Segunda Chance
7 Treino dos Clubes Esportivos - Terceiro Dia
Todos comentem erros. Ainda mais quando sustentam uma mentira para outra pessoa. E por isso, por mais cuidadosas que sejam, às vezes essas pessoas cometem deslizes e se deparam com o momento angustiante de dizer a verdade. Era desse modo que Karin se sentia diante do seu amigo de infância e primeiro amor. Sua palidez aumentava à medida que via o olhar penetrante de Toushirou e isso a deixava mais e mais nervosa.
KARIN POV
Eu não acredito que cometi uma gafe dessas?! Como pude ser tão burra?! Toushirou me encarava sério esperando uma resposta, que de jeito nenhum eu posso dar. Não posso dizer algo do tipo:
— Como? É porque estudamos juntos na escola primária Seiji. Sou a Karin, baka.
Não. Não tem como eu dizer algo assim depois de negar tanto. Se bem me lembro, Toushirou detesta quando o fazem de idiota. E não dar pra fugir correndo depois. Ele me alcançaria fácil. Tentei pensar rápido, seu ar desconfiado piorava a cada segundo. Se demorasse mais, era certeza que não acreditaria em nada.
Então, dado as minhas opções só me restava uma coisa a fazer. Ignorei o clima tenso entre nós bancando a sonsa.
— O que? Você é?
— Acabei de dizer, Kurosaki.
Estreitando os olhos, ele avançou um passo me intimidando e revirei os olhos para disfarçar.
— Ah, isso explica seu controle incrível de bola no treino de hoje.
— O que?
Pestanejando, vi que o peguei de surpresa e aproveitei tirando o quadro de sua mão.
— Todo meia-armador tem habilidades incríveis de passes, isto é, todo jogador de meio de campo tem. Mas hoje você criou jogadas de ataques bem ofensivas, mesmo com aquelas tralhas todas no campo.
Peguei a caneta pincel no bolso do moletom e mordi o bocal tirando-o para anotar o nome das posições embaixo dos ímãs. Era uma desculpa, ainda estava nervosa com o deslize. O olhei depois tampando a caneta e notei Toushirou confuso. O olhar vago...
— Qual o problema?
Piscando, ele desviou o olhar parecendo um pouco frustrado.
— Não é nada.
O mirei com ar desconfiado, para melhorar o disfarce.
— Sei... Ainda não me disse o que achou do novo esquema.
— Depois olho isso com mais calma.
Ele parecia mesmo frustrado agora. Senti um aperto incomodo no peito, mas dei os ombros concentrada em agir normal perto dele.
— Você quem sabe. Quero mostrar logo pro técnico, então pode ver amanhã?
— Claro. Você é bem insistente quando quer.
Ao me olhar, parecia seriamente cansado. Me olhava com uma expressão de “maníaca por tarefas”. O clima entre nós ficou mais leve, mas não me permiti relaxar. Me encaminhei para meu quarto procurando agir normal. Tenho que ser assim até não estar mais diante dele.
— Só estou fazendo meu trabalho.
Distraída, puxei a porta de rolar do meu quarto e vi num segundo vários pares de olhinhos brilhando pra mim do chão. Gelei na hora, cheia de nojo e bati com força porta no caixilho de madeira.
O baque ecoou no corredor enquanto eu prendia o grito de pânico. Havia me esquecido dos ratos!
— Kurosaki.
Enrijeci os ombros de susto. Toushirou ainda estava aqui.
— Hai?
— Por que não entrou no quarto?
Que droga. Senti minhas costas queimar, com certeza ele as encarava estranhando minha atitude nada habitual.
— Hei.
Ouvindo seus passos, fiquei mais tremula lembrando com nojo dos ratos. O que eu faço? Não posso entrar! Mas também não posso ficar aqui parada pra sempre!
Fechei os olhos procurando me acalmar.
— Me esqueci que tenho de fazer uma coisa.
— A essa hora da noite?
— É, qual o problema?
Devolvi seca. Que coisa! Por que não me deixava em paz? Seu tom cético me deixava mais nervosa. Parando ao meu lado, ele me olhou por um momento e depois, antes que esperasse, segurou minha mão. Teria suspirado com o toque... Se não fosse justo a que estava travada no puxador da porta.
Havia congelado no lugar de tão histérica.
— O que tem dentro do seu quarto?
Tinha um ar divertido na sua voz, cheio de curiosidade. Não preciso dizer que apenas piorou meu estado de nervos.
— Não te interessa!
— Então realmente tem algo aí dentro que te assusta.
Imbecil... Ele sorria do meu ar assustado. Entreabri os olhos, encarando o nada. Mal conseguia respirar direito, sentia até minha pele ficando pegajosa de suor frio. Acho que até minhas pernas viraram geleia, não conseguia sequer dar um passo. Resolvi jogar a toalha.
— Achei que o pessoal da pousada já tinha se livrado deles.
Confessei baixinho, estremecendo mais forte.
— Deles?
— Dos ratos.
Prendendo o fôlego, Toushirou encarou a porta pasmo.
— Deve estar brincando.
— Claro que não. Tem um monte aí dentro. Aquele cretino do Digio...
Mordi o lábio lagrimando. Se ontem eu consegui correr pelo quarto e me empoleirar na janela, agora eu estava travada num medo misturado ao nojo. Não suporto ratos.
Suspirando ao meu lado, Toushirou tirou com cuidado minha mão rígida da porta, segurando na sua.
— Vem.
Pisquei desnorteada.
— “Vem?” Como assim?
Girando no lugar, ele foi me arrastando já que minhas pernas estavam sem firmeza até atravessarmos o corredor. Abrindo o quarto em frente ao meu, ele me guiou até o futon estendido no meio do tatame, me fazendo sentar nele. Não foi tão difícil, já que estava nervosa demais e sem forças com os ratos.
Apoiado num joelho diante de mim, ele me deu a garrafa d’agua e percebi que analisava o estado dos meus olhos. Já vi meu pai fazer isso na clinica enquanto verificava a dilatação das pupilas nos pacientes de trauma em acidentes. Seu olhar ficou sério depois de um tempinho, pelo visto eu estava com um ar bem espantado.
— Onde estão suas coisas?
— No depósito do ginásio.
Respondi por reflexo e assentindo deu mais uma verificada no meu rosto antes de se endireitar.
— Certo. Me espere aqui.
Sem dizer mais nada, se levantou do futon e saiu do quarto fechando a porta. Baixei os olhos para a garrafa, sentia a garganta seca e tomei um pouco. Foi quando me dei conta e cuspi a água afobada. Encarando a garrafa, principalmente o anel do gargalo estremeci vermelha cobrindo a boca com o dorso da outra mão.
Meu coração rugia louco.
Is..isso foi um aquilo, certo? Afinal, eu vi Toushirou bebendo um pouco... E é a mesma garrafa... Sacudi a cabeça, colocando-a no tatame. Ah, o que é que tem? Até parece que isso conta como um beijo, mesmo sendo indireto.
Subitamente, a cena dele bebendo água ainda pouco me veio e fiquei mais vermelha. Cobri o rosto com as mãos. Pare com isso, Karin!
A porta se abriu e dei um pulinho de susto retirando as mãos. Toushirou não reparou, ocupado com minha mala pendurada num ombro e um futon com travesseiro debaixo do outro braço.
— Parece bem melhor.
Pisquei impressionada, assistindo ele jogar o futon no tatame ao lado desse que eu estava. Que capacidade de observação, ele tinha um olho nas costas por acaso?
— Falei com o zelador quando peguei as chaves do ginásio sobre seu quarto. Vão resolver amanhã. Por hoje pode ficar aqui.
Esqueci do meu constrangimento bobo. Toushirou estava sendo bem legal comigo e me senti mal outra vez ao mentir pra ele. Parecia... injusto. Me estapeei mentalmente. Não era injusto. Ele apenas agia desse jeito por não saber quem eu sou. Com certeza mudaria de atitude se soubesse da verdade.
— Onde dormiu ontem?
Voltei a mim e o olhei em tempo de terminar de ajeitar o futon extra junto com o travesseiro. Suspirei tremula, baixando o olhar ao fitar chateada o quadro tático no futon. Tinha me esquecido dele.
— Acha que tive como? Passei a noite em claro.
— Por isso chegou atrasada hoje...
Assenti quieta. Girei no futon curiosa sobre algo. Já estava bem mais calma.
— Toushirou, de quem é... O que tá fazendo?!
De olhos arregalados, ofegava vendo o cidadão terminar de tirar a camisa suada. Toushirou apenas devolvia com ar neutro. Como se fosse normal pra ele ficar nu na frente das pessoas.
— O que foi?
— P..por que tá tirando a roupa?
Balbuciei hiperventilando. Não conseguia desgrudar os olhos do seu torso, o abdômen... Caramba, ele era mais atlético do que imaginei! Estava mais nervosa do que qualquer outra coisa e ao focar meus olhos no seu rosto Toushirou percebeu. O imbecil se segurava para não sorrir.
— Aqui é o meu quarto.
Ofeguei surpresa.
— Eu...
— Não tem mais quartos vagos. As garotas da torcida não aceitaram dividir com você quando chegamos, não foi?
Abri e fechei a boca. Ele tem razão. Constrangida, virei o rosto enquanto ele pegava uma muda de roupa na própria mala e a toalha.
— Vou tomar um banho. Fica à vontade.
Não consegui revidar com ele seminu e fiquei quieta quando saiu outra vez. Dei uma olhada envolta e soltei o ar devagar. Tudo bem, não é nada demais. Seríamos como... colegas de quarto por uma noite. Resolvi deixar a vergonha de lado e levantei indo até minha mala. Guardei o quadro tático em cima da mesa de madeira rente a parede e procurei minha bolsinha com os remédios junto do meu pijama. Uma camiseta e short. Peguei um conjunto de lingerie também, pensando seriamente se usaria sutiã.
Ah, que frescura minha. Até parece que Toushirou ia reparar nos meus seios. Com a toalha, roupas e minha nécessaire, saí do quarto indo tomar um banho também. Usei o do andar das garotas e demorei um pouco secando meu cabelo. Aproveitei que esqueceram um secador na bancada e ajeitei as mechas. Faria isso no quarto, mas não queria atrapalhar mais o Toushirou. Depois que terminei, tomei meu remédio ali mesmo. Não queria me arriscar encontrar com alguma menina no corredor. Ao voltar pro quarto, Toushirou ainda não havia voltado.
Não dei importância pra isso e guardei minhas coisas. Os óculos guardei no estojo e coloquei pertinho do futon extra que Toushirou trouxe junto com meu celular. Pegando um lençol, deitei me cobrindo e me ajeitei confortável fechando os olhos. Mal fiz isso e a porta se abriu outra vez. Fingi que dormia, covarde que fui e ouvi atenta toda a movimentação pelo quarto. Quando um clique suave soou, o quarto ficou escuro e prendi o folego quando Toushirou se deitou futon ao meu lado. Um cheiro nítido e masculino chegou suave até mim e fiquei vermelha. Meu coração batia tão forte agora.
Isso é tão injusto. Sentir o cheiro do cara que você gosta, acabado de sair do banho era tão injusto. Devia ser punição por mentir descaradamente pra ele. Logo Toushirou se ajeitou no futon e sua respiração gradativamente ficou mais lenta e uniforme. É... um de nós dois vai demorar pra dormir.
KARIN POF
No dia seguinte
HITSUGAYA POV
— Toushirou, o que você tá fazendo?
Entreabri os olhos sonolento. Em pé diante de mim, uma garota com o uniforme de Educação Física me olhava curiosa. Reconheci os cabelos curtos negros e as feições dela.
— Como me achou?
Karin apenas me olhou apertando os lábios e fechou a porta dessa sala. Havia me deitado num banco, tirando um cochilo e como sempre, ela me ignorou ao se aproximar de mim.
— Sabe que não pode cabular o trabalho.
Com as mãos nos quadris me olhou com ar reprovado, típico dela.
— Não estão precisando necessariamente de mim.
Era verdade mesmo. Fazíamos parte do comitê esportivo e hoje em pelo sábado o grupo tirou o dia para os preparativos do festival. Alguém decidiu vender comida durante o evento e hoje estávamos fazendo as barracas e outras decorações pelo colégio.
Percebi que ela franzia as sobrancelhas, estranhando meu ar sonolento.
— Fala sério, o que você tem? Parece cansado.
— É o calor.
Fechei os olhos, pondo outra vez o braço sobre eles.
— Ahn?
— Está quente demais.
Karin riu e levantei o braço espiando. Ela era única desse colégio que ria de mim assim. Havia momentos que gostava, mas outros que me incomodava como agora.
— O que foi?
— Nada, às vezes você fala como se fosse um velho.
Fechei a cara.
— Yurusenee.
— Hai, exausto-kun.
Resolvi ignorar essa garota, meu sono parecia mais interessante. Achei que sairia logo, mas invés disso ela apenas se sentou no chão bem ao meu lado. Se encostando no banco, mechas de seu cabelo roçavam meu rosto e me senti um pouco estranho com isso.
— Karin.
— Hum?
Ela parecia mexer em alguma coisa. Espiei outra vez e vi que havia pegado uns retalhos de tecido dentro de uma caixa. Aqui era um deposito, havia um monte delas.
— O que está fazendo?
— Nada demais. Pode dormir sossegado. Eu te acordo se o sensei procurar a gente.
Quase ri e fechei os olhos, relaxando. Por ela estar assim tão perto, sentia um cheiro curioso. Era gostoso... Lembrava chocolate...
Gemi saindo um pouco do torpor. Um barulho, anasalado e ritmado, tinia já fazia um tempo. Me acordava mais e não queria isso. Fazia tempo que não lembrava mais desse dia. Desde a quarta série detesto festivais esportivos, me lembravam dela e acabei esquecendo momentos bons como esse. O barulho, de um despertador num celular pelo que entendi, me deixou mais acordado e suspirei frustrado.
Foi quando me dei conta. O cheiro de chocolate... Ainda sentia e também invés do futon eu tinha encontrado outra coisa. Sempre dormia esparramado, me mexo muito durante o sono e estava abraçado em alguém. Esse calor e a respiração lenta só podia ser isso. Entreabri os olhos, encarando longas mechas negras.
Realmente era uma garota. Eu devia ter esquecido de trancar a porta. Sempre acontecia algo do tipo nas viagens de orientação e de treino durante o ginasial. Achei que tinha acabado quando entrei para o colegial. Quem será ela? Usava um shampoo curioso. Sem perceber afundei o rosto outra vez nos cabelos dela, fechando os olhos. Era bem gostoso mesmo... Lembrava vagamente do sonho, sobre o que era mesmo?
— Hã? Mas o que é isso?
A voz me despertou de vez e junto, veio as lembranças de ontem a noite. Droga. Rolei rápido pro outro lado, voltando para meu futon antes que Kurosaki acordasse direito. Juro que suei frio. Kurosaki era cruel em suas vinganças. Se me flagrasse naquele estado com ela, mesmo explicando podia me incluir na próxima encrenca que aprontar. Kiba me disse ontem quando fomos espiar Kyounan, nosso próximo adversário na temporada de jogos, que ela convenceu Zaraki aplicar um treino absurdo. O sujeito me parabenizou pela minha sorte. Os outros jogadores estavam em apuros.
Me sentando no futon, a assistir fazer o mesmo pondo os óculos e pegando o celular. Desligando o alarme, entendi. O despertador vinha dele, no entanto, a garota arfou de olhos arregalados.
— Que merda!
— O que foi?
Só nesse instante que me notou. A surpresa foi notável no rubor que coloriu seu rosto, mas logo ela ignorou. Se levantou afobada, correndo direto até a mala.
— Estamos atrasados! Já são oito da manhã.
O que? Peguei seu celular que havia jogado no futon e arfei como ela. Essa não... Corri até a minha mala também, apanhando só o necessário. Kurosaki atrás de mim fez a mesma coisa e nós arrumamos em tempo recorde, dado esse atrasado enorme. Quando ficamos prontos, deixamos o quarto bagunçado mesmo e corremos até as escadas, depois pelo prédio da pousada até atravessar a passarela. Fiquei impressionado que ela conseguisse me acompanhar mesmo com sua tendinite. Esse esforço para ela era um exagero. Mas Zaraki era um sadista espartano.
Assim que chegamos ao campo de treino, Zaraki nos notou de imediato junto com Kiba. O ultimo levantou as sobrancelhas surpreso e não entendi até ver o resto dos jogadores pararem os treinos avançados olhando para cá. Não... Eles olhavam para nós. Antes que Kurosaki e eu chegássemos perto dos bancos de reservas, Zaraki nos abordou espumando de raiva. Me preparei mentalmente para os gritos.
— Bonito... O casal resolveu aparecer no treino hoje?
Ao meu lado Kurosaki ofegou ofendida. Apenas fiquei quieto.
— Não é nada disso!
— Sei... Não me interessa se namorarem até tarde da noite, desde que.... CHEGUEM NO HORÁRIO!!!
O berro quase me deixou surdo. Os demais jogadores chegaram mais perto e irritado percebi umas garotas da torcida se aproximando. Que droga.
— Quem é o senhor pra dizer alguma coisa?
A olhei espantado. Kurosaki respirava fundo encarando penetrantemente Zaraki. Observei o treinador, ele estreitava os olhos arfando.
— Repita isso, nanica.
Ela nem se intimidou com o tom gélido do treinador.
— Desde que chegamos o senhor tem usado a sauna todas as noites e não sozinho.
Silencio sepulcral. Eu não acredito que ela disse isso. Todos sabiam, mas era proibido comentar. Zaraki piorava de humor quando envolviam sua namorada. Ainda entalado de raiva, ele continuou quieto ouvindo Kurosaki falar.
— Mesmo que nós dois tenhamos chegado atrasado não é motivo pro senhor nos expor ao ridículo. Por isso...
— Por isso, digo eu, garota atrevida.
Não gostei do seu tom. Ela rápido se calou, mas já era tarde demais. O estrago já teve efeito.
— Treinador, o senhor...
— Não se meta, Hitsugaya. Vá colocar as chuteiras e o equipamento.
Avancei um passo.
— Mas senhor...
— Eu disse: Vá colocar as chuteiras e o equipamento.
Me encarando pela primeira vez, vi um ar assassino nublando seus olhos. Engoli o orgulho, respirando fundo de desgosto. Ele percebeu que eu só não discutia mais por causa da hierarquia. Não disse nada, passei por ele trombando com seu braço e isso o espantou um pouco, pois recuou um passo. Respirei fundo, procurando me acalmar. Isso não é bom, já fazia um bom tempo que estive perto de perder a cabeça.
Fiz o que disse, me aquecendo em seguida enquanto olhava de viés para os dois. Kurosaki se entalava, pálida de indignação ao que seja o que Zaraki falava para ela. Percebi que como eu, ela não aturava a tirania desse sujeito. A diferença que eu cedia e me controlava mais. Depois de uns minutos, ela saiu do campo rígida de raiva. Ouvi passos chegando perto de mim e sem surpresa, Kiba me estendeu o colete vermelho de 10.
— Caramba, vocês dois tem coragem.
— Como assim?
Peguei o colete vestindo e ele quase riu do meu tom indiferente.
— Enfrentar Zaraki Kenpachi sem medo das consequências. Fiquei surpreso que ele não tenha te expulsado do time quando fez aquilo.
Por aquilo entendi a trombada proposital que dei nele. Apenas ajeitei as caneleiras.
— Kenpachi me conhece.
— Como? Não entendi. Tá falando sobre o futebol?
Me endireitei suspirando.
— Sobre isso e outras coisas.
Entrei correndo no campo até o treino de espaço reduzido no extremo direito. Continuaríamos de onde parou. Quando cheguei, até fizeram piadinhas que apenas ignorei. Esse time precisava de mais sintonia entre os passes. Hoje os faria aprender direito.
Nosso próximo adversário tinha ofensiva tanto forte como na defesa.
HITSUGAYA POF
KARIN POV
Eu realmente me superei em irritar Zaraki. Eu e minha língua comprida. Por que simplesmente não fiquei lá? Engolindo sapo que nem o Toushirou e continuar minha vida normalmente? Mas não... Tinha que insinuar as sacanagens que Unohana-sensei e o técnico demônio faziam toda noite. Agora eu me encontrava aqui, limpando todos... digo, todos os equipamentos que NINGUÉM usa há séculos do deposito abandonado.
“- Dê uma faxina naquele deposito e só volte quando acabar. Está me entendendo, nanica? Só volte quando deixar tudo limpo. Eu vou verificar depois de curtir a sala de sauna com um certo alguém.”
Que ódio.
Por que esse homem não me expulsa logo do clube?
Ah... Era em consideração ao meu irmão e também, por que sabe que sem mim estaria perdido sem uma gerente. Nenhuma aguentou tanto tempo como eu, mês que vem vai fazer quatro meses. Recorde.
Suspirando coloquei a ultima bola de futebol no cesto e me endireitei enxugando o suor na testa. Com um lenço na cabeça e outro cobrindo o nariz, verifiquei em volta sentindo todos meus músculos doerem. Eu deixei tudo arejado, brilhando e agora um cheiro de desinfetante refrescava o ambiente. Pela janelinha já era noite.
Aposto que ele vai querer que dê conta do relatório. Pegarei emprestado com Kiba, ele era um cara legal. Tonta de cansaço puxei o lenço do rosto para o queixo, apanhando o balde. Estava quase saindo do deposito quando uma sombra cortou meu caminho. Soltei um grito, largando o balde e a garota também gritou. Pondo a mão no peito, ela suspirou fundo e reconheci. Hinamori.
— Qual é o seu problema, esquisita?
Me recuperei do susto apanhando o balde.
— Eu que diga, o que você quer?
Não foi por súbito interesse em equipamentos esportivos que ela veio pra cá. Assumindo uma postura dominante, ela me encarou séria e involuntariamente senti um arrepio. Boa coisa ela não queria.
— Qual seu interesse no Toushirou-kun?
Levantei a sobrancelha. Ela tinha mesmo me perguntado isso?
— Que eu saiba nenhum. Por que?
Cruzei os braços a olhando desdenhosa. Essa garota estreitou os olhos incomodada e sorri por dentro.
— Fique longe dele, ou serei bem pior do que o clube de futebol.
Quase ri.
— Eu não tenho medo de você, Hinamori.
— Pois devia. Sei que esconde um segredo e quando eu descobrir, pode ter certeza que me aproveitarei dele.
Engoli em seco, sem desfazer a postura e ela deixou apenas uma olhada de aviso indo embora.
Essa garota é perigosa. Muito perigosa. Sacudi a cabeça deixando o calafrio em segundo plano ao sair daqui e fechar esse depósito. Fui até a dispensa e guardei tudo entregando as chaves. Depois pensei em tomar um banho relaxante nas termas, mas com esse cansaço é capaz de cair minha pressão. Ficaria para outro dia. Quando entrei no prédio da pousada, fui até o hall e o atendente me pediu mil e um perdões pelo incidente com meu quarto. Ele jurou que cuidou da limpeza desinfetando tudo, mas se eu quiser trocar de quarto era só avisar. Ele conversaria com as meninas. Recusei na hora.
Depois daquele aviso de Hinamori tenho que ficar mais alerta. Ele então sugeriu o quarto da enfermeira da escola e sorrindo aceitei. Unohana-sensei ficou preocupada comigo e disse que seríamos boas colegas de quarto. Seu namorado com certeza entenderia. E vi com prazer na hora do jantar a cara que Zaraki fez quando ela deu a noticia. Mas minha surpresa foi a atitude que tomou quando soube a causa da minha mudança de quarto.
Os garotos se ferraram de vez. Tudo o que ouvi foi “... até vomitarem”. O treino de amanhã promete. A Parte 2 da minha vingança seria concluída. Depois do jantar todo mundo resolveu dar um tempo na piscina do segundo ginásio. Claro que ninguém entrou depois de comer. Uma hora se passou e assisti com certa inveja todos se divertindo. Uma competição de briga de galo acontecia nesse instante e me percebi sorrir ao ver Hinamori cair de cara na água quando Miyura a derrubou.
Rikuo e a garota comemoraram empolgados. Estava tão distraída que nem notei sentarem ao meu lado no banco. Espiei e quase tive um infarto ao ver Toushirou todo molhado de calção de banho. Meu rosto ficou tão quente e rezei internamente para ele ignorar.
— Por que não entra também?
Ri nervosa e constrangida. Estava com meu moletom e um maiô por baixo. Apenas para me “enturmar”.
— Bem que eu queria, mas não dá.
Espiei desejosa o pessoal mais uma vez. Sem querer soltei um suspiro resignado.
— Não parece que o motivo sejam eles.
— Não é mesmo.
Curvei os lábios triste. Assistindo o pessoal se divertir, apoiei o cotovelo na perna, descansando o queixo na palma.
— Você sabe do meu... problema.
— Isso não te impede de nadar, Kurosaki. Desde que seja moderado...
— Eu não posso Toushirou.
O olhei de canto e vi sua confusão. Demorou um tempinho até ele entender.
— Ah...
— Pois é. Eu não sei nadar.
Suspirando vi uma expressão em seu rosto que balançou meu coração. Era terna, sem pena alguma do meu problema.
— Quem sabe da próxima vez.
Sorrindo para mim, lembrei daquele dia que deu esse mesmo sorriso há cinco anos naquele terraço. Quase contei sobre mim, mas segurei a língua. Em troca, sorri com ele voltando meus olhos para o pessoal brincando na piscina.
— É, quem sabe.
Na volta dessa semana de treino vou conversar com meu fisioterapeuta. Perderia o medo de nadar.
KARIN POF
Perto dos dois, uma pessoa se afastava sorrindo secretamente por dentro. Eles não notaram quando havia saído da piscina. Não pôde ouvir a conversa toda, mas escutou um trunfo e tanto.
Quer dizer que a esquisita não sabe nadar?
Interessante.
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