Sem rumo.
20 Capítulo 20
Notas iniciais
TOBIAS EATON
DUAS SEMANAS DEPOIS
Com o casamento se aproximando, tive que aguentar uma versão de Christina completamente histérica. Ela conseguiu arrastar Tris para cumprir toda a sua lista de coisas para se fazer antes do casamento e ainda a levou para decidir todos os detalhes da festa. Apesar de Tris estar animada e feliz pela amiga, ela não se importava em demonstrar sobre como tudo isso dava dor de cabeça.
Andrew está viajando com Edith já tem uma semana. Tris pareceu aceitar isso numa boa, apesar de saber que ela tá incomodada. Sei que leva tempo até você se acostumar. Sou a melhor pessoa pare entende-la. Caleb não tem nos incomodado desde o último incidente com Tris e eu estou satisfeito por isso. Ele está imparcial em relação a ela e, apesar de se sentir frustrada, Tris respeitou seu espaço. Estamos convivendo bem até.
Hoje pela manhã nós acordamos as seis. Eu quase joguei o despertador contra a parede. Tris o programou para essa hora porque o casamento finalmente é hoje e vai acontecer às quatro da tarde. Apesar de todo estresse que teve devido a isso, ela acordou animada e não conseguindo conter sua felicidade e ansiedade pela amiga.
– Oh meu Deus, finalmente! – ela salta da cama.
Vejo-a correr até a porta, mas ela lembra que não estamos sozinhos, então ela volta e cobre sua nudez com a coberta. Vê-la correndo pelo quarto enquanto seu peito se movia fazendo isso não ajudou em nada na minha ereção matinal.
Ela me dá um beijo curto quando passa por mim e corre em direção ao banheiro. Eu solto uma gargalhada ao vê-la tão elétrica e ponho o travesseiro na cabeça, cobrindo a audição e tentando voltar a dormir.
Quando acordo novamente, já é por volta das onze e meia da manhã. Tomo um banho e, depois de me trocar, eu desço. Tris não está em parte alguma da casa, mas me lembro que em algum momento ela mencionou que pretendia ficar com Christina e que só nos encontraríamos no casamento.
Vejo Will sentado no sofá, enquanto passa algum canal da TV.
– Não tá nervoso? – pergunto, me sentando no outro sofá.
– Um pouco. – ele diz, sem tirar os olhos da TV, o que só comprova que ele está mentindo.
Will e eu temos nos dado bem. Apesar de toda a posse que ele tem sobre Tris, ele é um cara legal. Nós conseguimos manter uma relação pacífica de macho para macho. Ele é uma boa pessoa e seu afeto por Tris e seu carinho tão natural por ela faz com que eu tenha respeito por ele.
– Porra, você mente mal. – eu confesso, esticando as pernas no sofá, enquanto mordo um pedaço de biscoito.
– Eu tô nervoso. – ele confessa, largando o controle da TV e juntando as mãos. – Eu tô nervoso pra caralho, cara.
– Dá pra perceber. – eu tento reprimir o sorriso divertido, mas é impossível. – Você tá arrependido?
– O quê? Não! Não é isso. É que... Bem, e se ela desistir? – ele me olha como se implorasse para que eu lhe dissesse o contrário.
– Ela não vai, acredite em mim. – eu dou risada do seu nervosismo. – Você tá agindo como um marica.
– Eu tô cagando pra isso! – ele diz. – Tô mais preocupado com o fato da mulher da minha vida me abandonar em cima do altar do que com o fato de estar parecendo um veadinho.
– É o seguinte, cara – eu começo. – Christina não começaria tudo isso se não tivesse certeza do que está fazendo. E depois, acha que ela estaria fazendo todo esse esforço pra te deixar na mão? – ele nega com a cabeça – Isso aí, porra. Agora é só encarar e ver no que dá. E se serve de consolo, você não é o único que tá tendo dor de cabeça com isso. Tris tem me deixado louco.
– Por falar em Tris – ele ajeita sua postura. – Esse lance entre vocês... É pra valer?
– Por que isso interessa tanto a você? – eu arqueio as sobrancelhas.
– Ela é como uma irmã pra mim, cara. Eu te considero muito. É coisa de macho mesmo, mas eu juro que eu o quebraria na porrada se você a machucasse. Ela gosta muito de você.
– Eu sei disso. – eu confesso. – E não vou machuca-la. Acredite, mesmo se eu tivesse a intenção, eu não o faria. Minhas bolas já foram ameaçadas centenas de vezes e mano, eu tenho um certo amor por elas.
– E amor por Tris? – sinto como se eu tivesse levado um soco no estômago. – Você tem amor por ela?
A pergunta me tira o ar por alguns segundos. Sinto como se tivesse levado um tapa no rosto e demoro algum tempo para responder. Will me encara com um sorriso diabólico no rosto, como se esperasse essa minha reação e já imaginasse a resposta.
– Muito. – confesso.
– Ótimo. – ele sorri e se estica no sofá.
Ele muda o canal da TV e nós assistimos a uma partida de basquete. Quando faltam apenas duas horas para a cerimônia, Will e eu seguimos para nos arrumarmos. Em poucos minutos, nós estamos prontos, com ternos e gravatas borboletas. O terno de Will é acinzentado brilhante, enquanto o meu é preto, por cima de uma camisa social branca.
Depois de conversarmos algumas merdas e tentar aliviar a tensão de Will, finalmente chega a hora em que devemos ir ao local. O casamento será rústico, em um campo afastado da cidade. Ao chegar lá, noto o quanto a decoração deve ter custado uma fortuna. As mesas redondas estão numa área mais reservada. As cadeiras brancas estão arrumadas em perfeitas fileiras e o tapete vermelho no centro vai da ponta até o local onde o pastor ficará.
Enquanto a hora vai se aproximando, os convidados vão chegando ao local. Tem bastante gente aqui que estou me perguntando se todas as mesas serão o suficiente. Me afasto de Will e o vejo seguir para o altar, esperando por sua noiva. Ele retira o lenço do paletó a cada cinco segundos e enxuga as gotas de suor que se formaram em seu rosto. Qualquer pessoa aqui nota o quanto ele está nervoso.
Estou sentado numa das cadeiras da primeira fileira e quando ele olha para mim, eu falo:
– Ainda dá tempo de desistir, cara.
– Não quero desistir. – ele dá um sorriso nervoso. – Ela só está demorando pra caralho.
– Fica frio. Elas vão chegar. – eu o asseguro.
Ele respira fundo e sorri para o fotógrafo que foi contratado. Quarenta minutos depois, é soada a marcha nupcial. Todos nós viramos a cabeça para trás para observarmos a entrada da noiva. Meu queixo cai quando a vejo. Tris está absurdamente linda. Ela segura a mão de Christina, enquanto as duas caminham lentamente até a frente. Os olhos de todos estão grudados em Christina, mas o meu olhar está fixo em Tris. Seu vestido é creme, com alça nos dois lados, formadas por pérolas brilhantes. Ele é decotado na frente e vai até suas coxas. Seu cabelo está trançado por cima do ombro, do jeito que eu tento adoro, e ela usa uma pequena coroa de flores na cabeça. Seus saltos são prateados e ela está deslumbrante.
Quando elas finalmente chegam até Will, Tris a entrega e dá um beijo na bochecha dele, pegando o buquê de rosas e se afastando um pouco deles, ficando do lado esquerdo do altar. Eu não consigo parar de olhá-la. Observo cada movimento seu, pretendendo guarda-lo para sempre na minha memória. Ela sorri para mim e dá uma piscadela, enquanto seguimos toda a programação.
Quando a cerimônia termina e Will e Christina dão seu primeiro beijo de marido e mulher, uma chuva de palmas toma conta do local. Todos que estão sentados se levantam e assobiam, enquanto os noivos se viram e caminham até as mesas e a pista de dança. Enquanto a multidão sai, eu me aproximo de Tris.
– Você não tem noção do quanto você está linda. – eu digo, quando levanto seu queixo e lhe dou um beijo terno.
– Você tá extremamente sexy nesse terno. – ela sorri e eu me afasto um pouco, dando uma volta para que ela me analise melhor.
– Você gostou?
– Maravilhoso. Está pronto pra cantar? Temos que subir no palco daqui a pouco.
– Você disse nós. – eu digo e devo estar sorrindo como um idiota. – A ideia ainda está de pé?
– Eu estou nervosa. – ela confessa.
– Você vai se sair bem. – eu seguro sua mão. – Preparada? – ela assente.
Eu a beijo e ela enlaça as mãos no meu pescoço, tendo mais acesso para me beijar de forma mais intensa. Quando finalizamos, nós seguimos para a área de dança, indo em direção ao palco. Eu subo primeiro e faço um teste no microfone, atraindo a atenção de todos, inclusive de Christina, que junta as sobrancelhas ao me ver, mas logo abre um sorriso.
– Boa noite a todos! – eu digo. – Bem, eu gostaria de roubar um pouco da atenção de vocês. Eu vou cantar agora uma música que compus pra uma garota incrível, só não mais incrível que a nossa noiva de hoje – eu aponto para Christina e todos aplaudem. Isso não é verdade, mas como o dia é de Christina, eu resolvo fazer esse esforço. – A música será um presente de casamento e pra cantar comigo, eu quero chamar ao palco uma pessoa especial. – eu sorrio e os convidados aplaudem. Olho para o lado e Tris sobe lentamente, com suas mãos trêmulas. – Essa é Beatrice, pessoal. A melhor amiga da noiva e minha musa inspiradora.
Quando Tris sobe ao palco, os aplausos se tornam mais fortes e os assobios são disparados também. Ela acena e sorri para Christina, dizendo algo que não entendo. Christina a olha maravilhada, com os olhos lacrimejados, enquanto bate palmas de felicidade e abraça Will. Ele acena com a cabeça para Tris, lhe dando um sorriso e fazendo um gesto de aprovação.
Eu ajusto o violão, movendo o apoio no meu ombro, enquanto Tris pega um pedestal e põe o microfone nele. Ela se senta em um banquinho, enquanto um dos componentes da banda que foi contratada coloca um para mim também. Tris e eu ficamos um de frente para o outro.
Quando a multidão cessa, e todos esperam que nós comecemos, eu inicio os primeiros acordes, enquanto sussurro palavras de incentivo a Tris, já que ela quem canta a primeira parte.
– Você vai conseguir. Apenas se lembre das pausas. – eu lhe dou um sorriso e ela assente.
E então ela começa a cantar a primeira frase com uma incrível e perfeita afinação. Eu suspiro e fecho os olhos, deixando que sua voz acalme minha alma.
Tris
Come up to meet you, tell you I'm sorry / Vim pra lhe encontrar, dizer que sinto muito
You don't know how lovely you are / Você não sabe o quão amável você é
I had to find you, tell you I need you / Tenho que lhe achar, dizer que preciso de você
Tell you I set you apart / E te dizer que eu te escolhi
E então eu começo a minha parte, abrindo os olhos e olhando bem no fundo dos de Tris.
Tobias
Tell me your secrets and ask me your questions / Conte-me seus segredos e faça-me suas perguntas
Oh, let's go back to the start / Oh, vamos voltar pro começo
Running in circles, coming up tails / Correndo em círculos, perseguindo a cauda
Heads on a science apart / Cabeças num silêncio à parte
E quando é chegado o refrão, nós dois entoamos juntos com uma incrível conexão. Ela sorri no final de algumas frases, enquanto eu canto, totalmente maravilhado por ela.
Ambos
Nobody said it was easy / Ninguém disse que seria fácil
Tris
It's such a shame for us to part / É uma pena nós nos separarmos
Ambos
Nobody said it was easy / Ninguém disse que seria fácil
Tobias
No one ever said it would be this hard / Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim
Ambos
Oh, take me back to the start / Oh, me leve de volta ao começo
Eu aceno com a cabeça, em total aprovação para ela, enquanto ela sorri e espera o momento em que deve entrar novamente.
Tris
I was just guessing at numbers and figures / Eu só estava pensando em números e figuras
Pulling the puzzles apart / Rejeitando seus quebra-cabeças
Questions of science, science and progress / Questões da ciência, ciência e progresso
Do not speak as loud as my heart / Não falam tão alto quanto meu coração
Tobias
But tell me you love me, come back and haunt me / Diga-me que me ama, volte e me assombre
Oh, and I rush to the start / Oh, e eu corro pro começo
Running in circles, chasing our tails / Correndo em círculos, perseguindo a cauda
Coming back as we are / Voltando a ser como éramos
Ambos
Nobody said it was easy / Ninguém disse que seria fácil
Tris
It's such a shame for us to part / É uma pena nós nos separarmos
Ambos
Nobody said it was easy / Ninguém disse que seria fácil
Tobias
No one ever said it would be this hard / Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim
Ambos
Oh, take me back to the start / Oh, me leve de volta ao começo
E então eu faço o solo do violão, enquanto ela me acompanha, entoando “oh oh” e repetindo a frase principal da música. Por fim, nós encerramos, um olhando nos olhos do outro.
– Oh, ooh, ooh, ooh, ooh, ooh… — Dizemos, enquanto uma salva de palmas toma conta do local.
Tris sorri para o público e me dá um beijo na bochecha, enquanto desce do banco e sai do palco. Eu entrego o violão a um dos integrantes da banda e agradeço aos convidados pela recepção, quando a banda entra e começa a tocar, enquanto eu sigo Tris. Ela está parada, de braços cruzados e quando me vê, ela se joga em meus braços.
– O que achou? – eu pergunto, enquanto giro com ela no abraço.
– Você tinha razão! Foi incrível! Diferente... Completo... Oh meu Deus, eu estou tão feliz! – ela sorri de orelha a orelha, enquanto dá vários beijos no meu rosto. Eu sorrio ao ver que tudo funcionou.
– Estou orgulhoso pra caralho de você. – confesso, enquanto a coloco no chão. – Topa fazer isso de novo depois?
– Eu não sei... – ela diz, a insegurança nítida em seu tom de voz.
– Mas você foi incrível, gata. Porra, você foi perfeita! – eu digo, tentando encontrar um elogio que possa realmente dizer o que estou sentindo.
– Não sei se tô pronta... – ela diz, mas logo junta as sobrancelhas. – Espera, eu quero fazer isso de novo sim!
– Porra, eu tô tão feliz! – eu a abraço novamente, dessa vez beijando-a apaixonadamente nos lábios.
Até que ouvimos um pigarreio e nos separamos. E, em um fração de segundos, Christina envolve Tris num abraço apertado e orgulhoso.
– Esse foi o melhor presente de casamento que eu poderia receber! Foi tão incrível! Você é incrível, Tris! Eu sempre soube que esse dia chegaria. – ela tagarela, enquanto enche Tris de beijos.
Will aparece atrás dela.
– Estou tão feliz por você, anjo. – ele diz, quando Christina se solta dela e ele a abraça.
– Eu que estou feliz por vocês! – Tris diz.
Christina se aproxima de mim e sussurra ao meu ouvido.
– Obrigada por convencê-la a fazer isso. Você não tem ideia do quanto é importante.
Eu apenas sorrio pra ela e olho para Tris, sendo tomado por uma onda de orgulho e admiração. Nós voltamos para os convidados e Christina e Will se separam de nós, indo para a sessão de fotos e fazendo a recepção para todos os convidados. Eles aparentam estar muito felizes com esse casamento.
Tris se levanta da nossa mesa e me diz que vai até o bar, buscar alguma bebida para nós dois. Eu a observo ir até lá e me pego pensando se ela aceitaria se casar comigo. Com todo esse clima, eu começo a imaginar um futuro com ela ao meu lado. E gosto do que vejo. E Isso poderia dar certo, se não fosse por...
Meus pensamentos são interrompidos quando vejo uma figura masculina se aproximar dela. Eu o reconheço quase instantaneamente. Al, o amigo de infância dela que encontramos em Miami. Eu cerro os punhos e me levanto da mesa, indo me certificar de que está tudo bem com ela. Não é ciúme. É porque eu realmente não confio nesse cara. Algo me diz que não devo confiar.
Me aproximo do bar, mas me surpreendo ao ver que eles não estão mais ali. Sinto um aperto no coração e meus extintos se propagam. Olho ao redor, mas não consigo encontrar sinal deles. Não me lembro de como os perdi de vista.
– Beatrice? – eu a chamo.
Nenhuma resposta. Continuo caminhando e me afastando de todos, até que ouço algo. Procuro em volta, mas não há ninguém por aqui.
– Me larga! – escuto a voz dela, não muito distante.
Então eu começo a correr em direção ao som. Viro a esquerda e me deparo com um tipo de beco de flores e a cena que vejo faz meu sangue ferver. Al está imprensando Tris contra o canteiro alto de flores, enquanto ela o tenta afastar.
– Ela disse não, porra! – eu grito e o puxo por trás, segurando a gola de sua camisa.
Quando ele se vira para reagir, eu o soco. E é quando eu não enxergo nada a minha volta, apenas o imbecil que tentou agarrar minha garota. Eu o soco milhares de vezes no rosto, pouco me importando se vou quebrar algum osso dele. Quando acho que é o suficiente, eu paro e me levanto.
Ele está com uma mão no nariz e geme de dor. Eu me aproximo de Tris e a vejo com as sobrancelhas juntas, encarando Al, que ainda está no chão.
– Está tudo bem, amor? – pergunto.
– Está. – ela responde e olha pra mim. – Eu só não entendo. Nós éramos tão amigos... E ele, bem... Ele está diferente agora.
– Eu sabia que não deveria confiar nele. Deve ser um louco. – digo. – Venha, vamos voltar pra festa.
Ela assente e nós seguimos de mãos dadas, de volta para todos os convidados. Depois do incidente com Al, se passam apenas poucos minutos para que eu note que Tris está diferente. Ela está suando e põe a mão na cabeça várias vezes. Eu fico alarmado.
– Gata, tá tudo bem mesmo? – pergunto.
– Sim, eu só acho que bebi demais... – ela diz. Sua voz está estranha. – Preciso do banheiro...
Ela se levanta, mas logo sente uma tontura. Eu me levanto também.
– Não quer que eu vá junto?
– Não preci... – mas antes que ela possa responder, os joelhos dela cedem e eu a seguro.
E ela cai desmaiada em meus braços. O desespero toma conta de mim. Ponho em meus braços e olho em volta, procurando por ajuda. Penso em gritar por Christina, mas ela não está aqui. Nenhum convidado está, aliás. Esse é o momento da dança dos noivos.
A sento na cadeira e tento pensar no que poderia ter causado esse desmaio. Não pode ter sido apenas uma bebida, já que Tris já havia bebido antes. Eu analiso sua temperatura. Ela tá gelada e ficando pálida. Sinto minhas mãos tremerem, mas então eu me lembro que essa reação é causada por...
Eu passo a língua por seu lábio inferior e minha expectativa é comprovada. Sinto o gosto de droga. Merda. Merda. Merda. Mil vezes merda. Me xingo várias vezes e começo a ficar nervoso com a minha incapacidade de fazer alguma coisa.
E então alguém se aproxima de mim.
– O que aconteceu? – me viro para ver Caleb de braços cruzados. Seu olhar indo de mim a Tris e sua expressão ficando desconfiada.
– Drogaram ela. – eu respondo, tentando achar o celular.
– Como assim drogaram ela? – ele pergunta, sua voz uma mistura de descrença e preocupação.
– Drogaram ela, porra! Colocaram algo na bebida dela...
– Quem fez isso? – ele está com raiva.
– Eu não s... – paro. E me lembro de Al pegando bebida com ela. Dou um soco na mesa, fazendo com que Caleb se assuste. – Eu vou mata-lo! – grito com raiva.
E começo a ir atrás de Al, mas Caleb põe a mão no meu ombro, nervoso, me fazendo parar.
– Temos que cuidar dela antes. – ele diz.
E minha frustração se desfaz quando eu a vejo sentada da mesma forma que eu a coloquei, dessa vez mais pálida que antes. Meu coração se aperta e sinto vontade de me esmurrar por ter sido tão irresponsável.
– Vamos leva-la a um hospital. – eu digo, quando me aproximo e a ponho em meus braços novamente.
– Não é preciso. Não é tão grave quanto aparenta. Ela só precisa tomar soro para desintoxicar. Vamos levar ela pra casa que eu cuido dela.
– Por que devo confiar em você?! – grito. Meu humor se alterando pela preocupação que estou por Tris.
– Porque eu também a amo. – ele suspira.
Sua resposta me pega desprevenido. Sei quando uma pessoa está mentindo e Caleb está sendo bem sincero com suas palavras. Também sei que ele está se formando em medicina, então deve saber o que está dizendo e se afirma que não é tão grave, eu decido confiar nele.
Nós caminhamos até o carro e eu vou no banco traseiro, com Tris em meus braços. Caleb telefona para Susan e explica o motivo da nossa saída e também pede que avise a Christina, mas dizendo a ela que está tudo bem e que não precisa se preocupar. Apesar da circunstâncias, eu faria a mesma coisa. O dia do casamento é uma data especial e eu não iria querer foder o dia de Christina e Will.
Quando chegamos em casa, eu subo com Tris em meus braços e a coloco deitada na cama, apoiada em vários travesseiros. Eu abro as cortinas do quarto e tiro suas sandálias de salto, enquanto Caleb aplica o soro em sua veia. Eu me encosto à janela do quarto, enquanto o observo medicá-la. Ele toma todo cuidado possível com ela e quando confere o soro, alisa seu cabelo e a beija na testa.
– Ela desmaiou porque não comeu nada e com isso, a droga fez efeito mais rápido. Mas como eu havia dito, não é nada sério e ela vai ficar bem. Daqui a algumas horas ela acorda.
– Certo. – eu digo de braços cruzados.
– E, Tobias, mais uma coisa – ele fala e põe as mãos no bolso da calça, enquanto eu espero que ele continue. – Não diga a ela sobre isso. – ele gesticula e eu entendo que ele se refere a ele, mas não entendo o motivo de não querer que Tris saiba.
– Não entendo. Vocês são irmãos, então não precisam...
– Não precisa entender. – ele me interrompe e ignora o que eu falo. – Apenas não diga, tá legal?
– Sem problema.
– Bom, eu vou voltar pra buscar Susan, mas se perceber algo estranho me ligue.
Ele anota o número do celular em um papel e me entrega. Eu assinto e o vejo sair do quarto, fechando a porta. Me aproximo dela e me sento na ponta da cama, acariciando seus pés.
– Desculpa por deixar isso acontecer, amor... – eu digo, enquanto fecho os olhos e tento evitar a culpa que sinto.
Mas ela é inevitável. E está lá para me lembrar do quanto fui burro por não prestar atenção e tomar cuidado por Tris. A cena dela conversando com Al no bar se repete em minha mente inúmeras vezes e eu sinto como se tivesse levado um soco no estômago. Aquele desgraçado... Eu iria atrás dele mesmo que fosse no inferno e o quebraria na porrada.
Converso com Tris enquanto ela está dormindo. Falo coisas para ela mesmo sabendo que ela não pode me ouvir e nem me responder. Eu conto sobre como foi o nosso dia, sobre o que senti ao cantar com ela e me desculpo por ter deixado isso acontecer. Por mais que uma parte dentro de mim diga que não é minha culpa, eu sempre acabado ouvindo a parte que diz que fui um completo irresponsável.
Depois de algumas horas de conversa, vejo Tris se remexer um pouco e ajeito minha postura. Ela abre os olhos sonolentos e olha ao redor. Por fim, seu olhar para em mim e vejo um alívio passar por ele.
– Como está se sentindo? – eu pergunto.
– Bem. O que aconteceu? Por que eu vim parar aqui? Onde estão Chris e Will? – ela junta as sobrancelhas.
– Drogaram você, amor. Tive que te trazer pra casa. – digo, enquanto me levanto e me sento mais próximo dela.
– Hm... – ela solta e suaviza sua expressão. E então ela olha para o soro que está imposto na sua mão direita. – Você quem aplicou? Eu tô surpresa. – ela sorri. Eu apenas dou de ombros, não querendo tocar no assunto para não ter que mentir ainda mais para ela.
– Desculpe por deixar isso acontecer com você. – suspiro e seguro sua mão. – Eu sinto muito.
– O quê? – ela junta as sobrancelhas. – Tobias, não foi sua culpa.
– Foi sim, se eu tivesse prestado mais atenção ou...
– Tobias, pare. – ela levanta a mão que está sem o soro. – Não quero você se culpando por isso. É injusto. Você não fez nada. – a mão agora está em meu ombro, de modo reconfortante.
– Exatamente esse o nosso problema. Eu não fiz nada, amor. – confesso derrotado.
– Você tá aqui comigo, não tá? – eu assinto. – Então está tudo bem. Você está cuidando de mim. Até aplicou o soro. – ela brinca.
– Sou mil e uma utilidades. – eu lhe dou um sorriso fraco e uma piscadela.
– Eu sei disso. – ela sorri. Eu dou de ombros e sua mão começa a acariciar meu cabelo. – Como me drogaram?
– Puseram alguma coisa na sua bebida. Não sei o que era, mas seu corpo não reagiu muito bem. E eu tenho minhas suspeitas de quem possa ter feito isso. – digo, sentindo meu corpo enrijecer ao pensar em Al.
– Al? – ela franziu a testa, confusa. Apenas assenti. – Bem, ele não costumava ser assim. Ele foi meu melhor amigo na infância, não entendo porque fez isso.
– Vai ver ele queria te comer. – dou um meio sorriso, tentando lidar com a situação com meu senso de humor. – Mas me magoa ouvir você dizendo que ele é seu melhor amigo. Achei que eu fosse seu melhor amigo.
– Você é, mas não da maneira que ele foi. – ela repousa sua mão em cima da minha e enlaça seus dedos nos meus.
– Ah não? – eu levanto as sobrancelhas. – Ele foi um melhor amigo melhor do que eu? Eu duvido muito disso, amor. – digo com um sorrisão, mas sinto uma pontada de dúvida.
– Eu quis dizer que não senti por ele o que sinto por você. – ela confessa.
– E o que você sente por mim? – de repente eu estou muito interessado no assunto.
Diga primeiro. Diga primeiro. Diga primeiro.
– Por que somente eu devo falar? Por que você nunca me conta nada? – o sorriso que ela tinha desapareceu e suas sobrancelhas estão juntas, numa espécie de tristeza e confusão.
– Tem razão. – eu confesso, encolhendo os ombros e respirando fundo. – Vamos voltar às perguntas? – ela assente. – Fala aí, então.
– Ok. – ela morde o lábio inferior, pensativa, e eu me sinto tentado a mordê-lo também. – O que você quis dizer quando disse que eu me encaixava?
– Você quer mesmo saber? – eu pergunto com uma expressão divertida. Ela sorri e leva a mão até a minha bochecha novamente, acariciando-a levemente.
Eu respiro fundo antes de falar.
– Bem... Eu sempre senti um... Um... – eu desvio o olhar do seus olhos e começo a olhar para a lua lá fora, através da janela. Penso nas palavras certas que devo usar e escolho-as com cuidado. – Um buraco... Tipo, não era um buraco vazio, sempre tinha alguma coisa dentro dele, mas nunca era a coisa certa. Nunca se encaixava. Nunca fiquei feliz fazendo nada, Beatrice.
Faço uma pausa e solto um longo suspiro. Estou mais admitindo isso para mim mesmo do que para ela. Tris me olha com os olhos curiosos, esperando que eu continue.
Eu respiro fundo novamente e finalmente a encaro.
– E aí eu conheci você... E foi como se alguma coisa disparasse na minha cabeça, ou acordasse, n-não sei, mas... – seus olhos brilham de emoção com as palavras. Penso em beija-la agora, mas preciso terminar de falar. – Mas eu sabia que, fosse o que fosse, era o certo. Encaixava. Você se encaixava, Beatrice.
Ela fecha os olhos e sorri. Depois, quando os abre, eles estão grudados nos meus.
– Eu quero te dizer tanta coisa... – ela suspira. Sua voz é extremo cansaço e ela boceja. Força os olhos a se manterem abertos, mas eles estão sonolentos. Ela precisa descansar. Talvez seja algo da medicação que Caleb a deu.
– Eu sei, amor. – eu acaricio seu rosto e beijo sua testa. – Eu também tenho muita coisa pra te dizer, mas agora você precisa descansar, tá bem?
– Tudo bem. – ela boceja novamente. – Mas não saia.
– Vou estar aqui quando você acordar, não se preocupe. – eu beijo sua mão.
Ela fecha os olhos e suspira, enquanto eu acaricio seu cabelo e a observo pegar no sono rapidamente. Caleb chega no nosso quarto por volta das uma da madrugada, para retirar o soro de Tris. Ele retira cuidadosamente e mais uma vez, cuida da sua saúde. E, antes de sair, se certifica de que eu não vou falar nada. Seja o que for que ele esteja fazendo, eu prefiro não contra argumentar e acabo concordando.
Não consigo dormir nem tão cedo. Ao invés disso, eu me aconchego em conchinha com Tris e afundo meu nariz em seus cabelos, querendo memorizar esse momento único. Todo momento é único com ela.
E, quando seu corpo está colado ao meu, eu choro baixinho, pensando em tudo que estou escondendo dela e em quanto estou sendo covarde por adiar o inevitável. Mas não importa, adiarei o quanto for preciso. Pretendo aproveitar cada momento ao lado de Tris.
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