Segunda Chance
4 Capítulo 4 - Duas Missões
Notas iniciais
Eu estava quase há uma hora tentando ouvir a conversa entre a Eva e o Golden Freddy. Não conseguia escutar muito, apenas alguns sons estranhos e a voz abafada da minha colega. Freddy já havia desistido de escutar comigo faz tempo. Ele estava sentado, encostado na parede, e me encarava sem parar.
— Desista. Você não vai ouvir. – Ele disse.
— Só mais um pouco.
— Sabe, o Golden foi quem mais sofreu.
— Por que está me dizendo isso?
— Nós respeitamos a privacidade dele porque sabemos o que ele passou. Não que nós tivemos um fim melhor do que ele. Todos sentiram medo, dor, sofrimento... Mas imagine tudo isso em dobro. Foi o que aconteceu com Golden Freddy.
Saí de perto da porta, me sentando ao lado do urso.
— Eva disse que vocês são almas de crianças assassinadas.
— Somos. Cada um tinha uma família e éramos muito felizes e inocentes. Agora... Olhe só o que aconteceu.
— Eu sinto muito.
— Eu acho que, se não fosse pelo Puppet, nós não seríamos assim.
— Por quê?
— Foi ele quem colocou as nossas almas nesses corpos. Mesmo assustados, tristes e cheios de rancor, decidimos aceitar o nosso destino. Alegramos as crianças de dia, mas estamos livres á noite, procurando o responsável por nosso sofrimento.
— A Eva disse que vocês ficam incomodados ao falar nesse assunto, mas você parece bem, Freddy.
— Eu sou o líder deles. Tenho que manter a postura ou o desespero irá nos consumir. Só que ninguém acalma os meus amigos melhor do que a Eva. Ela é a única que consegue nos ver exatamente como somos.
— Como assim?
— Você não percebeu o quanto a sua amiga é especial?
Bom... Pra mim, a ela é muito estranha e misteriosa, mas especial?
— Não sei dizer. Eu a conheci ontem.
— Vale a pena conhecê-la, acredite em mim. Ninguém é mais compreensivo e protetor do que aquela garota.
De repente, ouvi um barulho.
— Alguém está vindo.
Como o corredor estava um pouco escuro, então era difícil ver de longe. Eu estava com medo, porém me sentia um pouco protegido com Freddy ao meu lado. Aos poucos, conforme o dono dos passos pesados estava se aproximando, eu consegui reconhecer quem era.
— Bonnie. – Disse o urso.
— Achei vocês.
— O que faz aqui? Não devia estar afugentando aquele guarda de segurança?
— Daqui a pouco é a minha vez.
— Por que vocês querem pegar aquele cara? – Perguntei. – Ele é só um homem comum que quer receber o seu salário. Vocês não facilitam a vida dele agindo assim!
— Nós não nos lembramos do rosto de nosso assassino, mas sabemos que ele estava usando um uniforme de guarda de segurança. Como não sabemos quem é, caçamos todos. – Disse Freddy.
— Isso não parece justo.
— Ele não foi justo com a gente. Por que seríamos com ele, seja quem for?
Prefiro não levar essa conversa adiante. Vá que eles se descontrolem. Esses bichos estão cegos de vingança.
— Você é o irmão da vítima da mordida, não é? – Perguntou o coelho.
— Sim. O meu nome é Marc.
— Eu lembro. Você foi muito cruel com aquele menino. Não se arrepende pelo o que fez?
— Olha, se eu estivesse ignorando o fato do meu irmãozinho estar prestes a morrer, eu não estaria conversando com você agora. Eu estaria na minha casa, dormindo na minha cama.
— Não precisa ser grosso. Eu apenas disse que...
— Bonnie, deixa pra lá. – Disse Freddy.
Na mesma hora, o coelho se calou. Logo a porta se abriu. Levantei-me na hora ao ver Eva sair da sala.
— E então? – Perguntei.
— Vejo que estão se conhecendo. Isso é bom.
— Quer falar de uma vez sobre o que vocês falavam lá dentro?
— Tudo bem. A alma do Peter está exatamente em três lugares. Ás vezes, ele fica no hospital, como eu já vi. E ele também vem pra cá, o que é quase raro.
— E o terceiro lugar?
— Não sei dizer.
— Como não?!
— Simplesmente eu não sei. É mais complicado do que você pensa. Eu preciso de mais tempo para me concentrar.
— O Peter não tem muito tempo, Eva! – Alterei o tom de voz.
— Ele pode aguentar! – Eva fez o mesmo, mas logo respirou fundo, se acalmando. — Eu sei que ele aguenta. Eu prometi que o traria de volta e é o que eu pretendo fazer.
— Eva... – Freddy se levantou e se aproximou da garota. – Você já está devendo demais. Devia pensar na sua vida.
— Eu não me importo em pagar o que for preciso para ajudar todos vocês e aquele menino. – Ela me encarou. – Marc.
— O que é?
— Vá pra casa.
— O que?!
— Já deu por uma noite. Você precisa descansar.
— Quer que eu vá embora sabendo que tenho que salvar o meu irmão?
— Não se preocupe. Eu vou estar por aqui. Estarei me concentrando para descobrir mais sobre a localização de Peter. Além disso... – Ela encarou Freddy, que estava ao seu lado. – Eu tenho outros assuntos a resolver.
— Você é realmente muito esquisita.
— Obrigada. – Eva forçou um sorriso gentil. Não sei dizer se ela realmente levou o meu comentário numa boa ou se, no fundo, ficou magoada. – O levaremos até a saída, Marc. Vamos.
Eu não disse nada. Apenas segui a garota, o urso e o coelho até a porta dos fundos, onde eu saí sozinho, deixando Eva pra trás. Depois disso, caminhei até a minha casa, entrei pela janela e fui ao meu quarto, onde eu acabei por adormecer.
Quando acordei, já era de manhã. Ainda bem que hoje é sábado ou eu iria ter que me preparar psicologicamente para enfrentar a maldita escola. Respirei fundo. Não quero pensar em mais nada além de visitar o Peter no hospital.
Levantei-me, tomei banho, me vesti e fui até a cozinha, onde encontrei a minha mãe, que preparava o café da manhã pra nós.
— Bom dia, Marc. – Ela disse num tom doce.
— Bom dia. – Respondi enquanto me sentava na cadeira, pegando um pedaço de pão.
Observei a minha mãe enquanto ela terminava de fritar os ovos. Ela tentava ser forte, mas era óbvio a sua tristeza em relação ao estado de Peter. Mamãe está muito sensível e qualquer comentário frio e rude poderia fazê-la desabar a qualquer momento. Ela serviu os ovos e comemos. Eu dei um beijo nela e agradeci pela comida, um ato que eu não fazia há muito tempo, mas sabia que isso a alegrava. Em um momento melancólico como esse, qualquer atitude carinhosa era bem vinda.
Depois, nós dois fomos para o hospital. Ao chegar ao quarto de Peter, nós ficamos surpresos ao ver Eva ali, sentada ao lado do meu irmãozinho, com a cabeça deitada na maca, adormecida.
— O que significa isso?
— Calma, mãe. É só uma amiga. — Ela pareceu se acalmar quando eu expliquei que era uma colega da escola. Eu me aproximei dela e a toquei no ombro, chacoalhando-a um pouco. – Eva!
— O que você quer?! – Ela perguntou, ainda sonolenta.
— Sou eu, garota! Acorda!
— Marc? – Finalmente a morena abriu os olhos, mostrando as íris de safiras, me encarando enquanto levantava a cabeça. – Você veio pra cá a essa hora?
— Eu venho pra cá quando eu quiser.
— Marc, seja gentil com a sua amiga. – Minha mãe me repreendeu.
— Olá, senhora. – Eva se levantou e se aproximou dela, estendendo a mão para cumprimentá-la. – Meu nome é Eva.
— Prazer em conhecê-la, Eva. Eu sou a mãe do Marc.
— Eu sei. A senhora tem dois filhos lindos. O Peter é muito doce e o Marc... – Eva me encarou e depois voltou a atenção à minha mãe. – É legal.
Sério?
— Você é muito educada. Obrigada por vim ver o meu filho.
— Eu prometi ao Marc que ia ajudar.
Minha mãe sorriu.
Após um tempinho conversando, ela saiu, me deixando sozinho com o Peter e com a Eva.
— Adorei a sua mãe.
— Quem não adora?
— Impossível, não é? Bem, vamos aos negócios. – Se aproximou de mim. – Eu passei a noite toda acordada e não encontrei nada que pudesse me ajudar em relação ao Peter.
— O que isso significa?
— Significa que hoje eu irei resolver outro problema.
— O que?!
— Tenho que encontrar um assassino.
— Mas... Você vai abandonar o Peter?
— Jamais. Só que eu dei o meu melhor ontem para saber a terceira localização dele. Já que não houve resposta, eu não posso forçar e arriscar em errar. Tenho que descansar em relação ao seu caso e entrar em outro.
— E que outro caso seria esse?
— Eu já falei. Vou encontrar um assassino, um doente que mata crianças.
— Espera, você vai investigar o caso dos assassinatos da pizzaria?
— Vou, meu amigo.
— Isso é coisa para a polícia resolver.
— Já faz muito tempo desde que prometeram que resolveriam.
— É esse o outro assunto que disse ontem?
— O que?
— Você encarou o Freddy quando disse que tinha que resolver outros assuntos. Você fez uma promessa com os animatronics, não foi?
— Foi.
— Em troca de que?
— De amizade. Eles serão os meus amigos e eu os ajudarei a libertarem as suas almas, apesar de que o que eles querem mesmo é vingança.
— Como consegue falar com eles? Aqueles bichos dão medo.
— Eu não tenho medo de bichos de pelúcia, Marc. Além disso, são crianças.
Suspirei. Não adianta discutir com ela. Aproximei-me de Peter, acabando por segurar a sua mãozinha. Olhar para ele nesse estado é doloroso.
— Vamos para a pizzaria? – Eva perguntou de repente.
— Por quê?
— Primeiro, eu quero ver como é que está o Fritz. Segundo, se ficar o dia todo olhando para o seu irmão assim, você ficará como a sua mãe.
— O que sabe sobre a minha mãe?
— Sei que ela está sofrendo. Creio que cometeria um suicídio caso algo de ruim acontecesse tanto com o Peter quanto com você.
— Sério, Eva. Vou morrer acreditando que você é uma perseguidora.
Ela riu.
— Vamos? Deixe a sua mãe cuidar do Peter. Ele estará bem ao lado dela.
Já na pizzaria, eu pude ver muitas famílias sentadas em cada mesa e algumas crianças assistindo os animatronics cantarem e lhe servindo bolo e pizza. O local estava espalhando a sua magia infantil como sempre.
— Nossa! Parece que todo dia é aniversário de alguém por aqui. – Comentei.
— Como é que conseguem comer pizza numa hora como esta? Vamos até o escritório. Aposto que o Fritz está lá com os colegas.
— Mas ele não trabalha à noite?
— É sim, mas após uma noite de tormento, é óbvio que ele iria desabafar com os outros.
Segui a Eva pelos corredores, me afastando das festas infantis. Fomos até uma porta e abrimos, vendo quatro pessoas com o uniforme de segurança da pizzaria.
— Por favor, Mike! Eu não sei se conseguirei aguentar mais uma noite nesse lugar! – Implorava um cara de óculos vermelhos, cabelos ruivos e olhos verdes.
— Não seja covarde, Fritz! – Repreendeu o homem de cabelo castanho claro bem curto e olhos azuis que fazia uma expressão bem séria.
— Olha quem fala! – O rapaz de cabelo e barbicha loira de olhos claros se intrometeu, levantando-se da cadeira e se aproximando dos outros dois. – Mike, você quase foi demitido porque não conseguia controlar o seu nervosismo. Lembro até hoje do cheiro de suor que você tinha. Era insuportável!
— Cala a boca, Jeremy! Ninguém o chamou para a conversa! Além disso, o novato era pior do que eu! Ele era completamente paranoico!
— Hei! Não põe o novato no assunto. Ele era legal!
— Meu Deus! Vocês não param de brigar? Desse jeito, seremos todos demitidos! – Exclamou o único segurança que estava sentado. Ele tinha cabelos castanhos e longos, amarrados pra trás, e seus olhos são escuros.
— Hei! – Eva gritou, chamando atenção de todos.
— Você voltou?! Mas já?! – Perguntou o ruivo.
— Eu vim perguntar se você está bem. Além disso, queria lhe agradecer pela carona, Fritz.
— Não foi nada.
— Hã... Marc, esses são os responsáveis pela segurança da pizzaria. O durão ali é o Mike Schmidt, o ruivo é Fritz Smith, o loiro é Jeremy Fitzgerald e o outro sentado ali é o...
— Vincent. – Ele a interrompeu.
— Tinha o novato, mas parece que ele faltou ao trabalho de novo.
— Não é culpa dele. – O loiro se aproximou. – Que bom saber que você fez um amiguinho, Eva.
— Não me trate como uma criança, Jeremy. Bem... Eu quero saber o motivo de tanta briga.
— O Fritz está chorando de novo.
— Eu não posso ficar novamente aqui esta noite! – Disse o ruivo.
— Pode sim, idiota! Seja homem! Você consegue!
— Já que está tão confiante, Jeremy, por que não fica no lugar dele? – A garota perguntou.
— O que?! – O loiro quase gritou ao ouvir as palavras da garota, arrancando a risada de seus colegas.
— Já sei! Eu tenho uma ideia melhor! Você, o Fritz e o Mike irão trabalhar juntos esta noite. Será mais fácil e terão a companhia um do outro, sem motivos para chorar, tudo bem?
— Hã?! – Eles arregalaram os olhos.
— Acho que é uma boa ideia. Falarei isso para o meu tio e ver o que ele acha.
— Por que o Vincent não vem também?! – Mike perguntou, contrariado.
— Porque ele tem mais disciplina do que vocês três e o novato juntos!
— Obrigado.
— Ah é! Tem o novato também. Farei com que ele venha esta noite.
— Pobre coitado. Do jeito que ele é, até o imagino morrer de ataque cardíaco ao ver o primeiro animatronic.
— Ele ficará bem, assim como vocês. Então... Os vejo à noite, meninos. Vamos, Marc.
Eva saiu do escritório e eu fui atrás dela, mas antes de fechar a porta, pude ouvir:
— Parabéns! Agora nós três nos ferramos por culpa de vocês dois!
— Cala a boca, Mike!
E fechei a porta, seguindo Eva logo depois.
— Eles me serão úteis.
— Você age como se fosse chefe deles.
— O meu tio é chefe deles.
— Você é sobrinha do chefe da segurança?
— Não. Eu sou sobrinha do dono da pizzaria.
A encarei, surpreso.
— Agora que você me conta? Justo depois de chamá-la de esquisita?
— Bem, ao lembrar que eu fiz amizade com espíritos de crianças mortas e você é o meu único amigo que tem a minha idade, eu diria que você não está errado.
Forcei uma risada. Nossa! Esse tempo todo, eu estava estudando com alguém bem ligado a essa pizzaria.
— E agora? Como você vai encontrar o assassino?
— Tenho que falar com o Puppet. Ele foi a primeira vítima. Será doloroso fazê-lo recordar de algo tão trágico, mas é o preço que pagam para obterem a sua vingança.
— E o que fará depois disso?
— O assassino terá sorte se for eu quem o deterá. Se forem eles... Não será uma coisa muito bonita para assistir.
O comentário frio de Eva chegou a me fazer arrepiar. Nem quero imaginar o que aconteceria.
— Entendo.
Ela me encarou.
— Quer bolo?
— Hã... Não, obrigado. Eu sei que estará ocupada, então eu sairei do seu caminho. Acho que farei companhia ao Peter.
— Claro. Será bom pra ele. Até mais, Marc.
— Até.
Saí da pizzaria, sem olhar pra trás. Céus, eu devo estar desesperado para pedir ajuda de alguém como a Eva.
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