Semântica
24 Mortalha
Notas iniciais
— Uma moeda por seus pensamentos, minha senhora. — Suas palavras acariciavam a minha face, seu calor a única coisa que eu podia sentir em meio àquela escuridão.
— Você. É sempre você.
— Você sempre diz isso.
— É a verdade. Te incomoda?
— Não que seja eu, mas que é tudo o que você sempre diz. — Um sopro de ar quente afagou minha testa. — Nunca me diz o que está pensando sobre mim.
— Não acho que vá querer ouvir minhas besteiras.
— Besteiras absurdas ou besteiras? — A insinuação fez-me rir.
— Poderiam ser ambas.
— O que só me faz ainda mais interessado. — Desenhando formas inócuas nas minhas costas, seu toque roubava-me de mim.
Golpe baixo.
— Eu vou pensar sobre isso.
— Mas você vai me dizer quando estiver pensando sobre isso?
Levantei minha cabeça da curva de seu pescoço, tentando ler sua face cercada por sombras. Você facilitou.
— Eu ainda não aprendi a ler seus pensamentos. E eu não queria que eles se perdessem.
Mãos buscavam-se cegamente e suspiros adormecidos enchiam o quarto. E sob a mortalha daquele silêncio, eu derramei meu coração em sussurros sobre seu peito.
— Você é...
Espero que ele alcance o seu.
— ...Tudo que eu já amei.
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