Sentidos
2 Olfato
Notas iniciais
Escutei Amélia antes mesmo dela me abraçar. Seus passos já eram conhecidos por mim, assim como o jeito animado de Elphaba, que logo exigiu carinho de mim. Enquanto eu dava atenção para o dragão, minha mãe saiu da cozinha e sorriu. Eu conseguia perceber seu sorriso enquanto ela falava:
— Oi Ames.
— Oi, dona Rosa. Como a senhora está? — Amélia perguntou.
— Eu estou ótima, querida. E você? — As duas se abraçaram e eu ri comigo mesma ao pensar em como elas se davam bem — e em como aquilo me fazia feliz.
— Estou maravilhosamente bem. — Amélia estava empolgada. Eu conseguia sentir. Continuei acariciando a barriga de Elphaba, que havia se deitado aos meus pés. — Posso levar sua filha para um passeio? — Ela perguntou. Mamãe sorriu de novo.
— Tipo um encontro?
Eu fiquei corada e sabia que Amélia também. Elphaba ronronou enquanto minha mãe gargalhava das nossas caras.
— Estou brincado, meninas. É claro que pode, Ames, nem precisava pedir permissão. Onde vocês vão?
E então eu fui excluída da conversa, porque Ames passou a sussurrar com minha mãe, no intuito de manter nosso destino em segredo. Eu sentia a animação fluindo das três (Elphí gosta de ser lembrada) e aquilo me deixava animada também. Dona Rosa me ajudou a levantar e beijou minha bochecha.
— Aproveite o passeio, bebê.
— Mãe! — Eu exclamei por causa do apelido. — Já conversamos sobre isso. Que vergonha. — Sussurrei, sem esperar que Amélia escutasse. Mas ela estava perto o suficiente para ouvir.
— Eu acho uma graça. Vamos, Rania. Tchau, Dona Rosa. — Amélia sabia ser rápida quando queria. Ela segurou minha mão, fazendo meu coração disparar no peito como em todas as outras vezes, e me levou para fora de casa.
Sair de casa sempre era um baque para mim. Novos cheiros se somavam aos outros todos os dias, novas vozes, novos sons. Só por esse último, eu sabia que o estábulo ao lado da minha casa havia recebido uma nova remessa de cavalos, e que eles estavam sendo levados para o cercado.
— Aonde vamos? — Perguntei. Amélia sussurrou em meu ouvido:
— É segredo. Mas você tem que confiar em mim, tá? — Perguntou. Eu revirei os olhos, muito embora esse gesto sempre passasse despercebido por todos, e beijei sua bochecha.
— Eu confio, Lia.
— Então sobe na Elphaba — Ela pediu, colocando o braço em torno de minha cintura. Eu abri a boca de espanto.
— O quê? — Gaguejei de nervoso.
— Você disse que confiava em mim... vem, só levanta a perna e passa ela para o outro lado — ela instruiu, me guiando.
Eu conseguia ouvir Elphaba respirando tranquila ao meu lado. Pela altura do som, ela estava deitada e eu conseguia tranquilamente passar uma perna para o outro lado de suas costas. Era quase como montar em um cavalo. A textura das escamas de couro era a mesma das selas que os estábulos usavam quando eu era criança.
Amélia montou na minha frente e me fez abraçar sua cintura para que eu não caísse.
— Pronta?
— Não. — Confessei, apertando-a. Ela riu.
— Elphaba, sobe!
Nunca vou conseguir descrever a sensação de voar pela primeira vez. E em todas as outras vezes. Sentir o vento levando meus cachos para trás, o som do ar passando por nós... a sensação de liberdade. Era como se nada pudesse me alcançar ali, a não ser Amélia e Elphaba. Elas eram a única coisa que importava naquele momento.
— O que está achando? — Ames perguntou, segurando minhas mãos e com delicadeza fazendo com que eu diminuísse o aperto em sua cintura. Eu ri. Estava mais nervosa do que achava.
— Desculpe. — Pedi. — Eu... eu estou amando. É como montar e cavalgar pelos campos... — Encostei a cabeça em suas costas, suspirando.
— Você ainda tem medo de subir em um cavalo? — Ela perguntou, se virando para ficar de frente para mim. Suas mãos foram para a minha cintura e eu senti Elphaba planar no ar. Eu estava me sentindo muito livre.
— Sim — suspirei. — Eu queria tanto montar Nevasca novamente...
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Eu não fazia ideia até onde Amélia estava me levando, até que senti a aterrissagem suave de Elphaba.
Foi quando os cheiros me envolveram. Lavanda, rosa, margarida, petúnia, violeta. Todas elas estavam exalando perfume ao mesmo tempo, mas sem ser enjoativo ou desagradável.
— Bem-vinda à Ilha Primavera. — Amélia me disse, desmontando do dragão e me ajudando a desmontar. Eu sorri.
— Deve ser tão lindo. Eu consigo sentir os aromas de todas as flores que tem aqui, mas eles não são enjoativos ou desagradáveis...
— Sim — ela me abraçou pelas costas e riu consigo mesma — A combinação de cores faz Elphaba enlouquecer. Ela está pulando de um lado ao outro.
Eu ri com ela. Elphaba era como um cachorro enorme e bobo.
*
— Posso perguntar algo? — Questionei, quando estávamos sentadas em um precipício. Elphaba estava dormindo atrás de nós, com a cauda em nossos colos, e eu e Amélia estávamos com os braços dados.
— Claro. — Embora eu não visse, sabia que ela estava olhando para mim. Ames era atenciosa a esse ponto.
— Você já me disse que gostaria de ir procurar seus pais. Saber se eles estão vivos...
— Sim...?
— Eu sei que sua irmã te prende aqui, mas gostaria de saber se é só ela ou...
— Ah. Felícia me prende aqui, é claro, mas ela não é a única. Os Patrulheiros também.
— Ah! — Exclamei, abaixando a cabeça. Ao meu lado, Amélia sorriu e gentilmente ergueu meu rosto em direção do seu.
— E é claro que eu não poderia deixar você. Não por enquanto. Eu simplesmente não consigo deixar você, Rania. Me separar de você quase dói.
Eu ri e acariciei seu rosto com meus dedos.
— Ames, você tem que prometer que se houver a mínima chance de você ir atrás deles, você irá. Não se prenda por mim, por favor. E, quanto a sua irmã, creio que minha mãe não se irritaria de cuidar de uma criança por alguns dias.
— Eu prometo. — Amélia falou, sorrindo, e nós nos abraçamos.
O cheiro da Ilha Primavera ficou em nossos corpos por muito tempo.
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