Sem rumo.
8 Capítulo 8
Notas iniciais
TOBIAS EATON
Estou ficando maluco por ela. Ela está me matando com suas crises de bipolaridade. Numa hora ela está rindo de algo e na outra ela tá me xingando e fazendo aquele biquinho que tenho vontade de morder até ela gemer. Porra, essa garota fode comigo. Não do jeito que eu gostaria, mas ela fode mesmo assim.
Me levanto, tomo banho e me troco. Coloco dentro da mochila todas as roupas espalhadas pelo quarto e pego meu violão. Verifico se não estou esquecendo de alguma coisa e quando vejo que está tudo em ordem eu saio. Vou ao quarto de Tris e bato na porta.
– Bom dia, está na hora de pegar a estrada. – eu digo.
– Hmmm. – Escuto um gemido de insatisfação de Tris do outro lado da porta. Provavelmente ela estava dormindo e eu acabei de acorda-la. Ótimo.
Passo a chave reserva no sensor e abro a porta. Paro no mesmo instante. Beatrice está deitada na cama, com um shorts minúsculo preto e uma blusa regata branca. Ela está sem sutiã, pois consigo ver os bicos dos seus seios acesos como faróis, sem falar que a blusa dela está na metade da barriga.
– Porra, garota, o que você tá tentando fazer comigo?! – meus olhos estão arregalados.
Tris abre os olhos sonolenta e quando se dá conta de como está, ela puxa a coberta e cobre seu corpo. Viro meu rosto um pouco para o lado pra que ela não perceba que eu estou sorrindo. Com as bochechas coradas, ela se levanta e corre para o banheiro. Eu me sento na cama e espero impacientemente ela se arrumar. Acho que estou de pau duro. Não, espera, eu estou de pau duro. Preciso de outro banho gelado.
Depois de poucos minutos, Tris sai do banheiro. Ela está linda. Um shorts amarelo, uma blusa regata azul marinho e sua sapatilha. Seu cabelo está trançado e ela está sem maquiagem alguma, apenas com um brilho nos lábios. Puta que pariu, ela vai acabar me matando.
Olho pra ela e ela sorri pra mim. Ela pega sua mochila e coloca todas as suas coisas lá dentro, sem se preocupar em dobrar as roupas e arrumar os hidratantes e perfumes. Ela põe a roupa suja em uma sacola plástica e coloca na mochila. Quando ela está pronta, ela põe a mochila nas costas e olha pra mim. Eu estou surpreso.
– Simples, sexy e desorganizada. Confesso que estou orgulhoso. – eu digo sorrindo.
Ela apenas sorri pra mim e nós entramos no elevador. Percebo que ela está em silêncio, envolvida naquele mundo em que ela construiu ao redor de suas muralhas. As muralhas que, por mais que eu tente, eu nunca consigo atravessar. Respiro fundo e nós caminhamos até a recepção. Converso com a recepcionista, encerro nossa diária e ela me entrega o valor. Eu retiro minha carteira e vejo que Beatrice está retirando seu cartão da bolsa.
Lá vamos nós mais uma vez.
– Beatrice, você não vai pagar. – eu digo impaciente.
– Você não vai me dizer o que fazer. – ela se vira para a recepcionista. – A conta do quarto 704, por favor. – ela sorri gentilmente. A recepcionista olha pra mim e eu nego com a cabeça.
– Beatrice... – eu a advirto.
– Não. – ela semicerra os olhos.
– Aqui está. – eu entrego o valor em dólares e a recepcionista fecha nossa conta.
Tris sai pisando duro e caminha para fora do motel. Eu começo a xinga-la de todos os nomes possíveis mentalmente por ela ser tão infantil. Qual o problema dessa garota? Eu estou enlouquecendo por causa dela. Vou para o carro e coloco nossa bagagem no porta-malas. Tris já está sentada no banco do passageiro. Ela provavelmente está puta comigo.
Entro no carro com um sorriso idiota, porque quando ela faz birra eu fico com vontade de beija-la. Ela é linda, cara. Ela é muito linda e fica uma gracinha quando está puta. Ligo o carro e dou a partida ainda sorrindo. Tris suspira impacientemente com meu bom humor.
– Por que está rindo? – ela me pergunta irritada. – Isso não é engraçado.
– Você fica um tesão com esse biquinho. – eu digo com a atenção na estrada. Não estou olhando pra ela, mas sei que ela corou.
– Vá pro inferno, Tobias. – ela diz, mas posso sentir que ela está sorrindo. Viro o rosto para observa-la por alguns segundos e minha suposição está certa. Ela está sorrindo.
– Tobias. – eu repito o nome.
– Desculpe, eu não sei como devo chama-lo agora. – ela diz e vira seu corpo para o lado, de forma que consiga me encarar.
– Não, tudo bem. – eu sorrio. – Eu gosto de “Tobias”. – eu viro meu rosto e pisco pra ela.
– Ah é? Então por quê “Quatro”? – a curiosidade está estampada em sua expressão. Eu dou risada.
– Só vou te contar isso quando chegarmos ao nosso último destino juntos. – eu digo e logo fico triste ao pensar que vamos nos separar novamente na Flórida. E dessa vez será para sempre.
– Tudo bem. – ela diz e seu tom de voz está um pouco mais baixo. Me pergunto se ela fica tão triste quanto eu quando pensa nesse assunto. – Qual nossa próxima parada?
– Provavelmente Juárez, mas passaremos por Tucson dentro de uma hora e meia. – ela assente e ficamos em silêncio, até que eu pego meu celular e disco um número. Johanna atende no terceiro toque.
– Olá, filho. – ela diz do outro lado da linha.
– Como ele está? – eu pergunto.
– Do mesmo jeito desde que você veio aqui.
– Melhor assim do que pior. – eu acho. Penso. – Me ligue se acontecer algo, está bem?
– Pode deixar. Se cuide, querido. Eu amo você.
– Eu também amo você. – eu digo e desligo o telefone.
Ponho o celular em algum lugar do carro e vejo que Tris me observa. Arqueio as sobrancelhas e a olho depois de fazer uma curva. Seus olhos verdes estão em mim com uma curiosidade inconfundível.
– O que foi? – eu pergunto, voltando minha atenção para estrada.
– Era sobre seu pai? – ela continua virada para mim.
– Era. – eu digo um tanto desconfortável. Não quero que ela saiba que eu me preocupo com ele, apesar de tudo o que fez.
– Então você se preocupa com ele? – ela diz mais pra uma afirmação. Ela está sorrindo. Imagino que esteja orgulhosa por ter me convencido a ir visita-lo.
– Eu não queria, Beatrice. Mas sim, eu me preocupo. – eu respiro fundo.
– Com quem você falava ao telefone? – ela me pergunta e logo se arrepende. – Desculpe, eu não quis ser intrometida. Meu Deus, você deve estar pensando que eu...
– Beatrice, pare. – eu digo calmamente. Ela para de falar. – Para de se desculpar por dizer o que está pensando. Apenas diga o que quer dizer e o resto não importa, entendeu? – eu olho pra ela e ela assente. – Tente de novo.
– Com quem você falava ao telefone? – ela diz, encolhendo os ombros, ainda constrangida.
– Johanna. Assim como Hana, ela é como uma mãe pra mim. Ela está com meu pai no hospital.
– Você tem muitas mães. – ela diz com um sorriso encantador.
– Sim. – eu sorrio com ela sem tirar minha atenção da estrada. – A única parte positiva do abandono da minha mãe foi essa: eu ganhei mais duas. – ela não para de sorrir. – Johanna me conhece desde que eu era um bebê. Ela e meu pai cresceram juntos e eles eram melhores amigos. Quando meu pai se casou com Evelyn, ela não deixou que isso interferisse na relação deles, apesar de saber que ela sempre teve outras intenções com Marcus. Quando Evelyn foi embora, Johanna sempre esteve lá pra amenizar o clima. Quando Marcus me batia, sempre que ela podia ela conseguia para-lo. Era a única que conseguia para-lo. E quando ela ameaçava denunciar pra polícia, ele prometia que nunca mais iria fazer. E quando ela não estava, ele quebrava a promessa. Ela o amou o suficiente para não o pôr atrás das grades e apesar de ter ficado furioso com ela, eu a admiro por isso.
Quando eu paro de falar, Tris permanece em silêncio. Ela respira fundo e encosta a cabeça na janela. Fecha os olhos e se perde em seus pensamentos. E são nesses momentos que eu sinto vontade de atravessa-la. Quero descobrir todos os mistérios dela. Sei que ela esconde muita coisa dentro de si mesma e eu me pergunto quanto tempo vai levar até que ela desmorone.
Quando vejo que Tris capotou, eu ligo o som do carro. Paro em uma estação de rádio qualquer e está tocando Nickelback – Never Gonna Be Alone. Balanço a cabeça no ritmo da música e acompanho-a. Bato os dedos no volante na mesma batida da música. Quando passa da segunda estrofe e chega no refrão, eu olho para Tris. Não muito tempo, já que a estrada não permite, mas eu olho o suficiente para conseguir entender a música. Eu não vou deixá-la cair. Ela nunca estará sozinha. Quando eu a vejo assim, eu quero protege-la de tudo que já a machucou. Quero cuidar dela. Quero ajuda-la a superar todos os seus medos. Quero tê-la pra mim.
Mas então eu me lembro do motivo de ter pego o ônibus para Los Angeles e vejo que não posso fazer isso com ela. Suspiro e desligo o rádio. Continuo dirigindo por quatro horas, passando por Tucson e quase chegando a Juárez. O céu está escurecendo e o sol já foi coberto por nuvens de chuvas. E dentro de poucos segundos, consigo ouvir o estalos das gotas caindo no teto do carro.
À medida que avançamos, a chuva começa a ficar forte. Tris acorda com o barulho da chuva e vejo ela estremecer quando escutamos o primeiro trovão. Ela se encolhe e coloca os pés no banco, abraçando os próprios joelhos. Mais um trovão e ela estremece novamente.
– Você tem medo de trovão? – eu pergunto sorrindo. Ela apenas assente. – Vem cá. – eu passo meu braço por cima do seu ombro e ela — sem hesitar — aninha sua cabeça em meu peito.
Eu continuo dirigindo, embriago pelo cheiro do seu cabelo. Cheira a morango. É bom. Enquanto avançamos, a tempestade para diminuir. Já não escutamos mais os barulhos dos trovões, mas Tris ainda não se soltou de mim. E eu não quero que ela se solte.
Depois de aproximadamente duas horas, eu paro o carro no acostamento da rodovia. Tris levanta a cabeça para me encarar melhor. Meus olhos caem para seus lábios e preciso usar todas as minhas forças para não beija-la.
– Você está cansado? – com seus olhos verdes, ela encara os meus.
– Não, daqui a meia hora estamos em Juárez. – eu respondo afastando um pouco seu cabelo da testa.
– Então por quê paramos? – ela me pergunta.
– Porque quero te mostrar uma coisa.
– Vamos sair do carro com essa chuva? – ela tira sua cabeça do meu ombro e se afasta.
– Não espera que a chuva pare só por sua causa, não é, Beatrice? – eu a provoco. Meu tom de voz é incrédulo.
– Eu não vou sair nessa chuva, Tobias. – ela cruza os braços e arqueia as sobrancelhas.
Acho que esse é um dos motivos por eu estar ficando tão fascinado por ela: teimosia. Beatrice é teimosa. Muito teimosa, aliás. E isso me faz um puta de um tarado, pois toda vez que ela faz essa birra eu tenho vontade de joga-la em qualquer canto e trepar com ela, em todas as posições possíveis.
– Tenho mais uma regra para nossa viagem, Beatrice. Regra número quatro: você tem que topar tudo que eu disser. – ela me encara incrédula. Posso ver a sombra de um sorriso se formando nos cantos de suas bocas, mas ela não sorri por completo. Creio que ela tenha imaginado algo totalmente do que eu pensei ao sugerir isso. – Se não concordar, paramos aqui mesmo e você volta pra Chicago de avião. – ela bufa e revira os olhos. Ela sabe que estou falando sério.
– Tá. – ela diz depois de um silêncio irritante.
Sorrio e abro a porta do carro.
– Venha. – eu digo e logo em seguida advirto. — E não questione. – eu aponto pra ela.
Ela respira fundo. Está puta comigo mais uma vez. O sorriso não abandona meus lábios e eu saio do carro. Sinto a chuva molhar meu corpo e não me importo com isso. Aliás, eu gosto disso. Não é uma tempestade, como a que pegamos na estrada. É apenas uma chuva forte. Muito forte. Em poucos segundos, meu corpo está completamente encharcado.
Tris demora alguns minutos para sair, e quando vou reclamar, escuto a porta do passageiro se abrir. Ela tenta se proteger da chuva, usando suas mãos em uma tentativa inútil. Por fim, ela suspira irritada e abaixa os braços. A chuva a ataca de forma brutal, deixando seu cabelo totalmente molhado colado ao pescoço. A trança aparenta ter menos volume quando molhada. Ela bate o pé no chão e faz bico.
– Qual a finalidade disso? – ela me pergunta irritada. Não consigo parar de sorrir.
– Vem cá. – eu chamo.
Ela hesita, então eu tomo o primeiro passo. Subo em cima do teto do carro e me deito. Observo o céu e vejo a chuva cair. Gota por gota. Espero por Tris, que depois de alguns segundos, repete o mesmo movimento que eu, subindo no teto. Ela se deita ao meu lado e logo fecha os olhos.
– Não. Não desse jeito. – eu digo. – Abra os olhos, Beatrice. – minha voz está suave.
– Isso não faz o menor sentido, Tobias. Você é louco. – ela diz, ainda de olhos fechados.
– Beatrice... – eu a advirto. – Você está desobedecendo a regra que eu acabei de impor. – ela bufa.
Então ela abre os olhos. Ela semicerra eles quando as primeiras gotas caem, mas logo se acostuma com ela em seu rosto. Assim como eu. Então permanecemos em silêncio. Aquele silêncio que conseguimos nos comunicar apenas com ele. Já consigo ver as estrelas no céu. Tris está novamente perdida em seus pensamentos, mas acho que de um jeito bom. Não consigo perceber mais aquele tristeza que eu vi desde no momento em que entrei no ônibus.
– Como se sente? – eu pergunto.
– Bem. – ela diz. – Acho que pela primeira vez, eu consigo me sentir bem. De verdade. – eu sorrio com sua resposta e vejo que ela se vira, apoiando-se em seu cotovelo. Ela está me encarando. Eu repito seu movimento e me viro, de modo que eu possa encara-la também. – Eu quero beijar você. – ela diz de repente.
Sua afirmação me deixa surpreso. Quero beija-la, mas não quero que seja dessa forma.
– Não acho que seja boa ideia. – eu digo me virando para cima novamente. Não quero encara-la depois do que acabei de dizer.
– Não me importo. – ouço sua voz nada alterada com minha resposta. – Eu continuo querendo beijar você. – ela faz uma pausa. – Eu quero provar dele. – eu permaneço em silêncio, surpreso demais com tudo isso. – Qual é, Tobias. É só um beijo. – ela diz.
Antes que eu proteste, em um movimento único, Tris se coloca por cima de mim enlaçando as pernas na minha cintura. Então ela segura meu rosto e sela nossos lábios. A chuva cai em nós e com seus lábios ela abre os meus, passando a língua na minha. Não aprofundo beijo. Não faço nada, aliás. Estou parado. Completamente imóvel. Então ela se afasta, e ainda em cima de mim, ela diz:
– Não é ruim. – ela diz com um sorriso. – Mas poderia ter sido melhor se você tivesse correspondido.
Então, ainda sorrindo, ela sai de cima de mim e desce do teto do carro. Estou atordoado. Minha melhor amiga acabou de me beijar? Não sei como reagir a isso. Depois de alguns segundos, minha ficha cai. Beatrice me beijou.
Desço do teto e entro dentro do carro. Ponho as mãos no volante e viro meu rosto para encara-la. Ela está com uma toalha, enxugando os cabelos e o corpo. Não parou de sorrir, mas quando seu olhar cruza o meu, seu sorriso se desfaz.
– Desculpa. – ela diz encolhendo um pouco os ombros. – Eu só segui seu conselho. Fiz o que achava que deveria ter feito, mas agora estou com medo do que você vai pensar de mim.
– Então não está seguindo meu conselho direito. – eu aponto para ela. — E a parte de não se importar com o que vão achar? – eu digo ainda atordoado. Minha ficha caiu, mas eu ainda não consigo acreditar. Devo estar sorrindo como um idiota.
– Tudo bem. – o sorriso dela retorna. – Não me importa o que você acha de mim, Tobias Eaton. – ela diz meu sobrenome e me surpreende. Deve ter prestado atenção no hospital. Ela vira as costas para mim, mas posso sentir que ainda está sorrindo. – Eu gostei. – ela se refere ao beijo.
Dou a partida e nós seguimos em direção a Juárez. Não consigo parar de sorrir. Ela deve me achar o maior imbecil se percebeu isso, mas foda-se. Conversamos algumas coisas, porém eu não presto atenção direito. Estou ocupado demais pensando no beijo sob a chuva.
Chegamos a Juárez e confesso que eu nunca tinha vindo aqui. É uma cidade bem feia, pra começar. Muito desorganizada. Demoro séculos para conseguir um hotel bom para ficarmos. Como vamos parar na cidade, hotéis são mais acessíveis. Decidi que ficaríamos em motel sem malícia alguma, já que eles são mais visíveis na estrada. Mas hoje, se ficássemos em algum motel, eu com certeza partiria para o meu lado ruim. Justamente por causa do beijo.
Estaciono o carro e nós descemos. Eu carrego nossa bagagem, incluindo o violão e a mochila de Tris. Ela passa a alça de sua bolsa por cima do ombro e nós caminhamos até o saguão.
– Boa noite. Em que posso ajudar? – a recepcionista não tira os olhos do computador.
– Dois quartos conjugados, por favor. – eu digo.
– Um momento. – ela digita sem parar e quando finaliza, ela finalmente nos olha. Seus olhos vão de Tris até mim. Então ela suspira e não fala nada enquanto me olha. Eu sorrio.
– Com licença? – Tris pigarreia. Reprimo uma risada.
– Desculpe. – as bochechas da recepcionista estão como pimentas. Ela pega as chaves e nos entrega. – Aqui está. Aproveitem o hotel.
– Obrigada. – Tris sorri e é notável que está sendo falsa.
Vamos até o elevador e ela aperta o número do nosso andar. Estamos em silêncio novamente, e Tris já mudou completamente seu humor. Ela não está mais sorrindo. Suas crises bipolares me irritam. Será que ela está assim porque não correspondi ao beijo? Não. Não é possível. Ela estava sorrindo até aqui. Ela não tem motivos para ficar irritada. A menos que...
– Você está com ciúmes. – eu digo colocando a bagagem no canto do quarto. Ela fecha a porta e bufa.
– Não, estou não. – ela nega claramente irritada. Às vezes me pergunto se ela realmente tem 18 anos.
– Não sei porquê você fica assim. Somos só amigos, não somos? – eu a provoco. Me deito na cama de barriga para cima e coloco os braços debaixo da minha cabeça.
– Claro que somos! E eu não estou com ciúmes. – ela nega mais uma vez. Sei que está mentindo. Meu sorriso aumenta ainda mais e eu nem sabia que isso era possível.
– Tá, acredito em você. – eu minto. – Agora vá se trocar. Vou te levar pra jantar hoje.
– Tipo um encontro? – a malícia na sua voz é inconfundível.
– Caralho, Beatrice, você tem mesmo 18 anos? – vejo que ela se diverte com tudo isso.
– Talvez. – ela diz e meio que eu desconfio. Me sento na cama pra poder encará-la e consigo ver que ela está mentindo. Suspiro aliviado.
– Ande logo, você sabe que não suporto esperar. – eu digo já um tanto impaciente.
– Absurdamente irritante, Tobias Eaton. – ela diz e caminha até o banheiro.
Ela rebola e me pergunto se é propositalmente. Respiro fundo e abro minha boca ao reparar na sua bunda naquele short. Puta que pariu. Puta. Que. Pariu. Já consigo sentir meu pau duro só por imaginar coisas que eu queria fazer com ela.
Me deito na cama novamente, e depois de alguns minutos, Tris sai do banheiro, vestindo apenas uma toalha. Ela não colabora. Ela quer me ver morto. Respiro fundo, me levanto, desvio o olhar da sua bunda — antes que meu pau solte para fora da calça — e entro no banheiro. Ligo o chuveiro no modo gelado e deixo que a água me lave de todas as formas possíveis. Acho que eu poderia ter um orgasmo só de ver Tris pelada.
Quando termino, enrolo a toalha em minha cintura e escovo os dentes. Arrumo meu cabelo e saio. Tris está passando hidratante nas pernas nuas. Ela veste um vestido preto, acima do joelho. Ele é justo até sua cintura e tem saia solta. Ela está de costas pra mim, o que mostra que possui uma abertura na parte de trás dele, deixando-as completamente nuas. Ela está tentando me seduzir. Então ela percebe que eu saí do banheiro e se vira para mim. Seus olhos analisam meu corpo e ela quase me devora. Quando se dá conta de que percebo seu olhar, ela desvia rapidamente e fica de costas novamente, pegando o secador para seus cabelos.
Ótimo. Eu entrei no seu joguinho de sedução.
Sorrio para mim mesmo e vou até minha mochila. Pego uma calça jeans preta, uma cueca e uma camisa amarela. Me troco no banheiro, com medo do que pode acontecer se eu fizer isso na frente de Tris. Eu não conseguiria me controlar. Depois que estou pronto, saio.
Tris ainda seca seus cabelos. Suspiro impacientemente.
– Ande logo com isso. – eu digo.
– Mas que porra de chatice, Tobias. – pela primeira vez eu a escuto chamar um palavrão.
– Eu não sabia que você tinha uma boca suja. – eu me sento na cama e a observo.
– É a convivência. – ela me olha e depois volta sua atenção para o cabelo.
– Deixa ele secar naturalmente. Você fica linda. – eu digo apontando pro cabelo dela.
– Tá dizendo isso por quê quer que saiamos agora? – ela semicerra os olhos pra mim.
– Em partes, sim. – eu sorrio. – Mas eu tô falando sério, você fica linda natural.
– Você já disse isso. – ela revira os olhos.
– E eu não me canso. – penso e depois suspiro ao perceber que disse em voz alta.
Tris respira fundo e desliga o secador. Ela dá uma última arrumada no cabelo e se vira pra mim. Ela está linda. Absurdamente linda. Seus olhos estão destacados por um lápis preto e seus lábios estão com um batom natural. Eu a olho dos pés a cabeça e, apesar de seu vestido não modelar muito seu corpo, ela está incrivelmente gostosa.
– Pronta? – eu pergunto sorrindo.
– Pronta. – ela afirma.
Eu pego minha jaqueta preta de couro e nós saímos do hotel. Entramos no carro e nós seguimos até o melhor restaurante que eu consegui encontrar. Apesar de termos conversado bastante durante o caminho, eu não consigo esquecer o beijo. Nem da sua imagem de toalha.
Eu sou um puta de um pervertido.
– Chegamos. – eu digo quando estamos em frente ao restaurante.
Saio do carro e abro a porta para Tris, que agradece gentilmente com um sorriso. Entrego as chaves para o funcionário e ele se encarrega de estacionar. Repouso minha mão nas costas nuas de Tris e nós caminhamos até uma mesa. Nos sentamos e um garçom nos entrega o cardápio.
– Sugestão do chef? – eu pergunto para Tris.
– Sugestão do chef. – ela afirma, sorrindo sem mostrar os dentes.
Eu comunico ao garçom e peço o melhor champanhe da casa. Não sei o porquê de estar fazendo isso. Eu só quero fazer e ponto. Eu coloco meus braços sob a mesa e olho para Tris. Ela não tirou os olhos de mim nem por um segundo.
– No que você está pensando? – eu pergunto curioso.
– No destino. – ela suspira. – Eu não esperava por isso.
– “Isso”? – pergunto confuso.
– Isso. – ela gesticula. – Nessa viagem, Tobias. – ela respira fundo e vejo que sua expressão mudou. Ela está cansada. Consigo ver em seus olhos a tristeza, embora que esteja distante. É como se ela estivesse se lembrando de algo.
– Você está vivendo no presente?
– O que viver no presente significa pra você? – ela me pergunta.
– Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira… Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda… Viva o momento, aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso. – eu respondo, como se recitasse algo.
Ela fica em silêncio e seus olhos não abandonam os meus. No fundo, por mais loucura que seja, eu sinto como se eu tivesse dito a coisa certa pra ela. Era como se ela precisasse ouvir algo assim. Deve ter algo a ver com seus mistérios. E acho que hoje eu irei descobri-los. Assim eu espero.
O garçom traz nosso jantar e nos serve champanhe. Tris e eu brindamos, ecoando juntos ao dizer a frase “ao destino”. Vejo que ela está mais leve, comparado ao momento em que chegamos aqui. A noite segue tranquilamente e nós conversamos sobre várias coisas.
Nós terminamos e eu pago a conta – dessa vez, sem Tris reclamando. Isso é bom. Significa que estamos avançando. Nós voltamos para o carro e seguimos de volta ao hotel. Tris sofreu novamente uma troca de humor repentina. Ela está novamente envolvida pelas muralhas que sou incapaz de atravessar e perdida em seus pensamentos. Chegamos ao hotel e seguimos para nossos quartos.
No quarto conjugado, há uma parede e uma porta interna que separa nós dois. Há cama de casal nas duas partes do quarto. Entramos e eu fecho a porta.
– Vai me contar a verdade agora? – eu pergunto, me sentando na cama e tirando meu all star.
Tris só fica em silêncio e segue para seu quarto. Ela fecha a porta interna e escuto o barulho da torneira ligada. Suspiro e pego o violão. Devo respeitar a decisão dela. Começo a dedilhar a canção do Nickelback que tocou no rádio hoje. Não consigo parar de pensar nela também e no quanto ela descreve minha situação agora em relação a Tris.
Depois de um tempo eu me pergunto se Tris já está dormindo. Guardo meu violão e tiro minha roupa, ficando apenas de cueca. Me deito na cama e quando estou prestes a pegar no sono, escuto a porta interior se abrir.
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