Sentidos
1 Visão
Notas iniciais
Houve dois momentos marcantes em minha vida que eu me lembro com clareza até hoje: o dia em que eu perdi completamente minha visão, e o dia que conheci Amélia.
Eu tinha seis anos quando o primeiro aconteceu. Nascida na parte leste de Wistorf, eu tinha — assim como a maioria do povo do Leste — uma paixão: cavalos. Embora minha mãe houvesse me proibido de sair sozinha, eu estava andando em um corcel negro dos estábulos da minha família quando cai em cima de um arbusto de Espinhosa da alvorada.
Você deve saber, e, se não sabe, deveria saber, que Espinhosa da alvorada é extremamente perigosa para seres humanos, podendo ter reações negativas se entrar em contato com a corrente sanguínea. Existem diferentes reações. Perda da locomoção, perda da audição, perda da visão. E foi esse último que me afetou. Fui salva por um dos Patrulheiros dos Céus, o grupo de cavaleiros de dragões da parte Oeste de Wistorf. Alen me levou até a Anciã, mas não havia nada que ela poderia fazer para trazer minha visão de volta.
Onze anos depois, conheci Amélia. Eu estava dando uma de minhas caminhadas matinais na floresta, usando uma das trilhas que eu frequentemente usava, quando dois homens me pararam. Eu sabia que eram dois homens por causa de suas vozes e do modo como caminhavam, mas era a única coisa que eu saberia dizer. Eles queriam dinheiro. E eu não tinha.
Um deles me empurrou, fazendo meu coração bater acelerado de medo enquanto eu caia no chão. Já era assustador o suficiente se você conseguisse enxergar. Agora imagine se você não conseguisse ver nada além de um véu preto, e só conseguisse sentir as coisas a sua volta. Era assim que eu estava.
Então eu escutei um dragão se aproximando. Eu sabia que era um dragão porque o bater de asas era pesado contra o vento, e a respiração era extremamente quente. Ele parou em minha frente e sua cauda rastejava nervosamente ao meu lado. Se eu estendesse a mão, conseguiria tocá-la. Foi quando escutei a voz de Amélia pela primeira vez. Ela afugentou os ladrões apenas por estar ali. Sua presença era uma ameaça para eles. E uma salvação para mim.
Escutei suas botas amassarem a grama enquanto ela vinha até mim. Dezesseis passos depois, ela se abaixou e tocou em meu braço. Eu sorri com esse gesto, erguendo a cabeça.
— Me chamo Amélia. Sou uma Vigilante.
— Sou Rania. E obrigada. Eu não conseguiria sair dessa se não fosse você... — Respondi. Amélia me ergueu com facilidade e manteve a mão em meu braço.
— Você está longe de casa? Posso... — O dragão se aproximou de nós e eu escutei com clareza ela ronronando para a dona. — Tudo bem, nós podemos te acompanhar até sua casa — Ela se corrigiu. A respiração do dragão estava mais perto ainda de mim, e Amélia levou minha mão até o focinho do dragão. — Esta é Elphaba. Ela que viu você lá de cima.
— Olá, Elphaba! — Eu cumprimentei, fazendo-lhe carinho. Ela ronronou de novo e esfregou a cabeça em minha perna. Amélia riu.
— Ela gostou de você. — Explicou-se. Eu sorri.
— E eu gostei de vocês. E respondendo a sua pergunta: Não, eu não estou longe de casa. Mas adoraria companhia. A floresta é muito silenciosa. — Eu disse, ainda acariciando o dragão quente. Amélia pegou em minha mão e entrelaçou nossos dedos quase que automaticamente.
— Para que lado?
Eu ri e, usando os sons para me guiar, voltei-me para a trilha que deveríamos seguir. Nós conversamos sobre nossas famílias enquanto andávamos. E nossas mãos não se soltaram um segundo se quer.
— Pode me deixar aqui. — Eu alertei, assim que saímos da floresta e entramos na cidade. Eu conseguia ouvir o barulho dos estábulos e dos cavalos que estavam ali. Aquilo me dava saudades de montar, mas eu ainda morria de medo de cair novamente.
— Podemos nos ver de novo? Quero dizer... — Amélia ficou quieta e eu sabia que ela devia estar corando pela expressão que usara. Eu ri.
— Sim, podemos nos ver de novo. Mas eu preciso gravar seu rosto... importa-se? — Perguntei, estendendo as mãos. Amélia se aproximou de mim, me fazendo sentir sua respiração na ponta dos dedos. Percorri toda a extensão do seu rosto, a maçã do rosto mais fina, o nariz um pouco grosso, os cílios alongados e a franja cobrindo os olhos. — Qual a cor?
— Do quê? — Seu tom era confuso. Eu ri.
— De tudo. Seus olhos, sua pele, seus cabelos... — Respondi-lhe.
— Minha pele não é clara nem escura como a sua, é um meio termo... como café com leite, sabe? — Ela perguntou de novo, rindo. Eu acenei com a cabeça. — Meus olhos são da cor do mel, mas eles mudam de cor de acordo com a luz. E meu cabelo... não ria, mas ele é azul de nascença.
— Eu não ri. — Observei. Poderia ter passado o resto do dia conversando com ela, mas ela pareceu lembrar-se de algo.
— Preciso buscar minha irmã na escola. Nos vemos depois!
— Tchau, Ames. — Me despedi. Escutei que ela montava em Elphaba e, instantes depois, ela já não estava mais ali.
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