Semântica
19 Puxativo
Notas iniciais
— Você sempre faz essa cara. – Seus passos produziam um pequeno eco sobre o concreto molhado, aproximando-se. – Quando eu danço, no caso.
— E sua teoria sobre isso seria...? — Sua mão empurrava os fios de cabelo colados ao rosto para trás, leves respingos adjacentes à garoa. O seu sorriso contrastava com a escuridão cinzenta daquele parque deserto.
— Semântica. – Não segurei um riso. – Você sempre parece estar pensando na palavra perfeita.
— E qual palavra você acha que eu poderia usar, para uma situação assim? – Aquela expressão confusa, a qual eu já tinha afeiçoado-me, fazia sua décima aparição hoje apenas.
Me indagava sobre muito mais do que semântica – como o fez tantas vezes. E já não cabia mais em mim fugir da resposta que ele buscava.
— Quando você vê um artista correndo seu pincel pela tela, um músico dedilhar seu instrumento, um escultor moldar sua peça. – Aquilo sequer parecia fazer sentido algum.
Não importava-me.
— Eu não sou uma escritora tão boa quanto você pensa. Eu jamais poderia nomear esse sentimento, de ver arte acontecendo diante de mim.
Em meio àquela chuva que não se calava, encontramos a resposta em suspiros que não se ouviam – sua voz, um puxativo cruel para embriagar-me em seu calor.
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