Semântica
27 Candeia
Notas iniciais
Com nossas costas contra a parede do estúdio, o espelho a nossa frente parecia exibir uma pintura. A luz que entrava pela janela banhava nossas pernas esticadas naquele calor familiar. Era comum estarmos sozinhos ali, mas nunca senti que estivéssemos tão a sós como estávamos agora.
— Então, momentos específicos?
Seus olhos continuavam focados em nossos pés, enquanto os fazíamos bailar a uma melodia que só nós parecíamos ouvir. Encostando a cabeça sobre a minha, as palavras mantinham-se em sussurros. Talvez essa memória não coubesse a ninguém além de nós.
— Momentos, sim. — Seus dedos brincavam com a manga do meu casaco, inconscientemente. — Mas remetem a pessoas também.
Eu observava nossas formas, refletidas naquele grande espelho, com atenção. E em algum momento, você percebeu o que eu buscava enxergar.
— Esse é seu. — Estendendo o pulso sobre o meu colo, exibia a linha vermelha amarrada, com olhos afetuosos — como se a sua mera existência fosse sua candeia particular.
— A linha da minha blusa. — Maldito alabastro. — De todas as coisas...
— É como eu queria lembrar de você.
— Bêbada? — Você riu, pela primeira vez naquela manhã, e eu senti que as paredes ergueram-se das minhas costas.
— Nua.
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