Sem luz nos seus olhos azuis
12 Capítulo 11
A dor era imensa, o desespero tinha sumido a partir do momento da perda. O instinto de mãe não tinha desaparecido e a intenção de proteger. O que tinha de tão ruim em proteger alguém da qual se amar? Dar a alguém inocente o que deseja, o que tem de ruim? Seu nome ter ficado esquecido em meio a lama, na correria para socorrer as suplicas de seus filhos, mas não a intenção.
O seu despertar foi como se tivesse sido jogada de um penhasco, envolta do frio e da escuridão e com os últimos pensamentos puros do que antes tinha sido, o pensamento voltado para o sorriso e as risadas de seus filhos.
Mas no momento, do que adiantaria essas lembranças e memórias se tinha outros filhos? A da quais precisariam de sua ajuda e aclamavam por ela, mas ela não recusaria o socorro de suas crianças. Não. Ela faria o mundo entrar em desespero, mas suas crianças não iriam se corrompe, não deixariam sua mãe novamente.
Fazia u tempo que tinha feito aquele garoto dormir, o mesmo não parecia ter ficado feliz em lhe ver, causando certa raiva pela teimosia dele. Como ele poderia se debater nos braços da própria mãe? Olhando bem para o local que tinha escolhido como abrigo para si e seu mais novo filho, a árvore era enorme por dentro graças a uma coisa chamada magia, deixando com que por dentro a mesma fosse gigantesca e por fora fosse algo comum, uma árvore comum.
Sorriu ao se lembrar que tinha sido observada, que alguém parecia atento ao que fazia e sentia que era a garota corrompida que prestava a atenção, ela tinha o mesmo jeito do seu novo filho. Teimosa, corajosa e impulsiva.
Num casco morto que servia de cama, o garotinho remexia-se, mas as amarras negras o impediam de fazer algo além, dando como segunda alternativa tentar gritar, mas ninguém ali o ouviria.
— Não chore pequeno... — sua voz distorcida fez com que o garoto se encolhe-se e choramingasse mais — Mamãe está aqui, nada de ruim vai lhe acontecer...
— Eu quero meus pais, minha verdadeira mãe... — o franzir de cenho foi ignorado pelo outro, a misteriosa mulher formava uma careta com o que ele disse — Minha irmã, quero minha irmã...
— Você tem vários irmãos e irmãs, logo estarão todos aqui — tentava o tranquilizar, mas em vão.
— Lizzy, quero minha irmã Elizabeth aqui! Eu só tenho ela como irmã, ninguém mais! — resmungou, mas se encolheu ainda mais ao ouvir a mulher de preto rosnar de raiva e com garras escuras arranhar a parede de madeira.
— Como é teimoso! Pare de ser uma criança malvada, ou mamãe irá lhe punir — soou ameaçadora, conseguindo calar o garotinho.
— Me deixe em paz, eu não conheço você...
— Pelo contrário... — sussurrou, aproximando-se numa velocidade absurda do outro, vendo o olhar arregalado de medo do mesmo e ignorando, tocando com as mãos de garra em seu rosto, sujas como carvão e gélidas como o inverno do lado de fora — Iremos nos conhecer melhor a partir de hoje, seremos para sempre uma família, agora me fale seu nome — mesmo tentando ser carinhosa, sua voz causava arrepios no pequeno.
— Não...
— Seja bom comigo, não seja tímido — insistiu, perdendo aos poucos a paciência.
Ao tentar pronunciar algo novamente, parou ao sentir uma brisa estranha passar perto de seu rosto, vendo em direção a parede de madeira, algo dourado acertara em cheio a parede e aos poucos seu brilho dourado sumia e perdia a forma. Era uma flecha.
— O que..?
— Se afaste dele! — uma voz feminina soou por todo interior da árvore e nem precisou ver direito quem era, a corrupção chegava até os sentidos da mulher de preto — Não irei avisar novamente..
— Elizabeth! — o pequeno gritou esperançoso, se remexendo.
— Sua impura! Como ousa pisar em meus domínios? — gritou em fúria, vozes alteradas em conjunto com a sua, mas sem abalar a garota que portava um arco apenas.
Partindo para onde Eliza estava, fez um ataque direto com suas garras e errando quando a mesma rolou pelo chão, desviando do ataque e vendo-a se posicionar para atacar sem uma flecha. Riu com a atitude dela, o que acabou por dar alguns segundos para que a mesma corresse em direção a seu filho.
Rosnando com o ato, formou-se e sombra, e elevando-se até o teto da enorme árvore, planejando atacar por cima e com melhores chances de não acertar o garoto.
Elizabeth conseguindo formar uma flecha do arco, usou a parte com ponta para cortar as amarras que prendiam Vitor, mas ao faze-lo, sentiu o aperto do abraço dele.
— Não é hora para isso irmãozinho — alertou, o colocando atrás de si e preparando-se para um ataque frontal, mas não notando que a mulher de preto estava por cima.
Mas ao notar, quase que foi acertada com rachadas pontudas do que seriam as garras soltas da mesma, pegando Vitor no colo e o levando consigo para um canto onde não seriam atingidos.
— Cadê o Jack? Ele deveria estar aqui com você — perguntou preocupado, temendo que a imagem de sua irmão desaparecesse ali mesmo.
— Não sei, gostaria que ele aparecesse como magica, mas no momento não será possível... — responde, entregando a flecha que estava em mãos para Vitor — Caso ela me vença, use isso nela e corra. Corra o mais rápido que puder!
— Não vou deixar você sumir de novo! Não mais! — chorava.
— Vai ter que fazer isso, Vitor... Eu sinto muito... — falou e empurrou Vitor, o afastando de outra rachada de garras negras — Corra! — gritou, assuntando o irmão e preparando o arco, mesmo que em sua cabeça tinha a regra de não ferir a mulher de preto e sim assusta-la.
— Vai me pagar caro por isso! — rosnou, partindo de um ataque por cima, desviando da pontaria da arma e tendo o ataque bloqueado com o arco — Teimosa! Por que não desiste?
— Eu vim proteger o meu irmão, não vou desistir até que ele esteja longe de algo como você — respondeu friamente.
— Não vai me ferir, essa não é sua intenção... — sorria com malicia, mostrando os dentes da qual estavam quebrados — O seu protetor lhe proibiu. Acha que eu não sei? — Eliza engolia em seco, mantendo a postura de ataque, mesmo que a outra não mostrasse intenções de que faria algo — Ele foi como um pai para você e eu estou sendo uma mãe para o meu filho, pais reconhecem ordens que foram dadas aos filhos dos outros.
— Ela pode não querer feri-la, mas eu vou! — uma voz ecoou por todo interior da árvore, fazendo ambas se assustarem e verem algo voando em uma velocidade absurda.
Mesmo com uma roupa formal e com uma coroa de louros de gelo, os cabelos brancos não passaram despercebidos pela memória de Elizabeth. Deixou-se distrair por poucos segundos enquanto Jack chamava a atenção da mulher de preto.
Correu até onde Vitor poderia ter escapado para ficar ao lado do mesmo se algo acontecesse, assustou-se com o tremor que ocorria e notava pelo canto do olho que Jack impedia a outra de avançar até onde estava.
"Era sua culpa", pensou.
Se não tivesse buscado respostas e uma maneira de ganhar novamente sua memórias, aquele menininho não estaria em perigo e muito menos o garoto de cabelos albinos estaria arriscando sua pele para protege-la.
Se não tivesse sido tão impulsiva, estaria apenas na enorme biblioteca do homem da lua e todos que estavam a seu lado não estariam correndo perigo. Mas se tivesse ignorado seu pressentimento, talvez o garoto não teria alguém para o socorrer a tempo e nem o guardião da diversão teria sido alertado do que estava acontecendo.
Conseguindo achar Vitor debaixo de um casco podre de árvore, colocou o arco novamente em suas costas e tomou o irmão em seu colo, o abraçando e tentando o tranquilizar.
— Está tudo bem... Estou aqui — sussurrou e o apertou mais contra si ao sentir um impacto maior e mais perto.
— Vocês estão bem? — a voz fraca do albino fez com que um arrepio bom percorresse a espinha de Eliza, virando-se para ele e vendo a face surpresa dele — Não pode ser...
— Jack! — Vitor exaltou-se, saindo do colo da irmão e indo abraçar o guardião ferido — Lizzy voltou! Ela voltou!
— Olá... — falou timidamente, erguendo um pouco a mão — Você a derrotou? — indagou.
— Não, mas a deixei imobilizada, creio que perderemos mais tempo se conversarmos aqui. Vamos! — pegando a mão do garotinho, correndo em direção a saída daquele lugar.
Tendo ao seu lado Eliza, vendo o cabelo alaranjado mover-se da maneira que lembrava e se perguntando se aquilo não era obra de sua saudade e dor pela perda.
Ignorando tais pensamentos, conseguiram sair dali com dificuldade, o buraco de entrada diminuía por causa que a mulher de preto o mantinha aberto, mas conseguiram sair sem maiores problemas, correndo mais e mais para longe dali sabendo que ao se libertar, a mulher traria toda sua ira para eles.
— Conseguimos? — indagou, Eliza — Estou feliz em ver novamente os dois, tão feliz... — sussurrou ao final da fala, engolindo o choro — Desculpem por ter sumido, eu só... — não completando a fala, foi interrompida com um rápido selar de lábios gélidos aos seus — Se essa é uma maneira de me fazer calar a boca, faça isso sempre — sorria com ternura para Jack.
— Eu senti tanto a sua falta... Tanto... — a abraçou, escondendo seu rosto no ombro dela e sentindo as lágrimas de gelo tocarem sua roupa leve — Eu te amo tanto... — sussurrou, segurando o rosto dela e encostando suas testas — Tanto...
— Beijo é nojento! — resmungou, Vitor.
— A é? Então venha cá para eu lhe encher de beijos! — falou com animação, Eliza, pegando o irmão e beijando todo seu rosto — Seu pirralho...
— Chata...
— Eu amo os dois, amo que daria minha vida para vê-los bem... — apertou Vitor e beijava a bochecha de Jack — Nunca mais vou me separar de vocês, nunca.
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