Segunda Chance
18 Infortúnio
Sabem sobre aqueles momentos? Onde se sente separado de tudo o que existe ao redor, apenas restando você e esse espaço precioso; guardado igual à uma paisagem de um globo de neve? Era assim que eu me sentia com Toushirou desde que ele me abraçou. Existe o aqui e o agora , e existe tudo o que resta lá fora.
- Tão teimosa...
Ainda podia escutar o eco desse sussurro dentro da minha mente. Aqui dentro desse depósito, o silêncio pairava suspenso e cheio de expectativa. Toushirou esperava bem paciente minha resposta, mas nem sei o que dizer. Como conseguir expressar sentimentos reprimidos agora que não há mais motivo?
Racionalmente entendi tudo. O que aconteceu cinco anos atrás, minhas impressões erradas e presumidas sobre ele assim que começamos a estudar aqui. Agora era bem claro para mim, no entanto, passei a pior fase da minha vida magoada e ferida por sua causa. Foi infundado, eu sei, mas precisava digerir tudo com mais calma.
Não conseguia pensar direito com ele assim quieto. Me abraçando desse jeito carinhoso e tão íntimo, minha mente virava uma nuvem de algodão. O calor do seu corpo, seu fôlego soprando morno em minha orelha.... Tudo isso dissolvia aquela vontade de resistir e ele percebeu. Assim que parei de tremer um pouco, seu rosto se moveu roçando a bochecha até apoia-la na minha têmpora.
Engoli em seco.
-T..Toushirou.
— Hum?
Droga, ele não facilitava. Pra quê resmungar desse jeito grave me arrepiando com o som? Num suspiro trêmulo tentei criar coragem.
— Eu...
- Caramba! Por que me pediram isso?!
Pestanejamos de susto, nos separando rápido e duas coisas aconteceram nesse momento: Toushirou xingando baixinho, recuando um pouco para longe de mim e eu me apoiando nas prateleiras da estante, com os joelhos fracos. Segundos depois, alguém entrou trazendo mais alguns dos equipamentos de treino e respirei afobada.
Meu coração só faltava sair pela boca!
Olhei ansiosa a pessoa encontrando Keita resmungando mal-humorado, nos seus braços escadas de corda enroladas com uns minis cones. Ele colocou tudo de qualquer jeito num cesto de plástico, levando o troço até a estante de ferro e finalmente me notou.
— Ah! Ei, Kurosa...
Ele se calou de repente. Keita visivelmente estremeceu num calafrio estranho e olhou sobre o ombro, desconfiado. Quando viu a razão, num instante ficou pálido e espiei curiosa também.
Toushirou estava parado perto de um dos cestos de metal, com o semblante fechado e sombrio, encarando sério o coitado. Ah, droga... Ele deve ter achado que fosse Kiba ou outra pessoa. Seus olhos lançavam intenções nada boas para o colega de time e entendi completamente o calafrio que Keita sentiu. Engoli em seco, observando os dois enquanto Keita ficou quieto e parado, alternando o olhar inseguro entre mim e nosso capitão ao tentar entender exatamente a situação aqui.
— ... O que vocês estavam fazendo?
Ele tinha que perguntar?! Eu queria que a terra me engolisse! Rápido, me abaixei pegando o cronômetro que caiu do chão enrolando meus dedos trêmulos na cordinha pra disfarçar o nervosismo.
— O mesmo que você, guardando o equipamento.
— Ah...
Toushirou então se aproximou um passo, com o ar suspeitosamente calmo.
— Por que não vai pegar o resto?
— Eu?
O coitado piscou confuso, e se aproximando mais um pouco, Toushirou ficou perto de mim.
— Sim, você.
Keita ficou sem reação por um momento. Também pudera, o tom que nosso capitão usou praticamente o expulsava daqui, deixando um ar super desconfortável nesse depósito. Rápido, ele se recuperou.
— ....Ok – seu olhar se voltou para mim — Falando nisso Kurosaki, o técnico mandou que fosse falar com Kiba-san.
— Ele tá me procurando?
Franzi a testa confusa e anuindo, Keita confirmou.
— Acho que é sobre as eliminatórias.
Pude sentir o olhar de Toushirou queimando em minhas costas e estremeci nervosa. Desviei os olhos, ainda que não o estivesse observando, em puro nervosismo. Droga... Para de me olhar assim, não tenho culpa se o técnico demônio me chamou!
— Tá bom, já vou indo.
Não esperei Keita me questionar ou Toushirou me interromper, saí daqui às pressas com o rosto e as orelhas queimando, tremendo de tanto vergonha. Deus, que Keita fique quieto, que ele fique quieto! Não sou tão lerda para esperar que nem percebeu algo. E também, a frustração do Toushirou foi inegável... Se foi por sermos interrompidos ou porque não fiquei... Parecia que ia fazer picadinho do coitado Keita ali mesmo.
Parando de correr, respirei fundo pondo a mão no peito. Meu coração tamborilava forte. Mais recomposta me encaminhei quieta até as arquibancadas. O cooler com a água e as outras coisas estavam lá e foi de longe que acabei avistando o técnico Kenpachi conversando com Kiba. A emoção pelo meu momento com o Toushirou evaporou.
Lembrei do que meu irmão disse quando me buscou dias atrás e estreitei o olhar chateada com Kiba. Quando esse cara apareceu todo entusiasmado para a vaga de assistente minha desconfiança entrou em alerta. Já o conhecia, vi várias vezes junto de Ichi-nii, mas conforme as semanas passavam e assistia seu empenho no trabalho que fazia pelo clube eu relaxei.
Que engano...
De punho cerrados e a boca apertada para não xinga-lo logo fui me aproximando até chegar perto dele. Zaraki havia ido até alguns dos rapazes, bem sobre o desempenho de treino e Kiba percebeu minha presença. Se voltou para mim com um sorriso no rosto, estranhando minha postura tensa. O encarava irritada sem disfarçar deixando-o desconfiado.
— O que aconteceu, Karin-chan? Parece nervosa...
— Você acha?
Não pude deixar de ser irônica. Ele congelou por um segundo, voltando a sorrir descontraído.
— Vai... Não seja assim, contra pro irmãozão aqui qual é o problema.
— Eu não sei, vai contar pro meu irmão?
Sua postura relaxada travou, levando uns segundos pra interpretar minha expressão, e como viu que eu não toleraria suas piadas parou de fingir. Kiba suspirou colocando a prancheta debaixo do braço, afundando uma mão no bolso da calça. Essa atitude calma dele ao me fitar com a maior paciência do mundo, só me indignou ainda mais e estremeci nervosa.
— Olhe Karin-chan...
— Não me chame assim. Você... O que tinha em fofocar pro meu irmão?
Estava a ponto de gritar e ele apenas manteve esse ar paciente, que raiva!
— Não culpe o Ichigo. Ele não me pediu nada.
— Ah, não? Você é um cúmplice dele como todos os outros, admite!
Quase apontei o dedo na sua cara, mas me segurei. Todos os amigos de Ichi-nii, aqueles que conviveram perto da minha família sabiam da minha condição e alguns me tratavam como se fosse de vidro. Isso me irritava e sufocava... Ignorando o quanto eu estava estressada, Kiba apenas me encarou sóbrio se aproximando um passo. Apenas estreitei o olhar.
— Vai me dizer que guardaria tudo o que aconteceu no acampamento, calada e quieta como se fosse nada demais?
Mas o quê?! Seu olhar sério me intimidou e fiquei sem palavras. Ok, e daí que eu queria manter segredo? Ele sabe muito bem como Ichi-nii é e mesmo assim contou. Fitei injuriada e quieta seu rosto analítico, que óbvio, sequer se importou.
— Seu irmão merecia saber.
Suspirei contrariada. Eu tinha que manter a calma ou perderia no argumento aqui.
— Eu não sou uma boneca de porcelana, Kiba.
— Mas é uma garota. — ele estalou a língua aborrecido – Você não é invulnerável, Karin-chan. Por mais que saiba se virar sozinha, é muito difícil. Aqueles moleques passaram dos limites. Eu te vejo como minha irmãzinha, o que tem demais avisar seu irmão?
Outra vez suspirei fundo, fechando os olhos por um momento. Kiba não quis ser machista, isso eu percebi, e na verdade ele estava bem preocupado comigo lidando com um time nada legal. Eu não sou um anjo, mas também os garotos eram uns babacas.
— Ok... Mas tinha que dizer tudo? Ele agora criou um ódio pelo Toushirou e nem sei o porquê. O que raios você disse pra ele?
Seu semblante triste mudou para divertido.
— Ah... Então essa é a questão.
— É sério, não tem graça alguma.
Ele apenas soltou uma risadinha da minha preocupação.
— Relaxa, só disse que o Hitsugaya ficou do seu lado quando mais precisava. Qual é a mentira nisso? Ele não vai ameaça-lo de chegar perto de você ou coisa assim.
Argh...
Ele notou minha expressão esgotada e se espantou. De olhos arregalados, cochichou surpreso.
— Espera aí, é sério? Quando ele fez isso?
— Ontem mesmo. Achei que iria socá-lo na cara e a gente não tava fazendo nada demais.
Cobri os olhos com uma mão relembrando da cena no restaurante. Me assustou pra caramba e havia me esquecido disso por um momento. Num suspiro abaixei a palma, pensando distante nessa reviravolta. Meu irmão não suporta o cara de quem eu gosto e pelo visto, tem um espião no clube escolar que frequento.
Isso era karma? Ou só um infortúnio por eu querer uma vida normal?
Ninguém merece tanto escrutínio.
Esgotada, relanciei os olhos para o gramado, assistindo o resto dos meninos saírem do campo quando ao longe vi Toushirou. Ele já havia terminado de guardar o equipamento com alguns dos garotos e estava indo embora. Quando atravessou o portão, seu olhar se dirigiu para cá, focado em mim e tão intenso que engoli em seco. Com as bochechas quentes e toda tímida, sequer tive coragem de lhe enviar um sorriso. Não ia parecer fofo e logo ele desviou o olhar, saindo daqui me deixando insegura.
Será que ele percebeu que eu não ia fugir dessa vez? Eu queria ficar, mas o Keita apareceu e então...
Um assobio impressionado cortou esse devaneio e bem à minha direita, encarei de soslaio o responsável. Kiba mirava para o portão cheio de surpresa.
— Caramba... Ele deixa bem claro, não é? O que vocês estavam fazendo mesmo no depósito, Kurosaki-chan?
Como se fosse possível fiquei mais afogueada. Seus olhos abaixaram para mim, presunçosos e risonhos ao verem minha reação e entendi. Gaguejei incrédula para ele.
— F-f-foi você que mandou o Keita pra lá.
Seus lábios curvaram maliciosos.
— Nada mais normal que os novatos ajudem na limpeza do campo de treino. Por que? Atrapalhou alguma coisa?
Me entalei mais mortificada, mas que cara de pau! Seu rosto ficou bem convencido, entretanto me fitava sério me transmitindo uma mensagem. Ele estava de olho em Toushirou, como um cão de guarda! Kiba realmente vai levar a sério ser como um irmão para mim aqui, dentro do clube? Não pode ser.
— Aqui.
Ele me ofereceu uma coisa e peguei por reflexo meio desnorteada. Olhei para o objeto e era um caderno. Enquanto isso, Kiba pegou sua mochila de trabalho no degrau da arquibancada.
— Fiz o relatório dos times que vamos enfrentar nas eliminatórias. Entregue para o treinador Kenpachi depois.
Assisti ele caminhando pelo gramado até a saída, envergonhada, nervosa e toda vermelha. Me agachando, enterrei o rosto quente na capa do caderno gritando internamente.
Que merda...
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Durante as aulas, fiquei relembrando o que houve no depósito. Tantas e tantas vezes, desejando um desfecho diferente que até os professores me chamaram a atenção. Hikari me lançava olhares conhecedores e apenas devolvi sem graça. No horário do almoço, ela mais uma vez foi ver seu namorado, grudento Kai, e recebi uma mensagem sua.
Comendo um pãozinho de carne à vapor e bebendo uma latinha de suco, abri sua mensagem. Me surpreendi um pouco com o tamanho.
“Desculpa, Karin. Kai me levou para um encontro ontem à noite e acabei me esquecendo. Foi mal... Enfim, o que queria te dizer era: você sabia que seu capitão do clube de futebol tinha namorada? É uma garota famosa por sair com atletas... e bem ciumenta.”
No final havia vários emojis risonhos e maliciosos. Franzi a testa com isso.
“Eu já sabia disso, ele mesmo me contou”.
Só não disse sobre a parte “ciumenta”.
Ops. Será que foi informação demais? Segundos depois, Hikari continuou.
“Imaginei. Mesmo assim, não tem mal em te avisar. Ela é do tipo que arma cenas diferente da Hinamori que é discreta em seus ataques, então fica esperta quando uma maluca aparecer.”
Mais carinhas risonhas. Impressão ou parecia que Hikari queria ver o circo pegar fogo? Isso era bem diferente dela.
“O que realmente quer me contar?”
Os pontinhos de reticências demoraram um pouquinho até ela me responder.
“Hitsugaya terminou com a namorada semanas antes da sua viagem de treino de clube e naquela festa, soube que ele chamava muito uma garota quando dormiu com a Hinamori (vc sabe disso, né?) Fiquei me perguntando... Existem duas Karin?”
Arregalei os olhos quase me engasgando com o suco.
“Muita coincidência, amiga”
Dessa vez, corações explodindo e memes com expressões maliciosas completavam. Mais uma vez meu rosto ardeu em brasa. Ah... Devia ter esperado. Não eram novidades que ela ia me dizer, mas sim me arrancar uma.
“Vou te contar tudo.”
“Promete?”
Quase revirei os olhos, mas confirmei. Depois disso, Hikari não me mandou mais nada.
Suspirei cansada, mas também com um coração leve. Acho que desde que Toushirou e eu esclarecemos um pouco o passado, principalmente durante o jantar de ontem me sentia mais calma, bem menos assustada com tudo. Hoje de manhã ele deu o primeiro passo, eu senti isso. Meus pensamentos ainda estavam bagunçados, mas... nós dois juntos daquela maneira...
— Não foi ruim.
Umas garotas me olharam estranhando quando murmurei com um ar envergonhado. Disfarcei um pouco pigarreando e pegando o caderno que Kiba meu deu mais cedo, comecei a estudar um pouco.
KARIN POF
HITSUGAYA POV
- Ei, o que acha que aconteceu?
- Eu sei lá... Desde cedo ele está assim. Deve ter sido o clube, vai perguntar.
- Pergunta você. Nunca vi o Hitsugaya com uma cara dessas...
Eu consigo ouvir vocês.
Num suspiro, continuei ignorando o burburinho da minha turma e voltei o olhar para a janela sentindo um cansaço mental. Meu lugar era o último da fileira e durante o intervalo não quis sair. Hoje cedo foi uma chance única. Por que sinto que toda vez em que estamos perto cometo um erro ou algo aparece e estraga tudo?
Meu temperamento estava por um fio. Ela não iria fugir, não de novo e Karin estava tão mais acostumada comigo. Keita percebeu tarde demais a situação e mandei que ficasse quieto, não precisávamos de atenção. O assustei ainda mais do que antes, não queria fazer isso, mas foda-se. Quando terei uma oportunidade dessas se estudamos em turmas diferentes?!
As provas logo irão começar e com os treinos diários do clube não havia tempo para quase nada.
Droga...
Sequer tenho o contato dela.
Quando cheguei ontem em casa, tentei ligar para saber como estava e me deparei com esse fato. Poderia ter pego no grupo do clube, mas havia saído dele nas férias e também nem me interessei antes. Isso foi muita burrice.
Respirei fundo, procurando me acalmar.
Depois de ontem, sinto que estamos mais perto. Bem mais próximos do que antes. Se pude perceber um pouco, Karin se sente insegura; eu realmente não entendo o porquê. Ela é forte, inteligente e tão linda... Debaixo de toda aquela atitude arisca, havia uma garota fofa de verdade. Tudo bem que apenas eu percebo agora, já que não consigo ficar um instante sem pensar nela.
Se quisesse, Karin seria bem atraente, mas se esconde por detrás de uma "armadura" de cautela e aspereza. Por que será? Isso não era normal. Espere, acho que ela disse algo assim antes. Precisei só de um momento para lembrar.
“Não é nada de especial. Apenas quero um cara que me inspire confiança”
É mesmo, estávamos conversando sobre atração e o assunto acabou se voltando para isso. Relembrar disso azedou ainda mais meu humor, principalmente por seu olhar triste e a voz chateada... magoada por causa do antigo dono daquele moletom. Essa roupa era tão onipresente, que quando Karin não a usava a imagem já estava impressa na mente e retinas.
Por que razão ela continua usando essa coisa? E quem diabos é esse cara?
- Ei, parece que piorou.
- Sério, o que aconteceu com ele?!
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No treino à tarde, o treinador Kenpachi e Kiba tiraram um tempo para todos termos um momento de briefing sobre as eliminatórias. A ideia partiu de Kiba, ele havia feito uma pesquisa sobre nossos adversários da prefeitura e pediu que assistíssemos alguns vídeos que trouxe.
A sala de audiovisuais ficou quieta enquanto analisávamos cada jogada. Estreitei o olhar concentrado na linha de ataque de Kyoman, o primeiro time. Três atacantes com mais um escondido no meio de campo. Esperto... Mirei para Kurosaki sentada perto da porta. Ela escrevia furiosa num caderno, mordiscando de vez em quando o bocal da caneta. Quase ri, voltando os olhos para a parede onde o projetor reproduzia os jogos.
Era uma das coisas que mais gostava nela agora. Essa esperteza em análise. Ficamos uma hora nisso e depois começamos a discutir sobre. Os veteranos, incluindo Azumi-senpai e Haibara falaram muito sobre a defesa e me surpreendi um pouco que Rikuo também explanou. Dei minha opinião sobre os jogadores centrais que encontrei e o Treinador Kenpachi sorriu malicioso.
— Exatamente. Como nós, alguns dos nossos adversários estão escondendo suas cartas na manga. Kiba aqui precisou viajar para gravar esses amistosos secretos. Graças à isso, temos vantagem.
Verdade...
Afinal, ninguém ainda sabe da nova estrutura tática do nosso time.
Quando fomos para o campo principal praticar alguns novos esquemas e simulações de jogadas com os novos jogadores, tentei me aproximar um pouco de Karin, entretanto... Fui impedido. Kiba apareceu na minha frente conversando aleatório sobre qualquer coisa. Quase dei a volta por ele, mas sua mão agarrou meu ombro me parando.
— Calma aí, Romeu. Ela não vai sumir.
Que? O encarei de lado encontrando um sorriso falso numa expressão amistosa.
— Que tal esperar aqui um pouco?
Estreitei o olhar sacudindo o ombro onde agarrou. Kiba afastou um passo levantando as mãos num gesto que nem de longe me acalmava. Ao longe ouvi a voz de Karin se afastando e vi ela saindo daqui. Voltei a encará-lo realmente de mau humor. Isso foi descaradamente de propósito e lembrei sobre o que o irmão de Karin disse ontem, quando a foi buscar no restaurante.
Uma clareza me tomou e Kiba percebeu. Ele foi se afastando indo até o abrigo.
Era só o que me faltava.
HITSUGAYA POF
Dias depois
KARIN POV
A equipe finalmente estava entrando em sincronia.
Depois dos primeiros dias – desastrosos na minha opinião –, quando Azumi-senpai e Kimura ingressaram no time titular, parecia que Toushirou e Digio entraram num acordo. Em campo durante a ofensiva, se Digio via uma brecha na pequena área avançava, Toushirou passava a bola e logo o idiota marcava um gol. Ou se Toushirou via que a retranca estava forte demais enganava a defesa driblando, passando a bola pros outros meias ou ele mesmo avançava atraindo atenção para si quando na verdade, Digio estava bem na cara do gol recebendo um cruzamento e marcando.
Eles finalmente estavam agindo como uma dupla. Detesto admitir, mas Digio e Toushirou são nossos craques. Afinal de contas, os dois tem uma alta contagem de gols. Dois artilheiros e uma defesa se consolidando. Se a gente não passar das eliminatórias da prefeitura eu ia enlouquecer.
Entretanto, tinha um evento chegando e esse sim me deixava mais estressada. O festival esportivo. Dias atrás estava ansiosa por ele, mas agora que tudo foi revelado de um jeito bem inesperado esse dia para mim não é nada divertido. Hoje o professor nomeou os dois representantes da turma para o comitê e foram nosso presidente de classe masculino junto com a vice. Sayuri Nakamura.
Ela parece uma boneca. Pele clara e bochechas rosadas, cabelos claros e ondulados até a cintura. Sayuri tinha um rosto que ficava adorável quando sorria ou até se zangava. Dificilmente alguém da nossa turma não gostava dela, entretanto, apesar de sociável era um tanto seletiva com seus amigos.
No início do ano letivo ela bem que tentou ser minha amiga, mas como fui bem chamativa e ganhei a fama de bruxa encrenqueira pelo colégio, Sayuri se afastou ligeiro. Digamos que é bem cordial e simpática comigo, no entanto, mantinha uma distância “saudável”. Como uma boa garota, sabe? Hikari não gostava dela por algum motivo e nem sequer perguntei. Deve ser por causa de Kai.
Kai, o namorado grudento de Hikari, que ficou amuado quando ela foi resolver um problema de família e passou uma boa hora reclamando comigo. Hoje era um dos nossos dias de folga do clube e tive que escutá-lo. Iria conversar com Arisawa-sensei sobre uns alunos com risco de reprovar nos exames e ele me viu. Verdade seja, me dissociei da sua voz e só soltava monossílabas pra mostrar que ouvia. Ele havia cismado que Hikari queria um tempo longe dele (se bem que não duvido).
Estava comprando um refrigerante na máquina de vendas perto do pátio quando alguém chegou por trás de mim. Levei um susto, não ouvi os passos e me deparei com uma garota loira da minha altura. Com penteado de rabo de cavalo, uma calça e blusa branca com uma outra preta de compressão debaixo percebi que fazia do clube de softball. Ela apenas escolheu uma coca-cola depois de pagar e me olhou meio interessada e risonha.
— Você... é a Kurosaki, não é?
— Sim.
— Sou Hiyori, do 2º ano 3.
Me ofereceu a mão e apertei por reflexo. Notei que tinha uns calos nos dedos, me fazendo supor sua posição. Uma arremessadora? Que legal.
— Queria mesmo falar com você, tem um tempo?
Pestanejei de susto. Como assim? A olhei esperando ser uma piada, mas ela apenas me fitou esperando. Bem, porque não?
— Claro, senpai.
Ela sorriu de canto por isso e me empertiguei mais. Caminhando até a passarela que ligava os dois prédios de aula, Hiyori-senpai me guiou até se encostar numa coluna. Dei uma olhadinha mais atenta nela, tentando lembrar de onde a conhecia.
— O que sabe sobre o Toushirou?
O que? Na lata? A encarei espantada e vendo, essa loira caiu na risada.
— A sua cara... Caramba, não precisa ficar tão na defensiva Kurosaki. Eu não vou te atacar.
Seu olhar foi sincero e forte me surpreendendo. Dando mais um gole da latinha, Hiyori-senpai sorriu maliciosa para mim.
— Sou a irmã-postiça daquele cara, então relaxa. Vocês eram amigos, não é? E aí? Reataram a amizade? Contaram tudo sobre o tempo separados? Ou ele ainda continua todo misterioso sobre isso?
Eram tantas perguntas que minha cabeça ficou girando. Gesticulei agitava e confusa.
— Espere, espere um pouco senpai.
— Só Hiyori.
— Então Hiyori, o que quer dizer?
Ela expirou forte revirando os olhos ao jogar a cabeça para trás. Não entendi nada.
— Fala sério, ele realmente não contou. Que cabeça dura.
Como assim...?
— Você sabe sobre a gente?
Ela me olhou de soslaio séria e engoli em seco. Eu estava uma pilha de nervos, afinal ela foi direta até demais me abordando assim.
— Já disse. Sou irmã dele, como não saberia?
De repente, ela se inclinou sussurrando toda conspiratória.
— Não tá curiosa? Sobre o que aconteceu quando você sumiu.
Me senti subitamente mal ao ouvi-la falar assim e observei melhor seu rosto. A expressão maliciosa e os olhos brincalhões apenas aumentaram esse mal-estar e de repente não quis saber.
— Não, obrigada. Vou esperar que ele diga.
Hiyori-senpai apenas se endireitou murmurando sob a latinha de refrigerante.
— Que interessante. Cada vez gosto mais de você, sabia?
Franzi as sobrancelhas confusa e um pouco irritada. Acho que o Toushirou sofre um bocado com uma irmã dessas. Quase rindo, ela encarou menos divertida.
— Vou ser sincera com você, Kurosaki. Meu irmão não é uma pessoa muito fácil de lidar. Ele não é o mesmo de cinco anos atrás, isso te garanto, mas... Eu posso te ajudar.
Com quê? Pisquei aturdida com isso.
— Aonde quer chegar com isso, senpai?
Ela apenas estreitou os olhos com o “senpai” e engoli em seco.
— Acha sinceramente que Hinamori, as fanáticas pelo seu clube e outras pessoas ficariam quietas quando souberem do interesse do Toushirou por você?
Sua sinceridade cada vez mais me assusta. Ela não ignorava nada. Subitamente, vários cenários clichês apareceram na minha mente e gemi frustrada. Ela quase riu disso e segurei o gênio.
— Relaxa, não é pra tanto. Já te dei uma mão, lembra?
A encarei confusa e Hiyori-senpai apenas levantou a sobrancelha. Levei uns segundos para entender até me lembrar. Arregalei os olhos.
— Foi você.
Ela que espalhou sobre Hinamori e Toushirou terem transado um dia antes do acampamento de treino. Estremeci nervosa e ao ver Hiyori-senpai riu com vontade.
— Puxa vida, vocês são mesmo iguaizinhos. Deve me agradecer por isso, bruxinha. Se dependesse de Hinamori, apenas parte da verdade teria se espalhado e ele seria pressionado a ficar com ela por todos da escola. Aquela garota sabe usar a opinião pública ao seu favor.
Que grande ajuda... Duvido que ela tenha feito isso com boas intenções.
— Senpai, eu não acho que ele cederia à esse tipo de coisa.
— Eu também não. Mas não foi nada legal ela fazer isso e sinceramente, não suporto essa garota. Hinamori só vê meu irmão como um troféu.
Seu olhar foi aguçado e nesse instante criei um pouco de respeito por ela.
— Enfim, já tá minha hora. Gostei do papo, Kurosaki. Vamos trocar contatos.
Era mesmo uma volta de 0 a 180 com essa garota. Quando percebi já tínhamos trocado ID no Line e ela se despediu voltando para seu treino. Acenando para mim, Hiyori-senpai saiu andando atravessando o pátio bem despreocupada.
— Que furacão...
— Kurosaki, Kurosaki!!!!
Me virei com o chamado e encontrei a vice-presidente correndo até mim. Assim que me alcançou respirou fundo e sem segurar o sorriso enorme estampado no rosto.
— Você não vai acreditar. Adivinha quem tá no nosso time pro dia do Festival Esportivo?
Quase ri dessa empolgação. Somos um colégio com bastante alunos então em eventos assim, claro que mais de uma turma se juntava para formar equipes.
— Quem?
— O 2º ano da turma 5, junto como 3º ano 2. Ai, meu Deus! Eu vou ver de pertinho Digio-senpai o tempo todo.
... Quê?
— Claro. Você convive muito com ele por causa do clube, mas a gente apenas tinha que torcer para vê-lo nos corredores. Você tem que me ajudar pra sair com ele, Kurosaki. Por favor...
Sayuri me implorava com seus olhos castanhos brilhantes ignorando meu total horror com essa ideia. Um dia inteiro... E as preparações para os jogos perto desse cara?
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