Sem mais desculpas. Sem arrependimentos.
17 Capítulo dezessete - Até quando vamos fingir?
Notas iniciais
Yuri não trocou nenhuma palavra com Benjamin ou com Yumi enquanto ele e o menino de olhos verdes vinham de carona para casa, no próprio carro do japonês, após saírem do Meu Escritório. Ele ainda estava com a cabeça muito quente por conta do mal entendido daquela noite.
O japa não escondeu de Yumi sua reação de desgosto quando ela contou a ele que o amigo viria posar em sua casa ao invés de ir para a da Bárbara. A verdade era que o Yuri queria ficar sozinho consigo mesmo, ainda mais depois de ouvir outra pessoa afirmando que os dois amigos eram namoradinhos. Isso mexeu bastante com o humor do rapaz.
A sua irmã lhe repreendeu após sua reação contrária a vinda do amigo para a casa deles. Ben não suspeitou de nada por já estar dentro do carro naquele momento.
— Pare já com isso, Yuri. Ele é o seu melhor amigo, agora vai querer se distanciar dele por causa de uma provocação de dois filhos da puta? Entre logo neste carro e finja que está tudo bem, afinal está tudo bem mesmo. Tu tá me entendendo?
O menino obedeceu à irmã, porém o resultado foi aquilo já mencionado; ele não trocou nenhuma palavra com os dois durante todo o trajeto. Benjamin nunca suspeitaria de que o silêncio fosse por causa de ele não estar a fim de ter sua companhia naquela noite.
Quando já estavam dentro do apartamento da família dos amigos, Ben perguntou ao japa:
— Ainda está irritado por causa do que aqueles idiotas falaram?
— Benjamin, eu fiquei muito de cara com as insinuações feitas pela Fernanda e pelo Matheus, eu realmente confesso. Porra, falar aquelas merdas na frente de todos os nossos amigos. Pense só o que eles não estão achando daquilo tudo.
Ben pôs os dedos sobre seu próprio queixo como se o coçasse ao mesmo tempo em que via a reação do outro. Eles estavam a sós e sentados, um de frente para o outro, nos sofás ali da sala do apartamento da família do oriental. Yumi foi se trocar em seu quarto porque não aguentava mais aquelas calças jeans apertadas e seus sapatos de salto alto.
— Foda-se eles, Yuri. Por um acaso, nós somos namorados? Não somos, e todos sabem disso, meu. Todos sabem que tu namora a Bruna Santori e é o que basta.
— Não quero dizer isso. Só quis dizer que fiquei muito de cara com aqueles filhos da puta. Tu não ficou, Ben?
— Pra falar bem na real, eu estava pouco me lixando pra aquilo. Japa, eu tenho mais problemas pra me preocupar agora. Acha mesmo que a Fernanda e seu namorado poderiam acabar com a minha noite?
— Tu tá certo, tu tá certo.
— Confesso que imaginei mesmo a Yumi dando uns bons tapas naquela guria. Yuri, eu não sei como tu aguenta aquela mula em todas as aulas na faculdade. Fico feliz que ela tenha passado antes de mim na UFSC.
O japa começou a rir, se mexendo todo para isso. Yumi já estava voltando para a sala quando ouviu a brincadeira do amigo. Ela estava vestindo o seu pijama cor de rosa.
— Ainda bem que ela é da turma A e eu sou da B, então não temos todas as aulas juntos. Só umas quatro por semanas, eu acho.
— Quatro? Eu já ia querer matar ela com bem menos do que quatro aulas – garantiu Yumi, se ajeitando ao lado do irmão no sofá.
Eles começaram a rir. Benjamin percebeu que seu amigo já estava morrendo de sono, o menino não parava de bocejar e limpar os olhos. Além disso, estava mais bêbado do que o Ben.
— Acho que o japa já está caindo de sono – comentou Benjamin, apontando o amigo, que discordou com a cabeça.
— Não estou mesmo. Isso é o efeito do álcool, não vou me render ainda.
— Sei... – disse Yumi com uma voz mais infantil. – Estava vendo que os nossos dois quartos de hóspedes estão com pequenas mazelas. – Ela começou a rir sozinha. – Um deles, está sem a cama e o colchão. Já o segundo, tem um, mas há várias caixas de cerâmicas sobre a cama e o colchão. Acredito que o pai e a mãe ficaram com medo de que elas se quebrassem no chão.
Yuri arregalou os olhos e encarou Benjamin, que olhou para ele confuso.
— Posso dormir aqui na sala, Yu. Não vejo problema algum com isso.
— Ben, depois de termos tido uma excelente noite na sua casa, não posso permitir isso. Tu vai pro meu quarto e eu durmo aqui mesmo. Tentei entrar no quarto dos nossos pais, entretanto aquelas duas cabeças de ventos deixaram a porta trancada.
— Yu, eu e o Benjamin podemos dividir a mesma cama. Já fizemos isso muitas vezes. A não ser que ele tenha alguma objeção. Tu tem, Ben?
O menino de olhos verdes engoliu em seco, assustado, contudo, negou com a cabeça. A cama do amigo era de casal, por isso não via nenhum problema em dividir o mesmo edredom do que ele.
— Não sei vocês dois, mas eu vou para a cama. Amanhã cedo, pretendo sair para encontrar umas amigas minhas no shopping. Acho que o japa pode te levar ao condomínio da Báh para pegar seu carro.
— Sim, é claro. Ah, também quero ir dormir, se o Benjamin não se importar.
— Por mim tudo bem, já são quase uma e quinze da madruga mesmo.
— Boa noite, meninos – se despediu ela, dando um beijo em cada um deles e depois entrando em seu quarto enquanto eles entravam no do Yuri.
Imediatamente, Benjamin se lembrou da agarração superquente que rolou entre eles naquele mesmo local. Yuri tirou todas as suas roupas, ficando só de cueca e se deitando na cama, depois, acendeu a luz do abajur sobre a mesinha da cabeceira. Antes de ele se cobrir por completo, o menino de olhos verdes pôde ver a grande saliência dentro da cueca cinza de box dele.
— Tu quer que eu te empreste alguma roupa para dormir ou dorme só de cueca também?
Como responder a ele que na verdade só dormia completamente nu? Ao invés disso, respondeu:
— Eu aceito algum calção de futebol ou de basquete. Vou pegar ali dentro do seu armário – o menino abriu o armário do amigo que ficava do lado oposto à cama e à porta do banheiro dentro do quarto, ficando de costas para o japa.
Quando ele desceu suas calças, os olhos do Yuri se magnetizaram automaticamente no contorno dos glúteos bem delineados do amigo em contato com sua cueca branca superjusta. Só que Ben não demorou quase nada para vestir o calção preto da Nike. Depois, tirou seu moletom e camiseta, voltando o abdômen definido para o amigo e indo se deitar.
— Não se esqueça de apagar a luz, por favor – pediu Yuri, contemplando o corpão másculo do amigo indo em direção aos interruptores do quarto.
O quarto não escureceu totalmente, graças à luz do abajur da cabeceira da cama que estava acessa. Yuri já estava com seu pênis superduro e mal conseguia suportar a força de contato que existia entre o seu membro e o tecido do box. Logo, Benjamin mergulhou naquele colchão macio e se aproximou do amigo para dividirem o mesmo edredom.
— Nossa, agora eu fiquei com um pouco de frio – confessou Benjamin, encarando o rosto do amigo na baixa luz. Acabou tocando na coxa esquerda dele com seu joelho sem querer e recuando imediatamente. – Foi mal, Yuri. Que horas tu pretende acordar amanhã? Se for fazer alguma coisa me avise agora, porque sou uma pedra quando durmo fora de casa.
— Só fora de casa, seu puto? – brincou ele, tirando as mãos do seu pênis e dando um soco fraco no peito do outro. Yuri sabia que tinha feito aquilo de propósito só para sentir a pele macia do peitoral do amigo. – Não se preocupe, não pretendo acordar antes do meio-dia.
Benjamin riu, apoiando uma mão debaixo do travesseiro para poder projetar sua cabeça a fim de visualizar melhor o rosto do amigo. Adorava vê-lo sorrir, afinal seus olhos já estreitos se alongavam ainda mais enquanto seus lindos e finos lábios definiam um sorriso perfeito.
— Me diga uma coisa, Ben: já está decidido mesmo a fazer a matrícula lá na FURB?
O menino de olhos verdes abaixou a cabeça e soltou um pesaroso suspiro.
— Na verdade, a minha mãe já está decidida por mim, não quer mais me ver tentando uma vaga aqui. Pra ela eu tenho que me matricular já na sexta agora.
— Mas tu está querendo isso?
— Quero e não quero. Quero por poder começar de uma vez a faculdade de medicina, que sempre foi o meu sonho. E não quero por causa de todos vocês, os meus amigos, que ficarão aqui.
O japa mordeu os lábios nervosos e apertou os olhos com as pálpebras. Por um minuto, deixou seu cérebro simular a cena da despedida dos dois. Aquilo já foi suficiente para sentir uma pontada em seu peito irromper como uma flechada bem dada.
— A sua mãe só quer o que é melhor para ti. Tu sabe disso, né? Eu e os seus outros amigos sentiremos muito a sua falta, mas sei o quanto é difícil ser aprovado em uma boa universidade. Não acha que consegue fazer a faculdade e continuar prestando o vestibular da federal e o ENEM?
— Não sou um ninja igual a você ou a Yumi, japa. Quem dera eu conseguisse fazer isso. Só que tu sabe melhor do que eu que o primeiro período é insuportável e ainda mais tentando outro vestibular como o da UFSC. O vestibular da federal é muito foda, não ia conseguir me sair melhor do que o ano passado.
Yuri ficou sem argumentos, sabia mesmo que aquilo era quase impossível. Ao invés de tentar apoiá-lo a ficar em Floripa por mais quatro meses, ele fez o contrário.
— Tu tem razão, Ben. É melhor mesmo que comece a sua faculdade agora, afinal teremos as nossas formaturas no mesmo ano, só que com um intervalo de seis meses. A distância nem é tanta assim, nós podemos ir visitá-lo quase todo fim de semana.
— Eu também posso vir pra cá todo fim de semana, saio de lá na sexta e passo o sábado e domingo na companhia de todos vocês.
O japa começou a rir, o outro não entendeu o motivo.
— Qual a graça, japa da porra?
— Achas mesmo que com o passar do semestre, já tendo inúmeros novos amigos e possivelmente uma namorada por lá, vai querer vir a Floripa toda semana?
— Por que não?
— É simples, Benjamin. Veja o puto do Pedro, que se mudou para Curitiba no começo do ano falando a mesma coisa. Hoje em dia, ele nem quer mais saber dos próprios pais quanto mais dos velhos amigos.
— Que vacilo o seu me comparar com ele. Eu tenho certeza que não iria me perder tanto na vida igual a ele.
Depois, Ben se lembrou de que o amigo não sabia sobre o que ele viu lá em Curitiba, por isso aproveitou a oportunidade para revelar aquele segredo. Yuri não ficou surpreso ao ouvir a história, já sabia daquilo há um bom tempo, mas não quis revelar a ninguém. O menino de olhos verdes ficou chateado pelo japa não ter contado a ele, assim teria evitado a viagem para Curitiba.
— Foi mal, nunca pensei que tu fosse querer passar uma semana lá – desculpou-se Yuri, tentando virar o rosto do amigo para ele. – Olhe pra mim, Ben. Não fiz por mal, mas nem soube como reagir quando ele me contou no meio do semestre quanto mais contando a alguém.
— É muito bom saber que confia tanto assim em mim, porra. Eu não quis esconder isso dos meus dois melhores amigos, por isso contei a Báh e agora, pensei que ia te contar.
Yuri não conseguiu virar o rosto do seu amigo e disse, derrotado:
— Benjamin, eu vou dormir, estamos um pouco bêbados e tenho certeza que amanhã podemos conversar mais a respeito disso. De novo, me perdoe – disse, beijando a bochecha do amigo e se virando para dormir. – Boa noite, meu brother.
O menino de cabelos castanhos não respondeu e permaneceu olhando o teto do quarto até que a luz do abajur foi apagada.
— Boa noite, japa – respondeu ele, um bom tempo depois, o japonês já estava até dormindo.
Já na manhã seguinte, quando Benjamin percebeu que estava sozinho na cama se assustou, pensou que havia dormido até tarde. Como a maioria das pessoas quando estão dormindo fora, ele odiava dormir mais do que o dono da casa. Aquilo parecia muita folga até mesmo para ele que já conhecia o amigo há muitos anos.
Antes de descer, foi ao banheiro do quarto para mijar e lavar o rosto e a boca. Vestiu suas roupas da noite passada e foi de encontro com o amigo na cozinha. Yuri só usava um calção e um avental de cozinheiro, estava cozinhando para os dois.
O japa só foi perceber o seu amigo quando ele já estava perto das suas costas desprotegidas. O rapaz se virou e sorriu para o dorminhoco.
— Como já é passado do meio-dia, pensei que fosse legal se eu cozinhasse pra gente. Estou fazendo um estrogonofe de carne sem o champignon, porque sei que tu não gosta, Benzinho.
— Caralho, assim tu me acostuma mal, japa. Quem vai cozinha pra mim lá em Blumenau? Vou ter que te raptar, velho. Acho que preciso mais de ti do que qualquer outra pessoa daqui.
Aquilo fez o menino oriental sorrir ainda mais e abraçar o amigo bem forte, sem pôr as mãos em suas costas por estar suja com creme de leite, apenas apoiou seus antebraços e braços entre o tronco e a axila do outro.
— Velho, tu vai me fazer uma falta do caralho aqui. Tenho certeza que até tu se enjoar da minha cara vou aparecer por lá quase todos os fins de semanas. Tenho certeza que a nossa amizade de anos não morrerá por causa de cento e cinquenta quilômetros.
Ben já estava chorando sobre os ombros nus do amigo. Yuri não queria chorar, por isso afastou um pouco seus troncos e com o dorso das mãos levantou o rosto rubro do outro, contendo o impulso de beijá-lo na boca. O trato que haviam firmado no último final de semana tinha que perdurar, não seria tolo de quebrá-lo.
— Benjamin, olhe pra mim – o menino obedeceu. – Cara, tu precisa ser forte e não ter medo da decisão que for tomar. Seja ela ficar aqui em Florianópolis, seja ela começar logo o seu curso. Teus pais e amigos vão entender e te apoiar em qualquer uma delas. Enxugue as lágrimas e vamos aproveitar esta tarde da melhor maneira possível.
Yuri soltou o amigo e o viu enxugando as lágrimas antes de abrir a boca novamente.
— Tenho certeza que tu pode tentar revisar algum conceito mais fodástico em algumas janelas da faculdade a fim de prestar outra vez a UFSC. Não precisa desistir assim tão fácil, se não rolar a aprovação pelo menos já estará fazendo medicina na FURB e não perde nada.
— Acho que deve me achar um retardado por ficar chorando por conta de uma besteira sem tamanho como esta.
— Ah, sem dúvidas, afinal chorar é uma coisa para retardados – disse sarcasticamente. – Todo mundo que se importa com os amigos e familiares fica assim como tu tá agora. Meu, tu deve estar feliz por ter passado no curso que queria e que jurava não ter passado, porém, por outro lado está pensando na distância. Mas faça o que eu te disse, tenho certeza que vai dar certo. Aliás, estou aqui para te ajudar também, porra.
Benjamin riu entre soluços e se sentou junto ao balcão, perto da geladeira de porta dupla, e deixou o amigo continuar cozinhando.
— A Yu foi mesmo almoçar com as amigas dela?
— Foi, sim. Agora, ela perdeu o estrogonofe que estou fazendo.
— Pare de ser egoísta, Yuri. Acha mesmo que vamos conseguir dar conta de toda a comida?
Yuri se virou de costas, mostrando para o amigo a colher de madeira com um pouco do estrogonofe e depois, começou a provar a comida.
— Hmm... Acho que conseguimos dar conta, sim. Não tem noção do quanto está gostoso.
— Agora, eu fiquei com água na boca. Dá um pouco para mim, seu puto do caralho. – A voz do menino ainda permanecia um pouco chateada. – Vamos, Yuri, dá um pouquinho para eu provar – pediu, se aproximando do amigo e do fogão.
Depois irrompeu uma pequena bagunça entre eles. Benjamin tentava tirar a colher de madeira da mão do outro, enquanto isso, Yuri tentava soltar seus punhos das mãos fortes do amigo. A cozinha já estava ficando cheia de creme de leite e pedaços de carne bovina.
— Olha só a bagunça que está fazendo, Benzinho. A Akiu está de folga esta semana, quero só te ver limpando toda a bagunça que está fazendo.
Os seus corpos pararam de se chacoalhar e de relutarem quando as nádegas do Yuri se chocaram contra a tampa de vidro do balcão do micro-ondas. Aquilo, obviamente, lembrou-lhes daquele dia em que deram o primeiro beijo na casa do Benjamin. Só que dessa vez, o menino de olhos verdes prendeu o amigo contra um móvel da cozinha.
Os dois estavam diante de um beijo iminente. Seus neurônios transmitiram rapidamente por todo o corpo do Ben e do japa aquele momento de nervosismo e excitação. Uma mão do menino de cabelos castanhos começou a afagar o queixo de Yuri, que levou sua mão livre até a cintura fina do amigo.
Quando Yuri começava a projetar seu tronco lentamente para frente a fim de aproximar seus lábios, Benjamin se afastou, dizendo:
— Me desculpe, japa. Quase fiz a gente fazer a mesma merda outra vez. Sei lá onde estive com a cabeça, talvez por causa da minha situação atual.
— Tudo bem, Benjamin. Eu também queria te beijar, então a culpa não é só tua. Vou terminar a comida para a gente poder ir à casa da Báh – amargurou Yuri, respirando lentamente para pôr sua cabeça no lugar. Ele já não conseguia mais mentir para si mesmo, estava se apaixonando pelo melhor amigo. – Não acha melhor ligar pra ela e falar que daqui a pouco estamos indo para lá?
— É verdade, tinha me esquecido disso. Vou lá em cima pegar o meu celular, tá bom?
Yuri assentiu e viu seu amigo sair da cozinha. Apoiou seus punhos sobre a quina da pia e deixou sua cabeça cair entre seus peitos. Benjamin subiu as escadas em lágrimas, não acreditava no fato de estar ansiando por mais contato físico com Yuri.
Está decido, eu vou me matricular na FURB. Um tempo longe disso tudo vai me ajudar, eu tenho certeza que vai. O Yuri só pode ser o seu melhor amigo, nada mais do que isso, Benjamin. Devo ter enlouquecido por causa daquele dia que o beijei pela primeira vez. Caralho, nunca pensei que fosse gostar tanto de um beijo.
Um pouco mais tarde, Yuri deixou Benjamin no portão do condomínio onde Bárbara mora e foi encontrar sua irmã no shopping. Os dois conseguiram ignorar a tensão que ficou entre eles após Ben voltar à cozinha. Conversaram mais um pouco sobre a decisão do Benjamin, e ele concordou em fazer aquilo que o japa havia sugerido.
O porteiro do condomínio deixou o menino entrar e subir até o apartamento da amiga. Arthur abriu a porta quando Ben apertou a campainha. O namorado da Báh estava usando apenas uma calça jeans.
— E aí, Ben – cumprimentou o menino de olhos castanhos. – Não está com uma ressaca desgraçada? Eu e a Báh estamos morrendo desde manhã.
— Cadê ela?
— Está vomitando no banheiro. Já fui à farmácia para comprar soro e uns remedinhos. Ela tentou comer um pouco de canja que eu preparei pra nós e o resultado é que a Báh foi parar no banheiro.
— Meu, eu não bebi tanto assim ontem. Só não fui embora de carro porque ficaram enchendo o meu saco. Deixe eu ver como ela está.
O apartamento da amiga não era tão grande quanto o do Yuri, mas a sacada, que ficava na sala, tinha uma incrível vista para o campo de atletismo da UFSC. O banheiro ficava entre o quarto da ruiva e o dos seus pais. No corredor, havia várias fotos da menina e da família, e várias medalhas conquistadas por ela e pela mãe em campeonatos de natação.
— Eita, guria danada. Bebeu um monte e agora está chamando o Raul aí na privada – provocou Ben ao entrar no banheiro.
Bárbara segurava as madeixas de seu cabelo claro para evitar o contato com a privada. Ela estava sentada de joelhos sobre a sua própria perna.
— Ain, Benjamin, estou sentindo o meu útero querendo sair pela boca. Prometo a vocês que nunca mais na vida coloco qualquer bebida com álcool na garganta. A sorte é que meus pais ficarão lá na casa da minha avó até amanhã.
A menina estava pálida e com os seus lábios ainda mais pálidos do que o resto do seu rosto. Os olhos dela estavam fundos e semiabertos. Sua mão direita estava roxa, graças a tanta força que fazia contra a beira do vaso sanitário para se manter diante dele sem perder o equilíbrio.
— Tu está horrível, menina. Não quer que eu leve vocês no hospital para tomarem soro na veia? Posso ligar para o meu pai e perguntar o que pode ajudar vocês a recarregarem seus eletrólitos.
— Não precisa, Benjamin. Eu só estou mal por conta do tanto de álcool que ingeri ontem à noite. Eu já estou me hidratando bastante e tomando aquele soro horrível que o Thur me trouxe. Menino, eu preciso me desculpar contigo e com a Yumi. Estraguei a noite de vocês e dos outros.
Benjamin olhou para o Arthur e franziu a testa. O amigo sorriu de canto. Ele teve que ouvi-la chorar e murmurar, durante toda a madrugada, sobre o que tinha feito aos amigos.
— Está tudo bem, Bárbara Ronsoni. Não estou com raiva de ti e, muito menos, a Yumi. Te garanto. Então, tu nos disse que não vai mais fazer a sua festa no sábado, está certa mesmo disso?
Ela levantou a cabeça, olhando assustada para o menino de olhos verdes como se ele tivesse dito alguma grande besteira.
— Nunca acredite numa pessoa bêbada, Ben. Nunca mesmo! – O menino sorriu para ela, achando graça. – A minha festa está de pé e não pode faltar, mas tu já sabe disso, né?
Bárbara se levantou e deu a descarga antes de lavar o rosto e escovar os dentes. Depois, abraçou o amigo, um tanto sem energia e ânimo.
— Cadê os japas? Se não estão bravos comigo, por que não vieram junto contigo?
— A Yumi foi almoçar com umas amigas no shopping e, agora pouco, o Yuri foi encontrá-las. Tenho certeza que o japa vai ao seu aniversário, só não posso garantir se a Yu vai. Ela quer voltar cedo para Sampa a fim de reencontrar o ex-namorado dela.
— É uma pena ela não poder vir, mas eu entendo, as aulas dela vão voltar na próxima segunda-feira. E tu, Ben, já decidiu ir mesmo para a FURB?
Arthur e Bárbara conseguiram perceber a dúvida no olhar do amigo. Ela estava bebendo um pouco de suco natural de laranja preparado por Benjamin no espremedor da garota.
— Hoje à noite, eu vou jantar com minha família em um bistrô lá mesmo no Jurerê para contar o que decidi aos meus pais e ao Miguel. O Yuri me convenceu a tentar outra vez o vestibular da UFSC mesmo estudando medicina na FURB.
— Caralho, que ideia top, Ben – garantiu Arthur, sorrindo. – Não perderá nada com isso, e tenho certeza que conseguirá voltar para perto da gente. Além que terá algumas matérias para equivaler na volta.
Bárbara sorriu para não soar antipática, porém sua vontade foi a de chorar diante dos meninos. Não queria perder o contato com seu melhor amigo. No fundo, sabia que ele se acostumaria com a faculdade e com seus novos amigos. O que dificultaria a sua escolha de voltar para casa no começo do próximo ano caso passe na UFSC.
— Quando vai fazer a sua matrícula? Quero ir junto contigo – comentou a ruiva.
— Amanhã mesmo, afinal as matrículas vão desta sexta até a próxima terça, e as aulas começam fora esta primeira segunda, na próxima, já.
— No mesmo dia que começa o segundo semestre no cursinho, que despedida maravilhosa, não?
— Sim, Thur. Foi uma pena tu ter perdido o vestibular naquele dia. Agora, podia ser eu e tu indo fazer a nossa matrícula.
— Graças a Deus, ele não acordou a tempo para fazer a prova. Já não sei como meu coração vai suportar a distância entre a gente, imagino só se o Thurzinho tivesse sido aprovado lá também? Vocês encontrariam a Bárbara em frangalhos por toda costa da ilha. Os dois começaram a rir e a tirar com a cara da ruiva.
Perto das 17 horas, Benjamin decidiu voltar para casa. Sua mãe havia mandado uma mensagem; informando que a família tinha uma reserva às 21 horas em bistrô perto da casa deles, e, por esta razão, não queria chegar muito tarde em casa. Mas antes de ir, Bárbara jurou estar melhor e afirmou que não havia mesmo necessidade de ir ao hospital.
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