria uma miragem? Se o que eu via era real ou não talvez fosse a única chance de matar a minha sede antes que morresse desidratada e se havia mesmo uma pessoa ali talvez fosse a minha única chance de saber onde eu estava. Com dificuldade por conta do extremo cansaço me aproximei devagar, o indivíduo que antes vi estava parado de costas para mim, vestindo preto e encapuzado. Mesmo com certo medo me aproximei dele prestes a tocar seu ombro quando fui interrompida pela voz de homem rude e imponente que disse:
– Eu sei que está aí! Se veio me matar perdeu a sua chance e agora perderá também sua vida. – Tentei dizer algo em meio ao visível mal entendido, mas nem sequer tiver tempo, fui interrompida por ele que em poucos segundos se virou e jogou-se sobre mim, mais rápido do que parecia possível. Quando me dei conta estava imobilizada no chão com o homem me encarando com um olhar furioso enquanto mantinha uma lâmina extremamente afiada próxima do meu pescoço. – Quem te enviou aqui? – Questionou, me encarando com um olhar furioso.
– Isso é um mal entendido, senhor. Eu só estou perdida. Por favor, me solte. – Respondi com a voz tremula, visivelmente assustada e tentando ser o mais educada possível. Normalmente eu gritaria e tentaria me soltar por conta própria, mas naquele momento não tinha outra opção. Se antes cheguei a pensar que morreria, desta vez eu tinha certeza. Respirei fundo procurando me acalmar, com os batimentos acelerados pelo susto e pelo risco em si. Foi somente naquele momento que analisei melhor o homem: a cicatriz em seus lábios, o manto branco que usava por baixo do preto, a lâmina oculta no antebraço esquerdo e o dedo anelar faltando na mão, o modo como agia, sua personalidade forte, seria ele... ? – Altaïr? – Disse o olhando fixamente, de um jeito até estranho, incrédula. Se era mesmo ele e estavamos interagindo um com o outro só podia significar uma coisa: Eu tinha viajado no tempo. Ou eu estava louca, talvez ambos.
– Não vou perguntar outra vez. Quem te enviou aqui? – Me ignorou e insistiu, ainda mantendo seu tom de voz imponente.
– Você é Altaïr Ibn-La'Ahad, certo? Estou aqui pela irmandade.
– Pois não me parece uma assassina. – Retrucou de imediato. – Onde está seu manto e suas armas? – Aproximou ainda mais a lâmina do meu pescoço, quase encostando.
– É o que eu me pergunto todos os dias. – Brinquei, em uma tentativa louca de disfarçar o medo que poderia me custar a vida. – Eu venho de longe, muito longe. – Prossegui. – E de onde eu venho não se recebe uma viajante perdida com uma lâmina e ameaças de morte, sem ofensas. – Voltei a brincar, era de fato uma reação natural minha ao medo e nervosismo.
– E de onde você vem? – Perguntou, era visível que não acreditava em nada do que eu dizia.
– Inglaterra, mas atuo na irmandade de Nova Iorque nos Estados Unidos.
– Nova Iorque? Nunca ouvi falar. Como vou saber se posso confiar em você?
– Porque eu sei mais sobre você do que você mesmo.
– Diga algo que faça sentido! – Ordenou, erguendo o tom de voz.
– Fala aí... Já é o mentor em Masyaf? Passa as noites estudando a Maçã do Éden e anotando em seu diário? Tem feito muitas descobertas? E Maria? Como ela está? – O assassino ficou calado e pareceu surpreso por mais que tentasse esconder com sua expressão séria. Estaria ele confuso e assustado também? Desativou sua lâmina oculta e amarrou minhas mãos logo em seguida, se levantou me puxando pelo braço e me levando com ele como uma prisioneira. – Ei! Que merda é essa? – Tentava me soltar, mas sem sucesso. As cordas foram muito bem amarradas de fato, chegavam a machucar.
– Você vem comigo. – Respondeu vagamente, em tom sério.
– Me solta! ME SOLTA AGORA! – Revoltada, passei a gritar.
– Calada. Você sabe demais. – Retrucou, da mesma forma que fez antes, fingindo não se importar. Continuou a me puxar, caminhando até a sua montaria que estava perto dali.
– E isso te assusta? – Provoquei, rindo baixo.
– Não, pois vai me dizer tudo o que sabe e como sabe.
– Acha mesmo?
– Tenho certeza. A menos que queira morrer e pelo modo como ficou assustada antes eu duvido que queira. – Me colocou sobre o cavalo e subiu logo em seguida. Fiquei calada por alguns minutos enquanto ele cavalgava pelo deserto, pensando em tudo o que havia acontecido e em como parecia ser loucura. – Pode começar me dizendo seu nome e porque está aqui. – Quebrou o silêncio com sua voz séria.
– Meu nome é Erika, Erika Gilmour. E eu estou perdida. Não deveria estar aqui, pelo menos não dessa forma.
– Viu como vai me dizer o que quero, Erika? É só uma questão de tempo. – Falou todo cheio de si e isso me incomodou.
– Eu achava que você fosse mais maduro e sábio, mas ainda é um pouco arrogante. – Provoquei.
– Eu achava que mulheres inglesas fossem educadas. – Retrucou. – Vocês são todas assim rebeldes e de personalidade forte?
– Para onde está me levando? – Ignorei a pergunta dele, observava ao redor, apreciando o cair a noite no deserto.
– Masyaf. – Respondeu o assassino com seu natural tom sério de voz.
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