Sensations
6 Valete.
Notas iniciais
No dia seguinte, a esperei novamente na porta de sua escola. Mia saíra de mãos dadas com um garoto bem mais alto do que ela. Os dois trocaram um breve beijo, o que me fez apertar o volante. Abri a porta bruscamente, contornei meu carro e a chamei. Ela me olhou confusa:
-O que faz aqui?
-Então, Mia... Acho melhor eu ir. –O garoto lhe deu um beijo no rosto e saiu apressado.
-O garotão está com medo?
-Com certeza. Do jeito que você olhou pra ele, parecia que ia matá-lo.
-Saiba que não gosto de relacionamentos pessoais que interferem no trabalho.
-Então deveria se lembrar disso antes de beijar suas recém-contratadas.
Silêncio. Ela jogou sua mochila no chão e tirou a camisa da escola, revelando outra por baixo... Infelizmente.
-O que está fazendo?
-Vou correr na praia. –Disse, pegando a mochila.
-Nós temos que resolver sobre os seus documentos.
-Eu sei, mas não agora.
-Mia, quanto mais rápido nós resolvermos isso...
-Olha. –Ela me interrompeu. –Eu realmente preciso disso, ok? É o mínimo que pode me conceder por toda essa coisa que está acontecendo. –Me olhou serena. –Por favor.
-... Só se me deixar ir com você.
Ela sorriu.
-Ok.
Peguei sua bolsa, mas ela pegou de volta.
-Me deixe te ajudar.
-Já está fazendo isso.
Nos olhamos e ela riu.
-Seu chato, cabeça de amendoim.
-Cabeça de amendoim?
-É.
-Eu acho que nunca me chamaram de cabeça de amendoim.
-Sempre há uma primeira vez. –Entramos no carro. –Você precisa se acostumar, Jared. Nem todas as pessoas vão te chamar de lindo.
Eu a olhei admirado, mas dessa vez ela estava recostada a janela sem retribuir.
-Aonde deseja parar?
-Siga, e eu lhe darei as coordenadas.
-Certo.
Seguimos pela orla em silêncio.
-Aqui está ótimo.
Soltamos do carro. Estranhei por não haver um sinal para atravessar a rua até a calçada. Ela correu de repente e me assustei. Ficara estático no mesmo lugar a observá-la no calçadão.
-Hey, o que faz aí?
-Não há semáforos para atravessar.
-Está com medo, garoto da cidade?
Não respondi. Ela sorriu e olhou para outra direção. Antes que notasse, já estava a meu lado a segurar a minha mão.
-Não fique com medo.
-Não estou com medo. Não tenho medo de nada.
-Ok. Então atravesse sozinho.
-Agora?
-Não, em 2016.
-...
Me puxou e corremos até o outro lado.
-Medroso.
-Poderíamos ter morrido.
-Eu sei que zela por sua vida, já que não é tão jovem, mas... Se de fato começar a se comportar como um idoso, tenho certeza que não irei aturar por muito tempo lembrá-lo de todos os seus remédios de osteoporose.
Atrevida.
-Muito engraçado.
-Também achei. Não sabia que podia falar osteoporose em inglês.
Mia começara a correr, me deixando pra trás.
-Espera.
-Eu sugiro que não corra. Sentirá dor nas juntas.
-Pare de me chamar de velho.
-Então pare de olhar pra minha bunda.
-Mas eu não estou olhando pra sua bunda.
-Mas vai olhar. –Ela acelerou e... Jesus. Que bunda!
Se passou mais ou menos uma hora, quando voltou. A esperei sentado em um quiosque tentando controlar minha preocupação.
-Pensando?
-Te esperando.
Sentou-se ao meu lado.
-Sabe... Já faz alguns anos que quando venho à praia, sinto algo diferente dentro de mim. É como se eu estivesse me desligando de tudo a minha volta, como se... Estivesse me despedindo. E isso me causa uma tristeza, mas ao mesmo tempo... –Pausou e suspirou. –Um alívio enorme. Parece que não pertenço a esse lugar, que a minha vida está fora daqui. Entende? –Me olhou e eu pude lhe sorrir.
-Completamente. Parece que se continuar aqui, estará perdendo a chance da sua vida e se tornando comum junto a todas essas pessoas.
-... Exatamente... E toda vez que olho pro mar, parece que ele me chama, confirmando a minha ida.
-E a lua...
-Ilumina o meu rosto dentre a escuridão fazendo-me involuntariamente rezar para que a pessoa que me ame me veja pelo seu reflexo.
-E o que o sol representa pra você?
-O impossível. Te dá o que é necessário, mas você nunca poderá chegar até ele.
-Mia.
-Fala.
-Aquele cara é seu namorado?
Seu sorriso ingênuo me fez fugir de seus olhos.
-Por que quer saber?
-Responda-me primeiro.
-Não falo da minha vida pessoal pra qualquer um.
-Sou seu chefe.
-Jared, eu não te perguntei se você tem uma namorada.
-Não tenho.
-Bem, eu pensei que tivesse. E a loira de Saint Tropez?
-Uma modelo fazendo com que sua carreira decole por cima de um roqueiro em busca de uma família.
-Os conceitos mudaram bruscamente. Onde está a era do “Sexo, drogas e rock’n’roll”?
-Já passei dessa fase.
-Ah, sim. Esqueci que já é um idoso.
-Eu juro que te jogo no mar se falar isso de novo.
Uma gargalhada que me fez rir. Era impossível se controlar diante dela.
-É melhor irmos.
-Está com fome?
-Não muita.
-Vamos almoçar?
-Ah, não. Eu estou sem grana.
-Não perguntei isso.
-Você realmente faz muitas perguntas.
-E você insiste em não me responder nenhuma.
-Faz parte do meu show.
-Ok, então. Vamos almoçar. Quem chegar por último no carro é mulher do padre.
-Mulher do padre? Que coisa de velho!
-IÁH!
Ela saiu correndo e fui atrás. Deus! Eu estava precisando aumentar minha dose de exercícios.
Almoçamos. Ela falava algo sobre a alta sociedade e seus padrões falhos. Tive de admitir que fez com que me sentisse envergonhado com algumas coisas, pois as cometia com freqüência. Se talvez fosse outra pessoa, ignoraria ou levantaria da mesa, mas... Estava certa, afinal.
O dia passou muito rápido. Conseguimos resolver tudo pendente. Mia não necessitava de seus pais quanto aos papéis a assinar, já que era emancipada, adiantando nossa viagem, sendo marcada para amanhã.
Jantei junto a seus pais, engoli meu orgulho pedindo várias vezes para traduzir o que era dito. Poderia ter me sentido um peixe fora d’água, mas todos faziam com que estivesse à vontade.
Mia me olhava tranqüila, o que me fez sorrir para ela. Tirei-lhe uma mecha que caia sobre o seu rosto. Nesse momento, vi claramente a cigana que havia descrito. Eu a invejava, pois podia me julgar e tinha toda a liberdade de me fazer sofrer. Eu estava louco, pois estava me deixando levar por uma menina de dezessete anos. Precisava controlar meus impulsos, já que não podia tê-la, deveria me contentar com a sua presença.
Estávamos no jardim, caminhando para o meu carro.
-Não precisa se preocupar em levar muitas coisas. Poderá comprar o que quiser lá fora.
-Se isso for um modo de iniciar uma despedida, não está dando certo.
-Gosto da sua sinceridade.
-Eu também. As coisas ficam mais cristalinas e com menos sofrimento.
-Tem medo de se machucar?
-Sim. Meu pior defeito é minha covardia.
-Talvez eu possa te ensinar alguma coisa nesse sentido.
-Me avise quando para levar um caderno.
Paramos em frente ao carro.
-Eu venho te buscar amanhã.
-Ok.
-Boa noite.
-Jared.
-Sim.
-Me desculpe por ser grossa com você. É a minha maneira de ser e talvez seja bom que esteja já familiarizado com isso, pra não se assustar.
Sorri.
-Não se preocupe. Você é uma pessoa incrível.
-Ah, claro. Nós já nos conhecemos há anos e você pode falar experientemente.
Não segurei o riso.
-Eu acredito em vidas passadas.
-Eu também.
-Bobinha. –Apertei seu rosto.
-Me senti uma criança agora.
Lhe abracei.
-Depois eu sou o chato com cabeça de amendoim.
-Ok. Chega. Odeio despedidas.
Beijei sua cabeça e depois o seu rosto demoradamente.
-Até amanhã.
-Até.
Mia ainda olhava na calçada esperando meu carro sumir de sua vista. E eu contava os minutos para que o dia seguinte chegasse.
Seu pai ajudava-me a colocar as bagagens no táxi. Ainda não tinha visto Mia. Acertava algumas coisas com o taxista quando ouvi as despedidas. Senti como se houvesse borboletas em meu estômago quando a olhei abraçando sua mãe.
-Sentiremos sua falta, Mi.
-Eu também.
-Ligue pra gente assim que chegar.
-Mamãe, é caro ligar do exterior pra cá.
-Pode ligar, Mia. Você tem direito. –A respondi.
-Então... É isso. Até.
-Tchau, filha. Vá com Deus. Cuida bem dela, Jared.
-Fique tranqüila.
Entramos no táxi. Mia acenou uma última vez e olhou para baixo.
-Triste?
-Um pouco, mas vou me acostumar.
Coloquei minha mão sobre a sua.
-Tudo vai dar certo.
-Eu sei.
Retirou sua mão.
Fomos até o aeroporto e após os últimos acertos burocráticos, esperamos na sala VIP até sermos chamados. Adentramos o avião e percebi que seus olhos estavam brilhando.
-Minha primeira viagem internacional e de primeira classe.
-Você merece, não?
Me acomodei na poltrona a seu lado.
-Tenho de confessar que não consegui dormir essa noite e me sinto completamente exausta.
-Você está linda.
Ela me encarou.
-Você está me acostumando mal.
-Está desarmada comigo.
-Por enquanto. É bom não se acomodar.
Sorrimos e ela encostou sua cabeça na janela.
-Adeus, Rio de Janeiro.
-Acredita que irá voltar algum dia?
-Isso só vai depender do meu chefe.
Ri.
-Difícil responder. Não sei se agüentarei ficar sem você.
-... Acho que agora é o melhor momento para dormir.
Sorri, mas sem humor. Eu não estava controlando meus impulsos.
Coloque You’ll Never Walk Alone – Piano Interlude (Viva Elvis) – Elvis Presley para tocar.
Não demorou para que Mia, dormindo, se ajeitasse voltando-se para o meu lado. Ela estava escorregando para cima de mim e apenas “adiantei” o que estava para acontecer. Recostei seu rosto em meu ombro e retirei os braços das nossas poltronas para não machucá-la.
Tão pura e inocente... Anjo.
O homem que a tivesse seria o cara mais sortudo do mundo. E doía-me pensar que poderia ser outro que não eu. Ela conseguia ferir o meu ego, por não conseguir atingi-la, não seduzi-la e tirá-la de seu pedestal, quando na verdade ela me tirava do meu. Se o mesmo estivesse acontecendo com qualquer outra fã minha, sem dúvida se entregaria ao meus encantos, mas a Mia... Não. Ela era diferente. Ela estava fora do meu alcance e eu não sabia como lidar com isso sem ter um espírito competitivo.
Sorri quando entreabriu um pouco a boca.
Jurei a mim mesmo que seria minha até o fim de minha vida.
-Eu nunca te deixarei escapar, pequena. É minha agora.
Beijei-lhe o topo de sua cabeça e a abracei para adormecer junto dela.
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