Selvagens
2 A festa de Anna - Por Emy
Notas iniciais
Três anos atrás...
Eu estava cansada de ir passar todos os dias das minhas férias na fazenda dos meus avós. Ter que viajar com certeza não era uma das minhas coisas favoritas no mundo. Cassie e Nancy eram minhas coisas favoritas no mundo, e logo Oliver também se tornaria.
Usei de desculpa da festa da Anna London para ficar na cidade. Eu já tinha idade suficiente para me cuidar em casa sozinha, mas, como eu já era praticamente forçada a viajar, não acho que eu conseguiria ficar sozinha em casa na mente dos meus pais então minha proposta foi:
— Eu posso ficar na casa da Cassie, a Srta. Fitzgerald já está de acordo...
— Falou com ela Mary?
— Não mamãe, a Cassie falou – Neste momento mamãe parecia querer explodir de tanta raiva. Para ela e para a maioria da cidade, o que mais se preserva é a imagem.
— Mesmo assim... O que será que ela está pensando agora? – Mamãe começou a andar de um lado para o outro com as mãos na cintura.
— Ela concordou mamãe, acabei de te dizer...
Minha mãe fazia uma cara de pensativa que me assustava, na minha cabeça era um “O que você fez dona Elizabeth?” e não um “Analisando”.
— Você vai escovar os dentes... — e BLA, BLA, BLA.
O importante foi que ela deixou eu ficar na casa da Cassie, mas, só falou isso definitivamente depois de dar uma lista da minha higiene diária. Isso significava três meses sem vovô e vovó (não que não quisesse ver eles, mas, eu os via todo ano e não aproveitava nem um pouco minhas férias), sem Oscar e Isabela, afinal não precisaria ouvir minha mãe no meu ouvido “Cuide de Isabela, ela é sua irmã mais nova” e nem ter que aturar “Mary é muito jovem para ficar sozinha, Oscar acompanhe sua irmã até o lago”, eu já sabia me cuidar, mas, o importante é que meus irmãos não iriam me atormentar, nem a minha mãe com seus comentários mandões e ordens sem noções.
Eu arrumei minha mala no mesmo dia e fui até a casa da Cassie que ficava na Alameda Boston ao lado da Floresta Profunda, perto da minha rua, a Rua Montgomery. A rua era cheia de árvores com flores na primavera, mas, por enquanto ela estava totalmente verde. A casa da Cassie era grande e com pintura branca por fora, a sua mãe adorava anões de jardim, por isso ela tinha vários no quintal, espalhados por todo o jardim, de todos os tipos e formatos mas, para sua desilusão eles eram alvos no halloween e só sobravam os cacos, inconformada ela comprava novos após um grande acesso de raiva e os recolocava, mesmo sabendo que só iriam durar até o próximo halloween.
O irmão de Cassie, Rodolf sempre foi muito legal, nós sempre brincamos juntos quando eu ia até a sua casa, e assim nos tornamos amigos até hoje. Cassie sempre o levava junto quando íamos sair com os amigos, que na realidade era mais um grupo formado por eu, Cassie, Rodolf ( que se juntara por sempre vir junto), Nancy, Johny e Sam.
Os dias na casa da Nancy foram tranquilos e após uma longa espera, finalmente chegou o dia da festa de Anna London. Era uma garota muito legal, que não gostava que muita extravagância, por isso só chamou algumas pessoas. A casa do lago dos London foi o local da festa, era muito bonito, e eu já não ia até aquele lago havia anos então achei que fosse me divertir muito. Era uma casa típica de lago, toda de madeira com uma pintura branca e outros tons pastéis. Ao redor a Sra. London sempre decorava com diversas flores, canteiros multicoloridos por todos os lados. Da varanda de trás tinha uma ligação para o lago, um pequeno deck.
Naquela noite parece que a casa do lago dos London foi inundada por mais pessoas do que era esperado. Alunos do terceiro ano e até formados estavam lá, apareceram pela meia-noite. Eu como nunca gostei do tipo de festa que aquela se transformou optei por sair para a varanda. O deck me olhou e eu o olhei então acabei indo até lá. Ele ia até uma parte rasa do lago, embora me cobrisse, para várias outras pessoas era bem rasa; duas canoas ficavam presas ali, uma de cada lado.
Nancy e Cassie ficaram desconfortáveis com os garotos do terceiro ano que jaziam no interior da casa, ele começaram a soltar cantadas idiotas que não faziam sentido nenhum, talvez já estivessem bêbados, mas, pelo menos as duas saíram e vieram ficar comigo no deck, eu já estava um pouco solitária olhando para aquela paisagem que ficava do outro lado, uma floresta escura que eu nunca cheguei perto. Nós nos deitamos no deck para olhar as estrelas, cada uma de nós com a cabeça encostada na outra formando uma estrela de três pontas.
— Os garotos do terceiro ano estavam dando em cima de mim, acho que é por que meu pai está se elegendo a prefeito...
— Fala sério Nancy, eles dariam em cima de você mesmo que seu pai fosse eleito presidente das causas perdidas, você é linda – Falei. Nancy permaneceu em um pequeno silêncio. Cassie contava as estrelas do céu, e é claro perdia sempre a conta.
— Você é mais bonita do que eu...
— Ok gente, nós todas somos bonitas – Falou Cassie cansada dessa discussão – Ah, droga, perdi a conta – Ela bateu com as mãos na madeira do deck com raiva.
Eu levantei e fiquei sentada olhando para Cassie sorrindo.
— Você é feia – Eu disse risonha. Ela se levantou e ficou sentada olhando para mim com as mãos na cintura e uma das sobrancelhas levantada. Nancy se sentou também.
— Ela é bonita, mais bonita que qualquer garota dessa festa – E lá estava ele na ponta do deck vindo na nossa direção, Oliver, um garoto de cabelo castanho e liso com os olhos mais “lindos” segundo o que dizem, de cor azul.
— E você é... – Falou Cassie. Todas nós ficamos em pé olhando para aquele garoto estranho que quase não notávamos, mas, que sempre nos notava.
— Sou um Zé-Mané, mas, você é a garota mais linda da festa, e por isso eu sei que não vou ter chance, nunca.
Cassie riu, eu também, não consegui me segurar, ele estava realmente dando em cima da Cassie, e ela não sabia como retribuir ou talvez não quisesse.
— Mas, enfim – Ele colocou o braço na parte de trás da cabeça e esfregou sua mão -, eu só vim avisar que o Sr. Scottes já está lá na frente esperando você – E ele balançou a cabeça para Nancy, seus cabelos balançaram, sua mão voltou a ficar um pouco abaixo da cintura como de costume. Novamente ele voltou seu olhar para Cassie e veio na direção dela devagar com as mãos no bolsa da calça jeans com seu All Star sujo de terra molhada do lago ao redor e uma blusa vermelha pelo frio.
— Tudo bem, obrigada. Tchau Cassie, tchau Emy – Ela se despediu e nós retribuímos.
Oliver veio na direção de Cassie e tirou uma das mãos do bolso pegando na mão dela, eu fiquei meio sem jeito, acho que estava sobrando.
— Por que não vem comigo pegar uma fatia de bolo?
— Eu acho que deveríamos ir embora – eu disse.
— O bolo já acabou faz tempo... – Cassie olhou estranho para ele e sorriu de lado – Você foi sequer convidado?
— Na verdade eu estava aqui perto e te vi... Brilhava mais que a lua.
Nós duas rimos. Eu fui até Cassie e soltei a mão dela da dele e a puxei pelo deck. Nós andamos pela estrada de pedregulhos até a varanda da casa de Anna e ele nos seguia.
— Não posso nem saber o nome de vocês?
— Qual é a sua? – Dizia eu.
— Só queria uma amizade assim...
Naquele momento eu pensei em abraçá-lo e o puxar para um abraço triplo comigo e Cassie e tentar torná-lo um novo amigo, sei lá, eu acho que foi mais ou menos assim que virei amiga de Cassie e Nancy, eu sei como ele estava se sentindo.
— Eu sou Cassie... – Ela disse com as suas bochechas rosadas. Ali seu cabelo balançou com o vento.
— Lindo, lindo nome – Ele ficou vermelho.
— Sou Mary Elizabeth – Ele parece ter estranhado.
— Pensei que fosse Emy.
— Não para você, não por enquanto – Eu sorri.
Depois daquilo ele se apresentou e ofereceu o casaco para Cassie. Eu fiquei sentado junto de Cassie no banco esperando o seu pai vir nos pegar. Rodolf estava perdido dentro da casa, mas, logo ele estaria aqui fora conosco. Alguns momentos antes Oliver chamou Cassie para ir lá dentro com ele para pegar alguma coisinha para comer. Eu só olhava as lindas flores do jardim da casa e tentava me concentrar no aroma, em meio a todo aquele som que vinha da casa. Logo ela voltou com um doce na mão e uma cara de espanto, se sentou do meu lado, estava um pouco pálida, um pouco vermelha e andava reta demais.
— Ele me beijou.
Eu comecei a rir. E então olhei para ela e levantei a sobrancelha.
— Pensei que eu ia receber uma notícia horrível pela sua cara de fantasma – Eu disse rindo.
— Não ria de mim, eu, eu...
— Cadê ele? – Olhei para a porta e ao redor.
— Bom... ele disse que tinha que voltar pra cama antes que a mãe dele percebesse que ele tinha saído, e aí me beijou enquanto eu ia comer esse doce... – Ela indicou o doce.
O pai dela chegou instantes depois, pelo menos o choque de realidade dela já havia passado, Rodolf já havia saído da festa, aparentemente um pouco bêbado, por causa das bebidas que o pessoal do terceiro ano havia trazido para a festa da Anna, que inclusive estava dormindo embaixo de uma árvore junto dos seus amigos do teatro, cujo alguns estavam em uma roda na fogueira ao lado com um violão tocando algumas músicas.
Oliver agora era nosso amigo, mas, parecia que havia conquistado mais alguma coisa de Cassie, além do seu primeiro beijo, ela parecia estar apaixonada, mas, eles não namoraram desde então...
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