Semântica
26 Arrefecido
Notas iniciais
— Não. — O riso já ameaçava explodir de mim mais uma vez. — Não creio.
— Pode acreditar. — Brincando com o pedaço de jeans entre os dedos longos, aproximou-se de mim com um empurrão da cadeira giratória. — Eu desci aquele morro inteiro, e só parei na cerca de arame.
— Puta merda. — Aquilo te fez rir. — Como você saiu inteiro?
— Sorte, aparentemente. — Ergueu o tecido perto dos olhos, orgulhoso daquele feito. — Minha calça, no entanto, não teve lá tanta assim.
Naquela troca de olhares em meio a sorrisos perdidos, eu me pegava pensando em todas as memórias que compartilhávamos — mesmo não estando presentes quando elas foram criadas.
Você já lia muito bem quando minha mente não estava mais no quarto.
— Por que não um diário? — Eu sequer precisei me explicar.
— Porque as palavras perduram, seus significados não. — Seu tom era arrefecido, tão notório quando lembrava-se dela. — No final, o que nos restou era somente aquilo que ela tocava, e o que tocava ela, também.
E sem mais palavras a serem ditas, nossas mãos se encontraram — como sempre faziam. Era como um pedido silencioso e sua resposta coexistindo num único gesto:
Lembre-se de mim.
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