Sem rastros

4 A explicação


Notas iniciais
Eu gosto desse capítulo... Eu realmente gosto... Espero que vocês tenham a mesma opinião! Boa leitura!

Três anos. Faria três anos hoje que ele desaparecera. E dois anos desde que seu corpo aparecera em uma investigação do FBI. Sara estava de folga aquele dia. Seus amigos tentaram de tudo para que ela não ficasse sozinha, mas Sara fora resoluta. Não queria companhia. Também não queria passar o dia remoendo os acontecimentos do passado. Seu noivo se fora, e ela já havia aceitado isso. Seguiria sua vida da melhor maneira possível. Apesar deste ser o mantra que ela entoava todo dia, seu coração era um órgão traiçoeiro. O menor cheiro a fazia lembrar-se dele. Os acordes de uma música clássica a levava para os braços de Gil. Por isso, ela passou o dia fora, se atendo a necessidades que ela mesma criara para não ter que lembrar.

À noite, quando voltava para casa, a casa a qual eles haviam dividido por míseros meses, ela percebeu uma mudança. Algo de diferente estava no ar. Alguns objetos fora do lugar, como se alguém os tivesse pego e depois recolocados no lugar. Sara levou a mão ao coldre de sua arma. Antes que pudesse pegá-la, entretanto, dois braços a seguraram por de trás. Um foi parar em sua boca enquanto outro segurava seu torço fortemente.

—Sara...

A mulher se debatia como pode, mas o homem era forte demais para ela.

—Shiii! Não tenha medo... sou Gustav, o amigo de...

Antes que ele pudesse terminar, gemeu de dor. Sara mordera a mão que estava em sua boca, e Gustav a soltou. Quando o homem se deu por si pode ver Sara a sua frente, com a arma apontando para ele.

—Eu sei quem você é, e se não me der um bom motivo meto uma bala no meio da sua testa!

O cérebro astuto de Gustav avaliava a situação rapidamente. Ele ficara surpreso com o ataque de Sara. Ela fora habilmente ágil, e o deixara em uma posição desconfortável. Porém, o agente sabia que ela não estava tão no controle assim. As mãos dela tremiam ligeiramente, e sua postura estava muito rígida. Qualquer movimento podia assustá-la. Ele teria que usar de muita ginga para escapar ileso dali.

—Olhe, eu compreendo a sua raiva, também sinto o mesmo toda a vez que me olho no espelho...Gil não merecia o que houve com ele...

—Não fale no nome dele na minha frente! Você era o melhor amigo dele! Você era o padrinho! Era para você estar ao lado dele, protege-lo...- Gustav observava a arma subir e descer, os movimentos descoordenados de Sara representando um perigo para ambos.

—Sara... por favor...abaixe essa arma. Você sabe que não está em condições de tê-la em mãos... você não quer um disparo acidental tanto como eu...

—Se eu disparar, não será acidental. Pode ter certeza !- a raiva com que Sara proferia as palavras deixou Gustav ligeiramente preocupado.

—Ok, mas espere para fazê-lo depois... estou aqui porque devo ao Gil isso... ele me incumbiu dessa missão. Sei que nunca vou apagar o mal que fiz a vocês. Mas espero poder remediá-lo um pouco com isso.

Gustav meteu a mão em seu paletó e retirou um envelope pardo, um tanto quanto amassado, do bolso interno.

Sara abaixou a arma quando viu o envelope. O que seria aquilo? Algum pertence de Gil? Uma carta que ele escrevera antes de morrer? Seus votos de casamento? Nada daquilo remediaria o fato dela não ter seu amado a seu lado naquela hora. A morena colocou a arma na cintura e cruzou os braços.

—O que é isso?

—Gil me pediu para lhe entregar... caso ele não pudesse retornar para você. É um vídeo caseiro. Ele não gostava da ideia de te excluir das coisas que estavam acontecendo na vida dele. Embora ele soubesse que era necessário.... Então ele veio com essa solução. Muito engenhoso, sempre foi. Eu só precisava esperar o momento certo.

Gustav estendeu o pacote para Sara, que o pegou com cuidado. Tinha uma vontade absurda de buscar um par de luvas para manusear o envelope, na tentativa de preservar as digitais de seu amado... sabia que seria inútil...

—Então... não vai assistir?

—Não com você aqui... você não merece estar aqui...

—Seu noivo discordaria- Gustav cruzou os braços- Ele me pediu que me certificasse de que estaria bem, depois de...

Depois de assistir ao vídeo. O vídeo que mostraria, talvez, os últimos momentos de seu noivo com vida. Gil queria se certificar de que ela estivesse bem após o fato.

Sara foi até a sala, e colocou o CD no aparelho. Com o controle remoto na mão, foi até o sofá, sentou-se e, após uns minutos, pressiono o play. A primeira imagem a aparecer na tela foi de uma sala pequena e escura. Somente uma velha poltrona esverdeada ao lado de uma mesa com um abajur aceso mobiliava o cômodo...

Gustav se apoiou no portal que dava acesso a sala, e ficou a observar a reação de Sara ao vídeo. Era comovente. Ali estava uma mulher que realmente amava o seu amigo. Mais uma vez Gustav se amaldiçoou por ter tirado Gil dela. Os dois seriam muito felizes juntos. Foi quando Sara desabou no chão que ele agiu. Foi até ela e a abraçou. Sara derreteu em seus braços, seu choro molhando a blusa dele. Gus afagou a cabeça dela, e esperou até que Sara se recompusesse. Quando o choro diminuiu, ele quase a carregou até o sofá e foi até a cozinha buscar um copo d’água com açúcar. Sara aceitou, bebendo o líquido devagar. De vez em quando, uma lágrima ainda rolava de seu rosto. Quando ela terminou a bebida, colocou o copo na mesa de centro, se levantou e sumiu pelo corredor. Passado uns minutos, Sara voltou a sala. Seu rosto estava seco agora, mas os olhos ainda evidenciavam o choro dela.

—Eu quero vê-lo.

Não era um pedido. Era uma ordem, simples e clara.

—Infelizmente, isso não será possível. Gil sabia disso, ele te explicou no vídeo.

—Se ele não quisesse isso, não teria enviado o vídeo. Ele sabia que eu...- Sara pareceu a ponto de chorar novamente, mas se conteve- Ele sabia que eu iria querer vê-lo se soubesse que estava vivo. E ele quer o mesmo, se não para que me dizer que está vivo?

Sara se jogou no sofá, e Gustav se aproximou. Como ela não fez menção de expulsá-lo, o homem sentou-se ao lado dela.

—Sara. Gil está morto, para todos os efeitos. Se ele aparecer novamente, isso poderá expor a missão e o escritório...

Sara queria dizer que se danasse a missão. Ela não se importava com nada disso. Só queria seu noivo de volta.

—Ele não precisa aparecer. Só quero estar com ele...afinal, essa missão já não acabou? Por que tenho que me preocupar com isso?

—A missão acabou, mas o grupo ainda está em operação. Várias missões, nas quais está em jogo a segurança nacional... é tudo secreto, Sara. Se ele aparece, mesmo depois de ter tido um funeral, as pessoas vão perguntar. Vão começar a pesquisar. A coisa toda pode tomar uma proporção sem igual. O FBI não pode e não quer ter uma situação dessa para apagar. Vidas correm perigo.

—E a minha vida? E a vida dele? Nós não valemos de nada? Deus, vocês são uns monstros! Ele mesmo disse que não queria nada mais com vocês, mas mesmo assim vocês o arrastaram para a lama! E agora não querem deixa-lo em paz? Você e os seus superiores já pararam para perguntar o que ele quer? Já pesaram as necessidades dele? Ele é um civil, droga!

—Sara- Gustav pegou nos braços de Sara, tentando conter a mulher que parecia novamente à beira de um ataque- Gil sabia de tudo isso... ele entendia os riscos, e se você o conhece bem sabe que ele nunca iria deixar de ajudar a gente a enfrentar aqueles criminosos. A ética dele não permitia. Ele sacrificou tudo pelo bem maior... ele sabia que isso podia acontecer...sinto muito.

“Ele sacrificou tudo para o bem maior”. Sara não podia negar, era a cara de Gil fazer aquilo. O homem nunca se negaria a fazer o que seria certo, o que ele acreditava ser o melhor caminho a ser seguido. A fome que Gil tinha pela justiça, algo que Sara podia dizer sentir o mesmo, o impeliria a aceitar a missão. E Sara se orgulhava de Gil por isso. Mas isso a fazia chegar a uma conclusão.

—Ele sabia... ele sabia que podia não voltar para mim. Sabia que ao aceitar isso estava colocando nossa história em segundo lugar...

Sara não queria ser mesquinha, mas ela sentia como se o amor que Gil dizia sentir por ela não fosse tão importante assim.

—Isso é algo muito honroso, Sara. Ele é um bom homem...

—Sim... um cidadão exemplar. Mas um noivo de merda...

Gustav se assustou com aquilo. Será que ao divulgar essa informação, ele estaria contribuindo para que Sara começasse a desprezar seu amigo? Será que Gil calculara mal sua jogada, ou teria sido isso mesmo que ele queria?

—Não, Sara. Ele...

—Ele diz que estávamos sendo ameaçadas. Eu e a mãe dele. Por que então ele não nos colocou no programa de Proteção às Testemunhas? Por que ele não ficou com a gente, para nos proteger?

Essa pergunta Gustav sabia responder.

— Porque ele achou que não seria justo com vocês. Tirá-las a força da cidade... Privá-las de ter contato com seus amigos, de realizar o trabalho que amam... o programa de proteção não é um mar de rosas, ele bem sabe. A qualquer sinal de que os bandidos estivessem atrás de vocês, teriam que ser movidos novamente. Imagine, assim que você se aclimar a uma identidade, ao seu novo trabalho, ter que abandonar tudo outra vez? Não é uma vida a qual eu gostaria de submeter a alguém que eu ame.

— Eu iria... se ele tivesse me deixado escolha, eu iria com ele... eu o amo demais, Gustav... qualquer vida que eu tivesse ao lado dele, aceitaria...- Gustav pode perceber que Sara não falava da boca para fora. Havia sentimento de verdade ali. Ele se odiou ainda mais por ter tirado esse amor de seu amigo.

—E ele te amava demais para permitir que essa fosse sua vida, Sara. Foi para o seu próprio bem.

Sara revirou os olhos e se apoiou no encosto do sofá. Era tudo muito lindo, essa atitude de Gil. O herói, o mocinho, sempre levando a porrada pelos outros. Mas ainda assim era egoísta. Egoísta por não ter dado a eles uma chance. Por não ter acreditado no amor deles. Por só ter refletido pelo lado dele, e não o dela, e nem o de sua mãe.

Sara sentia que amava aquele homem desde outras vidas, e que poderiam resistir a tudo, se estivessem juntos. Mas ao que parece, Gil não sentia o mesmo. Ela não duvidava que o homem a amava. A história deles juntos era confirmação disso. Mas esta situação só mostrava como o homem não acreditava nesse amor, não como ela.

Sara se levantou do sofá e saiu da sala sem nada falar. Gustav foi atrás dela e a encontrou com a porta da frente aberta, em uma clara indicação de que sua estadia não era mais bem vinda. Se em algum momento ele o foi, é claro!

—Diga a Gil que estou feliz por ele estar bem- Sara se dirigiu a Gustav – Diga a ele que eu espero que ele seja feliz, onde quer que ele esteja. E diga a ele que eu estou bem, e que vou superá-lo. Vou encontrar minha felicidade, seja ela onde esteja... porque é obvio que não estava com ele!

—Sara...- Gustav queria consolar a mulher a sua frente, mas ao tentar foi empurrado para fora da casa.

— Adeus, Gustav!- a porta bateu a sua frente e o homem suspirou. Se Gil realmente queria confortar a mulher, seu plano saiu pela culatra.

Notas finais
Bem, pessoal... Eu gostei especialmente de escrever as reações da Sara para com o Gustav. Ele bem merecia um tiro por ter separado os dois... o que acharam?