Segunda Chance

6 Treino dos Clubes Esportivos - Segundo Dia


Do outro do salão, precisamente em frente às portas de vidro uma garota via essa cena estupefata. Como? O que Toushirou estava fazendo com aquela esquisita? E ainda por cima conversando como se fosse a coisa mais natural do mundo. Mais surpresa o viu sorrir de algo que Kurosaki disse, aumentando sua aflição.

Será mesmo que aquele absurdo era verdade?

Precisava investigar.

KARIN POV

“Por nada”

Piscando nervosa dei de ombros pela sua resposta vaga e procurei me concentrar nas anotações sobre o time. Fiz o meu melhor o ignorando, mas Toushirou não entendeu o recado. Continuou quieto, sentado desleixado na cadeira enquanto me observava. Isso me agitava ainda mais por dentro. Enquanto escrevia as notas mais importantes de cada jogador em um caderno a parte – tinha trazido outro, estava no meu colo -, pensava nessa atitude esquisita dele.

Por que continuava aqui? A conversa se encerrou, certo? Pra começar a gente nem debatia coisa alguma. Nervosa com seu silencio e escrutínio, pigarreei para quebrar esse clima tenso.

— Então... O que veio fazer aqui?

No instante seguinte me xinguei. Sério, é assim que começo um papo com ele? Estou mesmo enferrujada.

— Nada demais, apenas curiosidade. Raramente Zaraki permite essas folgas pra relaxar.

Com essa levantei a sobrancelha ao fita-lo. Toushirou olhava para meu caderno desinteressado. Foi quando percebi seus ombros tensos e lembrei das garotas hoje à tarde. Não pude evitar um ar de riso.

— Sei... Aqui é muito interessante.

Ele levantou os olhos, sério com meu tom. Engoli em seco, novamente inquieta ao ajeitar os óculos em nervosismo. Aí está. Os olhos de gelo do capitão. Era meu apelido particular dele pelas costas desde que virei a gerente. Além do matiz neles lembrar frigidez era intimidante. Se endireitando na cadeira, ele continuou me olhando desse jeito como se me analisasse. Não gostei disso.

— E você? O que faz nesse lugar?

Sério isso? O encarei sóbria, menos nervosa.

— É bem obvio, não acha?

Gesticulei para meus cadernos e curvando os lábios, seu olhar passou de frio a perspicaz me incomodando.

— Se queria privacidade, poderia usar a sala de conferência do outro lado do hall.

— E se quer relaxar mesmo do treino meia boca de hoje, poderia curtir com uma das suas confidentes lá fora.

Arregalei os olhos, prendendo o fôlego mortificada. Mas... O que foi que eu disse?! Toushirou levantou a sobrancelha, surpreso, porem, em seguida segurou um sorriso, cheio de presunção. Estremeci envergonhada. Que droga.

— Isso te irrita.

Na mosca. Meu rubor apenas aumentou.

— Claro que não.

— As garotas te encurralaram ou algo assim hoje à tarde?

Queria que o chão se abrisse e o tragasse pra bem longe de mim. Por que Toushirou tinha que ser tão esperto nisso? Percebia instantaneamente as coisas que me incomodavam e jogava na minha cara.

— E se for? O que te interessa?

— Explicaria por que uma garota me abordou agora a pouco. Como se soubesse que não teria reunião de time nesse horário.

Emburrei mal humorada. Idiota sabichão. Esse ar de conhecimento de causa me aborrecia tanto naquela época como agora. Não dava pra ganhar dele numa discussão. Era uma chatice.

— Está bem. Eu contei. Não me deixariam em paz mesmo. Antes vocês do que eu.

— Vocês? Quem são os outros?

Toushirou parecia interessado com o assunto. Sua tensão desapareceu completamente. Suspirei cansada, por que comecei isso?

— O resto dos atacantes. Sinceramente, não sei o que tem de tão incrível em um bando de garotos, mal educados com ar de gloria. Só estão fazendo seus papeis em campo, caramba! Se desleixarem o técnico demônio linchará vocês.

Ele quase riu disso e segurei o impulso infantil de mostrar a língua.

— Você é bem ferina.

O olhei duvidosa por um momento.

— E você é esquisito. Acabei de te ofender, sabia?

Parando de sorrir, Toushirou se apoiou na mesa, descansando os cotovelos ao se debruçar um pouco. Me empertiguei na cadeira nervosa e desorientada. Sua aproximação fez com sentisse seu perfume, quase me fazendo baixar a guarda. O mirei desconfiada. Ele me olhava especulando, indeciso sobre algo, mas estava calmo. Estranho...

— Kurosaki, o que acha sobre mim?

— Ahn?

Levantei as sobrancelhas. Entendi direito?

— Diga o que pensa a meu respeito.

O encarei neutra. Parecia ter dito a verdade, pelo seu olhar curioso não estava brincando comigo. Nesse caso... Bem, foi ele que pediu.

— Pra começar você é calado demais. Quando diz alguma coisa não é pra opinar ou tomar partido, é sua própria visão crua das coisas. O que faz as pessoas ao redor se sentirem idiotas com esse irritante ar maduro. Sua atitude neutra me enraivece, nunca sei quando vai fazer alguma coisa e quando o faz pega todo mundo de surpresa. Parece que gosta de espantar as pessoas e outra... Ei, por que está sorrindo?

Estava tão focada em desfiar meus motivos que queria detestar nele e vi tarde demais um discreto sorriso. Mas seu olhar martelou meu coração. Toushirou me olhava de maneira cálida em deleite, me desnorteando.

— Quer dizer não me suporta.

Me remexi inquieta na cadeira, seu comportamento era muito estranho. Estranho mesmo.

— Basicamente é isso. Algo contra?

Desafiei com um pouco de compostura. Se endireitando na cadeira, seu rosto demonstrava uma calma com divertimento.

— De jeito nenhum. À propósito, Kurosaki. Eu te acho interessante.

Meu rosto rendeu quente de surpresa e vergonha. Vendo isso, estreitou o olhar mais risonho.

— Po..por que?

Se levantando da cadeira, Toushirou a virou na posição certa ajeitando-a contra a mesa. Em momento algum, deixou de me fitar.

— Você é diferente.

Meu fôlego sumiu e como se fosse possível fiquei mais desconcertada. Como continuei muda, ele deu a volta pela mesa apanhando meus cadernos.

— Vem, já terminou o relatório de rendimento esportivo, certo?

Pisquei incrédula e me levantei da cadeira, pegando meu estojo de canetas o seguindo. Ele estava mesmo prestando atenção nas minhas anotações.

— Espere, meus cadernos...

— Deixe que eu levo. Também preciso conversar com o técnico.

Emudeci outra vez enquanto saímos do salão. Ao andarmos pelo hall fiquei ao seu lado, o olhando discretamente. Toushirou estava bem normal, nada daquela expressão misteriosa e risonha. Procurei me acalmar, ignorando esse martelar do meu coração. Não preciso ficar toda boba pelo o que disse. Não preciso. Droga, ele devia saber o efeito que causava ao falar e se comportar daquele jeito perto de uma garota.

No dia seguinte

Em pé no segundo campo de futebol, eu anotava a cada detalhe importante numa prancheta enquanto assistia esses mole..., digo os jogadores do time fazerem os treinos específicos depois do aquecimento. Vez ou outra piscava, o cansaço pesava sobre mim. Só estava em pé e fazendo meu trabalho por pura força de vontade.

— Kurosaki-chan! Ohayo!!!

Enrijeci os ombros, tensa de susto com o chamado. Olhei de soslaio a pessoa e reprimi um suspiro. Yoshiro Kiba, estagiário a assistente técnico. Era um universitário que, por algum motivo, veio estagiar na nossa escola invés de algum clube. Observei a chegada do rapaz atlético de cabelos negros e desleixados com um ar pesaroso.

Para minha falta de sorte, o cidadão não percebeu o clima quando me abordou.

— Puxa, o treinamento está bem puxado como sempre. Desde quando estão aqui?

Ajeitando a alça da mochila no ombro, Kiba olhou em volta empolgado ao ver os treinos de passe e chute num extremo, enquanto um grupo fazia treinamento de espaço reduzido num outro. Suspirei mal conseguindo manter os olhos abertos.

— Desde as quatro da manhã.

— Nani? Por que isso?

Ele pestanejou ao meu lado e dei os ombros.

— Vai saber. Ordens de Zaraki.

Relanceei os olhos para o grupo que praticava disputa de posse de bola no lado esquerdo do campo. Vi quando ele franziu a testa pela visão periférica, ao seguir meu olhar.

— Mas que...? Aquilo na parte do campo é...

— Pneus? Sim, são.

Ele estreitou os olhos, prestando atenção e levantou a sobrancelha.

— Estacas, cones e minicones também. Interessante.

Sorrindo, ele se aproximou pela lateral e caminhei ao seu lado. Vimos em tempo Toushirou passar de primeira um toque de bola quando ela quicou para esquerda ao bater numa estaca. Digio pegou e marcou um gol dando aquele sorriso largo. Ao meu lado, Kiba assobiou impressionado.

— Nada mal.

Assenti anotando mais uma assistência pro Toushirou. Pela contagem na lista que fazia deles, ele tinha a maior pontuação. Sem surpresa.

— Que tipo de jogos estão fazendo?

Parando de escrever, ignorei a fraqueza sonolenta e olhei pros rapazes jogando.

— Velocidade de improvisação agora com 4x4 mais os goleiros e Ataque X Defesa mais canais externos com dois times de 6x6 e 10x10. Estamos dando intervalos de trinta a quarenta minutos e alternando com os reservas.

— Hum... Kurosaki-chan, foi você que sugeriu esse aquele tipo de treino?

— Não.

— Ah.

Direcionei o olhar para o jogador com o colete vermelho numero 10. Ontem, assim que pedimos permissão para entrar na sala de reuniões, Toushirou conversou com o treinador sobre isso. Ele disse que o time precisava de situações reais de jogo. Pelo o que “debateu” comigo – mentiu na cara dura o sabichão -, os jogadores tinham que ter uma noção maior da imprevisibilidade. Ataque X Defesa, com canais externos e Velocidade de improvisação nesse tipo de treino era perfeito pra isso e o técnico demônio me encarou depois especulando.

Só tive que concordar.

— Esse garoto merece mesmo a braçadeira de capitão.

Fitei Kiba de soslaio, ele cruzava os braços dando um sorrisinho discreto. Nessas horas que reconheço sua inteligência. Apesar de ser um bobão, Kiba conhecia cada jogador do nosso time. Era um assistente técnico promissor.

— Isso vai resolver o problema da ligação entre a defesa e o meio de campo.

Franzi a testa, confusa, mas como sempre ele não podia permanecer no seu modo inteligência mais tempo.

— E então Kurosaki-chan, conseguiu domar direitinho esse time?

Gemi amargurada.

— O que você acha?

— Bom, pelo estado manso daquele grandão ali, ele aceitou numa boa a posição de zagueiro.

Olhei para onde apontava com o polegar e engoli um amargo de desgosto. Yami-senpai se gabava ao frustrar cada tentativa de Rikuo num drible rápido, pelo mínimo de toques permitidos nesse jogo.

— Pois é, a peça chave da nossa defesa. Yami baka senpai, o zagueiro central. Com seu 1,90cm ele é parede que precisávamos.

— Entendo o que quer dizer. Com a força física e velocidade, podemos usar sua técnica para frear a ofensiva do adversário.

— Isso, mas ele...

Um toque de bola outra vez de Toushirou e Yami pegou chutando pra longe. Gargalhando, se agigantou para cima de Rikuo que o olhava roxo de raiva.

— Viu, seu pirralho! É assim que se chuta!

Suspirei mais cansada, assistindo as farpas que trocavam daqui.

— Ele só sabe fazer passes longos. Kuso, já é a décima bola.

— Parece mais chateada que o normal.

Estreitei o olhar para o vazio.

— Pareço? Eu não preguei o olho a noite toda.

— Ué? Por quê?

Por quê? Vejamos... Tive uma surpresa ao entrar no meu quarto ontem.

Flashback

Treinamento de espaço reduzido? De onde ele tirou essa ideia?

Escondendo um sorriso, subi as escadas para o segundo andar. Não tinha ninguém aqui, já que não escutei nenhum risinho ou burburinho de conversas nos quartos ao caminhar pro meu. Pelo visto, os rapazes resolveram curtir a folga em outro lugar. Graças a kami-sama. Um tempo de paz. Tudo o que preciso depois daquele relatório.

Ao puxar a porta de correr e entrar, fechando a mesma, joguei meu caderno com o estojo em cima da mala e me espreguicei. Meus ombros estavam doloridos, fiquei desde o jantar naquele salão. Ao chutar as sapatilhas, me encaminhei até a janela para fecha-la. O luar clareava aqui dentro já que não acendi as lâmpadas. Antes de puxar o ferrolho, pensei no que aconteceu.

Apesar de não se lembrar de mim, parecia que Toushirou queria ser meu amigo. Mordi o lábio. Será? Essa mudança repentina de comportamento me deixava aflita. Mesmo sendo ferina, como ele mesmo disse, não o incomodava nem um pouco. Até quis me incluir nas suas ideias pra melhorar o time. Mas será que ele... Sacudi a cabeça.

Não. Isso é fantasia demais, idiota. Se fosse o caso, eu não teria visto aquela cena dele com Hinamori hoje a tarde. Ainda mais pelo assunto que rolava desde que chegamos aqui. A transa deles. Sentia um gosto amargo na boca só com a ideia.

Suspirando fechei a janela e girei no lugar, indo até o interruptor. Mal dei um passo e chutei sem querer um troço peludo. Travei, apavorada ouvindo o guincho da coisa. Engoli em seco, peguei o celular e liguei a lanterna mirando pra baixo. Meu sangue gelou e estremeci inteira. Um monte de “coisinhas” pretas zanzava pelo meu quarto, guinchando. Cheia de nojo, soltei um grito e corri pra porta. Ao puxar, não consegui. Estava trancada. Puxei, puxei, puxei e apavorada percebi que estavam segurando!

— Abre essa porta!!! Kyah!!!

Um rato passou por cima do meu pé. Ouvi um coro de gargalhadas por cima do pulso cardíaco e estremeci.

— Qual é bruxinha? Pensei que gostaria da surpresa.

— Digio, seu galinha cretino. Eu vou te matar!

Soquei a porta, numa mistura de raiva e pavor. Ele era o único que me chamava de “bruxinha” pra me provocar. Mais ratos começaram a correr pelos meus pés e gritei desesperada. Suando frio, comecei a chutar a porta também, aumentando os risos no corredor. Esses moleques idiotas!!! Ele não podia ter feito isso sozinho, não com essa quantidade absurda de ratos! Engolindo o nojo, desisti da porta e corri até a minha mala. Tinha uns três andando por cima e peguei pela alça sacudindo histérica. Assim que os bichos caíram, sem pensar fui até a janela e abri atrapalhada. Joguei minha mala dali mesmo, pouco me importando se iria acertar a cabeça de alguém. Quase pulei a janela, mas me deu uma vertigem. Lagrimando, sentei no beiral me segurando e vigiando frenética com a lanterna do celular os ratos passeando pelo quarto.

— Acha que ela desmaiou?

Ouvi nessa histeria e soltando uma gargalhada, aquele mulherengo imbecil descartou.

— E daí? Bem que merece por aquela corneta maldita. Só pra garantir...

Ouvi a tranca travar. Arregalei os olhos chocada, esse cretino me prendeu aqui?! Estremeci mais apavorada e irritada. Imbecil... Ele ia me pagar, junto com todos seus cúmplices.

Flashback off

Trinquei os dentes. Lá pelas sete da manhã, com toda a coragem que tinha me espremi no parapeito entre duas janelas. Entrei na primeira que encontrei. Cheguei atrasada no treino, Zaraki quase me deixa surda com seus gritos e assisti Digio e companhia rir das minhas olheiras e meu ar espantado. Bem, já tinha um plano. Dei uma olhadinha outra vez pro treino puxado e mordi um sorriso. À tarde, eles que me aguardem.

— Kiba-san, pode cuidar disso pra mim?

Empurrei a prancheta e a caneta, ignorando sua confusão.

— Claro, sem problemas.

Dei meia volta indo direto até a saída. Cruzei o espaço indo até o ginásio e entrei no deposito. Ninguém me viu, já que o grupo de torcida resolveu passear pelo lugar. Minha mala estava aqui. A trouxe antes de ir pro treino da manhã e segui até o monte de colchonetes no fundo. Era tão convidativo. Me joguei neles, fechando os olhos. Dormiria até o almoço, depois conversaria com o técnico sobre a parte 1 da minha vingança.

KARIN POF

Aquela garota sumiu. Era tudo o que todos sabiam. Isso era mal. Até aquele momento ela ficou quieta, agindo como se nada estivesse acontecendo. Esse ar de suspense o deixava arrepiado. Como ela não deu as caras até o meio dia, tiveram que arrumar tudo. Graças àquele Kouhai arrogante do Hitsugaya, teriam mais tralha pra guardar.

Esse cara era muito petulante. Não respeitava ninguém. Alias, sempre humilhava os outros. Se queria se exibir, por que não foi para um colégio melhor? Ele viu apenas no treino de hoje o controle impecável de bola que sujeito tinha. Kuso... Apenas aumentou o respeito que os demais tinham por aquele moleque.

Irritado, fui até o ginásio guardar os cones extras no deposito. As meninas não estavam treinando. Momo lhe disse ontem. Ao entrar no deposito, porem, ficou surpreso com o que “encontrou”.

Chegou mais perto, colocando os cones no chão sem fazer barulho e quase riu. A bruxa dormia como morta nos colchonetes, nem tirou os óculos. Uma ideia lhe passou e sorriu sacana. “Ela vai enlouquecer quando acordar”. Se debruçando com cuidado, aproximou a mão dos óculos e os segurou. Puxando lentamente foi tirando-o dela, sem ousar respirar. De perto assim, talvez ela sentisse seu fôlego, vai saber. Mas acabou não aguentando, soltou o ar inspirando rápido, atento se continuava dormindo. Foi então que reparou no cheiro que sentia agora. Intrigado, respirou devagar e ficou mais confuso.

Isso vem dela?

Franzindo a testa, mirou a garota adormecida. Essa bruxa cheirava a chocolate...

— Hum...

Merda! Se afastou de repente deixando os óculos cair no colchonete. Irritado, saiu dali desistindo da pegadinha de sumir com o objeto da garota. Tinha coisa melhor pra fazer.

KARIN POV

Sentada na beirada da piscina, movia os ímãs no quadro tático em meu colo. Tinha pegado um na sala de conferência ontem. Era pequeno, 40 centímetros, branco com linhas negras demarcando um campo de futebol. Não faria falta, já que havia outro enorme com tripé. Com a mão no queixo, deslizava os ímãs imaginando o esquema tático do time de acordo com o que vi hoje. Falando nisso... Levantei os olhos, assistindo os garotos flutuando na água. O técnico Zaraki mandou que fizessem treinamento físico nesse estilo... À uma sugestão minha. Claro que expliquei a importância sobre a resistência dos músculos, melhoria da capacidade cardiorrespiratória e etc.

Mas nosso treinador era espartano então obvio que aplicou do seu jeito. Um dos garotos ofegava esgotado.

— Quan..quanto tempo temos que ficar aqui?

— Mais uma hora.

Um arfar sonoro de angustia ecoou e engoli o riso.

— E se dar câimbra?

— Pra que temos uma gerente, idiota? Kurosaki usará suas habilidades de enfermagem depois o molenga voltará para a piscina.

Um resmungo coletivo se propagava e peguei uns pedaços.

— Kuso... Essa bruxa.

— Maldita baixinha.

— Calados maricas!

Escondi um sorriso vendo Digio, Yami, Noitra e mais uns sete pares de olhos me fuzilando de raiva. Pouco me importa. Era a parte 1 da minha vingança por ontem. Eles estão mais ou menos uma hora desse jeito. Toushirou não estava no castigo. Ele tinha saído com Kiba depois do almoço. Perguntei sobre o que era e cheio de segredos, Kiba disse que iriam espionar.

Zaraki pelo visto gosta muito do Toushirou já que o liberou do treino à tarde. Esse cara tem uma sorte e tanto.

— Arght. Eu não aguento mais!

Levantei os olhos do quadro tático vendo Digio afundar. Ele emergiu ofegante e pulou até a beirada saindo da piscina. Quase ri, câimbra, nas duas pernas aposto. Levantei da cadeira e fui até onde estava. Todo mundo girou para ver minha primeira vitima. Digio me encarava trincando os dentes, apenas devolvi séria .

— Vira de costas.

— O que ?

Ofegou irritado e pouco me importei.

— Anda logo ou a dor vai piorar.

Mentira, agora que vai doer mesmo. Hesitando, fez o que disse e me ajoelhei. Pude ouvi todos segurarei o folego e dei inicio a massagem. Digio soltou um berro quando apertei a panturrilha, bem no tendão e encontrei o nervo massageando forte. Parecia que eu sovava uma massa de pão. Os outros assistiam pálidos, afinal era cada berro medonho que o imbecil soltava. Tinha um jeito menos doloroso de fazer isso e rápido. Bastava esticar as pontas dos pés, mantendo a perna reta e empurrar na direção do joelho. Simples, rápido e fácil.

Mas ele não merecia, então fiz do jeito mais doloroso possível até que minutos depois acabei. Levantei do piso, olhando minhas próximas vitimas. Eles me olhavam com terror, me senti poderosa ali mesmo.

— Entra de novo na piscina, ainda não acabou!

Zaraki ladrou e fui até a cadeira, continuando com a minha ideia. Pensei nisso a tarde toda. Usávamos um esquema tático errado. Só agora que percebi. Se mudássemos para 4-3-3, ficaria muito melhor. Mexendo os ímãs, de acordo com os números dos titulares na nova temporada, a ideia se fazia mais certa pra mim.

Desse jeito, teríamos mais linhas de passes, combinações e triangulações com pelo ao menos dois jogadores. Os passes melhoraram bastante só com o treino de hoje. Sem contar de que a dinâmica ofensiva não seria prejudicada. O ponto forte desse esquema é o contra-ataque. O que nós precisamos. Mexi mais os ímãs e olhei o quadro.

Dois zagueiros, dois laterais na defesa. Três meios de campo e três atacantes. Agora... mordi o lábio. Não tinha jeito. Olhei para o número 10 no quadro. O meia de campo que criaria as jogadas. Suspirando, olhei o vazio. Assim que chegar vou falar com ele. Toushirou tinha que aceitar fazer isso.

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Er.... Eu ia falar com ele, mas faltou coragem. Parada no corredor que levava aos dormitórios zanzava de um lado pro outro segurando o quadro tático. Não era difícil. Era ir até ele e falar. Pronto, fácil. Arght. Quem eu quero enganar? Eu nunca o abordei desde que entramos no colegial! Como vou fazer isso sem gaguejar?

— Sou uma idiota ou o que?

— Falando sozinha, Kurosaki?

— Kyah!!!

Dei um pulo de susto. Agarrada naquele quadro girei na direção encontrando Toushirou me olhando curioso. Era tarde da noite já, a maioria já tinha dormido exceto eu por razões obvias. Mas ele estava suado. Engoli em seco, travada no lugar. As vezes me esqueço o físico que ele tem. Não reparo nisso, olhava pra ele e via aquele menino sério e apático. Vê-lo arfando, cansado de um exercício puxado martelou meu coração me deixando sem ar. Droga, acho que corei. Colocando o quadro cobrindo um pouco meu rosto olhei para um ponto atrás dele, pigarreando.

— Hum. Estava correndo ou o que? Fiquei plantada aqui desde o jantar.

Estreitando os olhos, vi que não gostou do meu tom de cobrança. Passou por mim abrindo uma garrafa d’água que nem notei antes.

— Fui malhar. Algum problema?

Pisquei impressionada. Ele tinha tanta energia assim? Caminhei atrás dele enquanto subíamos as escadas.

— Na verdade nenhum. Todos já foram dormir, só estranhei.

— Não participei do treino à tarde.

O olhei enviesada. Com a quebra de gelo, não estava mais incomodada com sua aparência. Então não gosta de ficar ocioso. Aspecto novo, mas... bem, a gente só conviveu por três meses na época do fundamental. É normal que não o conheça tão bem assim.

— Queria falar comigo?

Quase me esqueci. Corri até ficar diante dele quando entramos no corredor do segundo andar. Toushirou parou e segurei o nervosismo.

— Bom... Com o treino de hoje eu percebi que a disposição dos jogadores que usamos não está rendendo como devia, então eu....

— Arranjou outro esquema tático.

Sorri empolgada. Ele parecia interessado.

— Isso, ainda não mostrei pro treinador. Queria sua opinião.

Entreguei o quadro tático pra ele e esperei ansiosa enquanto ele olhava para o arranjo dos ímãs. Toushirou continuou encarando o quadro me deixando mais ansiosa.

— E então? Assim é bem melhor, não acha?

Silencio. Comecei a ficar insegura. Será que não concorda? Agoniada, fui explicando as ideias bases desse esquema.

— Olha. A maior fraqueza do time não é a defesa? Desse jeito, o contra-ataque, justo do que a gente mais precisava, ficará eficiente. Rikuo não tem controle de bola como ficou provado hoje. Ele pode ser um meia-ala. Noitra-senpai seria o outro. Ele é bem criativo e te ajudaria com...

— Como você sabe?

Pisquei confusa.

— O que?

Levantando os olhos pra mim, senti o sangue fugir do rosto com a desconfiança estampada no seu olhar. Os olhos de gelo e me encaravam penetrantemente.

— Ninguém no colégio sabe que já joguei no meio de campo. Como sabe que sou um meia-armador também?

Ai. Meu. Deus. Ele jogava em todas as posições de meia no fundamental. Como pude me esquecer de uma coisa dessas?!