Semântica
25 Trepanação
Notas iniciais
Observava a nossa bagunça singular, em silêncio. Meus livros misturados com seus discos no canto da estante, sua caneca favorita ao lado da minha garrafa d'água, minha bolsa no chão próxima ao seu tênis. Aquela junção sempre reconfortante, pela primeira vez, me perturbou.
Ou talvez, a ideia de separá-la.
— Você não pode estar falando sério. — Sua voz recaía sobre mim carregada, pesada como uma âncora. E por um momento, eu quase tive medo de encontrar seu olhar diretamente.
— Essa viagem pode esperar.
— Esperar o quê?! Você não mais poder ir?
— Não estamos falando de 6 meses, mas de 4 anos.— Ergui minha visão da minha xícara, feição endurecida. Eu já tinha tomado minha decisão.
— Exatamente por isso não pode perder essa oportunidade. — Incredulidade permeava sua face, como se eu recusasse um Nobel. — Qual a desculpa para você fugir dessa vez?
— Por você.
— Ah, você não precisa se preocupar com o louco. A trepanação já está marcada. — Passando a mão em um envelope próximo, estendeu-o para mim.
Erguendo-me do sofá, atravessei o cômodo até você — mas a distância que existia entre nós nunca pareceu tão monumental.
— O que você precisa de mim?
— Que vá.
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