Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
31 Capítulo trinta e um - Lute por mim. Lute pelo nosso amor!
Notas iniciais
Não demorou nem uma hora para que o helicóptero alugado pelo senhor Yuri descesse no heliporto do hospital. Nele vieram, um clínico geral e duas enfermeiras do hospital Caridade. Depois de ligarem o Yuri a outros aparelhos, e dos pais do menino assinarem o termo de transferência entre os hospitais, o helicóptero pôde levantar voo rumo à ilha. Nara foi a única a acompanhá-lo, já que o marido precisou dirigir o automóvel em que vieram.
Benjamin pegou a estrada logo em seguida no seu próprio carro. Aproveitou a ocasião para ligar para os seus pais e dizer que até umas cinco horas da tarde, ele devia estar chegando a Floripa, mas que seguiria direto ao hospital ao invés de ir para casa.
Marisa ficou brava por ele não querer ir para casa e descansar um pouco já que estava naquele hospital desde o início da manhã. Ela concordava com todo o amor e zelo do filho pelo amigo, porém estava brava por Benjamin não se preocupar com a própria fadiga física.
Além de querer acompanhar as novidades sobre o estado de saúde do Yuri, Ben desejava também poder reencontrar e abraçar a Yumi. Eles não se encontraram nenhuma vez desde que a japonesa fez o irmão confessar o que estava rolando entre os dois amigos.
Foi difícil conseguir se concentrar na direção tamanha preocupação com o Yuri. Quando finalmente chegou ao Hospital Caridade, no centro de Florianópolis, seu coração ficou mais tranquilo por estar perto novamente do amigo acidentado. Não demorou nem cinco minutos para estacionar o carro em qualquer vaga disponível, se informar na recepção do hospital onde estava a família do Yuri e seguir para lá.
— Benjamin! – disparou Yumi assim que viu o de olhos verdes abrir a porta de vidro da sala de descanso onde estava. – Meu Deus, que horrível o que aconteceu com o nosso japa – ela começou a abraçá-lo bem forte. – O que faremos se o perdemos para sempre?
— Não pense assim, Yu. Ele vai ficar bem. O nosso japonês é muito forte e vai dar uma bela lição para todos nós como adora fazer – tranquilizou Ben. A sua voz voltou a ficar embaraçada, estava chorando novamente. Quando ele abriu os olhos, ainda abraçado com a menina, viu que a Bárbara estava logo atrás da menina, abraçando os dois. – Que bom que tu estás aqui, ruiva.
Ela não disse nada apenas sorriu e piscou para ele. A Báh alisava os ombros do melhor amigo. Assim que eles se soltaram, o Arthur veio ao encontro do Ben – ele adorou ver que o amigo também apareceu para dar uma força para os Takashi e quem sabe tinha vindo junto com a ruiva?
— Cara, seja forte! O nosso amigo vai sair dessa muito melhor do que entrou, tu vai ver – consolou Arthur, abraçando o Benjamin.
— Tu tens toda a razão, Thur!
Depois que o abraço terminou, o menino de olhos verdes viu que tinha um desconhecido sentado ali com eles. Era um menino de pele negra, olhos castanhos e magricela.
— Este aqui é o meu namorado, Benjamin. Ele quis vir junto comigo para dar uma força – declarou Yumi, pondo o braço sobre os ombros do namorado, que acabava de ficar de pé para apertar a mão do menino.
— É um prazer, Camilo, finalmente te conhecer! – saudou ele, dando um aperto de mão fortíssimo.
— Valeu, amigo!
— Yu, onde estão os seus pais? – perguntou Benjamin depois de se sentar numa poltrona superconfortável, de frente para as meninas.
— A minha mãe está conversando com um dos médicos e o meu pai ainda não apareceu aqui desde que saiu de Balneário com vocês.
— Tu chegou aqui faz muito tempo já?
— Que nada! O nosso voo se atrasou e ainda teve uma escala em POA. O Arthur e a Báh fizeram a gentileza de nos buscar no aeroporto daqui.
Benjamin olhou imediatamente para os outros dois amigos e percebeu que eles estavam de mãos entrelaçadas.
— Estávamos já na estrada quando a dona Nara ligou para a Yumi e avisou sobre a transferência do Yuri para o hospital daqui – comentou Bárbara.
— E vocês têm alguma novidade sobre o japa?
— Ainda não, Ben... Vamos ter que aguardar a minha mãe voltar para saber.
— Eu e ela conseguimos vê-lo na UTI do outro hospital com a ajuda da médica que operou o tórax dele.
Yumi abriu bem os olhos enquanto sorria e se curvava para frente a fim de saber mais sobre aquilo.
— E como ele estava? Parecia bem?
— O Yuri continuava desacordado e respirando com a ajuda dos aparelhos. Ele ficou muito ferido, o rosto dele está cheio de cortes e hematomas, além do seu braço que não se quebrou.
A Bárbara fechou bem forte os olhos e a Yumi pôs sua cabeça sobre o ombro do namorado, que começou a afagar os seus cabelos lisos.
— Aí vem a sua mãe – avisou Arthur quando viu Nara entrar.
Nara vinha cabisbaixa e pálida como se alguma coisa pior tivesse acontecido.
— Mãe, como ele está? – Yumi correu ao encontro dela. – Que cara é esta? O Yuri está bem, não está?
A mulher respirou prolongadamente e se sentou em uma poltrona assim que Ben pegou um copo de água com açúcar para ela. O lugar era bem diferente da primeira sala de espera em que estavam lá em Balneário. Aquela foi reservada apenas para os familiares e amigos do jovem ferido e contava com máquina de café puro ou com leite, máquina de água com duas temperaturas e açúcar para adoçar o cafezinho.
— Realmente o quadro dele é muito grave. O doutor que fez a primeira avaliação do seu caso aqui concordou com o diagnóstico dos médicos de Camboriú. Disseram que acreditam que até amanhã ou depois, ele conseguirá deixar os aparelhos de ventilação, mas agora a atenção tem que ser dada para o quadro de hemorragia interna no intestino e na coluna vertebral.
— Então ele ainda corre risco de vida? – avançou Yumi, mordendo os lábios e se sentando no ombro da poltrona em que sua mãe estava. – Afinal de contas, o Yuri perdeu muito sangue desde o acidente. Se eles não contiverem os traumas e as hemorragias, ele poderá sofrer outra parada cardíaca. O que pode ser fatal no quadro atual dele.
Benjamin tinha se esquecido de que a irmã do japa estava no final do terceiro ano de medicina na USP, sem dúvidas, ela sabia muito bem o que estava afirmando. Aquilo lhe fez ficar ainda mais apavorado e, de repente, suas mãos começaram a tremer e ele a suar frio.
— Foi por isso que o Yuri foi encaminhado para a mesa de cirurgia para operar primeiro a cavidade peritoneal e vai ter que ficar algumas horas de repouso antes de poderem fazer a cirurgia na coluna dele. Mas o doutor disse que quanto mais horas eles demorarem a conter o aumento da pressão sobre as vértebras lombares do meu menino, ele terá mais chances de ficar com alguma sequela. O que pode levá-lo para uma cadeira de rodas.
Nara entrou em desespero após repetir o que tinha ouvido do médico. A sua filha também estava em prantos e a abraçou em seguida. Bárbara abraçou o Benjamin, que também não pôde se controlar e chorava intensamente.
Tudo o que puder vir a acontecer ao Yuri será totalmente de sua responsabilidade, Benjamin Belucce Furlanetto. O menino que mais lhe ama está lá dentro, respirando com a ajuda de aparelhos e sendo cortado por bisturis graças a sua traição. Se nada disso tivesse acontecido, os dois estariam juntinhos agora mesmo em algum lugar melhor do que este hospital com certeza.
As horas e os minutos pareciam se arrastar noite adentro enquanto não tinham nenhuma nova novidade sobre o estado do Yuri. Mais tarde, outros parentes do menino apareceram no hospital, como a sua avó materna, seus tios e uma prima.
Benjamin só conhecia mesmo a tia e a avó dos dois orientais. Elas pareciam ainda mais apavoradas do que a Nara, o que acabou contribuindo para o aumento da preocupação daquela mãe.
O de olhos verdes percebeu a forma grosseira como toda a família da Yumi tratava o seu namorado. Ele tinha uma desconfiança de que o motivo para aquilo fosse o racial. Camilo se mostrou bem atencioso a toda família da namorada, inclusive para os três amigos do Yuri.
Horas mais tarde, quando já era quase quatro da manhã, o médico, responsável pelo caso de Yuri, entrou na sala acompanhado de uma enfermeira que trazia uma prancheta em suas mãos.
— E aí, doutor, como está o nosso filho? – perguntou o senhor Yuri. E por falar nele, o homem só apareceu no hospital depois da meia-noite quando a Bárbara e o Arthur estavam se despedindo de todos para irem embora.
— Tenho que informá-los que fizemos com sucesso a cirurgia no jejuno-íleo e na artéria mesentérica do paciente, além de drenarmos todo o sangue contido na cavidade peritoneal. A hemorragia na região por fim foi contida!
Benjamin achava impressionante a maneira de como o doutor falava sobre o caso mesmo sem entender a maioria daqueles termos médicos.
— Ainda bem, doutor! Ficamos mais aliviados – afirmou Nara, olhando para toda a família.
— E aquela cirurgia na coluna do meu filho? Vai esperar até quando para fazê-la?
— Senhor Yuri, devido toda a invasão operatória que seu filho foi submetido durante o dia todo, precisamos esperar pelo menos até o meio-dia de amanhã para que o neurocirurgião possa intervir. O organismo dele está débil atualmente e precisa reagir aos medicamentos introduzidos.
Ben mordeu os lábios, nervoso e impaciente, enquanto encarava o médico.
— Doutor, mas o meu irmão ainda corre um grande risco de ter outra parada cardíaca devido à hemorragia na coluna?
— Lamento dizer que sim, precisamos que alguém doe sangue para ele. Aceitaremos a doação de todos que forem compatíveis, afinal ele perdeu muito sangue e já transfundimos três bolsas de sangue desde que chegou ao aqui.
— Eu doo o meu sangue para ele. Sou “O+”.
— Mas não pode doar na sua condição atual, Benjamin. Está sem dormir a pelo menos vinte e quatro horas, isso seria prejudicial para ti – cortou Yumi.
Ben ficou frustrado e chateado por ter o tipo de sangue ideal para fazer uma doação para o amigo e não poder por um simples detalhe.
— Ela está certa, rapaz – concordou o médico.
— Eu posso doar também – disse a avó do paciente.
— Ótimo, por hora é o que podemos fazer para ajudá-lo. Vou pedir para que outra enfermeira venha lhe buscar para retirar o seu sangue, está bem?
A mulher concordou, mas antes do médico se retirar, disse:
— Já estava me esquecendo de dizer: o Yuri está em coma devido à hipoglicemia causada pela falta da oferta de oxigenação cerebral no momento em que os seus vasos sanguíneos foram rompidos e à insuficiência hepática pelos mesmos motivos.
— Meu Deus! – Ben ouviu vários dos familiares de Yuri dizerem após se assustarem com a declaração do médico.
Ele não soube como reagir à notícia, então enterrou a cabeça no meio das suas pernas, controlando a respiração. Tampou os ouvidos como se não quisesse mais saber nada sobre o quadro do amigo.
— Sabe nos dizer se é um coma profundo ou mais moderado? – questionou Yumi antes que o médico se virasse para sair.
Novamente o menino de cabelo castanho claro levantou a cabeça para ver o rosto do doutor, que respondeu:
— Ele está respondendo às dores, então podemos afirmar que é um tipo mais brando, graças a Deus. Aquele rapaz teve muita sorte neste dia, podia ter deslocado toda a coluna porque ficou preso no meio das ferragens do seu carro.
Yumi abraçou seu namorado contente por ouvir aquilo. – Por hora, ele ficará bem. Quem sabe recobre a consciência após seus pulmões voltarem a funcionar sem o estímulo mecânico.
— Por favor, nos mantenha informados de tudo – suplicou o tio do japa, que abraçava a Nara.
— Viu, ele vai ficar bem, irmã – disse a tia da Yumi.
— É verdade, Tamishi – concordou ela para manter a confiança elevada. – Ben, acho que é melhor tu ires para casa e dormir um pouco. Amanhã, tu voltas para cá caso queira. Está acompanhando o nosso filho desde a hora do acidente.
— Tudo bem, dona Nara. Eu preciso mesmo dormir um pouco, além de que meus pais estão muito preocupados com o estado do Yuri. Acho bom atualizá-los.
— É verdade, a tua mãe já me ligou duas vezes; uma de tarde e a outra, de noite. Ela além de ser uma incrível médica é uma excelente amiga. Aliás, a sua família é excelente, vocês todos são grandes amigos da minha. Agradeço de coração por amarem tanto o meu filho.
Na verdade, senhora Nara, eu amo ainda mais o seu filho e serei o seu namorado em breve se ele me perdoar. Ele queria poder dizer aquilo, mas se contentou em dizer:
— O Yuri é a melhor pessoa que nós já conhecemos. Amanhã, eu volto para cá. Não deixem de me ligar a hora que for se acontecer alguma coisa. – Ele odiou ter que falar aquilo, porém sabia que o Yuri não estava fora do risco de ter outra parada cardíaca.
— Quem é a mãe dele, Nara? – Ben ouviu a irmã da mulher perguntar assim que estava saindo da sala.
— Ela é a minha ginecologista. O pai dele é um cirurgião cardíaco bem respeitado aqui no sul – respondeu Nara.
Yumi acompanhou o menino até a porta do hospital para conversar com ele a sós. Ela parecia séria, com uma cara para poucos amigos.
— Por que vocês brigaram ontem, Ben?
O de olhos verdes franziu a testa e abaixou os lábios em resposta.
— Ele te ligou antes do acidente? – Ben sabia que o Yuri fazia aquilo com regularidade, afinal os dois irmãos não escondiam nada um do outro.
— Não, caso contrário, eu teria xingado ele pelo telefone se soubesse que estava dirigindo bêbado no meio da madrugada – vociferou a japonesa com tanta fúria que acabou babando pelo canto dos lábios. – Ele me ligou à tarde mal contendo a alegria dentro do peito por estar indo te visitar lá em Blumenau. Sei que só uma briga faria com que ele saísse às pressas da sua casa.
Benjamin mordeu os lábios, sentindo um pouco de tensão sobre a cabeça e os ombros.
— Não quero mentir para tu, nós nos desentendemos, sim. Contudo, juro que tentei fazê-lo ficar lá, tentei mesmo e ninguém poderia ser injusto de afirmar o contrário. Eu vacilei gravemente com o japa esta semana.
— Benjamin, eu não quero que me conte os detalhes da briga. Isso é algo que tu e o meu irmão precisam resolver quando ele melhorar e for para casa – replicou ela, segurando as duas mãos do amigo. – Tu sabe que eu gosto muito mesmo de você e faço muita questão de tê-lo como meu cunhado, porém eu amo muito mais o meu irmão... Aquele japonês é a minha vida aqui na terra. Ele foi o meu pai e a minha mãe, e eu fui tudo isso para ele também como sabe bem. O meu irmão te ama demais, Benjamin, eu o senti sofrendo com cada briga que já tiveram. Já cansei de ouvi-lo chorando ao telefone dizendo que tu não correspondia todo o amor que sente por você.
Cada palavra que saía daqueles lábios vinha como uma flecha bem afiada contra o coração do de olhos verdes. Ele começou a ficar corado de repente e a sua mão tremia um pouco. A Yumi percebeu aquilo já que estava segurando as mãos do garoto.
— Não quero que fique nervoso, por favor, não estou querendo te pressionar. Só quero dizer que o Yuri lhe ama de verdade e que eu me assusto com a intensidade desse amor. Nunca na minha vida, eu o vi tão apaixonado por alguém. Só que se tu não amar o meu irmão, eu peço que o deixe para lá. É claro que o Yuri vai sofrer demais, porém é preciso que isso aconteça, Ben. Eu já perdi as contas de quantas vezes pedi para ele insistir com você, afinal eu entendia o medo que estava sentindo em se aceitar assim como ele. Só que a partir de hoje, não farei mais isso. Eu o incentivarei a desistir de você.
Benjamin sentiu um aperto tão grande dentro do peito que voltou a chorar acachapantemente. A japonesa lhe abraçou com muita força e dava tapinhas doces em suas costas.
— Por favor, não faça isso, Yumi. Eu insisto em pedir outra chance para você. Acredite que amo seu irmão, por favor, acredite! Não quero perdê-lo da minha vida. Agia daquela forma sem pensar, sem saber que fazia o japinha sofrer tanto. Eu também sofri muito com as nossas brigas, ou melhor, ainda sofro muito com elas. Eu quero ficar com ele, eu vou pedi-lo em namoro e vamos comprar duas alianças para a gente. Não vou mais deixar o sentimento que sinto negligenciado pelas minhas atitudes.
— Eu acredito em você, Benjamin. Então prove todo este amor apenas para o Yuri, não preciso de prova alguma. É ele que tem que sentir todo o amor daqui de dentro. – Ela pôs a mão sobre o peito do menino. – É o Yuri que vai saber o que é melhor para ele. Prometo que não me intrometerei no que sentem um pelo outro.
— Obrigado, Yumi. Eu não sei nem como posso lhe agradecer.
Ela beijou as suas bochechas.
— Agora, vá para casa e descanse um pouquinho.
— Te vejo amanhã, então.
O namorado da japonesa estava vindo atrás dela, afinal já estava demorando muito para voltar, e o Camilo não suportava mais ficar no meio de tantos japoneses ignorantes e preconceituosos.
Ben se sentiu mal por ter chegado ao ponto da Yumi ter que defender os sentimentos do irmão. Pensou sobre isso durante todo o trajeto do hospital ao norte da ilha. Ao passar pelo local onde ele e o Yuri encostaram o carro, no acostamento da pista, para se despedirem uma semana atrás, o seu peito pareceu queimar em brasa viva devido à lembrança.
Outra vez, Benjamin sentiu medo de perder o japa para sempre.
No momento em que pisou o pé para dentro de casa, recebeu o abraço do seu pai e depois da sua mãe – os dois estavam aflitos pelo quadro gravíssimo do japonês, mas combinaram de se manter confiante diante do caçula.
— Vocês estavam me esperando aqui embaixo?
— Não, a gente estava deitado na cama, porém quando ouvimos o barulho do seu carro estacionando na garagem, eu acordei o seu pai e daí, descemos. Estávamos acordados até às duas horas, mas pensei que não viesse mais então nos deitamos.
— Poxa, mãe, não precisava ter acordado o papai. Eu estou bem... Com muito sono, confesso, mas estou bem.
— Eu precisava abraçar o meu filhão. Estava morrendo de saudades suas, meu menino tão lindo. Adoro te ter por perto da gente.
Benjamin sorriu, constrangido, mas não deixou de beijar o homem e abraçá-lo.
— Que quer comer? Diga para a mamãe que eu faço agorinha mesmo, caso não tenha os ingredientes aqui em casa, daqui a pouco, quando amanhecer, seu pai dá uma passada no Angeloni ali dos Ingleses.
— Mãe, eu só quero dormir agora. Eu agradeço a gentileza, mas eu comi perto da meia-noite com o Arthur, a Báh, a Yumi e seu namorado. Finalmente, pudemos conhecê-lo. O cara é superlegal. Os pais dos japas que não deram bola para o menino.
— Bem típico daqueles dois. Eu conversei umas horas atrás com o Yuri sobre o Yuri. Por que tiveram que dar o mesmo nome do pai ao filho? Só para complicar a nossa vida – comentou Manuel, rindo e fazendo os dois também gargalharem. – Ele me disse sobre o quadro do seu amigo. Realmente, me dispus para fazer qualquer intervenção cirúrgica, caso ele tenha outra parada cardíaca.
— Pai, ele é tão novo e nunca apresentou nenhum caso de problemas no coração. Tu acha que assim que ele sair dessa vai ficar com problemas relacionados ao coração?
— Filho, o Yuri é bem jovem igual a você. O organismo dele só está reagindo ao quadro desencadeado pela hemorragia que sofreu. A parada cardíaca neste caso nada tem haver com problemas cardíacos propriamente ditos. Claro, se por um acaso não houvesse uma compensação rápida pela transfusão sanguínea, a falta de oxigenação poderia desencadear uma cardiopatia crônica.
— Isso quer dizer, filho, que o Yuri vai ficar saudável novamente. Não há o que se preocupar! – Marisa disse, mostrando os dentes para o marido. – Aliás, a doutora Rayssa Gabrielli, pneumologista geral no Caridade, que foi minha colega nos tempos da faculdade, está cuidando dele e me ligou um pouquinho antes de você chegar para me dizer que reduziram a capacidade dos aparelhos respiratórios para cinquenta por cento. O restante da capacidade respiratória voltou a ser compensado pelos próprios pulmões dele de forma autônoma.
— Meu Deus que boa notícia! Assim que eu acordar, vou para lá. Quero doar sangue para ele.
— Eu e a sua mãe também iremos contigo, filho. Como eu também tenho o mesmo tipo sanguíneo do seu amigo, aproveitarei para doar o meu sangue.
— Muito legal mesmo, pai. Agora, vou me deitar, estou exausto. Peço, por favor, para que não me deixe dormir até tarde, no máximo até dez e meia.
— Tá legal, Benzinho – concordou a mãe. – Agora, vá!
— Ah, me esqueci de perguntar: cadê o Miguel? Não o vejo desde que fui embora pela primeira vez, estou com saudades por mais bizarro que isso seja.
— Por que é bizarro? Vocês são irmãos, é natural que sintam a falta um do outro. Esta semana mesmo ele disse para mim no jantar que estava morrendo de saudades. Ele está em casa esta noite, está dormindo, mas vocês conversam cedinho.
— Morrendo de saudades? Ah, pai, conta outra, vai... Estas palavras nunca sairiam juntas da boca do Mig.
— Tá, tá, ele não usou o gerúndio “morrendo”, apenas disse que sente falta de te pentelhar.
— Agora, sim, eu acredito. Isso, sim, pai, é coisa do Mig. Beijão para vocês!
E foi se deitar. Foi só encostar a cabeça no travesseiro e apagar a luz do abajur para cair num sono pesado.
O menino de olhos verdes quis matar os seus pais quando acordou duas horas da tarde naquele domingo. Ele ficou revoltado pela falta de compreensão, sabiam que o Ben queria voltar o mais rápido possível ao hospital. Mesmo se considerando atrasado, não deixaria de tomar um banho. O último que tinha tomado fora na manhã da sexta-feira para receber o Yuri. A família do oriental precisava de apoio e não de alguém que pudesse exterminá-los de vez com seu odor.
— Poxa, pai, tu me deixou dormir até agora.
— Filhão, desculpe o papai, só que sabíamos o quanto precisava de boas horas de sono. Sente aqui com a gente para almoçarmos e depois, nós vamos ao hospital. Ok?
— Não quero almoçar, pai.
— Sente-se aí e coma um pouco, Benjamin Belucce Furlanetto – ordenou o pai em um tom ríspido. – Não quero que seja internado por hipoglicemia e desenvolva problemas hepáticos.
— Ben, isso é o que dá termos pais médicos – caçoou Miguel, vindo da cozinha com uma forma cheia de frango com batata assada. – Eles se esquecem de que sou de exatas e não de biológicas. Usem termos que eu entenda ao invés de ficar boiando na maionese.
— Imagina só se todos nós tivéssemos escolhido medicina, seria insuportável termos uma refeição em família.
— Não diga isso, filho, porque o doutor Antônio Ferraz tem uma família formada totalmente por médicos e todas as refeições parecem um ambulatório particular – brincou Manuel, rindo com os filhos. A única que não entrou na algazarra foi a doutora.
— Eu queria que tivesse seguido o nosso caminho, né, Mig, só que preferiu seguir uma curva na hipérbole – se aproveitou Marisa para cutucar o primogênito.
Ben e Miguel começaram a rir bem alto. Os dois aproveitaram para se abraçar depois dessa cena e, finalmente, a família pôde almoçar.
— Foi por ela mesmo que escolhi a engenharia, mãe.
— Filho, eu liguei para a Nara enquanto preparava o almoço e sabe o que ela me disse?
— Quê? – perguntou entre mastigar a carne do frango e cortar um pedaço da batata em seu prato.
— O Yuri finalmente tinha ido à mesa de cirurgia para operar a coluna vertebral.
— Sério? Mas que boa notícia, assim ele não correrá mais risco de ter uma parada cardíaca.
Quando Manuel ia se opor ao que seu filho afirmara, Marisa apertou a sua coxa direita para impedi-lo. O pai iria dizer que se os pulmões voltassem a entrar num quadro de insuficiência respiratória como quando ele chegou ao primeiro hospital, logicamente o japonês teria outra parada cardíaca.
Ben entrou com um bico daqueles no hospital, tudo por causa do horário em que estava chegando. Já eram umas quatro da tarde quando entrou na sala de espera dos Takashi.
Ele veio ao hospital em seu próprio carro porque não iria para casa naquela noite, ia passá-la no Caridade. Seus pais vieram no carro do Manuel e chegaram minutos depois do filho.
No momento em que Ben chegou apenas a Yumi, o Camilo e a Fernanda estavam ali. Para a surpresa dele a loira consolava a japa, mesmo sabendo que Yumi não suportava a Fer como o de olhos verdes na maioria do tempo.
Os pais do Benjamin abraçaram e beijaram a Yumi. A Fernanda aproveitou para abraçar o amigo de infância, ela, por mais louquinha e cdf que pudesse ser, realmente sentia a falta do de cabelo castanho. Eles conversaram por vários minutos sobre a faculdade do rapaz, só pararam quando a Nara e sua irmã apareceram na sala com noticiais a respeito da cirurgia do japa.
— E então, mãe, como foi a cirurgia do meu irmão? Ele vai ficar bem agora?
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