Sem rumo.
12 Capítulo 12
Notas iniciais
TOBIAS EATON
Dói olhar pra ela. Antes não doía, mas agora dói. E muito. Dói porque sinto que ela está totalmente certa e de que não podemos ficar juntos. Nós somos melhores sendo apenas amigos. Porra, eu não posso fazer isso com ela. Eu simplesmente não posso. Observo os nós dos meus dedos brancos e percebo que estou apertando o volante com tanta força que é capaz de torce-lo. Respiro fundo e tento me acalmar. Tenho que me concentrar na estrada. Não só minha vida –eu tô pouco me fodendo pra ela– mas também estou pondo a vida de Beatrice em risco.
Concentre-se. Repito para mim mesmo.
Mas eu não consigo me concentrar quando ela se veste assim, cara. Tão inocente e ao mesmo tempo tão determinada. Ela fez a trança que eu tanto amo. Ela não tá usando maquiagem. Ela tá linda demais.
– Primeira parada, senhorita Prior. – eu digo e estaciono o carro.
Eu dou a volta e abro a porta pra ela. Beatrice parece já ter se acostumado com esse gesto, mas ela nunca esquece de agradecer. Eu também me acostumei com isso. Lembro do único motivo que me levou a abrir a porta do carro pra ela na primeira vez: só parecia o certo. Ela era aquela garota que merecia aquele tipo de tratamento. Tô orgulhoso pra caralho de mim mesmo.
Quando ela sai do carro, nós começamos a caminhar. Beatrice me deixa guia-la pelo centro da cidade e toda vez que ela aponta para algum lugar, eu explico toda a história dele. Eu não cresci em Houston. Não. Mas digamos que essa não é a primeira vez que eu venho aqui. Tris analisa cada lugar com admiração. É estranho. Houston não tem tantos pontos turísticos assim e é somente por ser uma das melhores cidades do Texas que eu decidi fazer esse passeio. Estamos cercados de pessoas. O centro é bastante movimentado e apesar de ser um pouco estressante, Tris parece não se incomodar. Pelo menos ela não demonstra isso.
– Vamos fazer uma pausa. Está quente. – eu digo. Não sou de suar, mas o sol está pegando pesado conosco.
– É uma ótima ideia. – Tris sorri gentilmente.
Eu a levo para um café famoso dali. O local é fresco e calmo. Apesar de ser grande e bem movimentado, ele não é barulhento e nem desorganizado. Eu gosto daqui. Sempre gostei. Caminhamos até os fundos e eu escolho uma mesa próxima à janela. É legal observar o mundo daqui de dentro. Eu puxo uma cadeira para Tris e ela se senta. Me sento em uma à sua frente e uma garçonete nos atende. Ela é gentil. E acho que é a primeira que vejo não dar em cima de mim.
– Boa tarde, posso ajudar? – ela pergunta e divide a atenção para mim e Tris. Isso é ótimo, pois assim ela não tem os olhos somente em mim igual a todas as outras.
– Dois cafés amargos, por favor. – Tris sorri para ela gentilmente. Acho que é a primeira vez em que não é irônica com alguma garçonete.
– Eu não tomo café. – eu dou um sorriso pra Tris. Imagino que ela tenha pedido um pra mim.
– Tá falando sério? – ela sorri surpresa. – Então por que viemos aqui?
– Porque eu gosto daqui. – eu apoio meus braços esticados sob a mesa.
– Tudo bem, então. – Beatrice me encara e depois se volta para garçonete. – Apenas um café amargo. – ela diz.
– Mais alguma coisa? – a garçonete sorri. Ela é bonita e sua gentileza só a deixa ainda mais angelical. O local tem sorte de ter funcionárias assim. Atrai bem mais clientes.
– Uma água. – eu digo.
A garçonete assente e sai. Encaro Tris e ela tem os olhos verdes pregados em mim o tempo todo. Estamos em silêncio, falando somente através dos olhares. Preocupado com sua saúde, eu decido quebrar o silêncio.
– Está se sentindo melhor? – eu pergunto.
– Sim. Obrigada pelos remédios. – ela sorri e repousa sua mão em cima da minha. Eu gosto do toque dela. É acolhedor.
– Me fala sobre você. – eu digo mudando de assunto. Tris semicerra os olhos para mim e sorri.
– Me fala sobre você. – ela rebate.
– Tá legal. O que quer saber? – eu me acomodo na cadeira sem tirar meu olhar do seu.
– Posso perguntar qualquer coisa? – ela me encara curiosa e cheia de expectativa. Não consigo negar nada quando ela me olha desse jeito.
– Qualquer coisa. – eu sorrio gentilmente, pois confio nela.
– Então vamos começar pelo início. – ela diz e enlaça uma mão na outra. – Por que pegou um ônibus para Los Angeles se não pretendia ficar lá? – sinto que todo o oxigênio foi retirado de mim. Eu não esperava por essa pergunta. Não estou pronto para contar o verdadeiro motivo, mas também não posso mentir pra ela.
– Basicamente o mesmo que você. A música tinha sido a minha única companhia durante muito tempo, então eu decidi sair sem destino fazendo o que gosto. Sendo que o primeiro lugar que eu fui parar foi Los Angeles e eu gostei da ideia. – não há nenhuma mentira e isso é bom.
– Interessante. – ela diz maravilhada. – Mas como assim sua única companhia? Garotas não contam? – ela sorri.
– Não garotas vazias. – eu advirto-a. – Próxima pergunta. – sorrio.
– Hm... – ela pensa. – Algum livro favorito?
– O que faz você pensar que eu gosto de ler? – eu a encaro sério.
– Você é inteligente. Esperto. Deve ter lido alguma coisa na vida. – ela cruza os braços.
– Você tá certa. – respiro fundo. – Anne Frank. É meu favorito.
– Tá falando sério? – ela me encara incrédula e logo sorri. – Por quê?
– Eu li ele pra um trabalho do colegial. Meu professor de história me detestava e quando eu pisei na bola, ele pegou pesado comigo. Ler esse livro e apenas dizer a mensagem que ele quis passar. Eu poderia ter trapaceado, pesquisado na internet ou qualquer outra coisa, mas, de uma certa forma, algo me dizia que seria uma experiência ótima. E na verdade foi. Tirei 9.8 no trabalho, o que me deixou muito chateado, mas o professor teve seus motivos. Ele nunca gostou de mim mesmo. Mas depois eu o agradeci, porque consegui me apaixonar por Anne. Acho que foi a primeira garota por quem eu me apaixonei. – eu sorrio.
– Espera, você nunca se apaixonou antes? – ela está me encarando curiosa novamente.
– Não. – eu respondo. – Digo, não de verdade. – eu corrijo. – Já tive minhas paixões do colegial, mas nada pelo qual valesse a pena lutar.
– Eu sinto muito.
– Sério? – agora eu que estou curioso. – Por quê?
– Porque é bom. Não tem sentimento melhor do que amar. – ela está intensa e seus olhos –apesar de me encararem– estão distantes. Estou curioso.
– Eu não falei que não amei ninguém. – eu balanço a cabeça. — Eu falei que nunca me apaixonei. São coisas diferentes, Beatrice.
– Tem razão. – ela diz. – Acho que eu também nunca me apaixonei de verdade. – ela suspira.
– Não tá falando sério. E quanto ao seu namorado? – eu pergunto curioso.
– Peter? – ela pergunta e eu aceno com a cabeça. – Eu o amei. Muito. Mas acho que nunca fui apaixonada de verdade por ele. – ela está confusa e vejo que pensou muito bem sobre o assunto.
– Sinto muito. – eu digo.
– Não sinta. – ela sorri.
Então a garçonete volta com nossos pedidos e Tris agradece. Ela bebe seu café enquanto olha pela janela. Não quero invadir seu mundo agora. Não quando sinto que estou conseguindo derrubar muralha por muralha. Não vou foder tudo de uma vez. Eu bebo minha água e depois de terminar, Tris volta seu olhar para mim e diz:
– Vamos? Temos muito o que conhecer ainda. – ela sorri.
Eu assinto e pago a conta. Eu fico satisfeito por ver que ela não discute mais comigo por isso. Ela não teve uma vida fácil, e apesar de não fazer questão pelo dinheiro, eu decido poupá-la. Eu tenho muito e não vejo problema em gastar com ela. Nunca fui mesquinho.
Nós saímos do café e eu a levo até o shopping. Nunca fui fã de compras. Aliás, eu detesto fazer isso. Não sou um cara paciente, mas Tris me disse que precisava comprar roupas, então posso fazer esse esforço.
Quando está perto das 20hrs, eu decido me sentar em um banco próximo a praça de alimentação. Estou segurando apenas três sacolas, o que me surpreende. Tris não comprou muita coisa. Ela me falou que precisava economizar, e apesar de eu insistir, ela não me deixou pagar nada. Estou um pouco furioso, mas ao mesmo tempo eu sinto orgulho dela. Ela é incrível.
– Pode me esperar aqui um segundo? Preciso ir ao banheiro. – ela diz quando eu me sento no banco.
– Vai lá. – eu sorrio.
Então ela sai de vista. Sinto o celular vibrar no bolso e eu o tiro. É Zeke. Deslizo o dedo pela tela e atendo a chamada.
– Fala. – eu digo.
– Cara, pega leve. – ele diz e eu solto uma risada. Ele sorri também. – Como você tá?
– Eu tô bem. – o sorriso não abandona meus lábios. – Bem pra caralho, aliás. Mano, eu tô vivendo o melhor momento da minha vida.
– É por causa daquela garota, não é? Tris o nome dela, certo? – eu sei que ele ainda está sorrindo.
– É, é por causa dela sim. – eu digo.
– Ela é gostosa. – ele diz e sinto vontade de soca-lo. Cerro o punho livre e reviro os olhos.
– Olha como você fala. – eu advirto, mas sei que ele jamais faria algo assim comigo.
– Fica frio, porra. – ele gargalha. – Ela não faz meu tipo. Inocente demais.
– Por que você ligou? – eu mudo o assunto.
– Porque tô preocupado com você, seu babaca de merda. – ele bufa. – E as consultas?
– Eu tô legal. – eu reviro os olhos. Vejo que Tris está caminhando de volta e me levanto. – Preciso desligar. Eu falo com você depois.
– Não faça besteira, Tobias. – ele adverte. – Tome cuidado. Amo você, parceiro.
– Eu também, Zeke. Agora chega desse papo de veadinho, tá legal? – nós dois rimos. – Mande lembranças a Shauna.
– Pode deixar.
Encerro a chamada e Tris para na minha frente. Ela está sorrindo de orelha a orelha. Nunca imaginei que uma mijada pudesse aliviar tanto. Ou é isso ou ela ganhou na loteria.
– Você pretende fazer mais alguma coisa? – eu pergunto pegando as sacolas do banco.
– Não. – ela diz sem parar de sorrir.
– Ótimo. Quero te levar pra ver o pôr-do-sol. – eu digo a seguro sua mão, a guiando até o estacionamento.
Nós chegamos ao estacionamento e entramos no carro. Eu ponho as sacolas no porta-malas e volto para o banco do motorista. Ponho as mãos no volante e Tris não tira os olhos de mim. Ela continua sorrindo. Caralho, não é possível isso ter sido causado por um xixi liberado. Ela está me escondendo alguma coisa.
– Beatrice, o que foi? – eu semicerro os olhos em sua direção. Seu sorriso aumenta e puta que pariu, ela fica maravilhosa desse jeito.
– Podemos ir? – ela revira os olhos e encosta a cabeça na janela.
Deve ter tido algo com a boca dela, porque ela não consegue parar de sorrir. Acho que travou. Relutante, eu dou a marcha no carro e sigo até o praça mais famosa de Houston. Leva alguns minutos, já que pegamos um engarrafamento e fico nervoso com o horário. Pode ser que não cheguemos a tempo. Finalmente, nós chegamos.
Eu abro a porta do carro para ela e seguro sua mão. Aciono as travas e caminhamos até chegarmos a grama. Está lotado. Há pessoas por todas as partes. Crianças descendo pelo escorregador, penduradas no balanço e etc. Todas sorriem. Há alguns adultos com seus cachorros e idosos sentados na grama. Tris e eu estamos debaixo de uma árvore. É gostoso.
Olhamos para frente, na direção que o sol se põe. Eu dobro os joelhos e abraço minhas pernas. Tris repete o movimento e fico feliz que ela esteja confortável. O sol está quase se pondo.
– Eu tenho algo pra você. – ela diz e se vira pra mim. Eu arqueio as sobrancelhas e me volto pra ela, curioso. Ela põe sua bolsa no colo e retira uma sacola média de dentro. Eu junto minhas sobrancelhas numa expressão confusa, mas não falo nada. Ela abre a sacola e retira um embrulho. Uma caixa, pra ser mais exato. Então, relutante, ela me entrega. Me encara cheia de expectativa. – É só um presente.
Eu arqueio as sobrancelhas novamente e pego a caixa. Estou curioso. Retiro a fita vermelha e rasgo o papel. Nunca tive paciência com essas coisas. Então eu me deparo com uma máquina fotográfica. Não qualquer máquina. Uma relíquia câmera instantânea. Polaroid, pra ser mais exato. Do século XIX, provavelmente. Retiro-a da caixa e a seguro. Encaro tudo aquilo maravilhado. Eu sempre quis ter uma dessas, mas não estou surpreso com isso. Estou surpreso com o fato de Tris ter se lembrado de que sou apaixonado por fotografia.
Eu penso em recusar o presente. Deve ter custado uma fortuna, mas não posso fazer isso com ela. Vejo a sua preocupação no olhar e o medo. Acho que ela pensa que eu não gostei. Abro um sorriso e vejo ela suspirar em alívio.
– Você gostou? – ela pergunta ainda receosa.
– Incrível, Beatrice. Obrigado. – digo sincero, sem conseguir conter a felicidade no meu sorriso. – Agora, sorria. – eu digo e ponho a câmera no olhar.
Ela se senta em minha frente e sorri, de modo que eu consiga capturar o pôr-do-sol e sua imagem. Aperto o botão e click, a foto foi tirada. Dentro de alguns segundos, a foto sai impressa. Eu a pego e olho. Meus olhos brilham. É a foto mais bonita que eu já tirei em toda minha vida.
– É um jeito bom de inaugurar. – eu digo e sorrio.
Tris sorri e volta a se sentar ao meu lado. Ela encosta a cabeça em meu ombro e ficamos em silêncio. Não quero estragar o momento. Nosso olhar está no sol que está se pondo exatamente nesse momento. É tentador olhar pra ela, mas não me permito fazer isso. Quero contemplar a vista e gravar esse momento, para ter a certeza de que jamais conseguirei esquecer, não importa o que aconteça.
– Obrigada por isso, Tobias. – Tris suspira e levanta a cabeça pra me olhar. – Obrigada por tudo, aliás.
Eu sorrio pra ela e levo minha mão até sua bochecha. Roço meus dedos nela, de forma que eu consiga gravar sua pele. Ela fecha os olhos com o meu toque e eu aproximo meu rosto do seu. Fecho os meus olhos também e acaricio sua outra bochecha com meu nariz. Desço mais e inspiro o cheiro do seu pescoço. É incrível. Então eu subo mais um pouco e mordo o lóbulo da sua orelha. Não preciso abrir meus olhos para me guiar pelo seu corpo. Eu conheço cada detalhe. Tris solta um suspiro e preciso reunir todas as minhas forças para não arrancar as roupas dela aqui mesmo. Eu abro meus olhos e volto a encostar nossos narizes. Estou tão perto da sua boca que consigo sentir seu hálito quente.
– Abra os olhos, Beatrice. – eu a chamo.
Ela os abre e eu consigo ver o desejo neles. Era apenas isso que me bastava para beija-la. Eu precisava ter certeza do que ela quer nesse momento. E quando eu tenho, não perco o tempo. Eu seguro sua cintura e selo nossos lábios. É incrível a forma como eles se encaixam. O nosso beijo começa calmo, com apenas os lábios colados. Então eu levo minha mão até seu rosto e o seguro. Enterro minha língua e ela corresponde. Eu só quero provar mais uma vez. Sinto falta do beijo dela. A beijo de forma intensa. Deito seu corpo sob a grama, de forma que eu não desgrude nossos lábios. Eu fico por cima dela e continuo beijando-a. Ela enlaça as mãos no meu pescoço e demonstra não querer parar o beijo. Isso é ótimo, porque eu também não quero.
Então ela vai parando os beijos aos poucos, quando sinto que já estamos sem fôlego. Abro os olhos e ela também. Me afasto um pouco, de forma que eu consiga encará-la. Ela leva sua mão até minha bochecha e acaricia. Estou sorrindo como idiota.
– É melhor voltarmos. – ela diz.
Eu concordo, porque no momento é a única coisa que consigo fazer. Nós levantamos e recolhemos nossas coisas, indo até o carro. Nós entramos e eu dou a partida, repousando minha mão na coxa de Tris. O vestido subiu um pouco quando ela se sentou, mas ela não pareceu se incomodar. Nem com isso e nem com a minha mão. Isso é bom. Ela sorri e pega minha máquina. Aperta e acho que registra uma foto minha enquanto dirijo. Ela parece se divertir fazendo isso e eu não me incomodo.
Nós chegamos e eu retiro as sacolas do porta-malas. Tris se oferece para carregar algumas, mas eu me recuso. Não sou babaca a esse ponto. Nós seguimos para os quartos e eu entro primeiro no dela. Coloco as sacolas no chão e ela fecha a porta.
– Trinta minutos, Beatrice. – eu começo. – Você tem trinta minutos para tomar banho, se trocar e fazer todas aquelas coisas de mulheres. Nem um minuto a mais, nem a menos. – eu repito meu lema. – Vamos ao bar do Max.
– Certo. – ela assente e eu saio do quarto.
Vou até o meu quarto e entro no chuveiro. Banho gelado é sempre a melhor opção. Tomo um banho demorado e saio. Escolho um par de roupas e me troco. Arrumo o cabelo e passo perfume. Não abandono meu all star por nada nesse mundo. Calço e estou pronto. Levei quinze minutos. Sorrio e pego o violão. Saio do quarto e vou até o de Tris. Passo a chave reserva no sensor e entro, fechando a porta logo depois. Me sento na cama e apoio o violão nas coxas, começando a afina-lo. Tento pensar em uma canção que eu possa cantar para Tris hoje no bar. Óbvio que eu não direi que será pra ela, mas sinto que ela saberá. De alguma forma ela saberá.
Paro de dedilhar e pego o celular. Disco o número de Johanna e ela demora a entender. Então eu fico nervoso, temendo o pior. Eu não queria, mas de certa forma, eu me preocupo com Marcus.
– Tobias? – ouço sua voz.
– Como ele está? – eu pergunto, sentindo meu coração acelerar com a resposta que ela tanto demora a dar.
– Do mesmo jeito. – ela suspira. – Acho que ele não vai melhorar.
– Eu sei. – engulo em seco. – Me ligue se tiver notícias.
– Se cuide, Tobias. Amo você. – ela diz.
– Eu também. – digo e encerro a chamada.
Respiro aliviado. Ele não melhorou, mas também não piorou. Isso não é tão ruim quanto parece. Ponho o celular no bolso e Tris abre a porta do banheiro, saindo apenas com uma toalha enrolada no corpo. Meu olhar examina seu corpo e sinto um incômodo nas calças. Espero que ela não perceba. Ela se assusta a me ver e quase grita. Quase.
– Desculpe, não quis assustar você. – eu digo sorrindo.
– Tudo bem. – ela sorri e se curva para pegar uma sacola. Tenho que desviar o olhar antes que eu goze aqui na frente dela. Ela não tá usando nada por baixo da toalha e me sinto tentado a tira-la.
– Vai trocar de roupa aqui? – eu pergunto engulo em seco. Estou nervoso com essa possibilidade.
– O banheiro é apertado. – ela encolhe os ombros. – Tem algum problema? – ela arqueia as sobrancelhas. Imagino que esteja se divertindo com a situação.
– Nenhum. – eu respondo quase de imediato.
– Não espie. – ela sorri e se vira de costas pra mim.
Ela deixa a toalha cair e a primeira visão que eu tenho é da sua bunda. Da sua maravilhosa bunda. Meu queixo cai e eu reúno todas as minhas forças pra não joga-la na cama e comê-la de uma vez. Ela se curva e veste a calcinha. Meu Deus, meu pau tá latejando sem parar. Passo as mãos no cabelo e respiro ofegante. Por mais que eu queira me mexer, eu não consigo. Permaneço imóvel, admirando aquela bela vista. Ela retira um vestido da sacola e o veste. Ele é lindo. Vermelho escuro, bem justo, modelando suas lindas curvas. Não é vulgar. Ele tem um decote enorme nas costas e tem mangas compridas nos dois braços.
Ela se vira para mim e sorri. Eu fecho os olhos e desabo na cama.
– Você tá acabando comigo. – eu digo num suspiro. Ouço sua risada e ela põe a mão na boca para abafar.
– Eu avisei para não espiar. – ela diz e eu espero que ela termine de se arrumar.
Ela fez novamente a trança que eu sou apaixonado. Destacou seus olhos com maquiagem e passou batom natural. Está linda. Puta que pariu, como ela tá linda. Ela não põe salto, o que a deixa bem baixa e eu sou apaixonado por isso. Com salto ela fica bastante sensual, mas eu me amarro nessa sapatilha.
– Vou perdoar os 10 minutos de atraso somente por você estar maravilhosa. – eu digo me levantando.
– Estou maravilhosa? – ela arqueia as sobrancelhas. Está com um sorriso desgraçado nos lábios.
– Sem dúvida. – eu respondo e ela balança a cabeça negativamente.
Ela pega sua bolsa e eu o violão. Nós saímos do quarto, passamos pelo saguão e vamos até o estacionamento. Pensei em trazer a câmera, mas estou com medo de que algo possa estraga-la. Estaremos num lugar cheio de gente, bebida e etc. Não quero estragar o melhor presente que eu já ganhei em toda minha vida.
Chegamos ao bar e eu estaciono o carro um pouco longe. Como eu previ, ele está lotado. Caminhamos lado a lado e o vento sopra os cabelos de Tris, deixando a trança ainda mais sexy, Respiro fundo e vejo que ela estremece de frio. Tiro minha jaqueta preta e a dou para ela se vestir. Ela agradece e veste, mas ainda eu assim a abraço. Quero passar calor pra ela.
Entramos no bar e apesar de estar lotado, ele está bastante organizado. Todas as mesas estão ocupadas. Caminho até a área reservada e lá dou de cara com um Max. Ele arregala os olhos quando me vê.
– Tobias?! É você?! – ele pergunta e se levanta da mesa indo ao meu encontro. – Caralho, você tá um homem! – ele diz e eu sorrio. Max é apenas quatro anos mais velho que eu.
– É bom te ver também, cara. – dou umas tapinhas em suas costas e nos separamos. – Essa é Beatrice. – eu fico ao lado de Tris.
– Só Tris. – ela corrige e sorri para Max, que pega sua mão e a beija.
– É um prazer, Tris. – ele diz olhando-a por tempo demais. Isso já é o suficiente para que eu fique tenso. Tris parece perceber, então entrelaça seus dedos nos meus. De alguma forma, isso me acalma. Max olha para nossas mãos e dá um sorriso. – Há quanto tempo estão juntos?
– Não estamos juntos. – Tris responde antes de mim.
– Não? – Max cruza os braços e arqueia as sobrancelhas. O sorriso ainda não deixou os seus lábios.
– Não. Somos melhores amigos. – Tris sorri pra ele gentilmente. Ele assente.
– Entendi. – ele descruza os braços. – Bom, sintam-se em casa. – Max aponta para uma mesa vazia.
– Obrigada. – Tris agradece e eu aceno com a cabeça pra ele.
Eu a acompanho até a mesa e puxo a cadeira pra ela sentar. Ela me agradece e se senta. Eu me sento à sua frente. Peço ao garçom dois energéticos. Apesar de ela me garantir que está bem, eu não vou dar a ela bebida novamente. Não até por um bom tempo.
– Me dá um minuto? – eu peço e ela assente.
Eu caminho em direção a Max e o chamo. Vamos até o canto da parede e eu cruzo os braços.
– Tem espaço pra mim? – ele sorri ao entender a pergunta.
– Cara, você é a salvação. Nosso vocalista teve um imprevisto e não vai poder se apresentar.
– Ótimo, mas só vou cantar uma música. Não quero leva-la tarde. – eu aponto com a cabeça em direção a mesa de Tris.
– Entendo. – ele sorri e arqueia as sobrancelhas. – Ela é bem gata. Algo em você me diz que não são apenas melhores amigos.
– Eu me esforço pra ser, mas não consigo vê-la somente desse jeito. Mas não conte nada. Não quero foder tudo com ela.
– Saquei. – ele agora fica sério e diminui mais o tom de voz pra falar. – Já contou pra ela?
– Ainda não. Pretendo contar quando estivermos na Flórida. – eu dou de ombros.
– Não vacila com ela, cara.
– Eu não vou. – eu afirmo.
– Tudo bem. Então, você vai precisar de algum baterista ou qualquer outra coisa? – ele sorri.
– Não. Só o violão mesmo, mas eu trouxe o meu.
– Boa sorte. – ele dá um soco fraco no meu braço. – Eu te chamo quando for a hora.
Eu apenas assinto e volto a me sentar com Tris. Ela parece inquieta e não desgruda do celular. Quando eu me sento, seus olhos caem nos meus e ela me dá um sorriso nervoso.
– O que aconteceu? Você tá bem? – eu pergunto preocupado. Talvez ela não esteja se sentindo tão bem quanto me disse.
– Tá tudo bem comigo. É só que minha melhor amiga vai se casar. Daqui a um mês. – ela solta de uma vez. Eu junto as sobrancelhas.
– Isso não é bom?
– É. Eu só acho que é cedo demais. – ela diz um pouco insegura.
– Já falou isso pra ela? – eu cruzo minhas mãos.
– Já, mas ela não me escuta. Está apaixonada demais.
– Não confia no cara? – eu arqueio as sobrancelhas.
– Claro que sim. – ela diz de imediato. – Will é uma família pra mim. Eu só acho cedo demais.
– Não é cedo quando se está apaixonado. – eu me encosto na cadeira.
– Então agora você virou especialista em amor. – ela arqueia as sobrancelhas, põe os cotovelos na mesa e apoia seu queixo na mão.
– Se você diz. – eu apenas dou de ombros e sorrio.
– Você vai cantar? – seus olhos agora adquirem um brilho extremamente encantador. Meu sorriso se alarga ainda mais.
– Você quer que eu cante? – pergunto.
– Quero. – ela responde.
– Então eu canto. – ela sorri e estica sua mão para pousar na minha. Ela fica séria e então o brilho dos olhos se esvai, trazendo de volta aquele vazio triste. – O que foi?
– Eu vou sentir sua falta quando essa viagem acabar. – ela diz engolindo um nó seco.
– Não vamos pensar nisso agora, tudo bem? Vamos viver hoje, Beatrice. Por favor. – eu digo e levo minha mão até sua bochecha, acariciando-a levemente.
– Tudo bem. – ela me dá um sorriso fraco e eu me contento com aquilo. Não dá pra ficar totalmente feliz sabendo que falta apenas Louisiana para nossa história acabar.
Vejo Max acenar para mim e eu assinto. Me levanto, dou um beijo na testa de Tris e a aviso que chegou a hora. Ela me deseja boa sorte e eu saio. Me espremo pela multidão até chegar a parte de trás do palco. O baterista e o guitarrista que tocavam agora pouco estão guardando os materiais. Eles me cumprimentam e eu retribuo. Max traz meu violão que estava no carro e eu me preparo. Respiro fundo e dedilho, para saber se está parcialmente afinado. Ele está perfeito. Respiro fundo mais uma vez e espero Max fazer a apresentação. A plateia está em silêncio. Max finalmente chama por mim e eu subo no palco, atraindo todos os olhares para mim. Inclusive Tris. Ela me olha como se eu fosse a única pessoa naquele local. É o único olhar que me deixa com um pouco de nervosismo antes de começar a cantar. Espero superar todas as suas expectativas.
Então, antes de começar a tocar, eu digo a primeira frase da música olhando fixamente para os olhos de Tris. Eles são os únicos que me importam hoje.
We’re not, no we’re not friends / Não somos, não, nós não somos amigos
Ela fecha os olhos e suspira. Eu fecho os meus também e então começo a tocar e a entoar a letra. E como em todas as vezes, eu me transformo no melhor de mim e a música toma conta do meu ser.
Nor have we ever been / Nem nunca fomos
We just try to keep those secrets in the light / Nós apenas tentamos manter esses segredos à luz
But if they find out, will it all go wrong? / Mas se eles descobrirem, tudo vai dar errado?
And heaven knows, no one wants it to / E o céu sabe, ninguém quer ele
So I could take the back road / Então eu poderia tomar o caminho de volta
But your eyes will lead me straight back home / Mas seus olhos vão me levar de volta pra casa
And if you know me, like I know you / E se você me conhece, como eu te conheço
You should love me, you should know / Você deve me amar, você deve saber
Friends just sleep in another bed / Amigos apenas dormem em camas separadas
And friends don’t treat me like you do / E os amigos não me tratam como você faz
Well I know that there’s a limit to everything / Bem, eu sei que há um limite para tudo
But my friends won’t love me like you / Mas meus amigos não me amam como você
No, my friends won’t love me like you / Não, meus amigos não me amam como você
We’re not friends / Nós não somos amigos
We could be anything if we tried / Nós poderíamos ser qualquer coisa, se nós tentarmos
To keep those secrets safe / Para manter esses segredos seguros
No one will find out / Ningué vai descobrir
If it all went wrong / Se tudo deu errado
they’ll never know / Eles nunca saberão
What we’ve been through / O que nós passamos
Abro meus olhos novamente e meu olhar vai para Tris. Eu continuo cantando, repetindo o refrão com o olhar preso nela. Ela permanece de olhos fechados, apenas sentindo a música. Gosto de vê-la tão envolvida quanto eu. É algo pelo qual estou me apaixonando nela. Ela é incrível.
Então eu termino de cantar e uma salva de palmas toma conta do lugar. Assobios e elogios são gritados para mim. Vejo Tris pegar sua bolsa e sair apressadamente da área reservada e quando penso que ela está vindo ao meu encontro, a vejo correr para saída do bar.
Me apresso em descer do palco e ir atrás dela, mas sou impedido por uma multidão que vem me parabenizar. Tento não ser grosso e atender a todos, mas o desespero me toma quando não vejo mais Tris. Me desculpo e saio correndo para o estacionamento com o violão nas costas. O alívio me toma quando a vejo encostada no carro. Sua expressão é vazia e ela passa as mãos nos cabelos, os colocando para trás, mas deixando sua trança quase intacta.
Me aproximo dela e noto o quanto está nervosa. Eu seguro seus braços e pergunto:
– Está tudo bem?
Ela se recusa a me encarar e apenas assente, olhando pro chão. Sei que ela está mentindo. Beatrice é uma péssima mentirosa.
– Me diz a verdade. – eu digo calmo.
– A verdade?! – ela explode e se solta de mim. – Você quer a verdade, Tobias?! A verdade é que isso da gente nunca vai dar certo, tá legal?! – ela está gritando e andando de um lado para o outro. Eu permaneço parado, sentindo o peso das suas palavras. – Eu não posso amar você! A gente nunca pode passar do lance de amizade, porque nunca vamos funcionar juntos, Tobias! Ou você não entende isso?! – ela respira fundo e solta de uma vez. – Eu nunca vou conseguir amar você, porque eu ainda amo Peter! – ela finalmente me encara.
Sinto meu corpo fraquejar e meu coração se fazer em pedaços ao ouvir tudo que ela disse, mas não posso demonstrar isso. Talvez ela esteja certa. Eu não sou bom pra ela. Soube disso desde o primeiro momento em que a vi naquele ônibus. Eu não sou o cara certo pra ela, mas se tem alguma mulher certa pra mim, com certeza é ela. Porém preciso respeitar sua decisão.
– Desculpe. – eu digo sincero.
– Só me leva pro hotel, tudo bem? – ela diz com voz de choro. Me recuso a negar algo com ela desse jeito.
Eu apenas assinto e ponho o violão na mala. Ela entra no carro e eu respiro fundo antes de abrir minha porta. Sinto um aperto no coração que desconheço. Entro no carro e vejo que ela está de olhos fechados, encostada na janela, se recusando a olhar pra mim. Talvez cantar aquela música tenha sido uma péssima ideia. Acho que fodi as coisas com ela.
Dou a partida no carro e seguimos para o hotel em silêncio. Beatrice não abre os olhos nem por um segundo e isso não é tão ruim. Talvez eu perdesse completamente minhas forças quando ela me olhasse com desgosto.
Chegamos e ela segue pro quarto em silêncio. Eu vou pro meu e me jogo sobre a cama, incapaz de fazer qualquer outra coisa. Só consigo pensar nela e no quanto eu fui burro. Eu não a culparia se na manhã seguinte ela quisesse voltar pra Chicago.
E nesse momento, esse é o meu maior medo.
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