Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
32 Capítulo trinte e dois - Nunca me deixe esquecer desta promessa!
Notas iniciais
— E então, mãe, ocorreu tudo bem na cirurgia do meu irmão?
A japonesa deu um largo sorriso, que por si só já encheu o coração de Benjamin de alegria. A tia dos seus amigos japoneses continuava segurando a mão de Nara e também estampou um grande sorriso.
— Deu tudo certo na cirurgia do meu filhote. O neurocirurgião responsável por ela contou para mim e para o Yuri que ocorreu tudo bem durante o procedimento e que conseguiram conter o sangramento, regularizando a compressão contra as vértebras lombares dele.
A mãe de Benjamin olhou para o filho, sorrindo de orelha a orelha, enquanto seu marido afagava os cabelos desarrumados do garoto. Ben encostou sua cabeça no peito do pai, muito contente pela notícia, mas ficou ainda mais irradiante com a seguinte:
— O doutor garantiu que não houve nenhum comprometimento à espinha dorsal do Yuri, então qualquer lesão e consequente paraplegia foram descartadas.
— Esta é a melhor notícia que podíamos receber hoje – afirmou Yumi, beijando o namorado. Aquilo fez a Nara mudar sua feição de repente e torcer os lábios, desejando pular entre os dois namorados.
Graças à cena explícita na frente de todos, Ben imaginou só como aquela mulher não reagiria caso descobrisse a sua relação de amor com o filho dela. Tinha certeza que tentaria agredi-lo sem pensar duas vezes.
— Ele ainda continua em coma, dona Nara? – perguntou Ben, voltando a si.
A mulher abaixou os olhos e entristeceu o semblante.
— Infelizmente, sim. Mas os médicos disseram que por mais improvável que seja, o Yuri pode ficar assim por dias ou semanas.
Quê? Dias ou semanas? Isso não pode ser verdade! Yuri pelo amor que sente por mim reaja e volte para nós o mais rápido. Eu quero muito poder te abraçar e te beijar. Quero provar para ti que sou outro Benjamin. Um que dará mais valor ao seu amor. Eu te garanto, meu amor!
— O Yuri ainda precisa de doação de sangue? – levantou Manuel, abraçando a cintura do filho. – Porque eu e o meu garotão aqui estamos dispostos a doar o nosso sangue.
— Quanta gentileza de vocês – comentou a tia do japonês. – Como perdeu mais sangue de ontem para hoje, Yuri precisa receber mais doações ainda.
— Eu também vou doar – garantiu a Fernanda. – O Yuri e eu somos “A+”, eu sei disso porque tivemos que fazer um trabalho sobre tipagem sanguínea no começo do semestre com ele.
— E é claro que aceitamos a oferta de todos vocês. O meu filho vai ficar muito orgulhoso de tê-los como amigos, em especial, ao Benjamin que está do nosso lado desde o início da nossa batalha nos hospitais.
Nara se emocionou ao dizer aquilo, só não podia desconfiar que realmente o menino de olhos verdes fosse bem especial para o Yuri. A Yumi olhou para o amigo e piscou para ele com um sorriso malicioso, querendo dizer exatamente aquilo.
— Vou avisar a enfermeira para que vocês possam doar o sangue agora mesmo – informou a tia, saindo da sala.
Com apenas uma picada, Benjamin doou alguns litros de sangue para Yuri. É claro que aquilo não era o bastante para se desculpar com ele, porém já podia ser considerado uma ótima iniciativa. O pai de Benjamin e a Fernanda também puderam fazer a sua parte naquela tarde.
Ben tem certeza que viu o pai chorando enquanto doava sangue, mas ele jurava de pés juntos que foi apenas uma impressão do filho. Mas a verdade era que Manuel se emocionou ao lembrar-se dos dois quando crianças e por conhecer a situação delicada que o garoto de dezoito anos estava.
Antes de o Manuel e a sua esposa decidirem que estava na hora de ir para casa, os dois acompanharam a Nara, que também iria para a sua, descansar, até o quarto de UTI onde o Yuri estava sendo monitorado pela equipe do hospital.
Ben ficou fazendo companhia para a Yumi na sala de espera, em seguida, seriam eles a fazer uma visita ao japa. O médico autorizou uma rápida visita de um grupo composto no máximo por quatro pessoas de cada vez. Algo muito diferente do primeiro hospital em que o menino esteve.
O namorado da japonesa teve que pegar um voo de volta para São Paulo na metade da tarde. Ele não podia faltar às aulas que teria no início daquela semana, a custo de reprovar, caso faltasse. Yumi obviamente teria como comprovar a sua ausência.
— Você volta quando para Blumenau, Ben?
— Yumi, eu só volto quando o Yuri tiver alta. Quero ficar pela ilha até lá porque sei que não conseguiria me concentrar estando tão distante do Yuri internado neste hospital.
Ela sorriu, depois, deu atenção ao seu celular. Yumi estava trocando mensagens com o Camilo, que acabava de chegar à capital paulista. Benjamin se levantou para dar privacidade à garota e foi até a janela aberta. Ficou por lá uns dez minutos. Assim que seus pais voltaram junto com a Nara para a sala, ele se afastou e se sentou novamente ao lado da amiga.
— Até o rosto dele está menos inchado do que antes – informou a mãe do japa para Yumi. – O Yuri está com todos os seus sinais vitais em ordem e constantes, graças à virgem Maria. O doutor Manuel auscultou a pressão abdominal dele também e disse que não há nenhum som estranho, certo, doutor?
— É verdade, se houvesse ainda algum sangramento no intestino ou mediações certamente eu conseguiria auscultar alguns ruídos – confirmou o pai de Ben, sorrindo para o filho.
— A gente já vai embora, filho. Se tu precisar de alguma coisa, ligue para o meu celular ou do seu pai, O.K?
— Tudo bem, pode deixar que eu ligo, sim! – Ben beijou e abraçou seus pais, que depois se despediram da Yumi e pediram força para ela.
— Também já vou indo, Yumi. Eu preciso descansar um pouco. Amanhã cedo, eu volto para cá e tu poderás ir para casa.
A menina concordou e os três se retiraram. Yumi olhou para o amigo e disse:
— Que tal irmos vê-lo agora mesmo antes que o horário permitido para a visita nos quarto da UTI se encerrem?
— É claro!
A caminho do quarto em que o japonês estava internado, os dois precisaram passar pela recepção do andar e pedir a autorização para uma visita. Levaram alguns minutos para serem liberados pela enfermeira chefe do setor e, depois, cada um deles recebeu um crachá de visitante. A enfermeira autorizou um tempo de visita de dez minutos.
Quando entraram no quarto de Yuri, a japonesa foi direto à cabeceira da cama para tocar o rosto do irmão. Benjamin encostou a porta de vidro transparente, que tinha numa plaquinha o nome completo do paciente e o seu quadro de internamento na UTI.
O menino realmente teve que concordar com a Nara, o rosto do amigo estava bem menos inchado, embora os mesmos hematomas permanecessem no rosto cortado. Percebeu também que o gesso havia sido trocado por outro e que haviam vestido o japa com uma camisola do hospital.
— É a primeira vez que o vê depois o acidente? – perguntou ele, vendo como a menina chorava enquanto alisava o rosto e os cabelos do acamado. Ele olhou diretamente em seguida para o monitor com os batimentos do coração do Yuri a fim de checar se Yuri de alguma maneira podia interagir com o carinho da menina.
— É, sim. Imagine agora como eu fiquei nestas últimas horas. Eu precisava demais poder tocá-lo e sentir a sua pele aquecida. Fico só triste por causa desse tubo preso à boca dele, nem dá para ver os seus lábios.
Benjamin se aproximou da menina, pondo suas mãos sobre os ombros dela e olhando fixamente para o rosto e membros superiores do amigo. Yumi levantou o cobertor sobre o peito e demais regiões do corpo de Yuri, ela queria ter certeza de que tudo estava lá.
— Até parece que ele só está tirando um cochilo num dia rotineiro, não parece?
A menina sorriu e concordou com Benjamin:
— Ele dorme exatamente assim, sem fazer nenhum barulho enquanto respira. Benjamin, te disse que os médicos comunicaram para os meus pais que o Yuri havia consumido bebida alcoólica na noite do acidente?
— Sério mesmo? – Ele arregalou os olhos. – Eles devem querer o meu fígado, certo?
— O meu pai ficou furioso na hora em que soube, mas a minha mãe conseguiu acalmá-lo. Ele disse que acreditava ter um filho com mais juízo, mas ao invés disso, tinha criado um inconsequente. Foi aí que eu me intrometi, joguei na cara dele que ele nunca tinha sido um pai de verdade, que não tinha nenhum moral para julgar o Yuri.
— Caramba! Tu és realmente demais, Yu. O que ele fez depois?
— Saiu da sala e não conversou mais comigo desde então. Isso aconteceu hoje por volta do meio-dia.
Ben não quis aplaudi-la pela coragem. Os dois irmãos eram pessoas muito corajosas e o de cabelo castanho admirava aquilo. Ele deu a volta na cama e pegou na mão direita do japonês, massageando-a. Conseguiu imaginar aquela mão se mexendo sozinha e apertando a sua.
— É estranho, não? É estranho tocá-lo e não sentir os seus músculos se mexendo voluntariamente? – comentou Yumi, mexendo na coxa e perna esquerda do irmão.
O menino de olhos verdes colocou uma das suas mãos no peito, que dava para sentir que estava enfaixado sob aquela camisola, e a outra, começou a mexer nos cabelos do Yuri, tão lisos como sempre.
— Eu acho que seu pai sabe de vocês...
— Quê? – se assustou Benjamin, quase tendo uma crise de nervos. – Como assim ele sabe sobre eu e o Yuri? Acha que ele sabe que...
— Não digo que sabe que estão se pegando às escondidas, contudo acho que sabe que vocês se amam e que esse amor não é apenas de um amigo para com o outro.
Ben continuou a fazer o que estava fazendo antes e voltou a encarar o rosto do acamado, sorrindo.
— Por que chegou a esta conclusão, Yumi?
— Primeiro que está na sua cara e nas suas reações aqui no hospital. Depois, porque ele comentou comigo assim que vocês voltaram da sala de doação: Eu acho tão lindo a forma como estes dois amigos se amam. Não entendo o motivo para que tenham vergonha de dizer isso ao mundo todo e serem felizes de uma vez.
O rapaz não quis acreditar no que acabou de ouvir. Se aquela máquina de batimentos estivesse ligada ao seu corpo, sem dúvidas, estaria marcando batimentos cardíacos nas alturas. Não podia acreditar que seu pai sabia daquilo e que estava aceitando o fato de seu filho estar amando outro menino numa boa.
— Não pode ser, Yumi. Se o meu pai desconfiasse de alguma coisa, ele me chamaria para conversar na hora.
— É, pode ser que eu esteja enganada, mas confesse que aquilo é muito suspeito, não é?
— Não sei o que dizer... Sabe de uma coisa: se os meus pais souberem de algo, eu não vou me importar, não quero mais ficar às escondidas com o seu irmão. Eu decidi que vou pedi-lo em namoro assim que Yuri estiver fora de perigo. Nós merecemos isso. Ele merece ser amado com todo meu coração.
A japonesa sorriu para o garoto mal podendo se controlar. Ela queria que o Yuri estivesse ouvindo aquilo conscientemente. Antes dos dois saírem do quarto, Benjamin deitou sua cabeça entre o ombro do japa e sua bochecha, querendo sentir o conforto a qual já estava acostumado nos seus momentos de amor.
Depois, ele beijou delicadamente o canto dos lábios do amigo com receio de mover aquela máscara e cochichou para o Yuri:
— Está vendo só... parece que não teremos mais que ficar escondido de ninguém. Vamos poder curtir a nossa felicidade juntos, só que para isso, preciso mesmo que consiga respirar sem a ajuda dessas máquinas todas e volte para o mundo real. – Não conseguiu se controlar enquanto dizia aquilo e não chorar. – Eu te amo com todas as minhas forças. Lutarei por você até o fim da minha vida. Quero que me dê outra chance de fazê-lo muito feliz, japinha.
Os dois foram para a lanchonete do hospital. Ali, Yumi desabafou para o amigo sobre como o namorado se sentiu em meio às implicâncias da família Takashi. Ela chorou durante todo o tempo da conversa, dizia que se não fosse o irmão, ela se afastaria definitivamente da família.
Ben tentou falar algumas palavras do fundo do seu coração, mas não sabia como consolá-la. A única coisa que julgou ser de grande importância foi dizer a ela que cada pai tem o seu próprio jeito de lidar com os filhos, porém tinha certeza que o senhor Yuri e a Nara amavam os dois, contudo, tinham dificuldade para demonstrar.
E sobre o namorado, Benjamin disse que concordava com ela sobre eles querem grandes racistas hipócritas, o problema não era o Camilo ser negro, mas por não ser oriental como eles. O problema seria encontrado também pelo o Yuri caso apresentasse as suas ex-namoradas para toda a família.
O menino de olhos verdes aproveitou para brincar, mesmo nervoso, que ele e o Yuri encontrariam uma resistência muito maior pelas suas famílias. Além de não ser oriental, era do mesmo sexo do caçula dos Takashi. Nem a boa reputação do Yuri poderia lhe pôr numa melhor posição em relação à irmã.
De volta à sala de descanso os dois adormeceram abraçados num grande sofá. Na manhã seguinte, foram acordados pela Nara, que trazia dois copos térmicos com café e leite.
— Bom dia, plantonistas! – brincou ela, sorridente. – Vocês dois ficam tão bem juntinhos, sabia? E não tem idades tão distintas – provocou ela, tirando a pior expressão facial de Yumi.
— Mãe, já chega! Eu tenho namorado e sabe muito bem disso. Tem alguma notícia do Yuri?
Nara percebeu que tinha sido cortada e então mudou de assunto. Benjamin nem tinha se dado conta do que aconteceu até beber o primeiro gole daquela bebida quente.
— Vou atrás de algum médico para saber de alguma coisa – informou Nara.
— E onde está o pai? Porque ele não veio contigo?
— Tu sabes muito bem que aquele cabeça dura tem coisas muito melhores para fazer com pessoas melhores. O filho dele está respirando por aparelhos e o Yuri só curtindo a vida enquanto isso.
Ben olhou para o chão, querendo muito sair dali para dar privacidade as duas, porém quando decidira fazer isso, Nara saiu em busca de alguma notícia.
— Está tudo bem, Yu?
Ele só fez aquela pergunta quando percebeu que a japonesa se curvara sobre suas próprias pernas para chorar.
— O que está acontecendo? Quer desabafar comigo sobre alguma coisa? – perguntou com um nó na garganta.
Mas ela continuou em silêncio, chorando... Benjamin se sentou novamente ao lado da amiga para abraçá-la e massagear a sua nuca, que estava totalmente tensa.
— Benjamin, o meu pai está tendo um caso que não é de hoje com uma empresária de São José, e a minha mãe sabe de tudinho há pelo menos seis semanas.
Ben engoliu em seco e continuou a confortá-la, não entendia o motivo para que o Yuri não tenha lhe contado sobre aquilo. Quem sabe, talvez o Yuri...
—... sabe disso?
— Sim, eu e ele descobrimos isso há umas três semanas. Eu fiquei arrasada porque já fui traída pelo Camilo e sei bem como isso machuca. É claro que minha mãe já não se importa mais. O casamento dos dois está em uma crise há quase dois anos, por isso, viajam juntos em cada oportunidade que tivessem.
O menino baixou os olhos para o chão, se considerava tão amigo do outro que nunca esconderia aquilo do Yuri, mas queria entender os motivos do japa para que tenha feito o contrário.
— Olá, meninos – saudou Bárbara entrando pela porta, acompanhada pelo namorado e pelo Joshua.
Benjamin deu um forte abraço no amigo, precoce, por uns segundos. Os dois não se viam desde o velório do Pedro, eles pareciam estar com muitas saudades um do outro.
— Eu vim doar o meu sangue para o japa – comunicou Joshua, abraçando a Yumi. A menina sorriu de felicidade ao ouvir aquilo.
— O Frederico nos prometeu que virá hoje à tarde para doar sangue também – avisou Báh, alisando os cabelos do menino de olhos verdes. Ela tinha achado os fios castanho claro muito longos e aproveitaria outro momento para avisar ao amigo que já estava na hora de cortá-los. – Vocês que passaram a noite aqui têm alguma novidade?
— A minha mãe saiu não faz nem muito tempo em busca de notícias atuais. Vocês podem se sentar. Tenho certeza que o Yuri ficará muito feliz ao saber que tantos amigos se preocuparam com ele.
— Poxa, é verdade! Na turma dele, os meus veteranos se prontificaram a doar sangue ou a medula se o japinha precisar.
— Caramba! Eu fico muito feliz em saber que podemos contar com eles, mineiro.
Benjamin já sabia que o melhor amigo não tinha conquistado somente a sua amizade com todo aquele jeito Yuri de ser. Só que era outra coisa saber que tinha movido uma sala inteira em prol da sua recuperação.
Depois daquilo, Bárbara começou a conversar a sós com a Yumi enquanto Arthur e Joshua falavam com Benjamin, não teve como o rapaz fugir da pergunta: e ai, já fez novos amigos lá em Blumenau? Não me diga que já começou a nos esquecer?
Ele não queria tocar naquele assunto já que lhe fazia lembrar o motivo que levou o Yuri a se acidentar no meio da BR. Mas como não tinha outra escolha, teve que falar a verdade:
— Já consegui alguns amigos na faculdade. Até já saímos algumas vezes para curtir a noite da clássica cidade, mas nunca trocaria vocês o por eles.
— E já tá de olho em alguma gatinha? – perguntou Joshua, rindo para Ben.
Arthur olhou sem jeito para o menino de olhos verdes, sabia que “a gatinha” do Ben estava presa em algum quarto daquele hospital.
— Para ser bem honesto, não estou a fim de nenhuma garota no momento. Quero apenas levar o meu curso numa boa, sem estresse algum. Eu soube que tu estás namorando uma caloura da sua sala, isso procede, precoce? Não está sendo precoce demais?
Arthur e Ben riram por causa daquele trocadilho.
— Vá se foder, Benjamin Furlanetto! Ela é uma querida. Nós conhecemos no dia da apresentação dos calouros no auditório da UFSC. O Yuri conhece a Melanie e acha ela muito querida, seus viados do caralho.
— Ah... a caloura melanina? – cutucou Arthur, quase recebendo um soco no meio da cara. – Foi a Fernanda que nos contou o apelido da SAC dela. Estamos apenas brincando, a gente quer que tu sejas muito feliz, cara.
— Acho bom! – respondeu ele, abraçando os amigos.
Bárbara mesmo a distância fez questão de lembrá-los através de um olhar dilacerante o motivo para que os amigos estivessem reunidos ali. Ben conseguiu ver que a Yumi estava chorando enquanto conversava com a Báh. Devia estar desabafando sobre o lance da família esnobar o seu namorado.
— E vocês, Arthur... Volto para Blumenau por uma semana e quando retorno para cá, dou de cara com tu e a Bárbara namorando de volta.
O menino riu olhando sobre os ombros para a direção da ruiva.
— Não consigo mais ficar muito tempo longe daquela ruiva, pessoal. Ela ignorou as minhas ligações por dias até a última quarta-feira. Como eu tinha me cansado daquilo, fui até a casa dela e implorei para que me perdoasse e, então, voltamos a namorar.
— Ain que coisa mais fofis— provocou Joshua, apertando as bochechas do amigo e recebendo um tapa em suas mãos.
Não teve como o Benjamin não se lembrar daquele dia em que surpreendeu ao Yuri indo até a sua casa bem cedinho. Ele se pegou sorrindo de canto com a lembrança, foi naquele dia em que transaram pela primeira vez.
— Meu Deus! – Entrou a mãe dos japoneses desesperada, mal conseguindo controlar a respiração. – O Yuri... o Yuri...
De repente, a mulher desabou no chão. Benjamin já tinha visto aquela cena outra vez, agora, ficou ainda mais desesperado do que na primeira vez, já que ela trazia alguma notícia do atual quadro do seu amor.
Joshua correu para chamar uma enfermeira, mas quando voltou com a mulher, a senhora Nara já estava se recompondo, sentada no sofá, aos cuidados da filha e da Bárbara. A enfermeira aferiu a pressão da mulher e ouviu seus batimentos.
— É parece que está tudo bem com ela. Talvez só tenha se descontrolado emocionalmente – garantiu a enfermeira. – Isso mesmo, moço, água com açúcar deve resolver o problema. Se precisarem de mais alguma coisa, por favor, não demore em me chamar.
– Obrigada, Julieta – agradeceu Yumi, lendo o nome da enfermeira no seu crachá do hospital.
Benjamin queria chacoalhar a japonesa a fim de que falasse logo o que iria dizer sobre o Yuri antes de capotar. Bárbara também estava se sentindo igual ao amigo e com bolhas no estômago.
— Está se sentindo bem, mãe?
— O Yuri... – Ela tornou a puxar bem forte a respiração, ignorando a pergunta de sua filha. – O Yuri acordou! O meu menino abriu os olhos não faz muito tempo.
Os quatro amigos e a irmã do rapaz gritaram quase que juntos um “aew” e um “graças a Deus”.
— Eu quero vê-lo já – soltou Yumi, querendo correr até o quarto sem olhar para trás.
— Calma, filha! Os médicos estão lá com ele agora, fazendo alguns exames rápidos. Só que a boa notícia é que o nosso japa acordou, mesmo respirando com a ajuda dos aparelhos.
Bárbara abraçava vigorosamente o Benjamin, que estava chorando de emocionado. O menino também não via a hora de poder entrar lá no quarto para dizer algumas palavras.
— Olá, sra. Takashi – cumprimentou uma médica minutos depois, entrando na sala de espera. – Eu sou a Dra. Andresa Maccioni. Acabei de avaliar o seu filho... felizmente, ele saiu do coma hipoglicêmico, os seus sinais vitais continuam normais, apenas teremos que mantê-lo ligado aos aparelhos respiratórios até que todo o seu pulmão assuma a sua função naturalmente. Ele está sentindo todos os seus membros, o que só prova que nenhuma lesão medular ficou.
— Graças a Deus – disse Yumi, abraçada com sua mãe.
— Quando podemos vê-lo? – perguntou Nara.
— Posso permitir que apenas três de vocês entrem nas atuais condições para vê-lo – respondeu Andresa, com um sorriso à mostra.
— Eu, minha mãe e o Benjamin – emendou Yumi, olhando para os demais amigos do japonês. – Vocês me desculpem, mas o Benjamin está acompanhando o Yuri desde que o acidente aconteceu.
Bárbara sorriu para ela.
— Entendemos muito bem Yumi. O Ben merece mesmo ver o japonês antes do que qualquer um de nós aqui.
Os dois amigos concordaram com a cabeça. Nara saiu logo atrás da médica, seguidos pela Yumi e pelo menino de olhos verdes. Os dois amigos entraram abraçados no quarto onde Yuri estava acamado com aquele mesmo aparelho ligado ao tubo que entrava pela sua boca.
— Meu filho... Como é bom ver você com os olhos abertos – urrou Nara assim que pôde, tentando abraçar e beijar a testa do menino, que ficou assustado com toda a hiperatividade da mãe.
Depois, ele viu a irmã vindo em sua direção com os olhos todo encharcados e quando ela saiu da frente, viu o seu melhor amigo, sorrindo, emocionado por vê-lo acordar depois de quase dois dias em coma.
Os batimentos cardíacos do japonês se aceleraram, o que deu para ver através dos monitores posicionados ao lado da cabeceira de sua cama. Ben não sabia se aquilo era um bom sinal ou se aquilo significava que o menino preferia ver o diabo a ele quando acordasse.
— Olha só como você está, meu amor – disse Yumi bem fofa. Os olhos dele se desviaram do rosto do amigo para focalizar os olhos da irmã. Ele apertou a mão dela com a sua do braço que não foi quebrado.
Nara continuava à beira da cabeceira da cama, afagando os cabelos do filho e sentindo a sua pele transpirar. A Yumi fez um sinal para que Ben se aproximasse da cama. Ele fez isso após ver que Yuri não mudara sua expressão facial em nenhum momento.
Quando chegou à beira da cama, Yuri estendeu a sua mão direita, que estava novamente livre, para o amigo. Benjamin segurou-a com todo o cuidado, sentindo os dedos finos do japa se enlaçarem em torno do seus. Logo, Yuri apertava aquela mão com a maior força que podia.
Os batimentos do menino continuaram acelerados. Benjamin não conseguiu ficar sem chorar enquanto Yuri encarava-o com as sobrancelhas arqueadas e enquanto ele deslizava seus dedos doídos sobre a pele macia do de olhos verdes.
O menino não se controlou e abraçou parte do tronco do acamado. Enquanto voltava para a sua posição ereta após o abraço, os olhos dos dois se conectaram intensamente, os cheios de lágrimas de Ben cintilaram como se ele pudesse pedir perdão por tudo só com aquilo.
Yuri não sabia se odiava mais ter a presença da sua mãe ali enquanto o menino de cabelo castanho claro lhe abraçava ou se aquele tubo, que perturbava sua cavidade oral, impedindo os seus lábios de chegarem mais perto dos do seu amado. Mas o que conseguia fazer mesmo ignorando as dores era apertar e alisar a mão do amigo. Já não passava em sua cabeça qualquer motivo de ódio ou aquele acidente terrível, o que se passava ali dentro era exatamente a mesma coisa que ficou em seus pensamentos antes de perder a consciência durante o atendimento dos paramédicos: o medo de não poder dizer outra vez ao Benjamin o quanto lhe amava. Por mais melodramático que isso possa parecer foi exatamente a única coisa que o oriental pôde pensar naquela hora.
— Me desculpem, mas preciso que deixem o Yuri descansar agora – disse uma enfermeira, abrindo a porta do leito. – Assim que ele se recuperar totalmente e sair da UTI poderão passar mais tempo com o paciente.
Ben olhou com uma expressão medonha para a mulher ao ouvir aquilo. Aqueles minutos ali pareceram tão poucos quando comparado às horas de tensão e de medo que lhe assombraram nos últimos dias.
— Filho, a gente vai continuar aqui no hospital contigo, logo, logo, levaremos tu para casa – despediu-se Nara, beijando a testa do menino.
Yumi sorria para o irmão.
— Eu não vou voltar para São Paulo até que você esteja de pé e correndo pelo apartamento. Entendeu? – avisou a japonesa beijando a bochecha do Yuri.
Benjamin engoliu em seco quando chegou a sua vez de se despedir. Estava nervoso porque a Nara ainda estava entre o quarto e o corredor. Então, as únicas palavras que pôde falar foram:
— Também continuarei aqui acompanhando cada evolução sua. Trate logo de se recuperar pra gente poder curtir as praias de Floripa juntos – disse, enxugando os olhos e sorrindo com a boca toda cheia de saliva por conta do nervosismo.
Quando estava se preparando para sair do quarto e começava a soltar sua mão da do amigo, Yuri deu um puxão em seu sentido – Ben entendeu aquilo como um sinal para se aproximar mais. Olhou para trás, Yumi tentava bloquear a visão da sua mãe enquanto ela arrastava uma conversa à toa com a enfermeira, tentando evitar que o menino fosse expulso do quarto.
O menino de olhos verdes se dobrou sobre o rosto do amigo entubado, passou a mão sobre os cabelos no sentido da sua testa para trás e beijou o canto dos seus lábios livres do tubo. Yuri fechou os olhos tentando retirar daquele momento o máximo contato que podia.
Benjamin voltou a chorar. As suas lágrimas agora começaram a gotejar sobre a bochecha com hematomas do outro.
— Eu quero que saiba que sinto muito mesmo e que eu te amo muito. Muito mesmo, Takashi! A primeira coisa que farei assim que tu sair daqui será te levar para jantar em um lugar bem legal e te pedir em namoro – sussurrou Ben, com os lábios ainda próximos do canto dos lábios alheios. O menino não deixou de ver lágrimas escorrendo do canto daqueles olhos tão puxados e com a ponta de seus dedos enxugou-as. – Eu te amo do fundo do meu coração. Eu sei que não pode falar agora, mas consigo ver naquela tela os seus batimentos cardíacos – que estavam acelerados –, e entendo que seja a tua forma de me dizer o mesmo.
Antes de que a Yumi parasse de enrolar as duas mulheres, Benjamin deu outro beijo no canto dos lábios do Yuri e pediu para que ele fosse forte para sair depressa daquele hospital. Com medo de chorar ainda mais, Ben não quis olhar para trás e ver o estado que acabava de deixar o japonês.
Yumi deu um forte abraço no amigo enquanto eles caminhavam corredor adentro.
— Vocês vão ficar bem. Vocês vão, eu garanto!
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