Segunda Chance
3 Capítulo 3 - Noite de Paz
Notas iniciais
Quando acordei, eu estava em um local escuro. Acho que não era o meu quarto. Não havia nada, apenas a escuridão e seja lá o que for que estiver me iluminando por cima.
Seja o que for, parece ser mais uma noite de assombração. Eu estava pronto. Quem irá me atacar primeiro? Freddy? Bonnie? Talvez Chica? Ou o Foxy? Ou qualquer outro monstro que queira me matar. Acho que se passaram uns dez minutos e nada deles. Sem animatronics, sem som. Nada. O que está acontecendo? Era pra ser mais um pesadelo que, com certeza, me faria passar por mais um ataque cardíaco. Da última vez, eu quase morri... E, de certa forma, pude ouvir a minha mãe e meu irmão chorarem de desespero.
Sim, o Marc chorou por mim. Após anos de abuso, é a primeira vez que ele se preocupa comigo como um irmão e parece não me ver mais como um brinquedo. Meu sofrimento não parece ser motivos para as suas risadas e meu estado o assombra. Parece que, no final, ele provou que me ama. Se ao menos ele pudesse demonstrar isso mais cedo... Talvez tudo seria diferente. Eu não precisaria estar passando por essa situação fatal. Não precisaria mais estar deitado numa maca durante o dia e enfrentando monstros à noite. Eu estaria com a mamãe e com Marc, brincando, conversando e aproveitando cada momento da minha vida que devia ser longa. Seria... Maravilhoso... Pena que isso só acontece nas histórias. Não existem finais felizes na vida real.
Sinto uma vontade enorme de chorar. Por que não? É só isso que eu faço de melhor. Deito-me no chão em posição fetal, como sempre, e desabafo, chorando o mais alto que eu podia para que todos ouvissem o meu desespero e a minha profunda tristeza. Não que houvesse alguém aqui, afinal eu sei que todo esse cenário é coisa da minha mente e, na realidade, eu estou no hospital, esperando morrer. Que espécie de final é esse? Por que tem que ser assim? Eu tenho apenas cinco anos e já acabou pra mim? A vida realmente não é justa. Não há nada que eu posso fazer, não há saída. Parece ser o meu destino terminar por aqui...
Porém, eu escuto alguma coisa.
Passos...
Não abri os meus olhos. Preferi continuar a soluçar, deitado naquele chão gelado. Se for um fantasma ou um animatronic, não me importo. Apenas acabem logo comigo. Tirem-me desse sofrimento e me deixem em paz! E, por favor, que seja rápido! Eu já senti dores o suficiente por toda a minha vida! É necessário mais desse castigo? É difícil ter piedade ao menos uma vez? Nem no meu próprio aniversário eu pude viver. Na verdade, foi a última vez que eu me senti vivo.
Mas o que eu senti não foi uma garra ou dentes afiados, apenas uma mão humana gelada tocar no meu ombro, o que me fez tremer. Abro os meus olhos e vejo uma garota. Eu a reconheço! É a amiga do Marc. Eu me lembro dela lá do hospital.
— Você é real? – Perguntei, ainda deitado e soluçando.
— Não. – Ela sorriu.
Levantei-me, ficando sentado.
— Eu estou sonhando?
— Sim.
— O que faz aqui?
— Eu quero lhe dizer algo. – Não falei nada, apenas escutava. Ela se ajoelhou, ficando na minha altura, e colocou a mão na minha cabeça. – Não desista, Peter. Eu sei que está sofrendo, mas eu quero que seja forte e resista a tudo isso.
— É difícil evitar. Eu estou com medo.
— Eu sei, mas prometo que logo acabará. Prometi ao seu irmão que o levaria daqui.
— Sério? Você pode me salvar? – De repente, senti algo que eu havia perdido há dias: esperança.
— Posso. Não será nada fácil, mas você tem sorte por eu gostar de desafios. – Ela riu um pouco. – Eu preciso saber onde você está. Mas, comigo aqui, é difícil saber.
— Eu estou no hospital.
— Sim, eu lembro. Nós até conversamos, não é?
— Sim. Fazia tempo que ninguém falava comigo. Mas... Como conseguiu? Eu me lembro de não ter dito nada, mas você parecia ter escutado tudo o que eu pensava.
— Podemos dizer... Que eu tenho os meus poderes. Venha. Não tenho muito tempo.
Ela se levantou, eu fiz o mesmo. Para a minha surpresa, fui colocado em seu colo e abraçado gentilmente. Retribuí o abraço e logo depois, a garota começou a andar, saindo debaixo daquele holofote misterioso e entrando na escuridão. Como estava muito escuro, dava a impressão de que nem saímos do lugar. Eu só ouvia os passos de Eva enquanto escondia o meu rosto em seu pescoço e fechava os olhos. Não queria ver o escuro. Vá que os pesadelos voltem... Arrepiei-me de medo só de me lembrar daqueles monstros na minha cama, no meu armário, nos corredores...
— Qual é o seu nome mesmo? – Perguntei, abrindo os olhos.
— Eva.
— Á quanto tempo conhece o meu irmão?
— Está me fazendo perguntas para se distrair? – Ela me encarou, sem parar de andar.
— Talvez... – Respondi, meio sem graça.
— Eu entendo. Conheço o Marc desde que éramos pequenos, mas ele nunca me notou. Na verdade, ninguém nunca fala comigo. Acham que eu sou... Estranha.
— Hã... Eu choro por qualquer coisa. Por isso, fizeram isso comigo. – Comentei, cabisbaixo.
— Eu sei. Mas você vai sair daqui, Peter. Apesar de que eu não sei onde é esse ‘’aqui’’.
— Se não sabe, como veio?
— Eu apenas vim. Achei que precisasse falar com alguém.
— Acho que sim.
De repente, eu percebo que o local estava ficando um pouco mais claro. Não era mais um cenário escuro e sim o meu quarto. Ao contrário do meu pesadelo, ele não parecia assustador. Estava um pouco iluminado por causa do abajur.
— Eu estou em casa?
— Não. Esse é o seu quarto... Dentro da sua mente. Ele está na sua memória. Não é real.
Eva me levou até à minha cama e me deitou, me cobrindo logo depois.
— O que está fazendo?
— Você precisa descansar. E eu preciso ir.
Levantei-me e pulei em seu colo, abraçando-a desesperadamente.
— Quero ir com você.
— Peter...
— Por favor! Me leve junto! Eu não quero ficar sozinho aqui! Eu tenho medo! – Implorei, ameaçando a chorar novamente.
— Não precisa ter medo, Peter. – Disse em tom gentil, mas não me acalmou.
— Você não sabe o que eu estou passando! Eles são assustadores! Querem me matar!
— Quem quer matá-lo?
— Freddy, Chica, Bonnie... Foxy... Todos eles!
— Os animatronics daquela pizzaria?
— Sim. Eles estão atrás de mim há dias! Eu tenho certeza de que querem me machucar!
Por um momento, eu achei que ela falaria aquelas coisas que os mais velhos falam quando não acreditam nas crianças, mas ao olhar a sua expressão, os seus olhos arregalados, eu estava com dúvidas se seria isso mesmo que Eva poderia dizer.
— Eles não fariam isso...
— Fariam sim. Eu quase morri diversas vezes! Quanto mais as noites passam, os sustos ficam piores e mais fraco eu me sinto! Eu sei que estou morrendo! E eles realmente vão acabar me matando se eu não for cuidadoso na próxima noite.
— ‘’Cuidadoso na próxima noite’’? – Ela repetiu. Desviou o olhar e ficou pensativa. Fiquei a encarando, esperando que dissesse alguma coisa, especialmente um ‘’sim, eu levo você comigo’’. – Eu não tenho muito tempo.
— O que?
— Deite-se, Peter. Hora de dormir.
— Mas... – Meu Deus, ela vai me deixar! Eu comecei a chorar, mais desesperado, enquanto ela me sentava na cama. – Mas...
— Eu vou estar com você até que durma profundamente. Nada irá incomodá-lo. Chega de pesadelos por hoje.
Eva falava de maneira tão segura que eu não ousei em ficar mais sentado, me deitando e deixando-a me cobrir.
— Realmente ficará até eu dormir?
— Não por muito tempo, mas eu posso aguentar.
— Obrigado.
Aconcheguei mais na minha cama, me sentido calmo. Aos poucos, senti paz e relaxei. Ela acariciava o meu cabelo, o que me fazia ficar mais relaxado. Por um momento, eu até me esqueci do real problema, dos pesadelos que eu enfrento todas as noites. Se ela estiver dizendo a verdade, então, por hoje, eu estou seguro.
Então, eu adormeci.
— Eva... Eva!
— Hã?! O que?! – Finalmente, ela disse algo!
— Eu a chamei umas três vezes!
— Oh! Perdão, Marc. O que foi? – Pela cara da morena, parecia que havia acabado de acordar.
— Você estava dormindo enquanto andava?
— O que? Ah! Não... Eu só estava... Distraída. Er... Freddy, quando vamos chegar?
— Já chegamos. – O urso parou em frente a uma porta fechada. – Ele está dentro dessa sala.
— Estou muito agradecida. Pode nos esperar aqui?
— Tudo bem.
— Obrigada, Freddy. Vamos, Marc?
— Claro.
Eva abriu um pouco a porta e isso foi o suficiente para escutarmos um choro.
— Golden? – Eva chamou. – Podemos entrar?
— Achei que eu fui bem claro quando disse que não queria falar com ninguém. – Escutei uma voz masculina, robotizada. Parecia deprimido.
— Ora, querido... – Eva abriu mais a porta e entrou. – Aposto que quer alguém para falar sobre os seus problemas. Vamos. Apareça. Eu quero falar com você.
— Só se... Ele sair.
— Ele está falando de mim? – Perguntei.
— Se importa? – Ela deu um sorriso sem graça.
— Mas...
— Entenda que o Golden Freddy está um pouco sensível agora. Eu prometo lhe contar tudo depois, mas deixe-me conversar um pouco com ele agora.
Suspirei e saí da sala. Eva fechou a porta atrás de mim. Percebi que Freddy me encarava.
— E então? – Perguntou.
— Ele me expulsou.
— Típico dele.
Virei-me para a porta e pressionei o meu ouvido lá. Queria escutar a conversa.
— Você sabe que isso é falta de educação, não é? – Freddy perguntou com um tom de reprovação.
— Se eu fosse um cara bem comportado, eu não estaria aqui.
O ouvi suspirar, desistindo. O urso se aproximou e fez o mesmo que eu, colocando a cabeça perto da porta.
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