Sem rumo.

13 Capítulo 13


Notas iniciais
Olá guys, sentiram minha falta? Eu senti falta de vocês ♥ Bom, eu não postei antes por vários motivos e alguns deles foram: preguiça, falta de criatividade, sem tempo e poucos comentários. Pois é, pois é, mas acho que já os torturei demais, então, aqui está HAUAAUHUH Não se acostumem com o tamanho, o próximo não será tão grande assim, okay? Okay. Enfim, é isso. Espero que gostem e não esqueçam de comentar jamais! Até as notas finais! Twitter: @poxamalec

BEATRICE PRIOR

Acordo com a cabeça prestes a explodir. Respiro fundo e encaro a tela do celular. São quase onze da manhã. Nós partiremos para Louisiana hoje. Me sento na cama e vejo Tobias encostado na borda da porta do quarto. Ele está de braços cruzados e tem os olhos fixos em mim.

– Está pronta? – ele pergunta sério.

– Me dê dez minutos. – eu digo ainda sonolenta. Então me lembro de tudo o que eu disse ontem e me desperto. Arregalo os olhos e ponho a mão na boca. Como eu pude ser tão cruel? – Tobias, me desculpe por...

– Beatrice, não. – ele faz um gesto com a mão me mandando parar. Eu me calo. – Eu entendi tudo. – ele fala calmo. – Eu peço desculpas por tê-la pressionado daquela forma. Não foi justo e eu prometo que isso não vai acontecer de novo, está bem? Vou te levar até a Flórida sem mais paradas e sem esse lance de bares. Não foi tão bom quanto eu esperava.

– Tobias, não... – começo, mas ele me interrompe.

– Beatrice, eu já tomei minha decisão. – ele sorri gentilmente. – Isso não vai atrapalhar nossa amizade, eu te garanto.

– Tudo bem. – eu me dou por vencida.

– Dez minutos. – ele sorri mais uma vez e sai do quarto.

Corro para o banheiro e me tranco lá. Respiro fundo. Eu não deveria ter sido tão dura. Fiquei com medo. Eu refleti sobre a música que ele cantou ontem e tive medo. Ele estava cantando aquilo pra mim. Algo dentro de mim soube no momento em que ele falou a primeira frase. E eu não poderia fazer isso com ele. Eu sou uma pessoa perdida. Uma pessoa vazia. Alguém pelo qual não vale a pena lutar. E ele é bom. Ele é tudo que uma mulher merece, mas eu não. Eu não o mereço. Ele é demais pra mim. E por mais que eu tente, acho que eu nunca poderia me doar completamente. Sempre haverá uma parte minha com Peter.

E ele não merece isso. Ele merece alguém inteira.

Engulo o nó que se formou em minha garganta e entro no chuveiro. Tomo um banho demorado, a fim de clarear as ideias. Lavo meu cabelo e todo meu corpo. Quando eu termino, me enrolo e escovo os dentes e o cabelo. Acabo e saio para o quarto. Tobias está sentado na cama, com os braços cruzados, olhando fixamente para mim. Ele me dá um sorriso gentil e dessa vez eu não consigo pega-lo olhando o meu corpo. Acho que ele não olhou dessa vez. Me aproximo da mochila e pego um par de roupas. Uma saia branca curta e um tomara que caia vermelho. Pego sutiã e calcinha e volto pro banheiro. Não vou provoca-lo dessa vez. Me troco e faço a trança. Passo rímel e batom natural. Saio e Tobias está parado no mesmo local.

– Vamos? – ele sorri pra mim.

– Vamos. – eu respondo lhe devolvendo o mesmo sorriso gentil.

Junto minha pequena bagagem e nós descemos até o saguão. Tobias vai pra recepção e paga nosso custo. O hotel que ficamos é elegante. Imagino que custará caro pra ele e apesar dele não aceitar, vou tentar pagar a minha parte de alguma forma. Quando ele faz o pagamento, nós caminhamos até o estacionamento e ele põe nossa bagagem no porta-malas, mas deixando a câmera que eu lhe dei no nosso banco. Eu a pego e a levo no meu colo. Tobias entra no carro e dá a partida em silêncio. Eu respeito que ele esteja me tratando assim, afinal, depois de ontem, quem não trataria?

Aproximo minha mão do som do carro, mas paro ao lembrar da regra número um dessa viagem. Carro dele, som dele. Puxo minha mão rapidamente para o colo e torço pra que ele não tenha notado. Não funcionou.

– Pode ligar se quiser. – ele sorri, mantendo a atenção na estrada.

– Você não parece querer. – eu digo e me viro para encara-lo como sempre faço.

– Só estou cansado. Desculpe. – ele diz e sei que está sendo sincero. A sua expressão exausta não permite que ele esteja mentindo.

– Noite difícil? – eu pergunto divertida.

– Eu não dormi muito bem. Aliás, eu nem consegui dormir. – eu fico em silêncio, esperando que ele me explique. Ele parece entender o recado e volta a falar. – Fui pro seu quarto pouco tempo depois que chegamos. Você tinha capotado. Eu fiquei lá até você acordar.

Eu arqueio as sobrancelhas, surpresa.

– Por quê? – eu semicerro os olhos pra ele.

– Tive medo de que você fosse embora. – ele suspira. Sinto uma pontada no meu peito.

– Desculpa por ontem. – eu me encosto na cadeira e volto a olhar pra frente.

– Relaxa. – ele sorri.

– Eu posso dirigir se você quiser descansar. – eu me viro novamente, encolhendo os ombros com medo de sua resposta. Nenhum homem como ele permitiria que eu dirigisse um carro assim.

– Quando eu não aguentar, eu paro e a gente troca. – ele sorri e finalmente me olha.

– Tudo bem. – eu sorrio e ele volta a olhar pra estrada.

– Só porque estou calado não significa que você não deva falar, Beatrice. – ele sorri torto.

– Eu sei. – eu digo sorrindo também. – Só não sei o que falar.

– Sua cor favorita? – ele pergunta.

– Azul. – eu digo e ele me olha. Reprimo uma risada ao ver que estamos falando de uma coisa tão banal. E então eu noto que minha cor favorita é a mesma cor dos olhos dele. – E a sua? – digo encarando-o. Ele sorri e volta a atenção pra estrada.

– Cores escuras, apesar de ser fascinado por verde. – ele diz ainda sorrindo. – Melhor amigo?

– Você? – isso é mais uma afirmação do que uma pergunta. Ele gargalha. – É. Você. – eu afirmo mais para mim mesma. Ninguém nunca havia sido gentil comigo tanto quanto ele. Eu também não havia compartilhado tanto da minha história com alguém, a não ser Christina. Mas Chris era praticamente uma irmã e a única pessoa para o cargo de melhor amigo era ele. – Melhor amiga? – pergunto.

– Você. – ele sorri. – Sonho?

– Conhecer todos os lugares possíveis. – digo sorrindo e olhando para frente. Sou tomada pela fantasia de um dia sair mochilando pelo mundo sem qualquer preocupação. O engraçado disso é que quando imagino algo assim, eu só enxergo Tobias ao meu lado. – Sonho? – digo, voltando a realidade.

– Ser feliz, eu acho. – ele diz intenso. Penso em perguntar o porquê dessa resposta, mas não me parece adequado no momento. E antes que eu possa falar algo, ele continua. – Algo do que se arrepende. – ele pergunta e então meus pensamentos são levados a noite de ontem, quando eu gritei com ele. Afasto as lembranças e sorrio, tentando disfarçar minha tensão.

– Tantas coisas. – eu suspiro. Ele parece não querer insistir no assunto e eu sou grata por isso.

– Tá legal, agora algo de que você não se arrepende. – ele mantém a atenção na estrada e espera que eu responda.

– O ônibus em Chicago. – eu digo a primeira coisa que fiz que não houvesse uma gota de arrependimento. Ele me olha e abre um sorriso. Repousa uma mão na minha coxa e a deixa ali.

Nós seguimos o resto da viagem em silêncio. Paramos para abastecer e continuamos seguindo. Tobias me afirma que faltam apenas duas horas para que estejamos em Lousiana. Quando está faltando apenas uma hora, nós estacionamos em um restaurante no na estrada e entramos. Tobias pede nossa refeição e esperamos.

– Vamos parar em algum lugar em Louisiana? – pergunto.

– Provavelmente. – Tobias cruza as mãos. – Não vou aguentar dirigir até a Flórida. Vamos parar em New Orleans, depois Tallahassee, finalmente Orlando e logo após Miami. – ele respira fundo e me encara. – Você tem pressa pra chegar? Posso dar um jeito se você quiser chegar logo. – posso notar a preocupação em sua voz.

– Não. Sem problemas. – eu forço um sorriso. – Tem certeza de que eu não tô atrapalhando nenhum dos seus planos? Estou com uma puta culpa. – ele sorri.

– Não se preocupe com isso.

– Ótimo então. – eu sorrio pra ele também. – Tobias, quando a gente acabar essa viagem, pra onde você vai?

– Não sei. – ele cruza os braços e dá de ombros. – Qualquer lugar, eu acho. Vou fazer o que eu pretendia antes de Miami entrar nos meus planos. – ele pisca pra mim.

– Você gostaria de ir comigo ao casamento de Christina? Eu preciso de um acompanhante, já que serei a madrinha e bem, você é a melhor opção. – eu encolho os ombros, envergonhada com o pedido.

– Não é uma boa ideia, Beatrice. – ele está sério agora. – Desculpe.

As palavras dele me atingem em cheio. Respiro fundo e tendo disfarçar a decepção em minha voz.

– Tudo bem. – acho que não funcionou muito.

– Não faz essa cara. – ele sorri. – Eu gostaria muito de acompanhar você, mas não posso ultrapassar Miami. Você sabe disso. Eu não conseguiria deixa-la de novo. – ele diz calmo e estende a mão pra tocar a minha. Ele acaricia e eu compreendo o que ele quer dizer. E o que mais me incomoda é o fato dele estar certo.

– Você tem razão. – eu entrego os pontos mais uma vez.

A nossa comida chega e nós comemos enquanto conversamos. Consigo conhecer Tobias um pouco mais, apesar de sentir que ele ainda tem muitos segredos escondidos de mim. Em parte, isso não me incomoda. Por outra parte, isso me irrita, pois quero conhece-lo por completo, mas tenho medo de que isso aconteça. Sei que eu acabaria me apaixonando por ele e isso não é certo e justo.

Tobias paga nossa conta e nós voltamos pro carro. A tensão e o silêncio entre nós diminuíram desde o almoço e Tobias não aparenta estar mais tão cansado. Nós seguimos até New Orleans conversando o tempo todo, sobre tudo, aparentemente. Depois de um tempo, nós estamos passando em New Orleans.

– Podemos parar aqui, mas eu ainda consigo chegar à Tallahassee ainda hoje. Você quer parar? – ele me olha por alguns segundos.

– Se você diz que consegue, nós podemos seguir. – eu digo, mas a verdade é que eu queria que parássemos para eu poder ficar mais tempo com ele.

– Tem certeza de que não tá cansada? – o tom de sua voz é sério, mas não duro.

– Tenho. – assinto e dou um sorriso gentil.

– Ótimo. – ele sorri. – Estaremos lá por volta das nove da noite, tem problema?

– Nenhum. – sorrio mais uma vez e ele assente com a cabeça.

E depois do curto diálogo, nós seguimos a viagem. Tobias ligou o rádio e colocou uma música calma. Sei que ele prefere um rock clássico e só colocou em tal estação por minha causa. Me lembrarei de agradece-lo quando chegarmos a Tallahassee. Enquanto isso, encosto minha cabeça na janela e em questão de segundos, eu pego no sono.

Estamos dentro do carro, prosseguindo com a viagem. Depois de termos visitado Miami, nós mudamos o destino e estamos voltando para Chicago. Nós conseguimos nos entender e agora ele concordou em ser meu acompanhante no casamento de Christina. Depois disso, não sabemos o que faremos. Mas não estamos planejando nada. Tem sido assim desde que nos conhecemos. Apenas sem planejar. Parece funcionar conosco.

Nós paramos em um bar. Tobias se apresenta hoje. Quando ele começa a cantar, todas as pessoas somem, restando apenas eu e ele. Ele continua cantando, mas uma sombra começa a surgir atrás dele. Eu grito, mas ele não me ouve. Ele é arrastado pela escuridão e minha garganta dói de tanto gritar por seu nome, mas ele não me ouve.

Então, quando ele está sendo arrastado, seus olhos ficam negros e mais uma vez eu reconheço aquela escuridão.

A morte.

– Tris, porra! Por favor, acorde! – ouço uma voz rouca desesperada gritando por mim.

Sinto alguém me sacudir. Abro os olhos ainda atordoada. Minha cabeça está prestes a explodir e meus cabelos grudam nos meus ombros suados. Minha respiração está ofegante. Encaro os olhos de Tobias, que estão focados em mim. Ele está a centímetro do meu rosto. Sua expressão é de preocupação e desespero.

Então, depois de engolir o nó seco que se formou em minha garganta, eu o agarro e o abraço. Estou tremendo. Mais uma vez eu tive o mesmo pesadelo. A morte sempre o tira de mim.

– Está tudo bem. – ele diz passando a mão nos meus cabelos e me envolvendo em seus braços. – Foi só um pesadelo. – eu apenas assinto, aninhando minha cabeça em seu peito. Vejo que estamos parados no meio do nada, no acostamento da rodovia. Está escuro.

– Quanto tempo falta? – eu pergunto.

– Cerca de uma hora. – Tobias me responde. – Você tá melhor? – eu apenas assinto. – Cacete, Beatrice. Você me deu um puta de um susto.

– Desculpe. – eu digo envergonhada. Desde a morte da minha mãe e Peter que eu tenho pesadelos e nunca quis ser flagrada. Desde a noite em que dormimos na casa do seu pai, Tobias tem sido a única pessoa que sabe que isso acontece quase toda noite.

– Isso acontece sempre? – eu apenas assinto. – Você lida com isso sozinha? – assinto mais uma vez. – Caralho, gata, já pensou em procurar um médico? Algum acompanhamento psicológico ou algo assim? Isso não é bom pra ninguém, Beatrice. Foi aterrorizante vê-la desse jeito.

– Desculpe. – eu peço mais uma vez, envergonhada por tê-lo feito ficar com medo de mim.

– Ei, olha pra mim. – Tobias pede gentilmente, segurando meu queixo e o levantando, fazendo com que eu o encare.

– Você tava nele. – eu digo engolindo mais um nó seco que se formou. Tobias entende que eu me refiro ao sonho.

– Eu sei. Você gritou por mim. – ele diz com uma expressão confusa.

– Desculpe. – eu digo mais uma vez, porque acho que é a única coisa que eu posso fazer no momento.

– Para. De. Se desculpar. Porra. – ele junta as sobrancelhas. – Só devia ter me contado que isso acontece todas as noites. Eu tinha dado um jeito de te ajudar.

– Isso não acontece todas as noites. – eu o recordo.

– Não importa. – ele suspira. – Pode me dizer como foi o pesadelo? – não, Tobias. Eu não posso. Sinto muito.

– Não quero lembrar. – eu minto, como se fosse possível esquecer.

– Tá. – é só o que diz.

Então ele me dá um beijo na testa e me solta, voltando a pôr as mãos no volante e afivelando o cinto de segurança. Ele dá a partida e voltamos a rodovia.

– Por quanto tempo eu dormi? – eu pergunto.

– Três horas e meia. – Tobias sorri. – Bastante tempo, eu diria. – eu apenas sorrio e ficamos em silêncio. – Beatrice, eu tenho uma dúvida.

– Qual seria? – eu pergunto receosa, me virando no banco para poder encara-lo.

– Por que você não chorou? – eu junto as sobrancelhas numa expressão confusa. – No sonho. Você tava desesperada, mas não conseguia derrubar uma lágrima sequer. Eu achei estranho.

– Eu não consigo chorar. – admito. – Desde a morte de Peter. Foi a última vez que eu chorei.

– Sinto muito. – ele diz calmo. – Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio. – vejo um pensamento passar nos seus olhos.

– Eu sei. – digo e então sou pega pela curiosidade. – Você já chorou? – ele solta uma gargalhada.

– Claro que sim, Beatrice. Todo mundo chora, até mesmo caras fortões como eu. – ele responde e sei que não há convencimento em seu tom de voz.

– Interessante. – eu digo. Abro um sorriso. –Tá, me diz uma vez. – percebo que a pergunta lhe causa um certo desconforto e fico me imaginando se tem algo a ver com o pai.

– Um... um filme me fez chorar, uma vez. – ele diz com facilidade, mas de repente parece constrangido e talvez arrependido de sua resposta.

– Qual filme? – pergunto. Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

– Que importa isso? – Tobias desconversa.

– Ah, conta logo, vai, que foi? Acha que eu vou rir e te chamar de mulherzinha? – eu digo virada pra ele. Um sorriso escapa dos meus lábios.

– Prometa que não vai rir. – ele me olha e adverte, apontando o indicador pra mim.

– Prometo. – eu digo sorrindo. Um sorriso tênue se abre por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

Diário de uma paixão. – ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

– Você disse diário de uma paixão?

– É! Chorei vendo diário de uma paixão, tá? – ele fala revirando os olhos numa expressão irritada.

Ele mantém sua atenção na estrada. Permanece sério. Eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele se sentir tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa. Então esse mesmo riso se transforma em uma gargalhada descontrolada.

– Você prometeu! – ele olha de relance pra mim e diz em um tom não muito sério. Um sorriso está se formando em seus lábios.

– Desculpe. – eu digo ofegante. – Não tô rindo disso não. – eu digo e seguro o riso.

– Tá, que se foda. – ele dá de ombros, ainda sorrindo.

E então um barulho seguido por quicadas no carro preenche tudo que estávamos falando. Tobias resmunga um palavrão e bufa, revirando os olhos e encostando o carro no acostamento da rodovia. Já consigo imaginar o que aconteceu.

– Puta que pariu! – ele grita apertando o volante. Os nós dos dedos estão brancos.

– O pneu furou? – eu pergunto.

– Provavelmente. – ele diz e olha pra mim.

Ele abre a porta do carro e desce. Eu decido fazer o mesmo. Paramos frente a roda traseira direita do carro. Tobias está de braços cruzados analisando a situação. Já escureceu e não há movimento na rodovia. Está tudo deserto e estamos parados no meio do nada.

– Você tem um estepe, não tem? – eu pergunto semicerrando os olhos e olhando em direção a ele.

– Claro que tenho, mas não foi só o pneu. – ele fala como se fosse óbvio e continua mantendo a atenção no carro. – Vou ligar pro guincho. – ele puxa o celular do bolso e disca um número. – Estamos com um problema... Próximo a Tallahassee na Interstate 10... Isso isso.... O quê?! Mas que porra... Tá, tá. Até mais. – ele desliga o aparelho e olha pra mim. – Vão chegar, mas só daqui a uma hora mais ou menos. – como eu não entendo nada de carro, apenas assinto.

Olho ao redor e depois olho pra cima. O céu está absurdamente lindo, repleto de estrelas. E é nesse momento em que eu tenho uma ideia.

– Eu sei que é clichê, mas é algo que eu sempre quis fazer. – começo e vejo que atraí a atenção de Tobias pra mim. Ele está de braços cruzados me encarando numa expressão receosa.

– O quê? – ele pergunta.

– Você já dormiu sob as estrelas? – posso sentir meus olhos brilhando de emoção. Devo estar parecendo uma adolescente idiota.

– Tá falando sério? – ele espreme os lábios.

– Claro que sim. Qual é, vamos... A gente só precisa atravessar essa cerca e deitar na grama. Só até o guincho chegar. Por favor. – eu suplico.

– Tá, tá. – ele entrega os pontos. – Só até o guincho chegar. – ele adverte.

Sinto vontade de me jogar nos braços dele, mas não faço isso. Ao invés, fico observando-o abrir o porta-malas e retirar um cobertor velho de dentro dele. Ele bate pra retirar a poeira e sorri satisfeito.

– Nunca pensei que eu fosse usa-lo. – ele diz sorrindo. – E mais uma vez minha mãe estava certa.

Apenas sorrio e nós pulamos a cerca do que parece ser uma fazenda ou algo assim. Tobias aciona as travas do carro, apesar de saber que a rodovia está completamente deserta. Caminhamos para frente e nos distanciamos um pouco da rodovia, mas ele parece não se importar.

– Cuidado pra não pisar em bosta de vaca. – Tobias diz, desviando das mesmas.

Reprimo um riso e continuamos a caminhar. Quando ele acha que está longe o suficiente, ele para e estica o cobertor no chão. A grama dessa área está alta, mas não ruim. Ele se deita em cima do cobertor e eu repito o movimento, me deitando ao seu lado.

Ficamos assim, deitados um ao lado do outro, em silêncio, olhando as estrelas no céu. Quando eu propus que fizéssemos isso, nunca imaginei que poderia ser tão intenso assim. Tobias ainda não falou nada e eu me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou olhando no espelho quando olho pra ele.

– São lindas. – eu digo, quebrando o silêncio.

– São, sim. – ele responde e se vira para mim, me olhando com ternura. Eu me viro pra ele também e são em momentos como esse que preciso resistir ao intuito de beijá-lo.

– Obrigada. – eu agradeço, porque acho que é a única coisa que me resta a fazer no momento. – Por me fazer sentir viva.

Em resposta, ele apenas me lança um sorriso. Então eu me pergunto nesse momento: quem precisa de psiquiatras? Quem precisa de acompanhamento psicológico, mentores ou palestras motivacionais? Isso são apenas rótulos. Basta olhar o céu noturno e se deixar se perder nele de vez em quando.

Quando volto a olhar o céu, ouço algo.

– Ouviu isso? – levanto meu corpo e permaneço agora sentada no cobertor, em posição alerta.

– Ouvi o quê? – Tobias pergunta se levantando.

E então eu vejo algo rastejando próximo de nós.

– Cacete, Tobias, é uma cobra! – eu grito e dou um pulo.

Aponto para a cobra que rasteja no chão e Tobias se levanta em um pulo. Começo a apontar desesperadamente, sem emitir som algum, sentindo o pânico me devorar e minhas pernas amolecerem. Tobias procura em alerta pela cobra, mas ela começa a rastejar em direção oposta a nossa, mas antes disso acontecer, eu pulo nos braços dele e me encolho de medo.

– Caralho, Beatrice, você assustou a coitada. – ele diz numa risada, ainda me sustentando em seus braços.

– Isso não tem graça! – eu me solto furiosa dele e me coloco de pé.

– Fica fria, ela já se mandou. – ele diz ainda sorrindo.

– Não quero mais dormir aqui fora. – cruzo os braços e me mantenho na pose defensiva.

– Tá, tá, vamos voltar pro carro. – ele se abaixa e recolhe o cobertor, o amassando e colocando debaixo do braço.

Depois da cobra ter estragado qualquer clima entre nós, nós voltamos pro carro. O guincho ainda não chegou e vejo que isso incomoda Tobias. A medida que a hora vai passando, ele vai ficando mais irritado. Ele bufa, revira os lindos olhos, aperta o volante, mas nada é capaz de diminuir a frustação.

Quebramos o silêncio que há dentro do carro e conversamos. Uma conversa boa, apenas dizendo coisas bobas a nosso respeito. Apesar de ainda continuar sendo misterioso e quase nunca revelando nada a seu respeito, Tobias me deixa conhecer um pouco dele. E estou com medo. Estou com medo do que sinto por ele nesse momento. É louco, mas eu não me importo. Estou apenas vivendo aquele momento.

E quando cansamos de conversar, pegamos no sono, esperando o guincho chegar.

Acordo com os raios solares no meu rosto. Uma dor insuportável nas costas lateja sem parar. Abro os olhos e ainda atordoada, me dou conta de que dormimos no carro. No meio do nada. Olho pro banco do motorista e uma onda de pânico me invade quando não vejo Tobias nele.

– Dá pra você acordar e vir me ajudar nessa porra?! – ouço ele gritando por mim e a irritação em sua voz.

Meus olhos fitam seu reflexo na traseira do carro. Ele abriu o porta-malas e parece retirar uma maleta de ferramentas e um macaco mecânico. Abro a porta e desço apressadamente, caminhando em sua direção. Creio que ele não acordou de bom humor.

– Quer ajuda? – eu pergunto com a voz arrastada. Acabo de bocejar.

Ele apenas me olha irritado e faz uma expressão óbvia. Num único movimento, ele tira sua camisa e a coloca em cima do carro. A visão do seu corpo é o suficiente para me despertar completamente. Gotas de suor já começam a se formar nas divisórias do seu peito e tenho que desviar os olhos para não agarrá-lo. A linda tatuagem parece ter se destacado ainda mais.

Ele começa a manejar o macaco e o carro sobe aos poucos. Está tão concentrado que não deve ter notado quando eu o olhei daquele jeito. Estou torcendo pra que tenha acontecido isso.

Quando o carro já está a alguns centímetros do chão, ele para com o macaco e se deita em baixo do carro. Me sinto culpada por estar sendo tão inútil, então pego a maleta de ferramentas e apenas passo tudo que ele me pede, enquanto trabalha lá em baixo. Agradeço a meu pai mentalmente por ter me ensinado o nome de todas as ferramentas que um dia cheguei a pensar que seriam inúteis.

– Pronto. – ele diz e se levanta, indo em direção ao pneu e se agachando. Eu fico permaneço no mesmo lugar. – Venha, eu vou ensinar a você como se faz isso.

– O quê? – eu arqueio as sobrancelhas.

– Ande logo, Beatrice. – ele revira os olhos impaciente.

Eu obedeço e me agacho ao seu lado. Ele me passa todas as instruções de como se trocar um pneu e apesar da distração do seu corpo, eu consigo captar tudo. Suas mãos estão meladas de óleo preto e ele me suja, ao me guiar, mas não discuto, porque sei que não foi proposital.

– Agora segure isso assim, enquanto eu rolo o outro pneu. – ele diz e se levanta.

Eu seguro e já sinto meus braços adormecerem devido ao peso da coisa. Olho pra Tobias e o vejo caminhar lentamente. Droga, ele tomara que ele não esteja me zoando...

– Anda logo ou vou soltar. – ameaço irritada.

– Não solta. – ele se vira e sorri pra mim.

O vejo pegar uma garrafa de água e a beber lentamente. O sol está escaldante e eu o invejo por essa água. A luz reflete o seu corpo e fico tonta. Como alguém pode ser tão gostoso? Ele para de beber a água e respira fundo, observando a paisagem da rodovia. Essa não, ele tá me zoando.

– Tobias! – grito. – Eu vou soltar essa porcaria.

– Não solta. – ele suplica com um sorriso. – É sério, gata, uma onda de óleo diesel vai espirrar em você se soltar e isso é ruim pra caralho de sair. – bufo.

– Então me ajuda, porra. – eu digo e isso só o faz rir ainda mais.

Mas aí ele se agacha e deixa que eu solte, segurando e colocando aquela peça no lugar. Nós trocamos o pneu e eu bebo o resto de água que tinha em apenas um gole. Entramos no carro e ele dá a partida, satisfeito por ter consertado qualquer coisa que estivesse quebrada.

– Juro que se o guincho chegasse agora eu o mandaria pro inferno. – eu digo afivelando o cinto de segurança. Estou completamente suja do óleo do carro.

– Você tá uma graça. – Tobias diz num riso, seguindo com o carro.

– Vá pro inferno. – eu digo sentindo o sorriso se formar nos meus lábios.

Seguimos até Tallahassee conversando e chegamos ao hotel, apenas alguns minutos depois. Tobias segue para o saguão ainda sem camisa e percebo os olhares que ele atrai. As mulheres estão prestes a devora-lo. Olham para a tatuagem deles, algumas com admiração e outras com curiosidade. Acho que eu também estou curiosa pra saber o que ela significa.

Na recepção eu tento ignorar a recepcionista que dá em cima dele. Acho que eu já devia ter me acostumado. Ele parece achar isso divertido e eu me convenço de uma coisa: caras gatos sabem que são gatos. Sem exibição; eles apenas sabem.

Depois de nos hospedar, nós seguimos pros quartos. Ficamos distantes mais uma vez. Eu no 801 e ele no 805. Caminhamos primeiro para o meu e ele despeja a bagagem no canto do quarto, como sempre faz.

– Vou ser bonzinho dessa vez e te dar trinta minutos pra se arrumar, mas somente pelo fato de você estar imunda. – ele reprime um riso.

– Zoe o quanto quiser. – dou de ombros e sigo pro banheiro depois de ter feito algo bem infantil: mostrar a língua e ficar vesga.

Ouço sua gargalhada do outro lado da porta e não me nego sorrir também. Tomo meu banho, lavando o cabelo e fazendo depilação. Me seco e saio enrolada numa toalha, torcendo para que ele não esteja no quarto. Por sorte, ele não está. Pego minha mochila e escolho o short branco e uma blusa rosa bebê. Calço um chinelo simples e tranço meu cabelo. Uso o rímel e o batom de cor natural e burrifo um pouco de perfume no corpo. Acho estranho o fato de Tobias ainda não ter aparecido aqui, mas me animo ao saber que me aprontei primeiro que ele, então pego minha bolsa e sigo para seu quarto. Passo o cartão reserva no sensor e entro. Ele está terminando de colocar perfume em frente ao espelho e sorri ao ver meu reflexo na porta.

– Você ganhou dessa vez. – ele diz. Eu retribuo o sorriso e o espero encostada na porta. Quando ele está se aproximando de mim, o celular dele toca. – Um segundo. – ele diz pra mim e atende a ligação.

A medida que alguém fala com ele do outro lado da linha, vejo seus olhos se arregalarem e ele ficar branco. A posição rígida já tomou conta do seu corpo. Não demoro muito tempo para entender a notícia.

Marcus morreu.

Ele engole em seco e pomo de adão sobe e desce em sua garganta. Quando a chamada encerra, ele respira fundo e fecha os olhos. Em um movimento, ele atira o celular na parede. Tento me aproximar, mas ele faz um sinal com a mão para que eu fique parada.

– Saia daqui, Beatrice. — ele fecha os olhos e tenta se manter calmo. — Eu quero ficar sozinho.

Eu apenas nego com a cabeça e dou mais um passo, mas ele me fita com os olhos e grita:

– SAIA DAQUI AGORA!

Suas palavras me rasgam, mas sei que ele está apenas magoado, então eu faço o que ele pede e volto para meu quarto. Me jogo na cama e abraço os próprios joelhos, me encolhendo.

Eu só quero tirar aquela dor do seu rosto.

As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre e eu temo por isso. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente. A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.

Notas finais
E então? O que acharam? Comentem comentem comentem ♥ Bom, como a maioria acertou nos comentários, a notícia bombástica finalmente foi essa: a morte de Marcus. Isso pode sim colocar a viagem deles em risco e é lamentável, pois estão a poucos km de Miami. Podemos lamentar e torcer pra que tudo dê certo. Aguardo vocês nos comentários e espero ler o que vocês estão achando, okay? Sejam bonzinhos comigo HAUAHUAHAUHA Até o próximo capítulo, que vocês sabem que só sairá com a ajuda de vocês, não é? Ele está repleto de momentos Fourtris! ATENÇÃO!!! SPOILER DO PRÓXIMO CAPÍTULO: DISCUSSÃO, REVELAÇÕES E O MELHOR DE TUDO: HENTAI! ISSO MESMO: HENTAI!! Não percam hein ♥ Até logo! Twitter: @poxamalec