Separated by time, united by the creed
11 The knowledge (that you really want)
Notas iniciais
Ao ouvir aquilo, arregalei os olhos e fiquei ali parada até que a ficha caísse, o que demorou algum tempo, foi difícil acreditar que era verdade e que alguém como eu iria mesmo ser treinada pelo maior e mais brilhante assassino da história. Comecei a tremer, minhas pernas ficaram bambas a um ponto em que achei que não aguentaria ficar em pé por muito tempo, mas precisei me manter firme e fazer de tudo para me acalmar antes que Altaïr percebesse, com medo que ele me achasse louca por ter uma reação daquelas, que facilmente indicava minha imensa admiração, a qual podia facilmente ser comparada com a de uma fã por um artista se fosse vista por alguém da minha época. Por sorte, logo meu nervosismo passou e sem nem perceber esbocei um belo sorriso, daqueles de orelha a orelha, acho que meus olhos até devem ter brilhado de extrema felicidade. Corri pra perto dele e o abracei bem forte, no início pareceu meio confuso e estranhou minha atitude como imaginei que faria, porém, acabou me envolvendo em seus braços, discretamente, é claro. É, minha tentativa de parecer neutra diante daquela notícia e não demonstrar falhou, eu simplesmente não conseguia mais esconder meus sentimentos.
— Obrigada! — Disse eu toda alegre. Ficamos abraçados até eu perceber que tinha me empolgado e já estava ali com ele fazia um certo tempo, me afastei, devagar, desfazendo o abraço aos poucos. — É uma honra! Prometo que não vou desapontá-lo. — Usei de um tom de voz mais sério e procurei parecer mais formal, tentando disfarçar minha felicidade e entusiasmo que eram bem evidentes.
— Isto nós veremos. — Respondeu todo sério e deu uma pausa. — Venha comigo. — Se retirou da sala e eu o segui.
— Espera... Vamos começar agora mesmo? — Eu ainda não conseguia acreditar naquilo.
— Sim, o quanto antes começarmos melhor. Você tem muito o que aprender. — Virou a cabeça de leve para trás por um instante pra me responder e continuou caminhando. Eu o seguia meio que fazendo uma dancinha da vitória discretamente, tamanha era a minha alegria. Passamos pelos longos corredores e descemos as escadas até o salão de entrada do castelo. Quando finalmente o assassino parou e virou-se para trás, acabou me pegando no “flagra” e, obviamente estranhando aquilo, perguntou: — Você está bem?
— Estou. Foi só um... Um susto, é... Foi isso, só um susto. — Disfarcei, tentando não rir. — Pode prosseguir. — Falei da forma mais séria que consegui, ainda segurando o riso.
Subimos a escadaria central, Altaïr abriu o portão de ferro que dava acesso ao jardim atrás do castelo, por onde entramos e seguimos adiante. O lugar era lindo! A grama e as folhas das árvores tão verdes, me fazendo esquecer completamente que a fortaleza ficava no meio do deserto; flores de muitas espécies e cores; vasos e tapetes típicos da época e da cultura árabe; uma vista para as montanhas de tirar o fôlego. Foi impossível não me impressionar. O assassino parou no centro em um terraço de mármore decorado com vários padrões, em volta do qual haviam canais rasos por onde a água corria e despencava no andar de baixo, numa depressão de mármore também rasa e decorada com os mesmos padrões, era uma espécie de fonte.
— Uau! — Exclamei, maravilhada e claramente surpresa com a beleza do lugar. Caminhei por entre as flores, tocando-as com pontas dos dedos e me aproximando para sentir seus doces perfumes. Via as borboletas voarem graciosamente e pousarem sob as pétalas das flores, ouvia os pássaros nas árvores cantarem... Era um momento tão belo e singular, eu sorria feito boba ao admirar a beleza daquele lindo jardim.
— Erika? — Altaïr me chamou, ainda parado no mesmo lugar. Foi só então que eu percebi que havia me distraído e o feito esperar, na certa por vários minutos, pra precisar chamar minha atenção.
— Ah... Me desculpe. — Caminhei até ele, sem jeito. — É que... Tudo é tão lindo! Eu acabei me distra... — Tentei explicar, mas quase acabei me distraindo outra vez ao admirar o jardim, voltando a sorrir.
— Eu não a trouxe aqui para admirar a paisagem, portanto concentre-se e mantenha-se focada no seu treinamento. — Me repreendeu, de uma forma bem rude pra algo aparentemente tão banal, porém, com toda razão, eu me distraía muito fácil e não teria como progredir no treinamento se não passasse a me concentrar mais. Talvez o assassino já suspeitasse disso e tivesse me trazido até ali propositalmente. — Sem distrações! — Frisou, me encarando.
— Está bem... — Respondi vagamente, ainda me recobrando das distrações e tentando ignorá-las, um pouco envergonhada. — Vamos lá! Eu mal posso esperar pra poder acabar com aqueles malditos templários! — Falei toda animada, eu tinha esperado tanto tempo por aquele momento, o momento em que eu finalmente seria treinada e desenvolveria minhas habilidades... E agora esse momento havia finalmente chegado. Eu não só aprenderia, como aprenderia com o melhor! Se tinha alguém que poderia fazer de mim uma grande assassina, esse alguém certamente era Altaïr. Desembainhei a minha espada, desferindo alguns “golpes” ridículos no ar e depois girando-a com dificuldade por conta do peso, quase derrubando ela no chão. É... Na minha mente aquilo tinha saído bem melhor. Precisei disfarçar como fiquei ainda mais envergonhada, fingir que eu não tinha tentado pagar de boazona e feito papel de idiota na frente de ninguém menos do que o grande e lendário mentor responsável por fazer da irmandade o que ela é.
— Antes de atacar, você precisa primeiro aprender a se defender. E é o que irei ensinar-lhe inicialmente. — Alertou, usando de um tom mais sério.
— Mas... — Eu não esperava por essa, toda aquela minha animação acabou ali mesmo.
— E além disso, esta espada não é para alguém de seu rank. —Complementou, no mesmo tom. — Quando terminarmos aqui, entregue-a ao responsável pelas armas de combate, informe que você é uma novice que está no início de seu treinamento e solicite uma arma leve, ele certamente saberá qual é a mais adequada para que você consiga manusear. — Ordenou, cheio de autoridade... E arrogância também.
— Não será necessário. Eu dou conta dessa. — Respondi, visivelmente irritada. O que ele havia dito me fez sentir inferior e incapaz, eu precisava deixar claro que não era.
— Não é o que vejo. — Rebateu, outra vez arrogantemente.
— Você pensa que eu não aguento, não é? — O encarei, com os olhos semi cerrados.
— Pois bem... — Altaïr desembainhou a espada dele. — Mostre-me! — Ordenou, não muito contente por ser contrariado. Tremi na base no mesmo instante, vendo o assassino ali parado aguardando que eu o atacasse. Pensei em desistir e deixar pra lá, mas por mais que tivesse medo de enfrentá-lo em combate, o meu orgulho e a minha teimosia falaram mais alto. Respirei fundo, tentando me acalmar e me concentrar, franzi a testa e avancei, furiosamente, golpeando o assassino com toda a minha força. Naqueles breves segundos, ele agiu extremamente rápido e com a destreza de um verdadeiro mestre, sendo capaz de entrar em posição de combate, defender o golpe e ainda pressionar sua espada contra a minha, abaixando-a de modo que eu perdesse o equilíbrio. Quando as duas lâminas das espadas se chocaram, liberando faíscas e fazendo um ruído nada agradável, eu senti todo o peso da minha juntamente com a força que eu havia colocado no golpe voltando para mim em uma espécie de “coice” que fez com que eu largasse a espada e, sem equilíbrio, caísse, enquanto Altaïr permaneceu ileso e só saiu de sua postura quando eu já estava no chão, para embainhar novamente a espada dele. A queda doeu um pouco, mas não tanto quanto o meu orgulho. — Vê? — Perguntou ele, confiante. — É necessário ter disciplina, concentração, técnica, movimentos precisos e bem calculados. Força não é tudo e, quando mal aplicada, pode volta-se contra você. Armas não vencem batalhas. — Alertou, falando de forma mais sábia. Deu uma pausa. — Levante-se! — Ordenou, ao me ver ainda caída no chão. Envergonhada como estive poucas vezes na vida e consequentemente furiosa pelo modo rigoroso e autoritário com o qual eu estava sendo tratada, levantei rapidamente e saquei minha pistola, exibindo-a para Altaïr como se fosse meu az na manga naquela disputa de quem estava certo, esboçando um largo sorriso vitorioso. — O que significa isso, Erika? — Exigiu saber, olhando para mim confuso e também irritado.
— Você antes disse que “armas não vencem batalhas”. Mas olha só... — Olhei para a arma na minha mão e depois para ele outra vez, segura que o deixaria sem resposta. — O que tem a dizer agora? — Fiz questão de afrontá-lo, questionando-o e punindo sua arrogância com mais arrogância ainda, na esperança de que visse a forma como estava agindo e talvez mudasse. O assassino me olhou de cima a baixo e ficou calado por alguns segundos, nada se ouvia além dos sons ambientes do jardim.
— Já pode ir. Está dispensada. — Quebrou o silêncio e respondeu em seu natural tom de voz sério, agora com um olhar de desaprovação.
— O que? Como assim? — Perguntei, confusa. — Mas nós nem começamos.
— Você acredita que seu equipamento a torna superior e portanto não tem nada a aprender comigo. — Claramente desapontado, mesmo evitando demonstrar, virou-se de costas e começou a caminhar. — Estarei em minha sala estudando a Maçã, se desejar juntar-se a mim. — Complementou, como se nada tivesse acontecido.
— Mas... — Guardei a minha arma devagar, fiquei ali parada, sem palavras, vendo ele ir embora sem nem saber o que fazer, apenas abaixei a cabeça. Demorei alguns segundos para aceitar que eu tinha ido longe demais e estragado tudo por causa da droga do meu orgulho e de uma disputa totalmente desnecessária. — Mas que merda! — Chutei a terra do jardim, tentando descontar toda a raiva que sentia de mim mesma. Eu era uma verdadeira idiota, uma idiota teimosa e impulsiva que agia feito criança ao receber um simples “não”. Me sentei no chão de mármore, olhando para as montanhas e me perguntando se eu deveria mesmo estar ali, já que eu claramente não era madura o suficiente para aceitar ordens de um superior... Aquela não era a primeira vez, eu já tinha descumprido ordens de Altaïr antes e também as de Anne. Talvez eu tivesse entrado para a irmandade muito cedo... Ou talvez eu nem devesse ter deixado Londres em primeiro lugar. Passei a prestar atenção no jardim outra vez, o som do canto dos pássaros e da água correndo... Aquilo era tão calmante, me fez repensar minhas atitudes e ver o quanto eu estava errada, mas ver e admitir que eu havia errado não mudaria as coisas, me corrigir e tomar novas atitudes sim. Peguei a espada e me levantei, voltei ao lugar em que as armas eram guardadas onde eu a havia escolhido, ao entrar, procurei por alguém para me ajudar a escolher outra mais adequada para mim, como Altaïr tinha ordenado. — Olá? Alguém por aqui? — O local estava silencioso, parecia vazio, e como era enorme, decidi procurar. — Olá? — Caminhava devagar, tentando não me distrair outra vez com as belas armas que ali estavam, o que não era muito fácil considerando a beleza das mesmas.
— O que faz aqui, mulher? — Alguém perguntou de longe, em voz alta e um tom rude, como se não me quisesse ali. Ao virar vi que esse alguém era Abbas e, pelo jeito que me olhou e obviamente por tudo que já havia feito, tive certeza que não me queria ali mesmo, claramente minha presença o incomodava.
— Preciso de ajuda. Por acaso tem mais alguém aqui? — Perguntei, na maior cara de pau, com ênfase no “mais alguém”.
— Não. Eu sou o responsável aqui. — Respondeu ao se aproximar, com uma voz ainda mais rude e encarando como se fosse me matar ali mesmo, a raiva dele por ter sido punido era bem clara.
— Ah, que ótimo! — Disse pra mim mesma, no meu próprio idioma, abaixando os ombros e soltando o ar pela boca em descontentamento, o qual não fiz a mínima questão de disfarçar. — Serve você mesmo então. — Voltei a falar no idioma dele, deixando ainda mais claro o quanto eu o desprezava. Por mais que eu detestasse estar ali com ele, não tinha outra opção. Pensei em procurar por Malik, mas provavelmente estaria ocupado e eu não queria incomodá-lo por conta de indiferenças, além disso, Altaïr havia ordenado que eu falasse com o responsável e, depois do erro que eu tinha cometido, não queria desobedecê-lo, mesmo que para o meu azar, o responsável fosse Abbas.
— Sua infiel! Você não passa de uma...
— Preciso de uma nova espada. — O interrompi quando estava me insultando, sendo curta e direta, ele parecia furioso e com certeza as coisas iriam ficar bem piores se aquilo continuasse e eu o respondesse como deveria. Mesmo que minha vontade fosse dar outra surra nele ou fazer coisa pior, precisei falar sério e manter a postura. Desembainhei a espada e a coloquei sobre um balcão ali, me apoiando no mesmo e aguardando.
— Qual é o problema? — Perguntou, analisando aquela bela e robusta arma. — Não consegue manuseá-la? — Deduziu, rindo. — Eu sabia que você era fraca, mulher, mas isso... ? — Riu ainda mais, falava em tom de deboche.
— Altaïr ordenou que eu a trocasse por uma mais leve, considerando que estou no início do meu treinamento. — Continuei agindo de forma séria, me segurando ao ver Abbas que ainda ria e debochava resmungando coisas que não consegui entender. Fiquei encostada no balcão, olhando para aquele idiota e revirando os olhos, até que ele finalmente parou de rir e, mesmo não querendo, foi à procura de uma espada mais adequada para mim. Depois de alguns minutos, Abbas voltou com um sabre sírio, deixando-o em cima do balcão sem dizer nada, apenas me olhando feio. O tal sabre era simples e sem nenhuma decoração, tinha metade do tamanho em comparação com a cimitarra e era muito mais leve, tanto que, ao analisar, pude manuseá-lo com facilidade e usando apenas uma das mãos. A lâmina em metal escuro, apesar de ser pelo menos três vezes mais fina, parecia ser bem forte e resistente. Era uma arma sutil, rápida e letal, para a minha surpresa, eu havia realmente gostado.
— E então? Não me diga que é tão fraca que não consegue manusear esta também. — Questionou o idiota, impaciente com a demora, ele claramente queria me ver fora dali o quanto antes.
— Esta vai servir. Obrigada. — Agradeci, ainda falando do mesmo jeito sério e ignorando mais uma provocação. — Voltarei se precisar de mais alguma coisa. Já pode continuar com o seu trabalho. — Complementei, com certa maldade, confesso, enquanto ajeitava a espada no meu cinto. — E ah, não se esqueça que a “mulher fraca” aqui lhe derrotou em combate na frente de seu mestre e de toda a irmandade. — Provoquei antes de sair, rindo baixinho, simplesmente não consegui resistir. No corredor, ouvi Abbas resmungar outra vez e, de novo, não consegui entender o que ele havia dito... Mas não liguei, eu tinha coisas mais importantes com o que me preocupar.
No meu quarto, fiz os relatórios da missão como deveria e fiquei pensando no que iria dizer para me desculpar com Altaïr. Deitada na cama, as horas passavam enquanto eu refletia e só conseguia ficar ainda pior, me sentindo uma verdadeira idiota, imaginando as coisas horríveis que o assassino poderia estar pensando de mim. A vergonha era enorme e mesmo depois de tanto pensar eu ainda nem fazia ideia do que iria fazer para mudar aquilo, mesmo assim, tomei coragem e fui até a sala onde ele disse que estaria. Quando entrei, o encontrei sentado em uma cadeira imponente e segurando a Maçã em sua mão direita. Ativado e exibindo sua luz dourada, o artefato prendeu minha atenção por alguns segundos assim que olhei, com aquele efeito hipnotizante estranho que sempre tinha e me deixava um pouco assustada. Altaïr vestia o manto negro de mentor, cujo capuz cobria seus olhos e também parte do nariz, estava imóvel e parecia pensativo, concentrado... Fechei a porta devagar e logo comecei a falar, improvisadamente:
— Altaïr, eu queria... — Dei uma pausa, insegura. — Eu queria lhe pedir desculpas pelo que aconteceu mais cedo no jardim. — Falei de uma vez, sem jeito, de cabeça baixa. O assassino não disse nada, sequer se moveu, o que me deixou ainda mais sem jeito e com certo receio também. Respirei fundo e me aproximei devagar. — Eu admito que... — Parei de falar quando, ao chegar bem perto, percebi que ele na verdade estava dormindo tranquilamente. Considerando que já era bem tarde, deduzi que talvez Altaïr tivesse se dedicado muito ao estudo da Maçã e, exausto, caído no sono sem nem perceber. Eu o observei por alguns segundos, parecia tão calmo como eu jamais conseguiria imaginá-lo, não pude deixar de sorrir e desejar estar dormindo abraçada com ele naquela noite fria.

Créditos para o artista Tervola (veja a imagem original aqui)
Cheguei ainda mais perto e, mesmo com certo medo, toquei o artefato querendo desativar o mesmo, temendo que pudesse deixar o assassino ainda mais exausto ou causar algum outro mal por tanta exposição. A Maçã de início reagiu em defesa, me dando uma espécie de choque com aquela poderosa energia e propagando sua luz ofuscante, tudo em um pulso único e extremamente rápido, a ponto de me “cegar” temporariamente e fazer com que eu fosse jogada para longe no chão com a força que tal energia exerceu sobre mim. Porém, não desisti, fiquei ali por um certo tempo no chão até que pudesse enxergar normalmente outra vez, me levantei devagar e voltei a me aproximar, procurei permanecer calma, esvaziando a minha mente de outros pensamentos, deixando clara apenas a minha intenção de desativar a Maçã... E funcionou, quando a toquei de novo, senti sua energia fluir pelo meu corpo instantaneamente, sem aquele medo e desconforto da primeira vez, eu tinha o controle e consegui desativá-la sem nenhum problema. Retirei o artefato da mão de Altaïr e o deixei sobre o colo dele, pensei em carregá-lo até o quarto mais próximo para que dormisse em uma cama confortável, mas lembrando como eu ainda era um pouco sedentária e da dificuldade que tive quando o retirei daquele rio, aceitei que não seria capaz e fiz o que estava ao meu alcance: Busquei um cobertor bem quentinho e coloquei sobre ele, cobrindo-o com todo a carinho como uma mãe cuida de um filho, voltando a sorrir e acariciando seu rosto de leve para não correr o risco de acordá-lo. Deixei que meu amado dormisse e voltei ao quarto para fazer o mesmo.
Pela manhã, fui encontrar ele novamente assim que acordei, mas tive uma surpresa desagradável quando o avistei parado no corredor conversando com Maria. Me escondi atrás de um pilar e fiquei quietinha, ouvindo o que os dois falavam:
— Então, mais uma noite trancado em sua sala com aquela... Coisa? — A mulher não parecia muito contente, podia ver a insatisfação nos olhos dela. — Você precisa parar com isso, Altaïr! Está obcecado! — Advertiu, o que pareceu mais uma bronca pela forma como ela ergueu a voz.
— Este é meu dever, Maria! — Afirmou, também erguendo a voz. — Se existe algo de bom para ser encontrado neste artefato, eu descobrirei. — Complementou, mostrando sua determinação.
— Assim você irá acabar como seu antigo mestre. — Insistiu, não se dando por vencida.
— Não, eu não irei. Se eu não for capaz de decifrar os mistérios da Maçã, ao menos espero possuir a força necessária para destruí-la. — Voltou a falar em seu tom de voz natural, porém, demonstrando humildade. Maria se calou, o silêncio tomou conta do lugar e os dois ficaram se encarando por alguns segundos, até que o assassino mudou de assunto: — Agradeço pelo que fez ontem à noite. — Disse de um jeito mais gentil e carinhoso, se aproximando daquela mulher idiota.
— Do que você está falando? — Perguntou Maria, confusa. — Eu não fiz nada. — Afirmou, complementando.
— Não fez? — Perguntou, surpreso. Afastou-se devagar, se mostrava pensativo. — Então só pode ter sido... — Interrompeu a si mesmo, por um motivo que não entendi.
— O que está acontecendo, Altaïr? Eu não entendo. — Praticamente exigiu saber, ainda mais confusa, e bem nervosa. E eu, assim como ela, também não estava entendendo nada.
— Não, não é nada. Não se preocupe. — Disfarçou perfeitamente, respondendo de um jeito sério e convincente, como eu sempre tentava fazer e falhava. Era estranho ver ele agir assim, mas também curioso. — Agora eu preciso ir, tenho alguns assuntos da irmandade que não podem esperar. Nos vemos mais tarde. — Despediu-se, voltando a falar de uma forma mais carinhosa e gentil. Saiu andando pelo corredor rumo á biblioteca, deixando Maria ali parada, claramente ainda confusa e descontente. Esperei que ela fosse embora e também fui até á biblioteca, entrei agindo naturalmente, como se estivesse lá pelos livros como os demais, fingi estar procurando alguma coisa, e não demorou muito para que o assassino me notasse ali e olhasse para mim, de um jeito até que bem sereno pros padrões dele, ainda mais considerando a merda que eu havia feito. Deixei a vergonha de lado e retribuí o olhar, sorrindo de leve, enquanto continuava fingindo, esperando por uma oportunidade para falar com ele. Além de nós, haviam pelo menos uns dez ali, alguns também procurando livros, outros sentados em poltronas lendo, ouvia-se apenas o folhear das páginas. Altaïr recolheu alguns livros e os deixou sobre uma mesa, passou a me observar por alguns segundos e logo se aproximou, perguntando baixinho da forma mais gentil que a seriedade dele permitia: — Vejo que está procurando algo... Precisa de ajuda?
— Bem... Sim, na verdade eu preciso. Não encontro os livros de registros históricos. — Respondi improvisadamente, também em voz baixa. Voltei a sorrir, feliz por ele não apenas ter me notado como também ter vindo oferecer ajuda.
— Estão na sessão ao lado. — Caminhou até lá e eu o segui. — Procura algo em específico? — Se mostrou bem atencioso, o que não era muito comum vindo dele e nas raras ocasiões que acontecia me pegava de surpresa.
— Não exatamente. Quero exemplares variados, de diferentes épocas, idiomas e povos. — Expliquei, resumidamente. Ainda falávamos baixo, respeitando os que estavam lendo, e eu não queria ser a mal educada que incomodaria a todos falando demais.
— Deixe-me ver... — Recolheu uns seis livros bem grandes e os deixou na mesa do lado dos dele. — O que acha destes?
— São ótimos! — Respondi, folheando rapidamente alguns deles, só para analisar. — Obrigada! — Sorri mais uma vez e, antes que Altaïr se oferecesse para carregar tudo, peguei os meus e vi que além de grandes eram também bem pesados. — Podemos conversar? — Perguntei, caminhando até a saída. O assassino também pegou os livros dele e me seguiu pelos corredores até o meu quarto, empurrei a porta com o ombro e entrei toda desajeitada, deixando os livros com aquele peso enorme sobre a primeira mesa que encontrei. — Certo... — Respirei fundo, aliviada.
— Eu não sabia que você se interessava por livros. — Altaïr se mostrava bem surpreso e, se não o conhecesse, eu diria até admirado. — E muito menos por história. — Complementou, aproximando-se devagar.
— Mas é claro que me interesso! Eu adoro ler! Passei praticamente toda minha infância e adolescência estudando os mais diversos assuntos: História, política, filosofia, ciência... Os livros, muitas vezes, eram meus únicos companheiros, assim como a música. — Sem querer, acabei revelando um pouco sobre mim, e a surpresa e admiração dele ficaram ainda mais evidentes, talvez tivesse se identificado, uma vez que os assassinos também eram bem instruídos em seus estudos e ele, em especial, havia sido instruído pelo próprio mentor. — E viver sem conhecer o passado é estar cego para o futuro. — Dei uma pausa. — Especialmente para uma viajante do tempo. — Comecei a rir, não deu pra evitar.
— Você provou que pode encontrar qualquer informação que precise instantaneamente, como magia, usando aquele seu dispositivo estranho. Eu nunca imaginei que fosse procurar por livros. — Disse, claramente confuso, se lembrando de quando eu havia demonstrado a praticidade e precisão da tecnologia na pesquisa de informações. Olhava discretamente pelo quarto, mas não escondia o quanto estranhava ao ver algumas coisas que haviam ali, as quais certamente despertavam o interesse e a curiosidade dele.
— Não é bem assim... Nossa database é ampla e atualizada, mas isso não significa que tenhamos tudo. Alguns documentos se perdem com o tempo, e é por isso que quero ler e analisar as informações contidas nesses livros, talvez tenham algo que nós no futuro não sabemos. — Mesmo que eu não tivesse ido até á biblioteca pelos livros, acabou virando uma ótima ideia estudá-los. Entrei na frente do assassino, vendo que estava tão distraído com as minhas coisas, querendo evitar que visse ou tivesse contato com algo que não deveria.— E aquilo não é magia, Altaïr. É tecnologia. — Corrigi, rindo baixinho. A forma como alguém daquela época encarava o que não podia explicar era bem engraçada. — Se você achou aquilo impressionante, imagina quando souber da existência da internet. — Deixei escapar, sem perceber.
— O que? — Perguntou, logicamente sem entender nada. Por sorte, ainda estava um pouco distraído.
— Não, nada... — Disfarcei, não era o melhor momento para explicar sobre a maravilha tecnológica que é a internet, se é que eu iria explicar pra ele, e além isso, eu tinha outro assunto mais importante para tratar. — E não se engane, no meu tempo também existem livros e bibliotecas. — Caminhei até a minha estante e dela tirei os dois livros que havia trazido comigo. — Esse, por exemplo, é o primeiro volume de uma obra de fantasia moderna extremamente famosa. — Mostrei o meu antigo livro de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, que estava todo acabado depois de passar mais de quinze anos comigo. — Eu o li pela primeira vez ainda na infância, foi uma experiência literalmente "mágica" e inesquecível, então tenho um carinho especial e não consigo me desfazer dele, mesmo já estando um pouco velho. Sempre releio quando posso. — Ri um pouco sem jeito e entreguei o livro nas mãos dele, fiquei observando enquanto o assassino folheava o livro com todo cuidado. — Esse aqui já está um pouco mais novo e conservado porque eu o descobri na minha adolescência. É um romance clássico da literatura inglesa, que foi escrito em 1797 por uma mulher que tinha uma visão bem a frente do seu tempo. — Mostrei e entreguei a ele a minha cópia de “Orgulho e Preconceito” e, mais uma vez, fiquei olhando Altaïr folhear o livro cuidadosamente, ainda segurando o outro embaixo do que agora analisava. — Bem, na verdade, ambos os livros foram escritos por grandes e talentosas mulheres. — Me aproximei, sorrindo. — Você vai encontrar vários aspectos em que se parece com o Mr. Darcy... Um homem incrível... apaixonante! Eu mesma já fui apaixonada por ele. — Fiquei empolgada e deixei escapar, quando percebi já tinha dito aquilo, me senti uma fangirl idiota daquelas bem loucas.
— Quem é Mr. Darcy? — Parou de folhear o livro no mesmo instante e me encarou feio ao perguntar, pelo seu tom de voz não pareceu nada contente com o que tinha ouvido, por algum motivo.
— Um personagem... Desse livro. Só um personagem... Nada demais. É... Só isso. Fictício. Sabe? Então... — Respondi por partes, toda atrapalhada e extremamente envergonhada, virando o rosto e fingindo olhar para outra coisa qualquer, querendo evitar que o assassino visse o quanto eu estava sem jeito com aquilo, que era algo tão pessoal pra mim. — Pode ficar com os livros emprestados se quiser ler. — Falei da forma mais séria que consegui, tentando disfarçar. — Não teria nenhum mal em conhecer histórias do futuro. Bom... Pelo menos eu acho que não teria. — Complementei, pensativa.
— Erika, eu não entendo o seu idioma. — Fez com que eu me lembrasse daquele pequeno detalhe, deixando os livros em minhas mãos, respeitosamente. — E estes devem ser livros raros, imagino.
— Raros? Não, não. Eles são na verdade... — Foi só ali que me lembrei de algo que eu me esquecia constantemente: A diferença enorme de tempo entre nós dois e como isso dificultava a comunicação e compreensão de um para o outro. — Ah... É mesmo. Você não sabe.
— O que eu não sei? — Perguntou, confuso. Eu não tinha certeza se devia falar sobre acontecimentos futuros com Altaïr, porém, naquelas circunstâncias acabei tendo que explicar pra não deixar o clima estranho e/ou parecer que eu o estivesse diminuindo de alguma forma. — Você disse que são livros clássicos e famosos, portanto devem ser raros.
— Bem... Daqui a mais ou menos uns duzentos e cinquenta anos, com a invenção da prensa móvel, a reprodução de livros chegará à velocidade e escala jamais antes vistas. Essa produção em massa trará acessibilidade ao público em geral, impulsionando a democratização do conhecimento. — Dei uma breve pausa, colocando os livros de volta na estante. — Os livros que antes eram manuscritos, caros e em pouca quantidade, passarão a ser impressos em menos tempo e em grandes quantidades, ainda mais depois da revolução industrial e do uso das máquinas. No meu tempo, essa produção chega aos milhares, até mesmo milhões. — Tentei explicar da forma mais clara e simples que consegui, e procurei não ir muito longe, afinal eu temia as consequências que informações demais pudessem trazer.
— Espere... Você quer dizer que de onde vem qualquer pessoa pode ter acesso a qualquer livro que desejar? — Questionou, visivelmente incrédulo. Ele se mostrava extremamente surpreso também, justamente como eu imaginei que estaria.
— De certa forma... Sim. — Respondi, sorrindo.
— Mas isso é... — Notei que o assassino tentou se conter, mas não conseguiu muito bem, por mais que tentasse disfarçar eu pude notar seu discreto sorriso e sua empolgação. — ...Maravilhoso! — Complementou, falando um pouco mais baixo. Foi uma cena tão fofa que meu sorriso foi de orelha a orelha, quis apertar ele, acabei até rindo discretamente.
— Sim, é mesmo maravilhoso. Mas não foi por isso que eu o chamei aqui. — Desfiz o sorriso. — Sabe... Eu queria... — Mais uma vez eu não fazia ideia de como me desculpar, então resolvi dizer tudo logo de uma vez: — Eu queria lhe pedir desculpas pelo que aconteceu ontem no jardim. Admito que fui uma idiota e agi de forma infantil, sinto muito por isso. Prometi que não o desapontaria e logo na primeira oportunidade acabei lhe desrespeitando ao confrontá-lo daquele jeito. — Usei de uma voz e expressão mais sérias, abaixei um pouco a cabeça, deixando claro o quanto me sentia envergonhada. Altaïr permaneceu calado por alguns segundos, parecia pensativo, e isso só me fez ficar ainda mais envergonhada... E nervosa, bem nervosa.
— Vejo que não está mais com aquela espada. — Fez essa observação de repente ao olhar para meu cinto, não era bem a resposta que eu esperava dele.
— Eu a troquei por uma mais leve. — Desembainhei o meu sabre sírio, mostrando-o para Altaïr, que caminhava devagar pelo quarto, ainda pensativo. O silêncio tomou conta do lugar, e a cada segundo se tornava ainda mais constrangedor. Sem obter resposta, guardei a nova espada de volta no cinto.
— Erika, se eu serei mesmo seu mestre, vai ser necessário que você respeite o conhecimento que irei lhe transmitir por meio dos meus ensinamentos. Eu não estou exigindo que aceite tudo cegamente, afinal, como assassina é seu dever questionar. Porém, considerar-se superior a toda uma época e cultura, pelo simples fato do seu tempo ser tecnologicamente mais avançado, é um ato de ignorância que não irei permitir enquanto for minha discípula. — Quebrou o silêncio, falando todo sério e imponente, impondo respeito como um verdadeiro mestre e mentor deveria fazer. Ao falar, parou de andar e outra vez ficou de frente para mim, tornando aquilo ainda mais intimidador do que naturalmente já era. Me sentia orgulhosa por vê-lo tomar uma postura sábia e correta, mesmo que fosse contra mim. Estava mesmo mudando, evoluindo, embora ainda mostrasse sinais de arrogância ás vezes. Seu olhar me analisava, ignorando tudo ao nosso redor, o que para alguém tão curioso quanto ao meu tempo como ele não deveria ser nada fácil.
— Você está certo. — Respondi humildemente. — Eu sinto muito. Vou compreender se você quiser suspender o treinamento. — Complementei, foi difícil dizer aquilo, era o que eu temia acontecer.
— Se você realmente admite seu erro e está disposta a tomar uma nova postura, eu não vejo porque fazê-lo. — Deu uma pausa. — Mas, se ainda mantêm o mesmo pensamento, você é livre para permanecer usando somente seu equipamento da maneira que achar conveniente, uma vez que consiga cumprir as missões de alto nível que lhe serão designadas. Considerando que possui armas tão superiores aos nossos demais irmãos, nada mais justo, não concorda? — Propôs de forma inteligente, ainda me analisando com seu olhar, agora era Altaïr quem parecia aguardar por uma resposta, e aguardava pacientemente. Sem saber como responder e já tendo admitido que ele estava certo, eu simplesmente descarreguei minha pistola semi-automática ali mesmo, colocando o cartucho com as balas sobre a mesa, e a entregando nas mãos dele. Um voto de confiança que eu sabia, certamente o surpreenderia e faria com que visse o quanto eu respeitava os métodos da época dele. Embora eu obviamente tivesse trazido outras armas comigo, com aquele gesto eu estava deixando claro que não faria uso delas, pelo menos temporariamente. O assassino tentou esconder e permanecer sério, mas sua surpresa era mais do que notável, olhou para a pistola e depois para mim, como se precisasse confirmar o que estava vendo. — Não, eu... — Finalmente deu fim ao silêncio, que mais uma vez durou tempo o bastante pra se tornar constrangedor, considerando que ele falava pouco, eu já deveria ter me acostumado a isso. Se mostrou bem confuso, interrompendo a si mesmo e voltando a olhar para a arma em suas mãos. — Eu acho melhor não. Como sabe, não devo ter contato com a tecnologia de seu tempo. — Embora dissesse o contrário, eu sabia muito bem que ter contato com tal tecnologia era exatamente o que Altaïr desejava, e que se pudesse, estaria analisando minha arma naquele exato momento, por mais sério que fosse, isso estava nítido no olhar dele e no modo evasivo com que agora agia. — Isso pode alterar os...
— Eu confio em você. — O interrompi ao afirmar, me aproximando devagar e colocando minhas mãos delicadamente sobre as dele que ainda seguravam a pistola. — Sei que irá guardá-la consigo e mesmo que queira estudá-la, saberá que não deve e respeitará isso. — Falava com toda a segurança, olhando nos olhos dele. Eu me aproximei ainda mais e o assassino fez o mesmo, pouco a pouco, mais uma vez, ficamos tão próximos que nossos lábios quase se tocaram... Quase, pois logo que percebemos nos afastamos um do outro. Desviei o olhar, sem jeito. Me perguntei se talvez houvesse alguma possibilidade dele querer me beijar tanto quanto eu queria beijá-lo, não... Certamente não. Altaïr olhou para mim com uma expressão serena enquanto guardava minha arma em seu manto. Talvez quisesse agradecer pela confiança e não soubesse o que dizer, ou talvez estivesse simplesmente satisfeito por eu demonstrar que não era “uma garota ignorante do futuro que se achava superior” como ele provavelmente imaginava, talvez ambos. De qualquer forma, eu esperava que o assassino visse que, embora ás vezes eu agisse feito uma idiota, eu o respeitava como mestre. Caminhou até a mesa e pegou a minha lâmina oculta quebrada que estava sobre ela, analisando-a calado. Todo aquele silêncio já estava me deixando constrangida e impaciente. — Então... É... Acho que eu vou precisar de uma nova, já que essa... Você sabe. — Tentei puxar conversa, toda atrapalhada, falando pausadamente e gesticulando.
— Isto não deveria acontecer. Verei o que pode ser feito para que não se repita. — Disse, referindo-se à lâmina. — Encontre-me amanhã pela manhã no jardim. — Dirigiu-se até a porta, levando a minha lâmina, ou melhor, o que sobrou dela, com ele. — Segurança e paz. — Falou antes de se retirar.
Seria esse encontro para prosseguir com meu treinamento? Nada havia ficado muito claro. Decepcionada e sem ter a resposta que eu esperava, me sentei na cama de braços cruzados e fazendo cara feia. Eu tinha tanto para falar com Altaïr... E ele simplesmente optava por se calar, e quando falava era somente o necessário. Se comparado a quando eu o conheci, de certa forma, o assassino estava progredindo nisso, mas ainda era muito calado. Todo esse mistério em volta dele era estranho, pois ao mesmo tempo em que me fascinava também me deixava um pouco desapontada... Queria poder manter longas conversas sobre os mais diversos assuntos, queria conhecê-lo de verdade, além dos registros históricos da database, além do que ele quisesse mostrar de si mesmo. É... Talvez eu devesse tentar conhecê-lo, talvez Altaïr tivesse o mesmo desejo quanto a minha pessoa, porém não soubesse como fazê-lo, pelo menos não sem sair da sua “zona de conforto” e se expor.
Enquanto o “amanhã” não chegava para que eu pudesse ter minha resposta, resolvi me distrair um pouco e fui ao encontro de Malik. Ao entrar nos aposentos dele o encontrei concentrado organizando livros e pergaminhos como de costume, fui logo ficando à vontade e pegando um dos livros pra ler.
— Erika! Que bom vê-la novamente! — Disse animado, vindo na minha direção carregando alguns pergaminhos. — Segurança e paz, irmã.
— Não quero atrapalhar seu trabalho, só vim porque preciso me distrair um pouco. — Falei, meio sem jeito. Deixei o livro de volta na mesa e me encostei nela.
— Problemas com Altaïr? — Deduziu.
— Bem... Mais ou menos... É que ele ás vezes é muito calado e...
— Erika? Pode me ouvir? — Vinny me interrompeu, aparecendo em holograma na minha frente. Malik naturalmente se assustou, deixando os pergaminhos caírem no chão, olhando para Vinny como se tivesse visto um fantasma, parado, totalmente estático. — Olha só! Você tem companhia. — Acenou, rindo todo animado. — Oi! — Sem obter resposta, foi parando de rir aos poucos. — Ih... Acho que eu assustei ele.
— Você acha, é? Isso lá é jeito de aparecer? Até eu me assusto ás vezes. — Cruzei os braços, olhando feio para ele.
— E como queria que eu aparecesse? — Perguntou Vinny, descontente.
— Sei lá... Que tal um aviso antes? Como um toque de celular, um alarme ou algo do tipo sendo emitido pelo meu relógio quando você ou outro alguém o rastrear para entrar em contato. — Sugeri, sem pensar muito.
— É... Acho que posso trabalhar nisso. — Respondeu de uma forma mais gentil, digitando alguma coisa no teclado.
— Ótimo! — Respirei fundo e me abaixei para recolher os pergaminhos que Malik havia derrubado, os deixei sobre a mesa e voltei para perto dele, tocando seu ombro. — Esse é o Vinny, um dos membros da minha equipe e também a mente brilhante por trás da viagem no tempo. — Dei uma pausa. — É... Nem tão brilhante assim. — Brinquei, rindo baixo pra descontrair. Por sorte, Vinny não falava árabe e portanto não entendeu o que eu havia dito.
— Segurança e paz, irmão! — Cumprimentou Malik, educadamente. Ainda parecia um pouco receoso e analisava o que via de outros ângulos, dando alguns passos e virando a cabeça.
— São imagens projetadas... Como a Maçã faz, mas essas não são ilusões e sim reais. É uma transmissão direta do tempo de onde venho. — Tentei explicar, me aproximando e fazendo minha mão atravessar o holograma. — Vê?
— Incrível! — Respondeu Malik, sorrindo, visivelmente admirado como qualquer um que não conhecesse tal tecnologia ficaria.
— Vinny, esse é Malik. E se você conhece a história da irmandade ou leu a database vai saber quem ele é. — Voltei a tocar o ombro dele, sorrindo ao apresentá-lo.
— Você realmente acha que ele lê alguma coisa? — Questionou Felipe, rindo. Pela voz, estava um pouco longe.
— Olha, pra sua informação eu sei muito bem quem ele...
— Quietos vocês dois! — Anne apareceu e interrompeu Vinny bem na hora em que o mesmo ia responder Felipe. — Ótimo! Você está aí. Preciso dos relatórios da missão.
— Ah... Olá, flor do deserto! — Cumprimentou Malik, admirado, falando todo cheio de charme e esboçando um largo sorriso. Seus olhos até brilhavam, eu nunca o tinha visto assim antes. Aquilo foi tão aleatório e inesperado que eu não tive como não rir.
— Essa daí tá mais pra cobra do deserto. — Comentei baixinho, só pra ele ouvir, ainda rindo.
— O que? — Anne se mostrou confusa, obviamente sem entender nada. Porém, mantinha a pose. — O que ele disse? — Perguntou, toda séria e imponente.
— Ah, nem queira saber... — Outra vez falei baixo, esperando que Anne não ouvisse.
— De acordo com o tradutor simultâneo criado pelo nosso “gênio”, parece que alguém aí gostou de você, Anne. Tá podendo hein, gata!? — Disse Felipe, ainda longe, rindo também. — Mas eu não confiaria 100%, sabe como são essas “invenções” falhas dele...
— Não me faça...
— Calados! — Outra vez, Anne interrompeu Vinny antes que ele pudesse se defender. Por mais que tentasse esconder, estava claramente sem jeito com o que acabara de ouvir, havia até perdido toda sua pose de chefe mandona. A reação dela só me fez rir ainda mais, foi difícil tentar me conter, porém precisei, antes que eu me desse mal por causa disso. — Erika, quando puder, me envie os relatórios da missão. Precisamos saber do seu progresso o quanto antes. E caso alguma interferência ocorra outra vez, nos informe de imediato. Até breve! — Interrompeu a comunicação, tão rápido que sequer tive tempo de me despedir.
— Então tá, né... — Falei para mim mesma.
— Quem é a mulher? — Perguntou Malik, todo interessado. — Suponho que ela faça parte da sua equipe. — Deduziu.
— Sim. O nome dela é Anne e ela é a mestre assassina no comando da equipe. — Voltei a pegar o livro, folheando as páginas e lendo meio por cima enquanto falava com ele.
— Uma mestre? — Se mostrou surpreso e ainda mais admirado. É, aquilo não era nada comum para a época dele, mal haviam mulheres na irmandade levantina, muito menos com uma posição tão alta no ranking como a de mestre.
— Sim, e uma das mais habilidosas da minha época. — Ainda folheava o livro, procurando por algo interessante, mas eram apenas registros de missões, então deixei o livro na mesa uma segunda vez.
— Bela, habilidosa e de personalidade forte... Bem... Pelo menos é o que imagino. Ela aparenta ser bem rígida, embora eu não tenha compreendido nada do que disse. — Pelo modo como falava, analisando e cogitando possibilidades e também pelo tom de voz dele, o interesse era cada vez mais nítido.
— E é! Anne bota medo até mesmo nos assassinos mais velhos e experientes. — Ri baixinho, lembrando das várias cenas que já tinha presenciado nesses anos junto à equipe.
— É isso o que chamo de mulher perfeita! — Voltou a sorrir e demonstrar toda sua admiração como quando a vira minutos atrás. — Fale-me mais sobre ela. — Se encostou na estante mais próxima, disperso, parecia estar em outro mundo. É, pelo jeito ele estava mesmo apaixonado.
— Então, a Anne é... (...)
Depois de passar algumas horas na companhia de Malik, decidi voltar ao meu quarto e descansar um pouco, imaginando que, caso meu treinamento fosse continuar, precisaria de bastante energia no dia seguinte. Foi difícil dormir cedo estando tão ansiosa, mas depois de alguns minutos virando na cama o cansaço acabou me vencendo.
Pela manhã, fui ao encontro de Altaïr no jardim atrás do castelo. O portão estava aberto, mas ao sair não o encontrei lá. Fiquei então admirando a beleza do lugar enquanto o esperava, me sentindo mais calma e à vontade ali em meio à natureza. Quando o assassino finalmente apareceu, caminhando devagar, fui ao encontro dele, tentando esconder minha ansiedade e curiosidade da melhor forma que conseguia.
— Segurança e paz, mentor. — O cumprimentei educadamente, fazendo uma leve reverência. Procurei agir de uma maneira mais formal e respeitosa, e para mostrar que eu estava mesmo disposta a seguir as tradições da irmandade vestia o manto correspondente a minha posição no rank, por mais humilhante que fosse. Altaïr me olhou de cima a baixo e ficou calado por alguns instantes, parecia pensativo.
— Vejo que está mesmo disposta a mudar seu comportamento e aprecio sua atitude. — Quebrou o silencio, falando de um jeito mais gentil. — E embora seja gratificante ver você seguindo as nossas tradições, quero ressaltar que não exijo que abandone completamente as suas. Como eu já disse, podemos aprender muito um com o outro. — Complementou, caminhando até o centro do terraço de mármore. — Primeiramente, vamos trabalhar sua postura. — Disse em um tom de voz mais sério ao parar do lado direito, olhando para mim, obviamente esperando que o seguisse e tomasse meu lugar, o que fiz rapidamente, demonstrando claramente minha felicidade em saber que meu treinamento iria continuar.
— Certo. — Respondi, com um belo sorriso que não consegui esconder.
— A base de uma boa defesa, e também de um bom ataque, é uma postura firme e segura, porém que também lhe permita movimentar-se livremente de forma rápida e eficaz. — Demonstrou, ficando em posição defensiva, com os braços cruzados em uma espécie de “x” um pouco distanciados um do outro e mãos mais ou menos na altura do rosto, pernas não muito afastadas e levemente flexionadas. — Agora, tente me atacar.
— Eu? — Perguntei, meio sem jeito.
— Sim. — Confirmou, no mesmo tom sério.
— Como? — Voltei a perguntar, um pouco atrapalhada enquanto coçava a orelha.
— Da forma que desejar. — Respondeu, visivelmente não muito confortável com aquela breve interrupção desnecessária no ritmo.
— Ok, né... — Movi os ombros, como quem diz “tanto faz”. Fiquei alguns segundos pensando, mas acabei chegando à conclusão de que, independente da forma que eu tentasse atacá-lo, sendo um mestre treinado, ele provavelmente iria bloquear. Antes que o assassino ficasse ainda mais incomodado com a minha demora do que já parecia estar, desisti de tentar impressioná-lo e dei logo um soco de direita qualquer, querendo acertá-lo no rosto. Como eu esperava, Altaïr defendeu o golpe sem a mínima dificuldade e sem nem sair do lugar, simplesmente erguendo um pouco os braços para proteger o rosto e fazendo com que eu atingisse a parte de metal de sua braçadeira, o que doeu... E muito, não consegui esconder, mordi o lábio inferior e cerrei os olhos, agitando a mão feito uma idiota. Irritada com aquilo, tentei dar outro soco nele, agora com a mão esquerda, e ele se esquivou para o lado oposto, apenas girando o quadril e se abaixando um pouco, mantendo a postura de seus pés firme e imóvel assim como antes. Fiz mais uma última tentativa com a mesma mão, e o assassino voltou a se esquivar, porém agora dando um longo passo para trás e se distanciando antes que eu pudesse sequer chegar próximo dele, demonstrando a rapidez com a qual podia se movimentar. — Tá, você venceu! — Cruzei os braços, encarando ele, tentando me distrair e não pensar na minha mão que ainda estava doendo.
— Vê? São movimentos básicos que em um combate farão com que você tenha uma defesa solida e ganhe espaço para um possível ataque. — Afirmou todo confiante ao desfazer sua posição defensiva e se aproximar novamente. — Deixe-me ver sua postura. — Parou ao meu lado enquanto eu tentava reproduzir a tal postura e olhou para mim de cima a baixo, analisando calado. — Braços um pouco mais próximos e para cima, assim. — Posicionou meus braços da maneira correta, com um toque um pouco mais demorado do que eu esperava, nossos olhares se cruzaram por um certo tempo e eu sorri sem nem perceber. — Concentre-se aqui! — Me repreendeu, disfarçando do jeito dele. Ficou de frente para mim, na mesma posição. — Durante os exercícios, inicialmente faremos os movimentos devagar e em seguida aumentaremos a velocidade gradualmente conforme o seu progresso, então fique atenta.
— Está bem. — Respondi, com uma expressão e voz mais séria.
— Proteja seu rosto, bloqueando o golpe da maneira como demonstrei. — Terminou sua explicação e logo desferiu um soco com a mão direita, bem suave, devagar o bastante para que até mesmo uma lerda como eu conseguisse bloquear sem problema. Esperou que eu voltasse até a postura inicial e prosseguiu desferindo mais um, com a outra mão e levemente mais rápido, mais uma vez, consegui defender tranquilamente. A velocidade foi aumentando e consequentemente a dificuldade, até o momento em que eu não consegui mais defender e levei um belo soco na cara, forte o suficiente pra me desnortear e fazer com que eu cambaleasse e quase caísse no chão. Cobrindo a parte do rosto onde havia recebido o golpe com uma das mãos, encarei o assassino, um pouco irritada com aquela situação vergonhosa. A dor era forte, passei a mão no canto do meu lábio inferior e ao olhar para ela vi um pouco de sangue. O silêncio tomou conta do lugar, Altaïr olhava para mim sem expressão e assim permaneceu, mesmo depois de eu voltar a encará-lo, na certa esperando que eu ficasse em posição outra vez.
— Não vai mesmo se desculpar? — Questionei, era o mínimo que eu esperava de alguém como ele.
— E uma situação normal certamente. — Deu uma pausa, saindo da posição defensiva, e prosseguiu: — Porém estamos em um treinamento de combate, e se veio até aqui esperando algo simples e fácil, está perdendo o seu tempo e fazendo com que eu também perca o meu. Nossos inimigos não serão misericordiosos, como você mesma presenciou em Acre, eles tentarão nos matar na primeira oportunidade, então diga-me: Por que eu deveria enganá-la sendo? Como um mestre que se dedica a ensinar-lhe tudo o que sei, obviamente espero que se dedique igualmente a aprender. — Falou tão sério que me deixou sem palavras, e sem saber onde enfiar a cara também. O silêncio voltou a reinar por alguns segundos, até que eu admitisse:
— É, você tem razão. — Respondi baixinho, limpando a mão suja de sangue na calça.
— Se ainda não é capaz de fazer algo que almeja, tente outra vez, trabalhe duro, dê o melhor de si e com o tempo irá superar todos os seus obstáculos. — Complementou, de uma forma levemente mais gentil. Talvez fosse o jeito dele de dizer que acreditava em mim. Voltei à posição ao vê-lo fazer o mesmo, aguardando uma nova instrução. — Vamos tentar a segunda forma de defesa. — Assim que ouvi apenas fiz um sinal positivo com a cabeça. — Agora você deve se esquivar do golpe. — Outra vez, começou a desferir os socos, devagar, enquanto eu desviava tentando reproduzir a forma como o assassino havia feito, aparentemente sem muito sucesso. — Não. — Parou logo no início, depois de apenas alguns socos. — Não deve mover seus pés a menos que seu inimigo avance sobre você. Mantenha a postura fixa. — Explicou, segurando meu punho e movendo-o contra ele para simular o golpe, demonstrando logo em seguida como eu deveria me esquivar do mesmo jeito que fez antes, somente girando o quadril e se abaixando de leve, com os pés imóveis. — Outra vez! — Ordenou, soltando meu punho devagar. Procurei me concentrar em não me mover e manter meus pés fixos no chão, não foi tão fácil como imaginei, mas até que estava conseguindo... Ou pelo menos achava que estava. Em meio aos socos, Altaïr aproximou-se ainda mais de mim e simplesmente tocou meu peito, empurrando bem de leve, mas o bastante pra me fazer perder o equilíbrio e precisar me apoiar nele para não cair. Agarrada a ele com minhas mãos segurando seu manto na altura do peito desesperadamente, fazendo o assassino se inclinar para trás como se eu fosse derrubar o coitado, sorri para disfarçar o nervosismo, totalmente sem jeito. — Como eu suspeitava, você não tem equilíbrio. Precisamos trabalhar nisso. — Constatou o óbvio, mantendo a seriedade enquanto me ajudava a me recompor e voltar a ficar em pé. Teria ele ficado sem jeito também? Se sim, disfarçou muito bem. — Espere aqui. — Retirou-se de volta para o castelo e me sentei no chão de mármore para descansar um pouco, voltou alguns minutos depois, trazendo consigo alguns livros, o que me deixou um pouco confusa.
— Então... — Me levantei, e curiosa, logo perguntei: — Pra que os livros? Acabou o treinamento e vamos procurar alguma informação?
— Em guarda! — Ordenou, e eu, mesmo confusa, obedeci, voltando à postura defensiva. O assassino se aproximou e colocou os três livros empilhados sobre a minha cabeça. Agora aquilo fazia sentido, era obviamente um teste de equilíbrio e me fez lembrar das longas e entediantes aulas de boas maneiras às quais fui obrigada a me submeter durante a minha infância e adolescência, cujas regras e frescuras exageradas eu fiz questão de abandonar. — Esquive sem derrubar os livros. — Explicou, como se fosse assim tão simples.
— Mas isso é impossível! — Rebati, descontente, tentando me manter totalmente imóvel para não deixá-los cair logo de cara.
— O que você chama de “impossível” eu chamo de “um bom desafio”. Lembra-se do que falei sobre superar seus obstáculos? É para isto que estamos aqui. — Respondeu, todo confiante.
— Fácil falar, afinal você é um mestre. — Falei baixinho, no meu idioma propositalmente.
— O que disse? — Questionou.
— Nada não. — Disfarcei, rindo.
— Concentre-se! — Me repreendeu mais uma vez. Ficou novamente na posição de combate e voltou a golpear com os seus socos, bem devagar, e mesmo assim, na minha primeira tentativa me atrapalhei toda, derrubando os livros antes mesmo de começar a mover o quadril e me abaixar para tentar esquivar. — Outra vez! — Ordenou. E foi assim durante as horas seguintes: Repetição e repetição daquele mesmo exercício, livros “voando pelos ares” e caindo no chão, inúmeras tentativas falhas, uma verdadeira humilhação. Eu já não aguentava mais, sentia vontade de jogar aqueles livros bem longe e fugir dali... Foram poucas as vezes em que me senti tão inútil, e tentar imaginar o que o meu amado assassino estaria pensando de mim ao ver tantas falhas assim só fez as coisas piorarem. — Bem... Preciso me retirar. Tenho alguns afazeres. — Disse ao sair de sua postura, educadamente. Por mais que Altaïr fosse paciente e estivesse mesmo disposto a me treinar, como mentor da irmandade precisava cumprir com suas obrigações diárias. Estávamos lá desde a manhã e o sol escaldante indicava que já provavelmente umas duas horas da tarde, havíamos treinado por um bom tempo, sequer tínhamos almoçado. — Se assim desejar, pode continuar a praticar sozinha. — Sugeriu, enquanto eu recolhia os livros do chão.
— Está bem. Nos vemos então... — Disse eu, sorrindo meio atrapalhada.
— Segurança e paz, irmã. — Despediu-se como era o costume dentre os assassinos levantinos e como sempre fazia. Exausta, me joguei na primeira sombra do gramado que vi assim que ele se retirou, ficando ali por vários minutos até que estivesse mais disposta para voltar ao meu quarto.
De volta aos meus aposentos, tomei um belo banho relaxante, e depois de vestir uma túnica confortável e comer alguma coisa me joguei na cama pra descansar um pouco, e foi quando lembrei que deveria enviar os relatórios para Anne no presente... O problema era que eu não tinha como enviar nada além das minhas coordenadas pelo meu Apple Watch modificado e diretamente conectado ao nosso Animus, de forma que pudessem me rastrear e entrar em contato comigo. E foi exatamente o que fiz, esperando que Anne, ou até mesmo Vinny, se comunicasse comigo para que eu pudesse explicar a situação. Porém, para a minha surpresa, quem apareceu em holograma foi Dexter, visivelmente descontente.
— Onde está Anne? — Perguntei, indo direto ao ponto e tentando evitar falar mais do que o que precisava.
— Em missão. — Respondeu da mesma forma, curto e grosso.
— Vinny? — Insisti.
— Fazendo manutenção em alguns equipamentos. — Puxou uma cadeira e se sentou mais perto. Respirou fundo, olhando para mim com uma expressão séria. — Erika, precisamos conversar. — Fez o tipo de afirmação que deixa qualquer um assustado, pensando no que poderia ter feito de errado. E pelo tom da voz dele, parecia mesmo ser coisa séria, o que me deixou ainda mais apreensiva. Aparentemente o que ele havia dito sobre Anne e Vinny era verdade, não havia ninguém ali, nem mesmo Felipe, e antes que eu pudesse perguntar do mesmo fui pega de surpresa com essa atitude.
— Dexter, não é o melhor momento para discutirmos nosso relacionamento. Eu estou no meio de uma...
— E eu estou preocupado com você. — Me interrompeu, olhando diretamente nos meus olhos e falando de uma forma que me transmitia sinceridade. Até fiquei calada e deixei que prosseguisse: — Você não vê o quanto isso é perigoso? Alguém está claramente tentando te matar. Por que insiste nisso? Você não precisa estar nessa missão, não precisa se arriscar dessa forma. — Ao falar, estava com a voz um pouco embargada e seu olhar era expressivamente triste, mesmo que ele tentasse agir de forma séria, seus sentimentos eram claros. — Erika, por favor... Volte! Volte para mim! — Suplicou, de um jeito que faria qualquer um que ouvisse ficar comovido, e eu, que o conhecia desde a infância sabia que aquelas palavras eram verdadeiras. — Eu te amo! Eu te amo perdidamente! Eu estou aqui! E só estou aqui por você, somente por você. — Declarou, sem cerimônia, demonstrando clara e abertamente como sempre fazia. — E eu... — A voz dele falhou. Ele deu uma pausa, mas logo prosseguiu: — E eu não sei o que faria se te perdesse. — Colocou a mão sobre a testa e abaixou a cabeça. Sem saber o que dizer, demorei para conseguir assimilar o que havia acabado de ouvir e pensar em uma resposta, vê-lo ali daquela forma partiu meu coração. Cheguei mesmo a pensar em abandonar tudo e voltar para ele, mas não, eu não podia, tanto pelo meu dever para com a missão quanto por estar totalmente dividida entre Dexter e Altaïr. Respirei fundo e finalmente tomei coragem:
— Dexter, eu sinto muito, mas... Eu não posso voltar. Eu quando aceitei essa missão aceitei também todos os riscos. Essa é a minha chance, talvez a minha única chance, de fazer algo grande e realmente importante. — Tentei falar da forma mais calma e segura que conseguia, o que foi bem difícil considerando o estado em que ele havia me deixado ao falar todas aquelas coisas tão de repente, eu me sentia até culpada por dizer que não voltaria, mesmo que tivesse os motivos certos. — O que aconteceu foram apenas interferências, falhas comuns no sistema e que não voltaram a acontecer. — Era o que eu acreditava, ou pelo menos o que eu queria acreditar. Aquilo que havia acontecido com o sistema e a possibilidade de acontecer novamente, me colocando em perigo fatal, ainda me assustava. — Não precisa se preocupar dessa forma. Eu estou bem. — Complementei, com um leve sorriso, querendo acalmá-lo.
— Erika, o que eu preciso fazer para te convencer que o perigo existe e é real? — Insistiu, voltando a olhar em meus olhos fixamente.
— Nada. Eu estou convencida... Convencida a ficar. — Rebati, segura da minha decisão.
— Por que insiste tanto nisso, hein? O que essa missão tem de tão importante? — Pelo visto ele não ia se deixar ser vencido, era tão insistente quanto eu.
— Eu já disse o porque: Essa é a minha chance. — Enfatizei, fazendo gestos expressivos com as mãos. — Você sabe muito bem o quanto eu quero fazer mais pela nossa causa e há quanto tempo quero.
— É só isso mesmo? Ás vezes parece que tem algo a mais. — Se aproximou ainda mais, me olhando bem de perto como se quisesse me analisar e me julgar.
— E o que mais seria? — Precisei ter coragem para perguntar, conhecendo Dexter, eu sabia que certamente ele já suspeitava de alguma coisa, e talvez uma boa atuação e ainda mais confiança, mesmo que falsa, o fizesse desistir de qualquer ideia que pudesse ter a respeito, me fazendo ganhar tempo até que eu finalmente pudesse decidir que rumo daria para minha vida amorosa. O silêncio ficou no ar, enquanto olhávamos um nos olhos do outro, aqueles breves segundos pareceram anos.
— Eu não sei. — Respondeu, um pouco relutante, como se não quisesse dizer o que aparentemente sabia. Talvez estivesse lutando contra si mesmo para não dizer, talvez não quisesse admitir para si mesmo. O orgulho dele era tão grande quanto sua coragem, talvez maior. Deu uma pausa, olhou para os lados e logo voltou a me encarar, analisando cara reação minha. — E quanto a mim, Erika? E quanto a nós? — Fez a mesma pergunta que havia feito antes, no dia em que voltou para a minha vida, e mais uma vez eu não sabia como respondê-la.
— Eu preciso de um tempo, Dexter. Já disse. — Respondi, não muito contente, mas fazendo questão de lembrá-lo. — Não é mesmo a melhor hora para falarmos disso. Conversaremos sobre o nosso relacionamento quando eu cumprir minha missão aqui e estivermos frente a frente, está bem? — Procurei manter a calma e agir de forma séria, olhando para ele diretamente, sem medo. — Tem muita coisa acontecendo e...
— Como o que por exemplo? Me diga. — Me interrompeu. — Sabe que pode se abrir totalmente comigo quando desejar, afinal antes de tudo, somos amigos... Se lembra? — No início soou um pouco rude, mas ao mencionar nossa longa amizade que vinha desde a infância, passou a falar com uma voz mais suave, parecendo mais compreensivo.
— Eu... — Dei uma pausa, ainda pensando no que dizer. — Eu tenho estado muito ocupada, é só isso. Mal tenho tempo para pensar direito. — Disfarcei, tentando aproveitar para mudar de assunto. — Aliás, é sobre isso mesmo que preciso falar com Anne. Ela me pediu os relatórios da missão, mas eu não tenho como enviá-los daqui.
— Entendo... Por que não resume pra mim então? — Perguntou, se mostrando mais interessado do que deveria. — Posso registrar e passar para ela quando voltar.
— Não sei se deveria. Anne pode se zangar. São informações bem restritas, apenas para a equipe envolvida nessa missão. — Tentei desconversar.
— E eu não faço parte dessa equipe agora? — Questionou, imediatamente, me deixando sem resposta. — Anne não irá se importar, afinal sendo um mestre, na ausência dela sou eu quem automaticamente fica no comando. — Prosseguiu ao me ver em silêncio, praticamente jogando sua posição no ranking na minha cara em uma atitude que me deu um pouco de nojo. — Então o que quer que esteja acontecendo, pode dizer sem nenhum problema. — Complementou, sorrindo, todo seguro de si.
— Apenas informe a ela que finalmente estou fazendo progresso na missão. — Cansada de tentar fazer com que Dexter desistisse, resolvi resumir tudo o máximo possível: — Altaïr decidiu me treinar pessoalmente, acabo de sair de uma sessão de exercícios de defesa que durou várias horas. — Tentei não demonstrar como eu estava feliz sendo treinada por um mentor tão incrível e lendário, o que foi bem difícil. — E ele já demonstra que confia plenamente em mim, permitindo inclusive que eu não apenas o aconselhe a respeito da Maçã, como também possa usá-la. Tive minha primeira experiência dias atrás. — Mais difícil ainda foi não demonstrar como eu me sentia única e especial depois daquela experiência, considerando a forma restrita e exageradamente respeitosa como Altaïr tratava aquele artefato e, é claro, considerando também o que eu sentia pelo assassino. Acho que mesmo tentando falar e agir de um jeito mais sério, acabei deixando transparecer um pouco, sorrindo sem nem notar. Dexter permaneceu calado depois de escutar atentamente, digitando o meu relato por pura obrigação. Pela cara dele, estava bem claro que não havia gostado nem um pouco do que tinha ouvido, eu já o tinha visto estourar de raiva por muito menos várias vezes e essa mesma raiva estava estampada nos olhos dele, não tinha como esconder, mesmo que tentasse.
— A questão é: Você confia nele? — Perguntou, quebrando o silêncio e me pegando de surpresa, agora a raiva também era nítida na voz dele. Mais uma vez parecia querer me analisar, tantas perguntas e indiretas já estavam me deixando incomodada.
— Mas é claro que confio! Quero dizer... Ele é Altaïr, nosso mentor. — Respondi do jeito mais óbvio possível, como imaginei que Anne ou qualquer outro membro da irmandade também responderia.
— E é exatamente por ele ser quem é que não deveria confiar assim tão facilmente. Você realmente acredita que Altaïr deixaria outro alguém entrar em contato com a Maçã? Ou pior, usá-la? — Questionou, de uma forma bem cética e sagaz.
— Acha que eu estou mentindo? — Rebati, o encarando feio e tentando me controlar pra não ficar nervosa. — Não foi nada fácil conquistar a confiança dele, mesmo depois de tê-lo salvado da morte. — Constatei, me lembrando de tudo o que havia feito para provar que estava mesmo ao lado do assassino.
— Você certamente deve conhecer a história dele melhor do que eu e, mesmo que não queira admitir, sabe muito bem o quanto essa atitude é estranha. — Insistiu, confiante no seu julgamento. — Me diga, em algum momento da vida dele, existe pelo menos um registro de que Altaïr tenha permitido que outra pessoa tivesse posse ou fizesse uso da Maçã? — Questionou, mais uma vez sendo extremamente cético. Pensei por alguns segundos e me dei conta de que de fato não havia nenhuma informação do tipo, sem ter o que dizer preferi permanecer calada. — Existe? — Insistiu, questionando uma segunda vez, ainda mais seguro, claramente querendo que eu admitisse.
— Não. — Falei baixinho, hesitante.
— Nem mesmo Malik que era o segundo no comando e certamente o homem em quem ele mais confiava, nem mesmo Maria com quem ele se casou e viveu ao lado por mais de trinta anos. — Argumentou, e por mais que aparentemente fosse verdade, doeu ouvir aquilo, especialmente a parte sobre a minha rival templária. — Então o que te faz pensar que Altaïr confiaria em uma completa estranha a ponto de deixar que ela tenha contato com um artefato extremamente poderoso como esse? — Voltou a questionar, me rebaixando de uma forma que fez com que eu me sentisse ainda pior, mesmo acreditando e dizendo para mim mesma que a minha relação de confiança com o assassino era totalmente diferente... Mesmo eu tendo a consciência limpa de quem dizia a verdade. Só de pensar na possibilidade de ser uma “completa estranha” para o homem que eu tanto amava, sentia um enorme aperto no peito. — Se isso realmente aconteceu, ele com toda certeza tem um grande interesse em alguma coisa... Talvez no conhecimento e na tecnologia do nosso tempo. — Complementou, tentando deduzir alguma coisa.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— E nós também não temos o nosso interesse nessa missão? — Rebati mais uma vez, ainda fazendo um esforço para me controlar.
— É diferente. Nós o conhecemos, ou pelo menos achamos que o conhecemos e sabemos, a partir dos registros que temos, do que Altaïr é capaz. Já ele não pode dizer o mesmo... E é por isso que estou te alertando, Erika. — Contra-argumentou, voltando a olhar fundo nos meus olhos e prosseguiu, com uma pergunta que quase fez minha mente explodir, sendo invadida tão de repente por mil e uma paranoias: — Já pensou na possibilidade dele ter usado a Maçã em você?
— M-mas que tipo de pergunta é essa? Isso é loucura! E-ele jamais... — Questionei de imediato, com a voz tremula e falha, tomada pelo nervosismo e consequentemente pelo medo, tentando não imaginar que aquilo realmente pudesse acontecer, sem nenhum sucesso, tal ideia louca já estava presa na minha mente. — Ele jamais faria isso! — Reafirmei, como se quisesse e precisasse reforçar para mim mesma. Não, o Altaïr que eu conhecia e admirava nunca seria capaz de fazer algo tão baixo e desumano como tomar o controle da mente de outra pessoa e impor sua própria vontade sobre ela. Ou será que faria? Não, esse havia sido um dos principais motivos pelo qual ele lutou contra seu próprio mestre e o derrotou, livrando a irmandade das mentiras e do controle do perverso Al Mualim. Mas... Talvez... E se... ? Quanto mais eu pensava mais confusa e assustada eu ficava.
— Tem certeza? Você realmente acredita que ele não faria em uma situação de risco ou caso se sentisse ameaçado? O que pode ser mais ameaçador do que uma desconhecida que sabe mais sobre você do que você mesmo? Seu passado, seu presente e, mais importante, seu futuro. Já pensou em como ele, que se julga tão forte e inteligente, deve se sentir? — Por mais insana que fosse essa teoria, tinha sentido... Sentido até demais. E só de pensar eu ficava aterrorizada, mesmo que lutasse contra mim mesma para admitir que não, eu tinha sim medo do assassino e do imenso poder que o mesmo tinha em suas mãos com aquele artefato. — Altaïr já fez isso antes e fará de novo em alguns anos, ou já se esqueceu? Basta acessar as memórias dele ou os nossos registros, verá por si mesma. — Fez questão de me lembrar o que de fato eu havia esquecido: Em Chipre, Altaïr havia usado a Maçã contra uma multidão de civis revoltados que queriam matá-lo, acreditando que ele fosse o responsável pela morte de Alexander, membro influente da resistência. Anos depois, em Masyaf, o assassino usou o artefato contra um dos aliados de Abbas, Swami, fazendo-o se auto-mutilar após revelar que matou o filho mais jovem de Altaïr, Sef, e dito que antes de fazê-lo o enganara, afirmando que o próprio pai tinha ordenado sua morte. Lembrar daquilo me deixou ainda mais amedrontada e fez com que eu realmente passasse a cogitar tal possibilidade, mesmo que contra minha vontade, eu ainda queria acreditar que o meu amado assassino não era capaz de fazer aquilo.
— Se bem me lembro, Altaïr teve seus motivos, em ambas as ocasiões. — Tentei argumentar, um pouco insegura. — Ele não faria isso sem um bom motivo.
— E quer motivo melhor do que os que já te dei? Quem fez uma vez é capaz de fazer outras... E ele fez duas. — Em contrapartida, Dexter se mostrava cada vez mais confiante. — Altaïr é um homem perigoso, Erika. Não o subestime. — Alertou, apontando o dedo para mim e mais uma vez voltando a olhar no fundo dos meus olhos.
— Perigoso para os inimigos dele, coisa que não sou. — Rebati, em um último argumento. — Agora já chega! Por favor! Preciso descansar, amanhã tenho outra sessão de treinamento e sei que não será fácil. — Cansada de discutir, resolvi parar e tentar tirar tais teorias loucas da minha mente antes que me deixassem ainda pior.
— Só peço que reflita a respeito. Estou realmente preocupado. — Insistiu.
— Está bem. — Respondi, hesitante. — Informe a Anne sobre o progresso na missão. Volto a entrar em contato quando tiver algum update. — Queria me livrar o quanto antes dele e daquela conversa.
— Volte logo, meu amor! E não se esqueça que estarei pensando em você todos os dias. — Sorriu, apaixonadamente, usando de uma voz suave e gentil que evidenciava ainda mais seu carinho.
— Até mais... Amor. — Me senti um pouco estranha ao chamá-lo de “amor”, tanto por não o chamar assim há anos quanto por estar confusa se continuaríamos nosso relacionamento ou não, eu ainda tinha sentimentos por ele, porém não sabia o que fazer. Dexter claramente me amava e queria o meu bem, mas a forma como havia acusado Altaïr era desesperada, para não dizer insana... Mas o pior disso era que aquela loucura toda tinha fundamento. E Altaïr... Eu o amava, mas não sabia se esse amor era ou não correspondido, e agora mesmo não querendo eu estava com medo dele.
Querendo me acalmar e livrar minha mente de tantas perturbações, resolvi ao invés de descansar ir dar uma volta por Masyaf e fazer algumas fotos e vídeos curtos, afinal ainda era cedo demais para dormir e todo material era bem vindo para os registros da missão, além disso, fotografar e filmar eram hobbies meus e me faria bem ocupar a minha cabeça em um momento como aquele. Os outros assassinos me olhavam estranho enquanto eu registrava as imagens, provavelmente se perguntando o que era aquela coisa estranha em minhas mãos e o que eu estaria fazendo com ela. Eu sabia que não deveria exibir tecnologia do futuro dessa forma e dos riscos que corria ao fazê-lo, se Anne soubesse provavelmente iria me punir, mas naquele momento sequer me importei com esse “detalhe”.
Quando voltei para o quarto já estava anoitecendo, deixei a câmera sobre a mesa e estava tão cansada que fui direto pra cama. As horas passavam e eu só virava de um lado para o outro sem conseguir dormir... Eram tantas paranoias na minha mente, como se já não bastasse ser perturbada por aquelas vozes estranhas e assustadoras.
Irritada com aquela situação desagradável, decidi pegar alguns livros e voltar ao jardim para praticar a melhora do meu equilíbrio. Porém, como não tinha com quem praticar o movimento de esquiva, optei por subir em uma espécie de pedestal quadrado que havia no andar abaixo do terraço de mármore sob a fonte onde os canais desaguavam e colocar os livros sobre a minha cabeça, ficando ali parada com os braços abertos sentindo o vento frio da madrugada tocar meu rosto enquanto tentava não cair... Só tentava mesmo, pois caí, e muito, várias e várias vezes, colecionando arranhões pelo corpo e me molhando toda, deixando os livros que nem eram meus ensopados também. Mas eu não desisti, continuei levantando, subindo e voltando à posição, independente do cansaço ou do frio, queria e precisava melhorar meu desempenho no treinamento, era essencial progredir o quanto antes nos exercícios e aprender tudo o mais rápido que eu pudesse, afinal não sabia quando seria a próxima ocasião que estaria em ação e não queria mais ser uma assassina que... Bem, não era uma assassina de verdade.
Passei toda a madrugada ali e quando me dei conta já era de manhã, eu estava caída no chão, estirada sobre a água rasa da fonte, completamente exausta e com os olhos fechando involuntariamente, tanto pelo sono quanto para evitar os primeiros raios de sol. Vi Altaïr se aproximar e olhar para mim com aquela expressão séria natural dele, provavelmente se questionando sobre o que havia acontecido para eu estar em uma situação tão precária. Por um instante morri de vergonha por dentro, imaginando que estivesse parecendo um zumbi... E provavelmente estava mesmo.
— Erika? — Chamou por mim, ainda me olhando sem sequer se mover, enquanto eu permanecia calada apenas ouvindo a voz dele, estava em outro mundo, alheia a quase tudo. — Erika, está me ouvindo? — Insistiu quando não obteve resposta, chegando mais perto. Meu corpo tremia um pouco por conta do frio que ainda fazia e eu reunia forças para me levantar. — Você está ferida? — Se mostrou preocupado ao abaixar rapidamente e estender a mão. — Venha! Deixe-me ajudá-la. — Altaïr, que era sempre tão calado e não fazia muito contato físico, agora parecia até outra pessoa, prontamente disposto a me tirar dali o quanto antes. Segurou firme minhas mãos para me ajudar a levantar, e assim que as tocou lembrei de tudo o que Dexter havia dito como se um filme passasse em minha cabeça, imediatamente, por reflexo, me afastei dele, visivelmente assustada, me arrastando pelo chão molhado até finalmente conseguir levantar. — Mas o que é isso? — Questionou o assassino em voz baixa ao ver minha reação, pela cara de espanto ele com toda certeza não esperava aquilo. Confuso, se aproximou e tocou meu ombro devagar. — Erika, sou eu. Não tenha medo. — Afirmou, usando de uma voz mais gentil e olhando em meus olhos. — É melhor irmos para dentro. Acompanhe-me. — Retirou aquela espécie de sobretudo preto que cobria seu manto de mentor e o colocou sobre mim, logo em seguida passou seu braço direito em volta dos meus ombros e deixou que eu me apoiasse nele enquanto me conduzia para dentro do castelo.
Fomos até a sala dele onde o mesmo me deixou sentada em sua enorme poltrona, serviu um copo com um chá quente e ficou ao meu lado me observando, cuidando de mim e esperando até que eu melhorasse, mesmo que não dissesse nada. Era estranho ver ele assim tão gentil e prestativo, eu diria até mesmo... Carinhoso? Não, Altaïr não tinha porque ser carinhoso comigo, nós dois não éramos nada além de irmãos de credo, nada além de mestre e discípula, e fora disso, ele já tinha uma mulher ao lado dele, a quem certamente amava muito. Fiquei ali por vários minutos, tomando o chá em pequenos goles, refletindo sobre tudo o que atordoava minha mente e tentando encontrar coragem para encarar sem medo aquele homem que estava ao meu lado.
— Sinto muito pelos seus livros. — Lamentei, quando finalmente me senti um pouco melhor para falar, porém o fiz em voz baixa, sem jeito.
— Não se preocupe, são registros antigos que já foram copiados e atualizados há muito tempo. — Respondeu, com uma voz calma para alguém como ele. Ficou de frente para mim, olhando em meus olhos atentamente, parecia me analisar. — Agora diga-me: O que está acontecendo? — Perguntou, usando de um tom mais sério.
— Nada... Só estou exausta. É só isso. — Tentei disfarçar, evitando olhar diretamente pra ele. Mantive a mesma voz baixa e procurei parecer o mais calma que a minha situação permitia. Terminei o chá e deixei o copo vazio apoiado sobre o braço da poltrona.
— Você está agindo de uma forma estranha. — Altaïr caminhou pela sala por alguns instantes, sem tirar os olhos de mim, pensativo. Voltou a ficar em minha frente, agora com uma expressão mais amigável. — Parece... — Deu uma breve pausa. — ...Assustada. — Constatou, como se precisasse. — Se alguma coisa estiver acontecendo não precisa esconder. Sou seu mestre e como tal estarei ao seu lado para que possamos enfrentar juntos. — Falou de um jeito bem gentil, porém seguro em sua afirmação. Se aproximou devagar e segurou minhas mãos de uma forma que estranhamente parecia até carinhosa, totalmente inesperada para os padrões de alguém frio como ele, olhando fundo em meus olhos que insistiam em fugir do contato com os do assassino. Olhei para as mãos dele sobre as minhas, visivelmente surpresa e ainda um pouco assustada. — E além disso, eu... — Ao perceber minha reação, Altaïr interrompeu o que ia dizer, soltou minhas mãos de imediato e se afastou. O silêncio se fez, tomando conta do lugar como sempre acontecia em nossos encontros, e agora nós dois evitávamos contato visual, o clima era cada vez mais constrangedor, até que finalmente o assassino voltou a se pronunciar, mudando de assunto... Seja lá o que ele queria dizer, por algum motivo acabou desistindo. — Erika, eu aprecio sua dedicação para com o treinamento, porém você não deve se sobrecarregar desta forma. Ninguém aprende tudo em apenas um dia. O progresso vem naturalmente com o tempo. — Me repreendeu, mas falando de um jeito mais calmo e compreensivo, demonstrando o quanto se preocupava e que também sabia que uma conversa mais leve seria a melhor escolha naquela situação, especialmente me vendo assim assustada, por motivos que ele, é claro, desconhecia. — Como eu sugeri, você pode praticar os exercícios fora das sessões, mas tenha paciência e saiba respeitar teus próprios limites. — Deu uma pausa. — Passar a noite toda treinando sem descanso não irá lhe fazer uma guerreira melhor, pelo contrário, só servirá para deixá-la ainda mais desgastada e consequentemente fazer com que seu desempenho em combate decaia por conta da exaustão. — E como eu já esperava ouvir desde o momento que ele começou a dar aquela “bronca”, deixou claro que havia me visto treinando no jardim de madrugada, o que não foi uma surpresa para mim, sabendo que o mesmo costumava ficar acordado durante a noite estudando a Maçã e escrevendo em seu diário, bem... Agora eu também sabia que ele dava voltas pela fortaleza.
— Então você viu? — Perguntei o que já era óbvio, um pouco envergonhada.
— Sim, vi. — Confirmou, como se fosse preciso. — Você é persistente, uma característica que aprecio e valorizo muito. Mas tenha cuidado, pode acabar se ferindo ainda mais se continuar a exigir tanto de seu corpo desta forma. — Deu uma breve pausa. — Olhe para você! É assim que pretende progredir? — Questionou, passando a me encarar com uma expressão não muito contente, mesmo que quisesse e tentasse ser mais compreensivo, ele não sabia esconder sua insatisfação. Aquilo fez com que eu retirasse a peça do manto dele que cobria meus braços e finalmente notasse como estava toda roxa e arranhada, não quis nem imaginar o estado que devia estar meu rosto e meu cabelo pra não me sentir ainda pior. Fiquei calada, apenas de cabeça baixa, eu era mesmo uma inconsequente. — Está dispensada. Vá descansar! — Meio que ordenou mesmo, nem disfarçou. — Nos encontraremos quando você estiver melhor. — Complementou, virando-se de costas e caminhando devagar.
Vendo aquilo eu perguntei para mim mesma: Por que eu estava com medo de um homem que claramente se preocupava com o meu bem estar? Me fez pensar que talvez fosse melhor eu esquecer aquelas paranoias do Dexter, mas para isso, antes eu precisava de uma prova definitiva. E foi quando tive uma ideia louca e bem ousada, a qual não hesitei em colocar em pratica ali mesmo. Deixei aquela tal parte do manto sobre a poltrona e me levantei, antes que o assassino fosse embora, correndo até o mesmo e quase caindo no caminho.
— Altaïr, espere! — Disse, um pouco insegura. Ele simplesmente parou e se virou para mim, sem dizer nada. — Eu estava pensando... — Quis encontrar o melhor jeito de dizer, mas como a minha condição mental não era das melhores por conta de toda aquela exaustão, tomei coragem e fui direto ao ponto: — Gostaria de estudar a Maçã por alguns dias, se me permitir. — Assim que terminei de dizer já fiquei agoniada, esperando o belo “não” que certamente viria a seguir, porém, Altaïr continuou calado, olhando para mim por alguns segundos, sem expressão alguma, o que só fez aquela agonia aumentar ainda mais. Ter me deixado manusear um objeto como aquele já havia sido uma atitude bem incomum para o Altaïr que eu conhecia, eu duvidava que ele fosse capaz de permitir que eu tomasse posse da Maçã por tempo indeterminado. Até que, para a minha enorme surpresa, o vi retirar o artefato da bolsa atrás de seu cinto e quase não acreditei quando, receosa, estendi a mão, e ele simplesmente me entregou, seguro de si, olhando no fundo dos meus olhos e apenas assentindo com a cabeça. Precisei olhar para a Maçã na minha mão e depois para o assassino ali parado em minha frente, repetidas vezes, pra que a ficha caísse e eu realmente acreditasse no que via, cheguei até a tremer um pouquinho, tamanho era o nervosismo. — Você sabe que eu estou aqui para... Faz parte da minha missão e... Talvez eu possa lhe ajudar com... — Tentei falar alguma coisa, mas acabei dizendo frases soltas e incompletas, minha voz até falhou.
— Eu sei. — Respondeu, ainda se mostrando bem seguro. — E estou certo de que fará um bom trabalho. — Complementou. Foi a prova que eu precisava, aquele gesto derrubou a teoria da conspiração louca proposta por Dexter, a qual eu temia tanto que se confirmasse. Altaïr mais uma vez deixava claro que confiava em mim plenamente, de uma forma que eu jamais imaginei que fosse possível, de uma forma que, de tão incrível, nem parecia real. Talvez nem eu mesma confiasse em mim assim... Mas ele, o grande e sábio mentor da irmandade levantina confiava o bastante para permitir que eu não apenas usasse, como também pudesse ficar com um artefato tão poderoso e igualmente perigoso, o qual Altaïr provavelmente não havia confiado a mais ninguém durante toda sua vida. Assim como na primeira vez em que tive contato com a Maçã, voltei a me sentir especial, e sem perceber, esbocei um belo e largo sorriso, feliz pelo que havia acabado de ouvir, e ainda mais feliz por finalmente poder relaxar e tirar todas aquelas paranoias da minha cabeça.
— Eu... É... Eu agradeço pela confiança. — Disse, ainda um pouco atrapalhada, mas tentando ser formal e mantendo o sorriso.
— Não agradeça, você a conquistou. — Respondeu, gentilmente.
De volta aos meus aposentos, evitei olhar diretamente para a Maçã, temendo me distrair com aquele estranho desvio de atenção mais parecido com um transe que ela normalmente provocava, escondi o artefato dentro da minha bolsa, e a bolsa, por sua vez, escondi embaixo da cama. Mais calma quanto às teorias loucas que antes atordoavam minha mente, pude deitar e dormir tranquila, como não dormia há muito tempo. Descansei praticamente o dia todo, acordei ao entardecer, revigorada e animada para começar os meus estudos.
Tirei a Maçã de onde a havia escondido e a deixei sobre a mesa, peguei a minha câmera e a fotografei dos mais diversos ângulos, deixando-a junto na mesa caso precisasse fotografar mais depois. Fique parada de frente para o artefato e passei a observá-lo, pensando se deveria ou não ativar assim logo de cara. A tentação era muito forte, inexplicavelmente forte... Por um instante foi difícil até mesmo desviar o olhar para outro ponto qualquer. Era como se a Maçã me chamasse, como se me convidasse a tocá-la, tentei resistir... Tentei e falhei, foi mais forte do que eu. Aproximei minha mão, devagar, até finalmente tocar o artefato com as pontas dos dedos e vê-lo emitir um feixe de luz tão forte que me assustou, fazendo eu imediatamente virar o rosto com o antebraço protegendo os olhos e me afastar, lembrando da péssima experiência que havia tido na primeira vez... Experiência que eu temia acontecer de novo, mesmo já tendo sido capaz de controlar perfeitamente antes. Quando a luz cessou, voltei a olhar para o artefato e mais uma vez me aproximei, porém, desta vez me concentrei e tirei da minha mente a intenção de ativá-lo, apenas o peguei em minhas mãos e o fiquei admirando, tentando me sentir um pouco mais segura. Assim como na primeira vez, pude sentir um leve... Calor? Uma “energia”, como se a Maçã de alguma forma estivesse viva, antes eu não havia pensado, mas aquilo era incrível, fascinante e, ao mesmo tempo, assustador... Muito assustador, ao ponto de me fazer jogá-la de volta na mesa e, por medo, desistir de tentar qualquer interação. Eu era mesmo uma boba medrosa, estava no ponto mais alto da minha missão até o momento em uma chance que talvez jamais fosse ter outra vez e, ainda assim, tinha medo de ir em frente. Aquela voz feminina misteriosa que havia me ameaçado, e por pouco não fizera coisa pior, realmente me traumatizou. Quem seria ela? E por que tinha feito aquilo comigo? Talvez eu devesse entrar em contato com a outra voz, os dois certamente tinham alguma relação. Mas como eu iria encontrá-lo? Com a Maçã? Não, ele falou comigo sem que eu estivesse em posse de uma Piece of Eden. E se eu o chamasse? Afinal havia sido ali mesmo, naquele meu quarto, onde conversamos pela primeira vez.
— Ei! Cara misterioso da voz estranha? — Tomei coragem para chamá-lo, mas não obtive resposta. — Você está aí? Pode me ouvir? — Insisti, e mais uma vez, nada. — Por favor, apareça! Estou com medo e confusa. Não sei onde te encontrar. — Outra vez insisti... E nada. — Ah, ótimo! Agora estou falando sozinha e chamando fantasmas, feito uma louca! — Praguejei, desistindo daquela idiotice.
Guardei o artefato de volta na mochila e a mochila de volta embaixo da cama, sem saber ao certo se voltaria a ter contato com o mesmo outra vez, mas pensando em mantê-lo seguro independente disso. Já era tarde da noite e eu estava sem sono, então resolvi tomar um banho e vestir uma roupa adequada para o frio noturno, peguei meu iPod e meus headphones sem fio, voltei ao jardim, não para treinar, e sim para relaxar ouvindo um som ao observar as estrelas. Apoiada sobre o parapeito do andar mais alto do terraço de mármore onde treinava, eu contemplava aquela vista de tirar o fôlego: As montanhas, o rio além delas que refletia a luz suave da lua minguante e, finalmente, as estrelas, que iluminavam aquela bela noite, brilhando intensamente e tendo todo o destaque no céu. Eu sorria, apreciando músicas antigas e relembrando algumas memórias de infância, dos tempos em que morava em uma enorme propriedade na parte mais rural da Inglaterra e podia contemplar uma vista como aquela todas as noites, o que em Londres, por conta de tanta poluição, era algo bem raro. Abaixei um pouco a música, escondi o iPod dentro do bolso da túnica e coloquei o capuz para esconder os fones ao ouvir alguém se aproximar, quando me virei, vi que era ninguém menos do que Altaïr, caminhando em minha direção.
— Imaginei que talvez pudesse encontrá-la aqui. — Disse parando ao meu lado, me olhando com uma expressão não muito contente. — Parece que não fui suficientemente claro quanto a respeitar seus limites, não é? — Questionou, visivelmente insatisfeito.
— Não vim aqui para treinar e sim para observar as estrelas. — Respondi, mantendo o sorriso e falando gentilmente. O assassino ficou calado por alguns segundos, eu o havia deixado sem resposta.
— Me perdoe, eu achei que... — Tentou se desculpar, procurando o que dizer. Mas o importante era vê-lo humilde o bastante para admitir seus erros, até mesmo os tão pequenos.
— Não se preocupe. Eu entendo. — O interrompi, temendo que ele mudasse o rumo da conversa para algo mais sério... E provavelmente chato. — Veja! Não é maravilhoso? — Voltei a olhar para as estrelas no céu. — Me traz uma paz interior... Um sentimento de liberdade. — Complementei, passando a olhar para Altaïr. Ainda sorria, e mantinha o mesmo tom de voz.
— Sim, de fato é. — Concordou, voltando a olhar para o céu junto a mim. Agora estávamos os dois apoiados sobre o parapeito, a uma leve distância um do outro. — Eu me pergunto o que há além delas... — Falou baixinho, se mostrando pensativo.
— Um vasto universo, de infinitas possibilidades... Estrelas, planetas, galáxias... Apenas esperando para serem descobertos, catalogados e, um dia, visitados. — Acabei respondendo o que não deveria, sem nem perceber.
— O que está dizendo? Como você... Como sabe tudo isso? — Perguntou, logicamente surpreso para alguém do tempo dele, talvez até assustado com tal possibilidade, e não era pouco. Mesmo disfarçando, o choque e a confusão eram bem evidentes, até se atrapalhou todo para falar, o que raramente fazia, e chegou a olhar para mim com os olhos levemente arregalados. É, eu fui uma idiota e me deixei levar, jamais deveria ter dito aquilo, mas já era tarde pra tentar mudar de assunto. Simplesmente olhei pra ele, com os braços abertos, rindo baixo e piscando com apenas um dos olhos, esperando que o assassino se lembrasse de onde eu vinha e consequentemente entendesse. — Ah... Compreendo. — Finalmente caiu a ficha e ele sacou, mas demorou um pouco mais do que eu imaginava.
— No meu tempo, o homem já foi até a lua. E não está muito longe de pisar em outro planeta. — Desta vez eu disse intencionalmente, toda orgulhosa, queria impressioná-lo. E deu certo, deu muito certo.
— Isto é possível? — Perguntou, os olhos dele até brilhavam.
— Com a muita pesquisa, investimento e o desenvolvimento de novas tecnologias, é sim. — Confirmei, sorrindo, feliz por ter conseguido o que queria.
— Incrível! Poderia dizer mais? — Como eu imaginava, não se contentou com pouco.
— Não, é melhor não. Eu já falei mais do que deveria. — Precisei adotar uma postura séria e cortar o assunto o mais rápido possível, antes que eu fosse ainda mais longe do que já tinha ido. Mas essa seriedade não durou muito... Pra melhorar o clima tenso que ficou tentei falar de outra coisa: — Olha ali! — Apontei para o céu.
— O que? Onde? — Perguntou, um pouco confuso.
— No céu... Aquela constelação ali. — Mantive o dedo apontado.
— Você se refere à constelação de Aquila? — Deduziu, exatamente como eu esperava que fizesse.
— Sim. — Confirmei, abaixando o dedo e olhando para Altaïr por alguns breves segundos antes de voltar a olhar para o céu. — Está vendo aquela estrela maior ali? — Outra vez apontei, sorrindo.
— Sim... — Respondeu, vagamente. Na certa se perguntando o porque de eu estar falando sobre aquilo, talvez estivesse distraído para não ter lembrado do nome da estrela ou talvez simplesmente não estivesse interessado pelo rumo que a conversa havia tomado.
— Se chama “Altair” e é a estrela mais brilhante desta constelação. — Finalmente a conversa havia chegado onde eu queria, vi ali uma ótima oportunidade de, mais uma vez, demonstrar o quanto eu o admirava e talvez também deixar claro que tinha sentimentos pelo assassino. Dei uma pausa, parando de apontar o dedo e outra vez olhando para ele, bem no fundo daqueles belos olhos cor de mel que o capuz quase escondia. Esboçando um belo sorriso apaixonado e usando de uma voz doce e gentil, prossegui: — ...Assim como você, Altaïr, é o mais brilhante em toda a história da irmandade. — O silêncio se fez e tomou conta do lugar, a única coisa que eu podia ouvir era a música “Ordinary World” da banda Duran Duran tocando baixinho nos meus fones. Quase que instintivamente, nos aproximamos um do outro, devagar, bem devagar, primeiro até ficarmos a poucos centímetros de distância, e depois, mais lentamente, até que nossos lábios finalmente se tocassem em um beijo suave. A emoção foi tanta que, naturalmente, minhas pernas tremeram e meu coração acelerou, e por um instante pensei que aquilo fosse um sonho, uma ilusão criada pela mente de uma garota boba apaixonada. Mas não, era real... Era mesmo real! Pude sentir quando meu amado assassino carinhosamente me envolveu em seus braços e aquele curto beijo se transformou em um longo beijo de tirar o fôlego, deixando nós dois ofegantes, e mesmo assim, parecendo não ter fim. E para mim, foi como se o tempo tivesse parado, como se o mundo a nossa volta não existisse mais... Ali éramos apenas eu e ele, juntos, pela eternidade, em um momento único, um momento mágico perfeitamente embalado pelo som daquela canção, era quase impossível acreditar que, depois de tanto tempo, nós provávamos um para o outro o nosso amor. Aquele momento eu jamais imaginei que poderia viver um dia, e foi o momento que mudou tudo.
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