Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
18 Capítulo dezoito - Felicidades, felicidades, Bárbara Ronsoni
Notas iniciais
O sábado tão esperado, pelo menos para a Bárbara, chegou. A garota já tinha deixado tudo preparado, desde as comidas e as bebidas até a escolha das seleções musicais que o DJ tocaria (neste ano, não iria correr o risco de ser taxada como brega). A ruiva pilhou tanto as pessoas para não faltarem o seu aniversário, que todos estavam com medo de que ela os matasse caso não fossem.
Benjamin Belucce cedeu e decidiu começar sua faculdade de medicina. Ele foi com a sua mãe e a Bárbara para Blumenau efetivar a matrícula na sexta-feira. O garoto pôde conhecer alguns dos seus novos colegas que faziam a matrícula e conversar com o reitor da universidade.
O reitor garantiu que o menino de olhos verdes estava escolhendo a melhor instituição particular do estado de Santa Catarina. Ele indicou ótimas imobiliárias para Marisa, que já estava surtando para conseguir um apartamento para o filho em tão pouco tempo.
Bárbara achou muito caro a mensalidade que os pais do menino teriam que desbancar mensalmente à instituição, R$ 3.800,00, fora os materiais e os demais gastos com moradia, alimentação e lazer. Marisa não via problemas em pagar aquele valor todo para que o menino se graduasse.
O resto daquela tarde de sexta-feira, os três passaram visitando alguns apartamentos perto da faculdade, mas nenhuma das opções agradou ao menino. O jeito era continuar procurando através da internet no início daquela próxima semana.
No jantar com a sua família, na quinta-feira, Benjamin revelou a todos que começaria o semestre na FURB, porém iria continuar prestando o ENEM e o vestibular tradicional da UFSC. Marisa não apoiou a escolha de início, mas como ele não desistiria da faculdade para isso, ela não se oporia.
O despertador do Ben teve que tocar três vezes como de costume para que ele tomasse impulso e caísse fora da cama. Aquele sábado prometia, tinha combinado um almoço com o Frederico no restaurante dos pais do loiro, no shopping Iguatemi, há poucos passos da UFSC. Mais tarde, teria a festa da melhor amiga na ACM.
O menino de cabelos castanhos sabia que o cunho principal da sua conversa com o velho amigo seria o pedido oficial de desculpas do garoto. Manuel encorajou que o filho aceitasse o convite e que pelo menos ouvisse o que ele tinha a dizer. Quando contou a Báh que almoçaria com o Fred, a ruiva jubilou ao telefone, já que ela tinha convidado o encrenqueiro para sua festa.
Assim que Benjamin fechou a porta do carro, seu celular começou a tocar. A ligação partia do telefone da Yumi.
— Alô, Yu.
— Olá, Benjamin. Está tudo bem com você?
— Comigo sim e com vocês?
— Tudo ótimo. Estou ligando para me despedir de ti por telefone, já que não poderei fazer isso pessoalmente. Quero te agradecer de coração por tudo que curtimos juntos nesta semana.
Benjamin sentiu um aperto no peito. Odiava despedidas, por mais que já acostumara com a distância entre os dois. O barulho no aeroporto era demais da conta, tanto dos pronunciamentos das companhias aéreas quanto das pessoas em torno da menina.
— Tu está sozinha aí? Se tivesse me ligado mais cedo tinha ido contigo e ficado aí até o seu avião partir.
— Que fofo, Benjamin. Mas, pode ficar tranquilo que estou aqui com o Yuri e com mais duas amigas. Diga olá ao Ben, japa — falou Yumi com a voz meiga.
— Oi, Benzinho. Tudo beleza?
— Fala, Yuri. Tranquilo e tu?
— Desculpa, Ben, ele já tinha passado o telefone pra mim, então não te ouviu. Olha, mocinho, eu quero que se cuide muito lá na sua nova cidade e com quem vai se meter por lá. Nunca se esqueça de Florianópolis, que por mais que seja uma ilha sempre será a melhor cidade do mundo. — Benjamin estava rindo, assim como ela. – Eu te espero em São Paulo para uma visitinha em breve. Marque algum feriadão e vá com o Yuri pra lá.
— Pode crer que eu vou, sim. Obrigado pelas recomendações. Por favor, não me deixe sem notícias suas e do Camilo. Torço sinceramente para que vocês voltem a ficar juntos.
— Fofo, eu te adoro. Agora, já vou desligar. Beijão e boa festa hoje à noite.
— Valeu, fofa – respondeu entre risos.
E desligaram o telefone em seguida. Benjamin deu a partida em seu carro e saiu do condomínio rumo à SC-401.
Yumi estava com lágrimas nos olhos enquanto beijava e se despedia das suas amigas. Yuri ficou por último, o oriental não conseguiu segurar a emoção de ver sua irmã voltando para casa. As duas amigas da Yu saíram bem antes de ela dar adeus ao irmão. Quiseram dar aos dois um momento de privacidade.
— Espero que se cuide muito bem. Não deixe o Camilo te fazer de palhaça, Yu. Qualquer problema não pense nem duas vezes, me ligue na hora que largo tudo o que estiver fazendo aqui só para viajar até lá e te ajudar com o que precisar.
— Yuri, às vezes, tu me faz acreditar que sou a caçula da casa – disse entre risos e lágrimas. – Eu que deveria estar te dizendo todas estas coisas, mas sabe que pode contar comigo sempre. Se quiser conversar sobre algo que não esteja entendendo. Sei lá... Algum sentimento estranho ou que não saiba lidar direito, me procure.
— O que tu quer dizer com isso, Yumi? – O menino sentiu seu coração acelerar. Até parecia que ela sabia de alguma coisa. – Não entendi o porquê de estar me dizendo isso.
Yumi secou as próprias lágrimas, sorrindo para o irmão e pondo, em seguida, uma mão sobre o ombro dele.
— Sabe que nunca te julgaria por nada, certo? Eu te amo mais do que tudo em minha vida, mais do que amo os nossos próprios pais. Conte com o meu apoio sempre. Sempre, mesmo, japinha lindo.
— Credo, Yumi, juro que não estou entendendo nada. Se quer dizer algo, peço para que vá direto ao assunto.
— Calma, japinha! Tua irmã não quer dizer nada, só está oferecendo os ombros e os ouvidos para tu a qualquer hora do dia – acalmou-lhe, afagando seus cabelos lisos. – Eu sei bem o que está rolando entre você e o Benjamin – ela foi direta –, sei que estão confusos. Não quis dizer nada antes para não criar uma balbúrdia à toa.
— Que merda, Yumi. Não está rolando nada entre nós, só as nossas brigas vez ou outra. O que tem de mal nisso?
A menina pôs a mão sobre o peito do irmão, querendo indicar seu coração.
— Eu reparei o jeito que encara ele e também a maneira como ele te olha de volta. Vocês estão apaixonados um pelo outro, não há como duvidar. Não quero que negue para si mesmo. Como te falei: eu te amo e te apoio em tudo, em tudo, em tudo, absolutamente em tudo mesmo!
O menino disparou a chorar e ela abraçou-lhe bem forte. Yumi sentiu as lágrimas quentes do irmão escorrerem por seu pescoço e por entre seus seios.
— Não sei o que estamos sentindo, Yumi. O pior de tudo é que não queremos aceitar este sentimento desgraçado. Estou perdidamente apaixonado por ele e acho que ele também está por mim.
— Vocês estão, sim. Ouça-me com atenção, Yuri Takashi Neto, abra de uma vez este coração para ele e não tenha medo do que possa vir contra vocês. É perfeitamente normal sentir amor por aqueles que menos imaginávamos poder amar. Não pense nos rótulos que a sociedade impõe às pessoas de mesmo sexo. Vocês são quase adultos e muito lindos por sinal.
— Yumi, eu não posso e nem vou sucumbir ao meu desejo. Amo a Bruna também, e é com ela que eu devo ficar.
— Mas é com ela que tu realmente queres ficar? É ela que te deixa maluco quando põe os teus olhos ou é o teu melhor amigo?
Senhores passageiros do voo 1-8-4 com destino a São Paulo, capital, o embarque será interrompido em instantes. Pedimos que se encaminhe ao portão 4-B com a máxima urgência.
A japonesa por um minuto tirou os olhos do irmão para encarar a moça que fazia o anúncio pelo microfone da sala de embarque da companhia aérea.
— Tu precisa ir, Yumi. Eles já vão fechar as portas do avião.
— Agora que não vou, vou remarcar o voo para mais tarde. Não quero te deixar neste estado, e como fui a responsável, vou permanecer contigo por mais algumas horas. O que mais temos são voos para Sampa. – Ela terminou de dizer isso apertando ainda mais forte o tronco do seu irmão, que por hora se tornou frágil e suscetível ao toque dela.
Após a conversa com Frederico, Ben resolveu pôr uma pedra sobre a briga dos dois naquela praia. O menino de olhos verdes assumiu parte da culpa por aquilo e confessou estar sentindo muita falta do melhor amigo. Depois do almoço, os dois saíram pelos corredores do shopping em busca de roupas bacanas para irem à festa da Bárbara.
No momento em que Benjamin chegou a sua casa, se deparou com uma cena nada agradável; Miguel discutia agressivamente com Paula. A namorada do irmão chorava copiosamente e se corou toda quando viu o menino de olhos verdes entrando em casa.
Ele pensou em dizer alguma coisa, contudo subiu as escadas e se dirigiu ao seu quarto. Miguel continuou gritando com a menina no andar debaixo como se fossem os únicos a estarem dentro de casa. Ben ligou o som sobre a escrivaninha do notebook para não ouvir os brados lá embaixo.
Já era quase seis da tarde. Antes de o menino entrar debaixo do chuveiro, passou os olhos rapidamente sobre o celular para conferir se tinha alguma mensagem importante no seu WhatsApp. Havia uma mensagem do Fred.
Fred:
Cara, eu fiquei muito feliz por ter me perdoado e espero mesmo que possamos voltar a ser grandes amigos como sempre fomos. Torço por seu sucesso em Blumenau e em qualquer outro lugar que for.
Abraço, Benjamin (emoticon sorridente).
Benjamin:
Valeu, seu puto. Eu te amo, brother. Voltaremos a ser bons amigos como sempre fomos.
Te vejo mais tarde na festa da Bárbara.
Em seguida, ele enviou ao Fred uma foto dos dois juntos. Nela, eles estavam abraçados na primeira balada que Benjamin pôde ir, um dia depois de completar dezoito anos.
Quando Benjamin já tinha tomado banho e estava terminando de se vestir, a porta do seu quarto foi batida, seguida pela voz de sua mãe.
— Posso entrar, filho?
— Pode.
— Nossa que lindo que está, Benjamin. – Ele vestia uma calça jeans Skinny azul, entre um tom claro e um escuro, e com uma lavagem branca, acompanhado de uma camisa lisa vermelha de manga longa – o colarinho e as mangas eram brancos.
— Valeu, mãe. Tem certeza que nem tu e nem o pai querem vir comigo?
— Amamos a Bárbara, entretanto já tínhamos este jantar marcado com dois casais de amigos nossos. Quero que entregue o meu pedido de desculpas a ela e a sua mãe. Por favor, não se esqueça!
— Tudo bem, dona Marisa, juro por tudo que há de mais sagrado que a primeira coisa que farei quando vê-las será entregar o seu recado. Tu veio aqui só para me dizer isso?
Os olhos azuis de Marisa sorriram juntamente com seus lábios cobertos pelo seu batom rosa choque.
— Comprei uma coisinha para ela e outra para o japa. Tu se lembra de que eu manchei a camisa branquinha dele na semana passada, certo? – Benjamin sentiu um nó dentro do seu estômago. Como ele poderia esquecer aquela noite? Aquela mancha foi a responsável por eles terem se entendido tão bem depois.
— E o que comprou para a Bárbara, mãe? – desconversou ele, pegando as duas sacolas de papel das mãos dela. Ambos os presentes estavam embrulhados, um deles com um plástico dourado e cinza e, o outro, com um plástico azul.
— Eu comprei um vestidinho para ela que é a coisa mais linda deste mundo. Se eu tivesse a idade da Báh, sem dúvidas, ousaria e usaria algo na altura das minhas coxas.
— O Arthur vai te matar por estar dando um vestidinho curto para ela.
— Na verdade, ele te matará, está se esquecendo de que foi tu que comprou o presente? – Benjamin riu, e Marisa piscou para o filho. – Dentro de cada embrulho está a etiqueta com o vale troca, no caso de não servirem ou não gostarem.
O menino de olhos verdes retribuiu a piscadela para a mãe e deu um beijo na sua bochecha. Ela armou seus braços e abraçou o caçula.
— Filho, tu sabe que te amo muito, certo? Perdoe-me por ter dado um tapa na sua cara naquela noite. Ando um pouco estressada por causa da clínica, estou considerando a ideia de só atender os meus pacientes no HU e os meus alunos de medicina da UFSC.
— Também te amo, dona Marisa. Faça isso mesmo, não precisa se sacrificar. Já basta o pai que faz isso em seus plantões cirúrgicos.
— Antes que me esqueça, qual é o horário que vai sair para ir à festa da Báh? Eu vi no convite que ela começaria a partir das 19 horas. Não sei se tu sabe, mas já são vinte horas e quinze minutos.
Ele olhou o horário no relógio digital sobre a escrivaninha de mogno.
— Mãe, pode relaxar, no começo é mais pros velhotes e familiares. A nossa festa mesmo só vai começar depois das onze e se estenderá até às duas da manhã. – O garoto começou a rir exageradamente, recebendo um olhar inquisitorial. – Ah, não vou ir à festa com o meu carro. Pretendo beber todas hoje à noite, então vou chamar um táxi pelo app de celular.
— Perfeito, até que enfim, o meu nenezinho está criando juízo, meu Senhor. Só não vá beber que nem um alcoólatra, afinal se isso acontecer, te deixarei para fora de casa.
Ela pareceu dizer aquilo com severidade, mas Benjamin sabia que não passava de um blefe. Ele bateu continência para a mãe e se sentou na cama para calçar o seu sapatênis.
Marisa estava se retirando do quarto com um sorriso entre os lábios quando disse:
— Ben, se quiser podemos te dar uma carona até a ACM, já que vamos seguir para o sul da ilha mesmo. Só que nós iremos sair às nove e meia, porque o seu pai ainda nem tomou banho. Está jogando videogame com seu irmão e com o melhor amigo dele.
— Quê? O Fabrício está aí, e eu nem sabia disso? Quando foi que ele chegou?
— Vá perguntar ao seu irmão. Estás me achando com cara de secretária? – provocou ela. – Deixa eu descer lá e empurrar o Manuel para o chuveiro.
Benjamin riu, tacando um par de meias sujo no peito dela.
— Nojento! Coloca esta merda para lavar porque já está fedendo chulé. – Marisa chutou o par de meias para dentro do quarto e fechou a porta.
O garoto começou a ter uma crise de risos e só se controlou quando foi escovar os dentes e pentear o seu topete.
Bárbara estava agitada, ia de um lado para o outro do salão, tentando ao máximo dar atenção às suas tias do noroeste do estado e aos amigos que já tinham chegado à festa. O clube da ACM, sigla de Associação Catarinense de Medicina, era um confortável e espaçoso lugar – do lado de fora, havia algumas churrasqueiras e uma baita piscina, que fazia a alegria das festas universitárias da capital durante os meses mais quentes do ano.
O salão de dentro era muito grande – as cadeiras e o teto estavam todos decorados com bexigas douradas e outras, pretas, além das inúmeras fitas serpenteadas que se projetavam a partir do teto. Além disso, havia muitas rosas espalhadas por todos os cantos. O espaço dedicado à pista de dança estava coberto por inúmeros holofotes coloridos. O deck elevado com a mesa e todos os equipamentos do DJ estava à frente da pista.
O Buffet tinha dezenas de variedades de doces e salgados. O bolo se parecia muito com um de casamento.
— Ainda vai demorar muito para o DJ começar a tocar? – perguntou Joshua, olhando para o horário na tela do seu celular. Ele estava sentado junto a uma mesa do lado de fora do salão na companhia do Yuri, da Bruna (os dois voltaram a namorar na noite passada), da Fernanda, do Matheus, do Arthur, do Fred, do Pedro, da Giselle e do seu namorado.
— Confesso mesmo que isto aqui está um porre – confirmou Arthur, fazendo os seus amigos rirem. – A Bárbara disse que a partir das onze horas o salão será todo e unicamente nosso. O pai dela é aquele tradicionalista de sempre, por isso está tocando estas músicas do tempo em que os meus pais ainda eram virgens.
— Porra, Thur, isso deve ter sido a milianos— emendou Pedro.
— Licença, senhores. Vocês querem que eu traga mais algumas garrafas de Heineken e uma de vodka? – perguntou o garçom.
— Orra, parceiro, tu já se tornou o meu melhor amigo – brincou Giselle.
Eles ainda não tinham bebido todas as garrafas de cerveja que o outro garçom havia trazido, porém não perderiam a oportunidade de reabastecerem a mesa. Lá fora, havia também várias crianças correndo de um lado para o outro, todos monitorados por mulheres contratadas pelo pai da aniversariante.
— Saca só aquelas gatinhas perto dos seguranças, na entrada do salão – disse Frederico, esfregando as mãos. – Hoje o papai aqui vai meter gostoso em um rabinho.
— Nem mexa com elas, seu louco, são primas da Bárbara – provocou Fernanda, baixando a cabeça do amigo.
— E o que tem de mal nisso? Aliás, elas são tops mesmo. Todas as primas da Báh são perfeitas – perguntou Yuri, recebendo um soco da Bruna em seu ombro. O menino estava usando uma camiseta azul escura da Volcom com gola “V”. Ela havia sido um presente da irmã no dia em que deixou o Benjamin na casa da Bárbara.
— Vai tendo estas ideias toscas, meu amor, porque eu corto o seu pênis depois de transarmos hoje à noite – ameaçou Bruna, fazendo todos urrarem de tanto rir, exceto o japonês.
— Mostra quem manda mesmo, Bru – provocou Giselle.
Eles começaram a bater palmas quando o garçom voltou com duas bandejas carregadas de Heineken e com uma garrafa de vodka.
Logo em seguida, Bárbara apareceu com uma expressão cerrada e segurando seu celular. A aniversariante estava esplendorosa, usava um vestido tomara que caía, branco, caríssimo, que ganhou dos seus avós maternos e um sapato de ponta fina cheio de pedrinhas brilhantes.
A sua maquiagem foi feita por uma maquiadora prestigiada da ilha, que também fez a de sua mãe e a de sua avó. Os seus cabelos foram cacheados em longas mechas e ainda tinham purpurina espalhada entre os fios.
— O Benjamin ainda não chegou, né? – perguntou ela, já sabendo a resposta, afinal o menino de olhos verdes não estava com o grupo. – Olha já são dez e dez e nada de ele aparecer. Juro a vocês que vou matá-lo caso não apareça.
Bárbara estava prestes a chorar. A Giselle se levantou para abraçá-la enquanto Arthur nem se importou com a preocupação à toa da namorada.
— Ele é o Benjamin, porra, nunca chega no horário marcado – ressaltou Fernanda.
A ruiva torceu os lábios e deu outra olhada na tela do seu telefone.
— Liga pra ele e pergunta onde está? – sugeriu Yuri.
— Eu já fiz isso, japa, mas o celular dele só cai na merda da caixa de mensagem. Quer saber, vamos curtir a minha festa, ele que vá se foder bem gostoso longe da gente.
— Talvez, ele já esteja treinando se afastar de nós – sugeriu Joshua.
Yuri pensou em dizer algo, porém se lembrou de como ficou a comemoração do amigo após defendê-lo. Ao invés disso, bebeu sua latinha de Coca-Cola.
— O meu pai já disse que estão indo embora, turma, e o DJ já deixou tudo pronto para a verdadeira festa começar – avisou Bárbara.
E eles começaram a comemorar batendo na mesa e gritando algumas besteiras a plenos pulmões.
— Mas os seus outros amigos e primos vão continuar com a gente, certo?
— Vão, sim, Bruna. Só as crianças e os mais velhos vão cair fora. Meus pais já me disseram para não deixar os meus primos de menor chegarem perto de álcool.
— Coitado de tu, Báh, que vai ter que aguentar a maioria destes parentes na sua casa – comentou Fernanda, bebendo um copo de vodka.
— Que nada, hoje vou posar na casa do Arthur. Os pais dele viajaram.
— Safadinhos, então a verdadeira festa só vai começar dentro do quarto do Arthur.
O grupo de amigos não resistiu e voltou a fazer algazarra com aquilo.
O carro do pai do Ben estacionou em frente à ACM. Marisa o fez se lembrar das sacolas com os presentes dos amigos.
— Se quiser uma carona depois da festa, ligue para o celular do seu pai, tá bom? A gente não deve voltar pra casa antes das três da manhã mesmo.
— A bateria do meu celular descarregou e nem tive tempo para pôr na tomada. Mas se não rolar alguma carona com alguém sóbrio, juro que ligo para vocês ou peço um táxi.
— Boa festa, filhão – disse Manuel, apertando a mão do menino e recebendo um beijo na bochecha.
— Não se esqueça de pedir desculpas pela nossa ausência, tá?
— Já disse que não vou me esquecer, dona Marisa Mion. – O menino beijou o rosto da mãe e desceu do carro. Seu pai buzinou antes de voltar à rodovia.
Alguns carros já saiam de dentro do estacionamento, pelo jeito era mais do que onze horas. Dois seguranças armados puseram os olhos sobre o garoto assim que ele se aproximou da entrada de pedestres.
— Qual é o teu nome, guri? – perguntou um deles, segurando uma prancheta com a lista dos nomes de todos os convidados.
— Benjamin Belucce Furlanetto...
O cara começou a procurar seu nome na lista, e o outro liberou a passagem assim que conferiram o nome do garoto.
— Boa festa pra vocês!
No pátio do clube havia muitos jovens desconhecidos, alguns se despediam dos seus pais, que embarcavam nos seus carros e deixavam o local. Benjamin não reconheceu nenhum rosto familiar até entrar no salão.
O barulho do som era alucinante, ainda mais aliada ao jogo de luzes e à técnica de mixagem do DJ. Do outro lado do salão estavam as mesas e o Buffet, e lá as luzes continuavam acessas.
— Benjamin... não acredito que tu chegou tão cedo, cara – caçoou Joshua, abraçando o amigo. O mineiro estava completamente bêbado. – A Bárbara quer comer o seu fígado como espetinho de gato.
— A culpa foi do meu pai que estava jogando Xbox com meu irmão e um amigo dele. Sabe onde ela tá?
— Serve aquela menina perto do Buffet?
O menino de olhos verdes foi na direção da amiga. Ela estava conversando com seus pais, que repetiam as mesmas ponderações. Bárbara desviou seus olhos azuis em direção ao amigo e sorriu.
— Olá, Benjamin, quanto tempo não o vejo por aí. Como estão todos na sua casa? – perguntou o pai da ruiva. Ele também era tão ruivo quanto à filha e um pouco barrigudo. O homem também era médico, mas só que urologista. – Nunca mais pude fazer um plantão ao lado do doutor Manuel.
— Boa noite, doutor Narciso, estamos bem. Eles não puderam vir porque tinham um jantar marcado com alguns amigos. Aqui está o seu presente, Báh.
A menina sorriu e abraçou o amigo, que começou a beijá-la na testa e nas bochechas sem parar.
— Muitas felicidades! Muitas! Muitas, mesmo! Eu te amo demais e quero que seja muito feliz. Que tenha muita saúde e paz. – Ben teve que segurar para não chorar, já ela não conseguiu fazer o mesmo.
— Benjamin, eu fiquei muito feliz por ter sido aprovado na FURB. Fico só triste que vai ter que parar de treinar comigo – comentou Flávia, abraçando o seu atleta. Ele não tinha parado para pensar por este lado. Havia se esquecido da natação e do campeonato intraestadual dali a três meses.
— Quem disse que preciso parar de treinar contigo? Eu vou vir todo o fim de semana para Floripa, e como treinamos sempre nos sábados, poderei continuar participando – garantiu ele como se já tivesse pensado sobre esta questão há muito tempo, só que não havia.
— Muito bom saber disso, meu querido. Mas eu e o Narciso já estamos indo embora. Se comportem todos vocês e nada de brigas aqui dentro, se não os seguranças porão um fim na festa.
Após os pais da melhor amiga irem embora, ela abriu o presente e jurou que tinha adorado o vestido, só não acreditou que o menino teve o bom gosto de comprá-lo. Sabia que ali havia um dedo da doutora Marisa. Ele explicou toda a história por seu longo atraso, entretanto a ruiva estava tão alegre por ele não ter faltado que sequer deu bola para aquilo.
— Sente-se aqui, meu lindo de olhos verdes, e coma uns docinhos e um pedaço do bolo. Eu não pude esperá-lo chegar para cortar o bolo e cantar os parabéns porque meus familiares tinham que ir embora logo. – Ele achou graça daquilo e começou a rir. – Vou lá dar uma conversada com os outros convidados, depois de comer junte-se a nós, O.K.? Estamos todos nos acabando na pista. Vieram todos que eu esperava que viesse, até mesmo a namorada do japa veio.
Benjamin parou de mastigar por um momento e tentou localizá-lo na pista, mas o jogo de luzes sobre o local não permitiu. Não tinha ideia de que os dois haviam se acertado novamente. Sem dúvidas, ficou enciumado, contudo não demonstrou a Báh.
Ele ficou sozinho naquela mesa, mas nas outras ao seu redor havia algumas pessoas que o menino nunca vira na vida, todos eram primos ou amigos da aniversariante. Alguns casais se agarravam pelos cantos do salão, um deles foi reconhecido pelos olhos verdes, era a Giselle e aquele menino que conheceu no aeroporto de POA.
— E aí, atrasadinho – disse Yuri, saindo sabe-se lá de onde. Estendeu a mão para um cumprimento informal e se sentou do lado do amigo. – Que aconteceu para chegar tão tarde? Quis fugir da chatice que foi o começo da festa?
— O meu pai se enrolou todo para me trazer para cá, nem pude questionar porque estava de carona hoje à noite – explicou, rindo.
— Licença, jovens, vocês querem alguma bebida? – perguntou uma garçonete simpática.
— Eu não estou bebendo álcool hoje, fiquei como o motorista da rodada – brincou o japa. – Tu vai aceitar, Ben?
— Opa, vou querer, sim. O que vocês estão servindo?
— Heineken, Vodka, refrigerante de latinha e água.
— Pode me trazer um pouco de Vodka e uma cerveja, obrigado.
Yuri levantou as sobrancelhas e torceu os lábios, surpreso.
— Porra, já vai começar bem a madrugada, hein? Depois posso te descolar uma carona se quiser.
— Aqui estão vocês. E aí, Benjamin, tudo tranquilo? – disse o Arthur, na companhia da Bruna. O menino de olhos verdes não acreditava que finalmente os dois se falariam pela primeira vez.
Ben se levantou para abraçar o amigo e cumprimentar a garota. Logo, o Arthur voltou em direção à pista de dança, deixando os três sozinhos.
— Tu és o tão famoso Ben? Sabia que teu amigo não para de falar de ti? Por isso é bem famoso. É um prazer te conhecer. Adorei os seus olhos verdes, eles são fofíssimos e tu és também.
— Prazer em te conhecer, Bruna. É mais bonita do que eu imaginava, o Yuri fez uma bela escolha – comentou Benjamin, olhando de relance para o japa que fechou aquele sorriso bobo. Bruna abraçou-o como se já lhe conhece há anos.
— Obrigada, tu és muito gentil, garoto.
Ele se sentou rindo sem graça. A garçonete voltou com o que Ben pediu. O menino bebeu primeiro a Vodka para ficar bem louco e ignorar aquele estúpido ciúme em seu peito.
— Morzinho, venha dançar comigo um pouco. Tô me sentindo muito sozinha naquela pista – falou ela, fazendo voz de dengo, acariciando o maxilar do oriental, que não tirou os olhos de Ben. Como ele a ignorou, Bruna lhe deu um selinho e mordiscou o lóbulo da sua orelha. – Venha com a gente, Benjamin. Nada de ficar aqui tão sozinho. Vamos nos conhecer mais um pouco – disse com a voz meiga.
Ele reparou que a menina era bem simpática, o que lhe fez sentir-se mal. Agora, queria que o amigo ficasse junto com ela. Ela merecia alguém tão parceiro e carinhoso como só o Yuri sabia ser.
— Podem ir à pista. Daqui a pouco eu vou. Quero encher mais um pouco a cara – afirmou Ben, piscando para a garota, que retribuiu com um sorriso doce.
— Não beba demais antes de tentar curtir a noite. Lhe garanto que a festa está repleta de meninas lindas e que podem fazer o seu tipo – comentou ela. – Vamos, Yuri?
O japa olhou para os dois e depois suspirou profundamente. A menina saiu alguns passos na frente, Quando Yuri estava se levantando, tentou pôr uma mão no ombro do amigo, só que foi impedido pela mão livre do amigo.
— Ben... não...
— Vamos Yuri – chamou a menina, cansada de esperar. Ela voltou e puxou-o pelo braço, e disse: – Me perdoe, Benjamin. Te esperamos lá daqui a pouco.
O menino sorriu para não ser antipático, mas seus olhos não esconderam a chateação. Yuri, quando já tinha se afastado alguns metros, olhou para trás por cima do seu ombro, só que sem parar de caminhar.
O coração do Yuri se apertou, quase que ele largou a menina e foi correndo atrás do melhor amigo. As palavras que a Yumi lhe disse naquela tarde nunca poderiam fazer mais sentido do que agora que estava perto dos dois: É a Bruna ou o Ben que te faz ficar maluco quando põe os teus olhos? Droga, ele sabia a resposta. Droga, o que faria agora? Droga, ele estava dançando com uma pessoa e pensando na outra.
— Que o Benjamin está fazendo lá tão sozinho? – perguntou Bárbara, sentindo o seu coração partir-se ao meio. – O meu amigo não está legal. Será que ele está chateado com alguma coisa que eu tenha dito?
— Ele está bebendo apenas, Báh. Não vejo motivos para ele ficar tão cabisbaixo, já que agora se decidiu por ir à Blumenau – respondeu Arthur.
— Vamos lá buscá-lo, Thurzinho. Não posso deixá-lo perder toda a boa parte do meu aniversário.
— É pra já!
Fale com o autor