Segunda Chance
8 Capítulo 8 - Lembranças
Notas iniciais
— Hã... Eva. Você não parece estar muito bem. – Comentei ao ver de perto a cara da garota de olhos cor de safiras, que mal conseguia carregar a sua mochila direito de tanto sono.
Acabamos de sair da escola. Nesse período, eu não falo com ela, mas eu pude observá-la de longe e perceber que nem prestou atenção na aula. Só agora, estando tão próximo de Eva, eu pude ver que ela tinha olheiras abaixo de seus olhos pesados de exaustão e andava meio cabisbaixa.
— Eu não dormi muito ultimamente... – Disse, bocejando logo em seguida. – Passei essas últimas noites acordada, procurando a terceira localização da alma do Peter, mas não consigo me concentrar. Eu preciso ser mais forte para encontrá-lo. E ainda tem o problema do assassino...
Eu não falava nada, só escutava. Em pouco tempo, Eva se confundia ao falar algumas palavras e mal conseguia raciocinar direito de tanto sono. Parecia realmente acabada.
— É melhor você descansar por hoje. – Falei.
— Você está louco? Se eu parar agora, terei menos tempo para salvar o Peter e encontrar o...
— Eu sei, Eva. Mas do que adianta em forçar algo que o seu corpo não aguenta mais? Precisa dormir ou irá perder o juízo com essa investigação toda.
— Nem me fale em perder o juízo. Estou com a minha paciência por um fio por causa daqueles guardas noturnos desastrados! Em três dias, eles causaram um escândalo em grupo! Onde já se viu? O que eles têm contra atrações infantis?
— Olha, só tem duas coisas que eu concordo com aqueles caras: Os animatronics são assustadores e querem matá-los.
— É só trancar a porcaria da porta, ué. Ah não! A energia da pizzaria é uma droga! Meu tio pão-duro devia ver aquilo se não quiser procurar por mais vigias para contratar...
— E eu achando que aquele emprego era coisa fácil.
— Nem tanto. Mudando de assunto, como está o Peter?
— O médico disse que ele não está tendo mais aqueles ataques cardíacos durante a noite ultimamente. Curiosamente, isso anda acontecendo desde que o Henry passou a visitá-lo.
— Acho que a presença do Henry ajuda o Peter, o que o faz ter mais tempo de vida. Ah! Isso me lembra de uma coisa! Eu pedi à minha mãe para dar um jeito no cérebro do seu irmão.
— Hum? — Eu a encarei, curioso.
— Não será uma cirurgia fácil, mas, se der certo, o nosso problema será apenas a alma do Peter.
— Eva, eu não quero ficar mais preocupado do que já estou.
— Céus, Marc! De qualquer forma, se você e a sua mãe quiserem ter aquele menino de volta ao quarto dele de novo, é óbvio que, um dia, uma cirurgia teria que acontecer.
Suspirei. Por que parece que acontecem mais coisas só para fazer o meu coração ficar cada vez mais apertado? Peter... Por favor, sobreviva!
— Ah, droga! – Exclamou Eva, de repente, enquanto levava a mão á testa.
— O que foi?
— Eu prometi que passearia com o Henry. Ele odeia ficar sozinho em casa e se eu dormir, ele ficará praticamente sem ninguém, já que os meus pais não estão... É, parece que marcarei a hora da soneca para mais tarde...
— Na verdade... – Não acredito que direi isso... – Eu posso ficar com o Henry se você quiser.
— Sério? Mas vocês não se odeiam?
— Como você disse um milhão de vezes, o Henry é apenas uma criança. Além disso, você precisa ir dormir para estar bem disposta e continuar me ajudando com o problema do Peter.
— Hã... Eu não sei... – Disse, pensativa.
— A não ser se tiver certeza de que o Henry aguentará mais um dia preso em casa.
— Tá bom. Você me convenceu. Pode cuidar dele esta tarde?
— Claro. Não estou a fim de fazer lição de casa mesmo.
— Então... Conhece a cafeteria que fica perto de um enorme prédio verde?
— Sim.
— Nos encontre lá ás duas horas?
— Por mim, tudo bem.
— Obrigada. Bem... Eu já vou. Até lá.
— Até.
Após nos separarmos, eu caminhei até chegar a minha casa. Não acredito que eu disse que iria cuidar daquele moleque! Bem... Tudo por uma boa causa. Se a Eva estiver muito bem disposta, ela usará as esquisitices dela para salvar o meu irmão.
Eu cheguei lá na hora certa. Eva e o pequeno Henry já estavam me esperando, pude vê-los pela janela da cafeteria. A dona dos olhos cor de safiras parecia ainda mais exausta, o que me fez acelerar o passo e entrar no local, onde vi os dois sentados em uma das mesas. Eva estava caindo de sono e Henry estava saboreando um pedaço de torta.
Aproximei-me dos dois, batendo na mesa propositalmente, fazendo Eva acordar de susto.
— Desgraçado! – Exclamou, irritada.
— Já veio entregar o garoto. Agora saia daqui e vá direto para a sua cama.
— Você parece a minha mãe. – Eva se levantou. Beijou a testa de Henry e se afastou um pouco. – Comporte-se.
— Só porque você me prometeu uma pizza. – Disse o menor.
— Juízo vocês dois. E Marc...
— O que?
— Cuida do meu irmãozinho. Eu quero que ele volte para casa inteiro e se algo acontecer a ele, eu juro que faço você dormir entre os dentes do Foxy, entendeu?
— Entendi.
— Ótimo. Até mais tarde.
— Até.
E ela saiu sem olhar pra trás. Espero que tenha ido realmente dormir, pois eu não pretendo ficar lidando com uma teimosa que...
— Olá novamente, Marc. – Henry atrapalhou os meus pensamentos.
— Oi. Então? Qual é o plano?
— Hum? – Ele fez uma expressão confusa.
— O que pretende fazer a tarde toda?
— Eu posso escolher?
— Bom, eu não tenho ideia pra onde eu devo levar alguém da sua idade.
— Se tivesse um bom relacionamento com o seu irmão, saberia.
Ele realmente tocou nesse assunto? Senti o meu sangue subir na hora.
— Olha, se não quiser que eu lhe deixe sozinho na pizzaria do seu tio, é melhor me respeitar.
O garoto largou o garfo, deixando-o no prato, e se levantou, ficando encima da cadeira, inutilmente tentando parecer mais alto, mas, pra mim, ainda era um baixinho com expressão irritada.
— Você ouviu a minha irmã! Se algo acontecer comigo, você já era!
— Eu não tenho medo dela, pirralho.
— Mas devia ter. Agora pague pela torta e vamos ver o Peter.
— O que?!
— Acha que essa torta foi de graça? Eu não posso pagar e acho que você tem dinheiro aí.
Moleque irritante! Era só o que me faltava! De tanto sono, a Eva se esquece de pagar e sobra pra mim! Como ela consegue viver com o Henry?! Se ele fosse o meu irmão, eu o mostraria quem é que manda na casa! E se reclamasse, ia ver só! Bom... Acabei por pagar pelo lanche dele. Saímos da cafeteria e fomos para a calçada, preparando-se para atravessar a rua. Senti uma pequena mão segurar a minha.
— O que está fazendo? – Perguntei, afastando a minha mão.
— Acha mesmo que eu vou sair por aí sem proteção? Como meu responsável temporário, você tem que me proteger dos perigos da rua. Agora segure a minha mão!
— Olha, você tem que aprender a se virar sozinho.
— Eu tenho apenas seis anos!
— O Peter tem cinco e é mais independente do que você!
— Também... Com um irmão desse, qualquer um seria.
Era só o que me faltava! De imediato, peguei a sua mão e o puxei, atravessando a rua.
— Ai! Está doendo!
— Para de reclamar! Queria que eu segurasse a sua mão, então é o que eu estou fazendo!
— Está me machucando!
— Cala a boca.
Quando eu já estava perto da calçada, pude ouvir o menor ameaçando a chorar.
— Fala sério, Henry. Aqui não. Pra onde foi aquela postura de moleque arrogante que você tem?
— Eu te odeio!
Suas palavras me acertaram como um tijolo na cabeça, trazendo lembranças... Lembranças ruins...
— Eu te odeio, Marc! Está doendo! Me solta!
Parei assim que cheguei do outro lado da rua. Larguei a sua mão assim que nos aproximamos da pizzaria.
— Pronto, bebezão. Engole o choro e entre primeiro.
— Mas eu não quero ir pra lá. – Disse, já com os olhos marejados.
— Eu não perguntei se você quer ou não! Eu mandei você entrar!
— Mas... Tem coisas assustadoras lá dentro.
— O que? Um ursinho de pelúcia? Uma galinha idiota? Um coelho inútil? Poupe-me da frescura, Peter. Além disso, se tiver alguma coisa assustadora, seria um bicho cheios de dentes afiados, loucos para arrancar os seus membros e espalhá-los pela cidade. E ninguém conseguiria lhe salvar.
Com essas palavras, o menor desabou, começando a chorar enquanto corria para dentro da pizzaria, aonde provavelmente iria se esconder debaixo de alguma mesa.
— Marc! Marc! – Ouvi Henry me chamar, me acordando dos meus pensamentos. – O que houve?
Percebi que ainda estávamos no meio da rua. Acelerei o passo e conseguimos chegar até o outro lado. Abaixei-me e abri a mão de Henry, procurando algum machucado que eu poderia ter feito ao segurá-la fortemente.
— Não tem nada marcado.
— A pele não, mas eu não diria o mesmo para os meus ossos.
— Pelo menos, estamos indo ao hospital. Vamos logo.
Chegando lá, Henry não me esperou para entrarmos juntos no quarto onde Peter estava. Assim que entrei, vi o menor sentado ao lado do meu irmão. Eu me aproximei dele e toquei em sua mãozinha.
— O Peter gosta da sua companhia. – Ele disse.
— Bom saber.
— Mas ele é tão burro quanto você. Ele disse que o perdoa por tudo o que fez contra ele.
— Então você pode ver a mesma coisa que a sua irmã? Quero dizer... Pode ver e ouvir as almas também?
— Eu tenho... Os meus segredos. Mudando de assunto, você descobriu a resposta da minha charada?
— Eu até esqueci como era.
— Me enganei. Você é o mais burro.
— Então repete a charada e cuidaremos disso.
Ele bufou.
— ‘’Não sei se é real ou coisa da minha mente, mas fantasmas estão presentes para me assombrar. Da tortura para a prisão é onde me encontrará. Quem eu sou?’’
— Não faz nenhum sentido. ‘’Não sei se é real ou coisa da minha mente, mas fantasmas estão presentes para me assombrar’’? É uma pessoa louca?
— O que quer dizer com isso? A minha irmã vê fantasmas e tem um juízo perfeito!
— Calma, baixinho. Não interprete mal.
— Da próxima vez, eu quebro a sua cara.
— Como? Com essas mãozinhas de bebê?
— Idiota! – Ele estava realmente irritado.
— Tudo bem... Tudo bem... Vejamos... ‘’Da tortura para a prisão, é onde me encontrará’’? O que isso significa?
— Você não conhece ninguém que foi torturado e agora está preso?
Balancei a cabeça negativamente...
Até que...
— Abra a porta! – Peter gritava dentro do quarto.
Eu podia ouvir o seu choro.
— Para de frescura, garoto.
— Eu vou contar para a mamãe!
— Conte e eu lhe prendo no armário!
As lembranças vieram à tona em minha mente como se fosse um filme.
— Não tem necessidade de tanto choro. Foi só uma brincadeira. – Peter continuava chorando, deitado no chão. Não me encarava... Ele não ousava já que temia a minha ‘’máscara’’ de Foxy, que é a cabeça do seu bichinho de pelúcia rasgado. – Levante-se e para de chorar. Nem foi tão assustador assim.
— Eu te odeio!
Por mais que eu quisesse parar de ter essas lembranças... Elas continuavam vindo.
— Por favor... Tire-me daqui! – O meu irmãozinho chorava atrás da porta. Ir para a pizzaria nunca foi tão divertido.
— Fique aí fazendo amizade com eles. Eu vou comer uma pizza e daqui a pouco eu o tiro daí.
— Não! Por favor, não me deixe aqui!
— Marc, você está bem? – Quando ‘’acordei’’, vi que Henry estava realmente assustado.
— Estou.
— Você... Sabe a resposta agora?
— Henry... Por acaso você está querendo me dar uma mensagem do Peter?
— Finalmente! Demorou o quê? Quatro dias para raciocinar direito?
— Por que não me disse antes?! Você não sabe que ele está morrendo?!
— Claro que sei. Eu não sou burro como você. Mas, enquanto ele receber as minhas dicas de sobrevivência durante um pesadelo, não haverá mais ataque cardíaco.
— Isso explica muita coisa.
— Ele está feliz. Acredita que você possa salvá-lo. Eu duvido, mas é sempre bom dar uma chance. Bom... Mudando de assunto, vamos para a sua casa?
— Hã? Por quê?
— Porque eu quero ir pra lá.
— Até parece que o levarei pra lá.
— Apenas me leva.
— O que eu ganho com isso?
— Diga o que quer.
— Olha, eu já passei por isso. Você está fazendo a mesma bruxaria que a sua irmã para eu contar as coisas.
— Bruxa é a sua mãe. Por falar nela, eu quero muito conhecê-la.
— Eu realmente não entendo o que se passa na sua cabeça.
— Não lhe interessa mesmo. – Ele desceu da maca e pegou a minha mão. – Vamos?
— E eu tenho outra escolha?
— Ah! Espere! – Ele se soltou e correu até Peter. Segurou a mão dele e sussurrou: — Até logo.
Depois voltou e pegou a minha mão novamente.
— Vamos.
— O que foi aquilo?
— Alguém precisa mostrar afeto. O Peter adora quando eu seguro a mão dele. Mas isso não será de graça. Eu vou cobrar dele quando acordar. Ele será o meu escravo. Eu o obrigarei a brincar apenas comigo e ele vai emprestar os brinquedos dele só para mim.
— Escravo? Sério?
— Sério. Eva disse que eu preciso fazer amigos. E o Peter é o escolhido. Agora vamos!
Suspirei. Não adianta discutir com esse aí.
Saímos do hospital e caminhamos diretamente para a minha casa. Vi a minha mãe no sofá, tentando se distrair com a TV.
— Mãe, cheguei. – Avisei. Ela me encarou e sorriu, mas ficou confusa ao ver Henry ao meu lado. – Esse é o irmãozinho daquela minha amiga, a Eva.
— Irmão? – Ela se levantou e se aproximou. – Achei que ela era filha única.
Somos dois.
— Prazer em conhecê-la, senhora. Eu sou o Henry.
— Como você é educado. Fique à vontade.
— Obrigado. – Na mesma hora, ele soltou a minha mão e saiu correndo.
— Que gracinha... Mas o que houve com a Eva? – Ela perguntou.
— Ela está descansando. Os pais nunca estão em casa e o Henry precisava sair um pouco. Eu me ofereci para cuidar dele esta tarde.
— Uma ação que eu não esperava de você.
— Já entendi, mãe. Eu vou ficar de olho nele, tudo bem?
— Tá bom.
Deixei a minha mãe pra trás e procurei por Henry pelos corredores. Ela ainda está chateada comigo porque sabe que eu sou o culpado pelo o que aconteceu com o Peter, mas tem um coração mole demais para ficar me ignorando o tempo todo.
Vi que a porta do meu quarto estava um pouco aberta e resolvi entrar lá. Henry mexia no meu armário.
— Hei! O que está fazendo, garoto?! – Perguntei, irritado com a bagunça.
— Vasculhando.
— Pare de mexer nas minhas coisas. – O afastei e fechei o armário.
Aproveitei que estava no quarto e tirei o casaco, jogando-o na cama logo depois.
— Você ainda está usando isso?!
— Que susto! Do que está falando?!
— Essa camisa roxa de novo?!
— Por que implica tanto com isso? Está ficando até assustador.
— É assustador. – Ele correu até mim e puxou a camisa.
— O que pensa que está fazendo?!
— Tira essa droga! Queime e jogue fora!
— Já chega! – Segurei os seus bracinhos. – O que há com você? Sempre surta ao ver roxo?
— Não é essa a questão! Você tem mau gosto para usar isso na rua!
— Não fui eu quem escolhi. Foi o meu pai quem me deu.
— Tá legal. Corrigindo: O seu pai tem mau gosto!
— Pior que tem.
— Cadê ele? Está trabalhando?
— Nunca o conheci.
— Nunca?
— Na verdade, eu já o vi, mas não me lembro dele. Eu era muito pequeno. Aquele cara abandonou a minha mãe e voltou apenas... – Eu parei de falar na hora. Pensei um pouco e continuei. – ... Para trazer o Peter nas nossas vidas. Depois, ele desapareceu.
— Que triste. É por isso que você sempre maltratou o seu irmão?
— Tal... Talvez. – Pior erro da minha vida.
— Sabe... Eu quase nunca vejo o meu pai. Ele vive trabalhando. E a minha mãe também. Eu só tenho a Eva para cuidar de mim.
— Entendo.
— Bom... Quero ver o quarto do Peter. – E saiu correndo de novo.
Ao chegar no quarto, pude perceber que estava recém-arrumado. Provavelmente a minha mãe acabou de passar por aqui. Henry correu até os bichinhos de pelúcia que estava no canto do quarto e pegou Bonnie.
— É o seu favorito?
— O meu animal favorito é o coelho. Por isso que eu gosto dele. A Eva me deu uma camisa com uma figura de coelho, mas eu tenho vergonha de usá-lo na rua, então eu uso como pijama.
Sorri. Pelo menos, ele tem um lado humano.
— Eu até que gosto do Foxy. – Me aproximei da pelúcia do raposo que já estava costurado. – Mas eu nunca mais vesti aquela máscara após o incidente.
— Entendo. – Ele me encarou e depois se virou, segurando Freddy. – Qual é o que Peter mais gosta? Ás vezes, ele chora, então eu queria saber o que eu posso dar para fazê-lo se sentir mais confortável.
— Bom... Tem um urso dourado. Ironicamente, é o bicho que ele mais gosta. – Olhei para todos os cantos do quarto. — Mas onde ele está? Vivia na cama dele.
— Está falando do... Fredbear?
— Deve ser esse mesmo. O Peter sempre o segurava por todos os lados da casa. Ele até falava com os brinquedos.
— Tendo a vida que ele tinha, eu falaria até com a porta.
— Tá bom, engraçadinho. Para de me condenar.
— Até você aprender a lição, eu não paro por nada. – Ele desviou o olhar e arregalou os olhos. – O que é aquilo?
— O que?
O menor se aproximou da cama e agachou-se, pegando alguma coisa embaixo dela. Ele puxou e mostrou o que era que havia chamado a sua atenção.
— Fredbear. – Henry disse enquanto encarava fixamente o urso dourado de pelúcia.
— Deve ter caído da cama enquanto a minha mãe arrumava.
— Ou ele deve ter se escondido.
— Como é?
— Brincadeira. Posso levá-lo comigo? Eu quero levar pessoalmente ao Peter amanhã.
— Pra que amanhã se podemos ir agora?
— Eu... Gostaria de conhecer o Fredbear.
Hã? Quer saber? É melhor não falar nada. Crianças têm as suas esquisitices tanto quanto a família de Eva deve ter.
— Tá bom. Faça o que quiser.
— Eu quero ir pra casa agora.
— Mas já?
— É. Estou cansado. – Ele se aproximou de mim. – Me carregue até lá?
— Você só pode estar brincando.
— Olha, isso é mais difícil pra mim do que pra você. – Henry levantou os bracinhos.
Não tive outra escolha a não ser colocá-lo no colo. Ele segurava firmemente o urso com um braço e o outro estava em volta do meu pescoço. Saímos do quarto e avisei à minha mãe que eu ia levá-lo de volta. Henry me disse onde ficava o prédio onde a sua família vivia e o deixei em seu apartamento, indo embora logo depois.
No caminho, vi o hospital e não achei nada de mais em ver o Peter mais uma vez por hoje. Eu não gosto de vê-lo daquele jeito, mas eu prefiro estar ao lado dele como irmão dessa vez, caso... Ele nunca mais acorde. Entrando lá, eu fui ao seu quarto. Percebi que a luz estava apagada. Estranhei, mas mesmo assim abri a porta e vi uma sombra perto da cama do meu irmão... Uma sombra... Roxa...
— HÃ?! – Na mesma hora, eu acendi a luz, mas não havia ninguém lá dentro. Aproximei-me de Peter e vi que ele estava bem. Mas o que era aquilo?!
Saí do quarto e dei de cara com...
— Calma, rapaz. Pra que tanta pressa?! É perigoso correr no hospital.
— Jeremy?
— Olá. – O loiro sorria pra mim. Ele ainda usava o uniforme de vigia noturno.
— O que veio fazer aqui?
— Nós estávamos indo para a pizzaria todos juntos, mas o Thomas acabou desmaiando antes de pôr os pés lá. Ele não aguenta mais passar por aquilo, mas é o nosso trabalho, afinal.
— Desculpe, mas você disse ‘’nós’’?
— É. Eu, o Fritz, o Mike e... — Ele olhou para o lado. — Cadê o Vincent?
— Estão falando de mim?
Virei-me e dei de cara com o acastanhado que nos encarava sem expressão alguma. Percebi que ele usava um enorme casaco azul.
— Está com frio, Vince?
— Pois é. Eu encontrei esse casaco no ‘’Achados e Perdidos’’ e resolvi pegar emprestado. Daqui a pouco eu devolvo. Mas do que estavam falando?
— Eu estava falando pra ele sobre a situação do Thomas.
— Ah! Aquele ali não tem mais jeito. Deve estar desesperado por dinheiro para ainda trabalhar naquela pizzaria. O que veio fazer aqui, Marc?
— Eu vim visitar o meu irmão. Acho que tinha alguém lá dentro.
— Deve ter sido um enfermeiro. – Disse Jeremy.
— Que enfermeiro usa roxo?!
— Roxo? Será que... Purple Guy esteve aqui?
‘’Purple Guy’’? Esse nome é familiar...
— Não seja idiota, Jeremy. – Disse Vincent. – O hospital é muito bem protegido. Se Purple Guy estivesse aqui, as câmeras teriam denunciado a sua presença.
— Quem é Purple Guy? – Perguntei.
— O maldito assassino que matou... Se eu não me engano... Seis crianças na pizzaria Freddy Fazbear. – Jeremy respondeu. – Ele não aparece faz um bom tempo, mas deixou a sua marca. A polícia não conseguiu descobrir nada sobre a identidade dele até hoje. O nome Purple Guy foi lhe dado porque ele foi visto como uma sombra arroxeada nas câmeras.
Som...Sombra arroxeada?
— Então ele é o assassino que a Eva está procurando...
— Como é? – Perguntou Vincent.
— Nada não. Eu vou cuidar do meu irmão. Até mais.
— Até! – Jeremy se afastou, sendo seguido por Vincent.
Eu entrei no quarto e me sentei em uma cadeira próxima. Purple Guy é um assassino de crianças e estava do lado do meu irmão. Eu não estou louco! Eu vi a sombra roxa! O que ele estava fazendo aqui?! Será que... Ele pretende matar o Peter?! Não! Eu não vou deixar! Passarei a noite aqui se for possível, mas não deixarei assassino algum tocar no meu irmão!
Assim que Marc me deixou em casa, eu fiquei no meu quarto o dia todo. Quando já estava de noite, procurei pelos meus pais, mas eles ainda não haviam chegado... Como sempre. Fui ao quarto da minha irmã com Fredbear em meus braços. Ela dormia profundamente. Deve estar realmente muito cansada. Sentei-me em sua cama e encarei o urso de pelúcia dourado do Peter, encontrando os olhos brilhantes dele, que retribuía o olhar.
— Olá, Fredbear. Sei que está acordado. Por que não conversamos? Nosso amigo está em perigo. Não podemos deixá-lo morrer. Você sabe onde ele está agora?
Sim.
— Mostre-me.
Tem certeza?
— Absoluta.
Assim que fechei os meus olhos, vi nada além de escuridão. De repente, senti uma luz na minha cara. Abri os meus olhos e vi que era uma luz de lanterna e quem a segurava era... Peter... Acordado.
— Peter...
Percebi que estávamos em um lugar escuro. Ele se aproximava, estando cada vez mais perto até que, de repente, Peter atravessou por mim, como se eu fosse um fantasma. Ah é! Eu estou consciente de que isso é apenas um sonho. Não posso falar com ele. Virei-me e vi que Peter se aproximava de uma espécie de armário... O mesmo que vi em seu quarto. Então a sua alma realmente está lá?
O observei se aproximar do armário. Aproximei-me junto com ele. Quando Peter abriu a porta... Um Foxy extremamente monstruoso nos fez ter praticamente um ataque cardíaco de tão grande que fora o susto.
Acordei com Eva me segurando.
— Henry! Henry, o que foi?! – Ela estava preocupada e assustada.
— Eva! – A abracei fortemente. Meu Deus! Nunca fiquei tão aliviado em toda a minha vida!
— O que aconteceu? Eu o escutei gritar...
— Não foi nada de mais... – Eu encarei o Fredbear que estava jogado no chão, olhando pra mim. Peter deve estar sendo reanimado a esta hora! Se eu sinto o meu coração quase sair do lugar de tão forte que fora o susto, imagine como o coração dele deve estar! – Foi apenas um pesadelo.
Só... Um... Pesadelo...
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