Segunda Chance
19 Convite
KARIN POV
O festival esportivo no segundo semestre era um evento escolar tradicional, que ocorre geralmente no início de outubro ou no final do mês de setembro. Ele durava um dia inteiro, cheio de eventos e brincadeiras como forma de interagir os alunos de diferentes turmas. Antes do acidente eu amava esse evento, sempre participava e às vezes, até me oferecia para ser a representante da turma no comitê esportivo.
Entretanto, assistindo a própria representante da minha turma, tão entusiasmada pelos motivos errados para esse evento, uma sensação forte de mal-estar e dor de cabeça me tomava. Tentei com todas as forças controlar minhas expressões e esbocei um sorriso sem graça, mas amigável para ela. Meu olho quase tremia de nervosismo.
— Sayuri, veja bem, tem certeza que quer isso?
— Como assim? É claro que quero. Digio-senpai é um sonho.
Deus! Quase me estapeei na testa exasperada. Essa garota perdeu a cabeça? De seus olhos quase saltavam estrelas de tanta emoção por esse idiota estar no mesmo grupo que nossa turma. Eu tinha que avisá-la do perigo.
— Mas e as histórias sobre ele e as garotas? Nunca vi o Digio-senpai com alguém por tanto tempo.
Acorde, Sayuri. Eu te imploro. Esse cara é um lixo tóxico. O pior dos piores e não vale sua atenção, quanto mais seu interesse romântico. No entanto, essa garota me ignorou.
— Eu não ligo pra isso. Além do mais, talvez ele ainda não encontrou a pessoa certa.
Sua expressão suavizando sonhadora me irritou tanto, que senti ganas de agarrá-la pelos ombros e sacudi-la. Que encanto delirante esse cara jogava por aí para garotas como ela se iludirem? Por mais que não goste muito de Sayuri, ela só vai se magoar se conseguir sair com Digio. Ele é muito bonito, um atleta e pelo visto muito bom de “namoro”, mas tudo se resume à algo casual.
Sayuri merece um namorado, não um conquistador egoísta como Digio.
— Enfim, Kurosaki, a gente se vê amanhã. Ainda tenho que conversar com Ken sobre a faixa de torcida.
Desnorteada, a assisti acenando para mim, enquanto se afastou nesse corredor me deixando exasperada com uma batia enxaqueca.
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Depois que conversei com Arizawa-sensei sobre os calouros que provavelmente precisariam de aulas extras, fui para casa. Yuzu estava ajudando nosso pai na clínica e como minha mãe se trancou no escritório, ocupada com um novo projeto do trabalho – era uma excelente designer de interiores -, percebi que teria por algumas horas a casa só para mim.
Isso era bom, porque precisava pensar no motivo da minha enxaqueca. Depois de um banho e um lanche caprichado, tirei a mesinha de centro na sala e espalhei meu tapete de yoga. Desde a viagem negligenciei meus exercícios de fisioterapia. De calça elástica e blusa folgada com sutiã esportivo, me alonguei primeiro e fui praticando as poses uma a uma; treinando minha respiração e espero que a paz também.
Havia terminado uma sessão quando ouvi a porta abrindo e entreabri o olho, encontrando meu irmão. Fechei voltando a me concentrar ouvindo seus passos se aproximando.
— O que está fazendo?
Não era óbvio? Quase retruquei.
— Não fale comigo. Estou tentando me acalmar aqui.
— Uau, pelo visto é sério.
Franzi os lábios um pouco. Droga... Estava quase conseguindo, mas voltei a lembrar da expressão sonhadora e cheia de expectativa de Sayuri. O escutei se movimentando pela sala e percebi claramente ele mexer na geladeira. Nossa casa tinha uma cozinha americana então pude ouvi-lo. Suspirei derrotada e abri os olhos.
Observei meu irmão pegar alguns ingredientes na geladeira e colocá-los no balcão, já assumindo a tarefa de preparar o jantar. Ele havia até arregaçado as mangas e lavava as mãos na pia. Mordi o lábio... Por que me preocupo tanto se a vice-presidente irá se machucar com o Digio? Fora a pressão que pôs em mim sobre juntá-los – o que não quero -, realmente não quero vê-la se enganar por aquele idiota?
Lembrei de todas suas vítimas desde que entrei no clube de futebol e suspirei. Sim, não quero.
— Qual é o problema?
Levantei o olhar, encontrando Ichi-nii me fitar esperando, já cortando os legumes. O que vai me custar? Até agora não consegui pensar em nada para convencê-la em desistir. E meu irmão sabe das coisas, afinal. Me levantei do chão, enrolando meu tapete de yoga e me acomodei no sofá, sentando diante dele.
— O que faria para convencer alguém que está cometendo um grande erro? Do tipo previsível à quilômetros que é uma estupidez?
— Depende do que se trata.
Me remexi no sofá.
— Ela quer uma chance com um mulherengo jogador, bem conhecido por casos casuais.
— Hum...
Franzi o cenho com o modo desconfiado que me observou e arfei ofendida entendendo.
— Não sou eu.
— E quem seria?
Sua sobrancelha se ergueu nada impressionada enquanto separava os legumes fatiados para filetar a carne depois. Ele estava fazendo um sukiyaki? Me voltei para a conversa.
— Uma conhecida, colega de classe.
— Entendo.
Revirei os olhos, por isso não gostava de pedir conselhos para certas pessoas. Eu sei que soa como se fosse uma desculpa, mas estou verdadeiramente preocupada com Sayuri. Ela é legal, meio metida, mas legal.
— E então?
Quase quiquei no estofado do sofá em nervosismo. Suspirando, Ichi-nii abriu a geladeira mais uma vez, procurando algo. Ao encontrar se virou para mim.
— Se é só uma conhecida melhor não se envolver.
O que?
— Mas...
— Ela não vai te ouvir se está tão determinada. – seu olhar endureceu sério — Deixei-a.
Se virando para o balcão de mármore, meu irmão continuou com o preparo do jantar enquanto fiquei boquiaberta por sua frieza. Quase insisti no assunto, mas ele apenas me olhou de soslaio e suspirei chateada.
— Valeu por nada.
Me levantei do sofá, apanhando o tapete e me dirigi para as escadas. Foi mesmo inútil ter perguntado.
— Karin.
Girei no lugar quando me chamou e Ichi-nii me olhava sério. Ele percebeu minha preocupação agora pelo visto e suspirou.
— Às vezes, nem sempre é bom se envolver demais. Pense nisso.
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Pense nisso... Pense nisso... Fiquei fazendo exatamente o que disse até desperdiçar uma boa noite de sono. Quase acordei atrasada e fui para o colégio de péssimo humor. Esse era o único conselho que podia me dar? Ichi-nii ou era muito obtuso ou simplesmente indiferente à essas questões.
Hoje também era folga dos treinos dos clubes e se aproveitando disso, o comitê esportivo pediu permissão para usar os espaços da escola e treinar. Zaraki não gostou nada, ele queria uma reunião final por causa do jogo amanhã, mas eram ordens da diretoria. Fazer o quê.
Sayuri e Ken como representantes organizaram quem participaria de qual atividade. Algumas brincadeiras foram deixadas de fora porque, como eles disseram e eu cito, “não somos mais crianças”. Então a batalha de cavalaria, uma das brincadeiras que eu mais gostava não teria. Que chato, eu queria ser o general e era muito boa nisso. Enfim... Sobraram mesmo os esportes e as corridas de 200m e de casal. Havia também de revezamento, mas esse com certeza não é possível pra mim. Droga... Um desconforto me tomava por dentro.
Não posso correr e praticar um esporte de alto desempenho estava fora de cogitação. Vi as opções no quadro e me ofereci de imediato para o voleibol. Ninguém questionou e pude respirar aliviada. Modéstia à parte, eu era boa jogando, mas apenas como a líbero. Uma posição que não pode saltar e nesse jogo não preciso correr. Hikari foi elegida a participar da corrida de casal e vôlei também. Ela piscou para mim e apenas sorri com ela.
Depois disso, fomos trocar de uniforme para de Educação Física. Assim que mudei de roupa, olhei meu cabelo e suspirei. Soltei dos elásticos e pegando uma escova de cabelo e óleo capilar fui até a bancada. Estava cheio já que as garotas queriam se arrumar. Apliquei um pouco do óleo nas mãos e espalhei pelas mechas. Quando hidratei bem penteei os cabelos num rabo de cavalo até prender num coque. Deixei bem firme com apenas umas mechas escapando. Eu não quero passar vergonha com o cabelo atrapalhando, afinal chegavam até minha cintura.
Hikari já me esperava e eu iria com ela quando Sayuri me pegou. Ela enroscou o braço no meu, sorrindo amistosa não me deixando recusar. Caminhamos com as garotas até nos juntarmos às outras turmas. Sayuri só faltou hiperventilar de tanta emoção ao ver a turma do babaca do Digio aguardando no ginásio de basquete. Lembrei do conselho do meu irmão. Será que era o certo? Foi então que esse cara se virou para nós, junto com seus amigos e ao me ver seu sorriso abriu satisfeito.
Me causou um arrepio na espinha e decidi fazer um esforço, quem sabe tenho sorte? Foi decidido que os veteranos praticariam primeiro basquete e depois seríamos nós. Logo o primeiro jogo foi entre o time do terceiro ano contra o segundo. O pessoal encheu o mezanino e nas linhas laterais, algumas garotas corajosas torciam aos gritos. Sayuri me arrastou, atraindo o olhar de Hikari para nós e fiz sinal que lhe explicaria depois.
Nos primeiros tempos da partida, o ritmo frenético e selvagem me fazia saltar do lugar a cada enterrada na cesta adversária. Nada contra, mas uma bola de basquete pesa pra caramba e então imagine levar um golpe desses?
Deixaria marcas, no mínimo.
Ao meu lado, Sayuri gritava e torcia com os olhos tão brilhantes seguindo cada movimento do Digio. No meio do segundo tempo, esse cara ganhou na disputa de rebote na cesta adversária e correu driblando vários jogadores até marcar. A garota ao meu lado suspirou profundamente e tão cheia de admiração que me sentia alheia.
— Como é que alguém pode ser tão agressivo e tão charmoso ao mesmo tempo?
— É uma forma de arte.
Bem duvidosa, diga-se de passagem. Sayuri me olhou questionando pelo meu deboche e desconversei.
— Quer dizer, uau... Impressionante.
Seu rosto franziu por segundos chateado, mas disfarçou sorrindo amigável.
— Você também acha?
— Claro.
Estava cada vez mais difícil disfarçar meu desgosto por esse cara. Como se eu fosse me atrair por ele depois de infernizar minha vida no clube de futebol. Ficamos assistindo quietas a partida, quando Sayuri me chamou.
— Kurosaki.
— Hum?
Ah, o time do terceiro ano quase marcou uma cesta de três pontos.
— Na verdade, você é afim do Digio-senpai, não é?
— Que? Por que acha isso?
Meu pescoço quase quebrou com a rapidez que virei o rosto para ela. Sayuri me lançava um falso olhar calmo por cima de toda sua tensão.
— Bem, até agora você não fez questão de nos aproximarmos dele e cada vez que falo sobre o senpai, você faz uma cara de desdém. Eu consigo perceber.
Fiquei boquiaberta com esse comentário sem cabimento. Esses olhos castanhos me acusavam tanto, como se a tivesse traído. Fala sério. Desviei o olhar, de repente, fatigada.
— Quer saber? Esquece.
De onde essa garota tira essas asneiras? Meu irmão tinha razão, era impossível explicar seu erro em se animar por aquele babaca do Digio com essa cegueira cor-de-rosa.
— Estou falando sério, Kurosaki.
Argh...
— É mesmo? Então me escute à sério também.
Me virei para ela, cansada dessas alfinetadas inseguras e encarei penetrantemente seus olhos hesitantes e medrosos.
— Digio Vega apenas sai com as garotas sem compromisso e aquelas que acham que podem “domá-lo” caem na própria armadilha. Não seja uma dessas.
Dei meia volta saindo dali antes que dissesse algo pior. Se Sayuri queria se iludir, que seja. Segui direto ao bebedouro para encher minha garrafa, não sei por quanto tempo o pessoal vai querer treinar, e os veteranos estavam usando primeiro a ginásio. Rápido, peguei minha caixinha de remédios – era bem mais discreta do que uma cartela inteira –, e tirei dela o analgésico e o anti-inflamatório.
Estava os engolindo quando senti uma espécie de aura agourenta atrás mim. Rápido, girei para trás levantando e mirando o punho bem alto. Ele se chocou com uma palma, desviando o golpe e o riso nervoso me alertou quem era. Engoli o gemido aborrecido.
— Caramba, bruxinha. Pra quê a violência?
Ergui o olhar encontrando Digio sorrindo malicioso. O uniforme de Educação Física favorecia seu físico atlético, claro, mas eu só fitava sua expressão fria e calculista. Me endireitei recuando um passo percebendo alguns olhares sobre nós.
— Meu irmão me ensinou a dar o primeiro golpe, perguntar depois. Vai me culpar?
Levantei a sobrancelha desafiando numa expressão apática e vi aquele músculo saltar da sua bochecha. Ah... ele ficou com raiva pelo meu desrespeito diante de tantos alunos. Bem, dane-se. Digio não merecia mesmo. Parecia, no entanto, que ele tinha se controlado porque se aproximou um passo e ignorando meus olhos ariscos, sua mão se ergueu indo até minha cabeça.
Não acreditei quando pegou uma mecha solta do meu cabelo, deslizando entre seus dedos.
— Gostei do que fez no cabelo. Penteado novo?
Dei um tapa forte na mão dele, irritada, e nada impressionada com o flerte barato. Digio quase riu abaixando a mão e apenas o fitei sóbria. Canalha filho da mãe... O que diabos Sayuri vê nele?
— Aquela sua amiguinha não para de olhar pra cá. Quem é ela?
Me empertiguei alerta e o encarei cautelosa. Então era por isso que veio atrás de mim, lhe dei as costas voltando a encher minha garrafa.
— Não te interessa. Ela é demais para você.
— O que é isso que sinto aí? Ciúmes, bruxinha?
Bufei exasperada. Típico.
— Até parece. Ainda não perdi toda minha sanidade.
— Quer dizer então que se ficasse louca...
Gemi frustrada e me voltei para ele assim que terminei de encher minha garrafa.
— Fala sério, cara. Foi uma piada. Não, espere. – parei um segundo para fechá-la e minha voz soou sem emoção — Seu ego é grande demais para entender que uma garota não te deseja.
Digio quase riu debochado e nada impressionado com minha atitude.
— Sabe, no começo achei que você gostasse de jogar duro, mas não passa de uma pirralha marrenta.
O ignorei bebendo na minha garrafa sussurrando sob o gargalo.
— E eu achei que à essa altura já teria notado, babaca.
Escutei um leve grunhido e espiei de soslaio. Digio deve ter me escutado, pois estreitou os olhos; a farsa de amabilidade com charme se apagando ligeiro por eu tê-lo chamado de babaca. Esperei ele dizer alguma coisa, afinal seus olhos estavam repletos de desprezo e dando um passo, ele se inclinou levemente na minha orelha ao passar por mim.
— Diz para sua amiguinha me mandar um “oi”. O nome dela é Sayuri Nakamura, certo?
Confusa, o olhei quando se afastou, mas Digio continuou andando até a entrada do ginásio esportivo, se juntando aos seus colegas que ainda esperavam o intervalo da partida. Minutos depois, ouvi distante um grito excitado e olhei na direção encontrando Sayuri quase dando pulinhos animada com suas amigas. Em suas mãos encarava o celular e percebi.
Encarei Digio e ele guardava o próprio celular no bolso frontal da calça esportiva, conversando na roda de seus amigos. Uma apreensão tomou conta de mim quando ele desviou o olhar para a esquerda, na direção de Sayuri e vi ela retribuir doce e corada.
Oh, não. Ele deve ter encontrado o perfil dela em alguma rede social.
KARIN POF
No dia seguinte
HITSUGAYA POV
Hoje era o primeiro jogo das eliminatórias.
Estávamos na sala do clube, arrumando os últimos preparativos para a partida. Havia uma energia nervosa pairando no ar e as conversas eram mínimas. Fomos dispensados das aulas à tarde e durante esse meio tempo não havia visto Karin até o momento. Ela devia estar ocupada arrumando suprimentos médicos ou conversando com Arisawa-sensei. Não parece, mas um gerente de clube esportivo era bem ocupado, ela fazia o dobro do trabalho que lhe cabia.
A porta se abriu de repente e bloqueando a passagem estava Zaraki. Seus olhos tinha bolsas escuras indicando que havia virado a noite.
— Estão prontos, moleques? O ônibus parte em quinze minutos, não demorem.
Um gemido coletivo ecoou e logo pegamos nossas coisas. Com o agasalho cinza metálico do clube e as mochilas de treino, todos nós vestíamos a camisa negra do uniforme. A caminhada até o estacionamento atraiu atenção dos grupos de alunos animados junto com a equipe de torcida. Fingi que não vi Hinamori sorrir para nós, principalmente ao incitar a torcida gritar de entusiasmo. Apenas continuei calado avistando o ônibus prateado.
Ao lado dele vi o treinador Kenpachi e Arizawa-sensei conversando e em outra parte Kiba ajudando Karin. Reparei que ela movia as mãos inquieta, bem nervosa, e aproveitando quando ela entrou primeiro no ônibus a segui. Ela estava perto dos últimos lugares, contando e murmurando ansiosa cada suprimento médico que havia organizado.
Cheguei perto dela.
— Ei, o que foi?
Olhando sobre o ombro, ela me reconheceu e sorriu numa falsa animação voltando a arrumar a caixa médica já organizada.
— Ah, Toushirou. Não é nada, só queria ter certeza se temos tudo disponível. Os organizadores podem oferecer os recursos médicos, mas quero estar preparada mesmo assim, então...
— Calma.
A segurei pelo cotovelo, virando-a para mim. Sua boca se abriu para protestar, mas quando olhou finalmente para meu rosto, Karin desistiu. Engolindo em seco, respirou fundo rígida e aproveitei para analisá-la melhor. Droga... Ela estava mais pálida que o normal e tensa demais. Hoje não usava aquele moletom, apenas o uniforme escolar e isso devia afetá-la. Nos últimos dias, havia notado com certo incômodo que essa roupa a acalmava.
— Qual o problema?
— Nada, só que é uma partida oficial e ainda muito importante.
— É por causa do novo esquema?
Karin assentiu quieta. Quanto pressão ela deve estar se colocando? Fiz um carinho leve, deslizando os dedos até seu pulso. Quando pressionei o polegar na parte interna percebi acelerado, mas não do meu toque. Era sobre o jogo de hoje. Comecei massagear devagar e suave.
— Vai dar certo, do mesmo jeito que aconteceu nos jogos-treinos. Não me escolheu como o novo meia-armador?
Quase ri quase seus olhos aumentaram surpresos por trás das lentes dos óculos. Senti seu pulso desacelerando um pouco e tive uma ideia.
— Ah, vocês estão aqui.
Pestanejei de susto e soltei a mão dela girando no lugar. Kiba veio se aproximando, carregando sua mochila de treino com um sorriso gigante empolgação. Apenas me estressou.
— Com licença, Hitsugaya.
Com toda a falta de noção, ele simplesmente se enfiou entre mim e Karin, lhe entregando sua mochila.
— Segure isso para mim, Kurosaki-chan.
Num segundo, ela se acomodou sem querer na poltrona do corredor e ele no lugar ao lado da janela. Mal tive tempo de dizer coisa alguma. Karin o encarou indignada enquanto esse sujeito fingia um comportamento alheio e suspirei quieto. Seria perda de tempo discutir com esse cara. Mais do pessoal do time foi entrando no ônibus nesses instantes e percebi a deixa. Kiba tem um senso de timer incrível.
Antes que me afastasse coloquei discretamente um fone de ouvido sem fio na mão dela. Karin viu o que eu havia lhe dado para me olhar confusa. Curvando os lábios me virei colocando o outro fone na orelha, sabia que ela logo entenderia. Me sentei numa poltrona um pouco distante, logo abrindo o aplicativo de música e selecionei uma playlist de treino.
O ônibus manobrava para sair do colégio quando coloquei para tocar. Escutei um engasgo surpreso e depois um risinho. Abafei o meu próprio com o punho, era uma lista cheia de rock de vários tipos com hip hop misturado. A batida e melodia me concentrava e relaxava quando estava treinando, não combinava nada comigo com minha aparência “fria” que todos achavam. Virei o rosto ligeiramente para trás, curioso. Afinal, Karin estava bem nervosa por hoje.
Ela e Kiba estavam há dois lugares do meu na fileira oposta e pude ver claramente. De pernas cruzadas, Karin balançava delicadamente a cabeça murmurando a letra, seus lábios se movendo sem som enquanto sacudia um tênis no ritmo da música que eu também escutava. Ela lia agora em seu caderno de anotações, sem aquele nervosismo e quase desviei o olhar quando notei seus quadris balançando de leve. A visão disso me surpreendeu e agradou muito.
Interessante.
Só para testar mudei de música e ela franziu levemente a testa para dar de ombros e se mexeu também acompanhando o ritmo. Muito interessante mesmo, quem diria que a gente combinava assim. Fiquei assistindo Karin “dançar” quieta na poltrona do ônibus praticamente hipnotizado. Ela quase me flagrou algumas vezes e fingi que estava mexendo no celular. Não queria que ela parasse e senti um prazer secreto por ninguém ter notado até o momento – exceto Kiba -, e principalmente por ser minha causa.
— Agora escutem, moleques.
Pestanejei e rápido pausei a música. Todos nós olhamos para o treinador Kenpachi em pé no meio do corredor, próximo ao motorista. Ele conseguia manter o equilíbrio apenas ficando parado.
— Nosso adversário é um dos favoritos para o Campeonato de Inverno. Bem, hoje não é dia de sorte dele. É o nosso!
Muitos sorriram entusiasmados por isso.
— Hoje, todos vão sair daquele estádio lembrando quem nós somos. Não interessa se nos subestimam, há apenas uma vaga para o Campeonato Nacional, e é nossa!
Todos gritaram entusiasmados e quase ri. Foi um forte discurso motivacional e Zaraki não estava exagerando ao se gabar disso. Nesses dias com todos os amistosos que fizemos o resultado era promissor. Foi uma semana infernal que valeu a pena. O técnico explanou sobre mais estratégias, quem seria o responsável à executá-la e sorri por dentro, empolgado pela primeira vez em tanto tempo.
Olhei para trás e nesse instante, Karin desviou o olhar do nosso treinador para mim. A confiança refletida neles me aqueceu de tal maneira que ela não precisava dizer nada. Seu rosto corou suavemente e logo desviamos os olhares, agora todos do time estavam atentos. Eu não me importava, mas não havia problema. Era apenas uma questão de tempo e voltei a tocar a música enquanto nos aproximarmos do nosso destino. Quando entramos no estacionamento do local partida, o estádio parecia que lotaria devida a quantidade de pessoas e estudantes que circulavam. Apenas mostrava o quanto Kyoman era famoso. Agora é a era da verdade. Antes de sairmos do ônibus, Zaraki encarou com altivez todos nós sem esquecer ninguém.
— Lembrem-se bem do que eu acabei de dizer.
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Horas depois
Vencemos a partida, como imaginei.
Chegando em casa com o corpo pesado e cansado pensei sobre hoje.
Como eu esperava dominamos desde o início o ritmo do jogo, afinal ninguém esperava a mudança tática no meio da partida e no segundo tempo, uma chuva atrapalhou bastante. De todos os dias, por que tinha que acontecer? Não foi torrencial, mas aquele chuvisco constante encharcando o gramado me estressou bem mais do que as atitudes egoístas do Digio. Aquele cara fazia de vez em quando jogadas que mais pareciam performances, a sorte que davam resultado.
A razão?
Haviam várias equipes de TV gravando a partida para as notícias de esportes.
Quase perdemos várias oportunidades de marcar, em jogos assim não havia prorrogação. Zaraki ter gritado com ele no vestiário depois do fim do jogo foi um alívio, porque caso o contrário eu teria feito algo. Digio se aproveitava de cada estratégia em favor de estrelismo. Por mim não havia problemas desde que ganhássemos.
Dolorido, segui direto às escadas, precisava de um banho e avistei Hiyori vindo da cozinha. Seu time já estava classificado para o torneio, então hoje foi um dia de folga para ela.
— Ei, como foi o jogo?
— Normal.
Tanto meu tom de voz como comportamento soaram satisfeitos, embora exaustos. Ela fez um som de escárnio por isso.
— Com certeza, o que quer pro jantar?
Parei por um momento, a fitando do alto nos degraus.
— Qualquer coisa está bom, vou subir.
Hiyori só resmungou e se voltou para cozinha. Ela não é uma má cozinheira, mas acho que iria pedir a comida. Dei uma olhada em volta, percebendo a ausência de mais alguém. Suspirando, terminei de subir os degraus indo até o meu quarto. Pelo visto, Hikaru estava de plantão mais uma vez. O homem possui uma clínica respeitável e ainda recusou o cargo de diretor do hospital geral. Ele disse uma vez que prefere clinicar do que burocracia e papelada.
Isso, às vezes, o mantém ocupado ao ponto de raramente o vermos.
Não era anormal. Hiyori e eu já estamos acostumados e cuidamos de tudo muito bem.
Assim que entrei no quarto, coloquei minhas coisas em cima da cadeira e fui para o banho. Passei um tempo aproveitando a água morna cair no corpo e tive um momento para pensar. Com a determinação firme de Kiba, minhas chances de conversar direito com Karin esgotavam. As provas vão começar semana que vem e o festival esportivo em seguida. Era bem exaustivo e corrido. Desse jeito, nunca vou ter algo sério com ela. Haviam chances que surgem e outras que se criam. Se eu esperar demais posso perder.
Terminei o banho e depois de mudar para roupas mais casuais, resolvi tirar um cochilo. Vou dormir um pouco, depois eu desço. Desligar meu cérebro faria mais bem do que me remoer por mais uma vez ser impedido hoje de me aproximar de Karin. Kiba parecia mesmo um cão de guarda.
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Ser um membro de clube esportivos haviam exigências quanto à média nas disciplinas. Não era permitido ficar aquém, muito menos abaixo da nota mínima. Eram cobranças razoáveis já que passamos boa parte do tempo praticando o esporte. Hiyori me chamou para jantar assim que ficou pronto e desci para comer com ela.
Quando terminei, essa baixinha mandou que eu lavasse a louça enquanto descansava no sofá. Fiz sem cerimônia, afinal ela que cozinhou e da cozinha escutei os tinidos de notificações soando a cada poucos segundos. Quando terminei e peguei um pouco d’água na geladeira, o sinal de notificação soou mais uma vez e quase revirei os olhos. Ela devia estar flertando com alguém.
— Kurosaki é uma figura, que emoji é esse?
Enrijeci os ombros, surpreso, sua voz soando tão casual e lentamente girei no lugar fechando a geladeira ao olhar para a sala. Hiyori sorria mexendo no celular, alheia ao fato de que eu estava a encarando, atônito.
— O que disse?
— A Kurosaki é realmente engraçada. Insiste em me chamar de senpai e desrespeita totalmente o idiota do Digio. Foi tão hilário ontem quando...
— Como conseguiu?
— O que?
— O número dela, como conseguiu?
— Ué? Perguntando, de que outro jeito saberia? – então seu olhar apático se ergueu do aparelho direto para mim. — Por que?
Fiquei calado, sentindo o desconforto aumentar enquanto não tinha como responder. Apertei sem querer o copo cheio d’água que segurava e óbvio que Hiyori notou, me observando marota e acenando levemente o celular. Como se me provocasse.
— E então, maninho? Por que quer saber se tenho ou não o contato da sua garota fofa?
Que pirralha... Hiyori nunca perde a oportunidade de me atormentar. Ela com certeza tem algo em mente e resolvi não cair na sua armadilha fingindo um ar tranquilo. Do sofá, Hiyori me observava analisando e beberiquei o copo.
— Desde quando vocês se conhecem?
— Respondendo com outra pergunta, então realmente você não tem.
Quase me engasguei com o gole d’água escutando um risinho presunçoso. A encarei incomodado enquanto colocava o copo na pia, tentando segurar meu gênio. Se fosse em outro momento... Se voltando para mim, ela continuou debochada.
— Que decepção, viu? Achei que à essa altura já teria conseguido. Afinal de contas, vocês não se aproximaram no acampamento de treino? Ela deve ter um perfil no instagram no mínimo.
E acha que já não tentei? Não deve ser nada parecido com seu nome, caso o contrário já teria encontrado. Saí da cozinha indo direto para a sala e já estava perto do sofá enquanto um silêncio estranho pairava. Essa intrometida me encarava maliciosa enquanto eu devolvia aborrecido. Ela tinha o poder ali e sabia muito bem disso, que droga.
Ficamos nesse impasse por uns instantes até que desisti.
— Me passa o número dela.
— Por que deveria?
— Porque estou pedindo.
— Sabe, isso seria bem mal-educado.
Seus olhos claros estreitaram convencidos e estremeci incomodado. Sua mão acenou novamente o celular atraindo minha atenção e cogitei por uns segundos roubá-lo dela. Eu era rápido, mas Hiyori também.
— Nem pense nisso. Eu posso apagá-lo mais rápido do que imagina.
Mas o que?
Franzi a testa, desconfiado para sua expressão confiante e descartei segundos depois. De jeito nenhum faria isso, era um blefe. Ela não se deu ao trabalho de conseguir apenas para apagar. Hiyori percebeu meu ceticismo e com um sorriso zombeteiro ela virou o celular para mim, mostrando o Line com uma mensagem:
“Excluir contato: Sim ou Não?”
— Espere!
Quase peguei seu celular e ligeiro, ela o enfiou no decote da blusa entre seus seios. Recuei por reflexo com um arrepio de desgosto. Sua cara presunçosa ao ver isso me irritou ainda mais.
— Você é muito pirralha.
— Qual é? Não queria pegar?
— Não vou enfiar a mão na sua blusa.
— Que cavalheiro...
Ela chegou ao ponto de fazer beicinho e grunhi alto quando a frustração tomou conta de mim. Bagunçando os cabelos, a olhei sério encontrando um par de olhos claros iguais.
— O que você quer?
Se ajeitando no sofá, ela curvou os lábios atrevida e satisfeita. Hiyori era mesmo uma praga.
— Agora sim, estamos falando a mesma língua.
HITSUGAYA POF
KARIN POV
Quando cheguei em casa subi as escadas indo direto para meu quarto. Só tive presença de espírito para tirar a mochila, pondo-a no canto do colchão e me virei, deixando-me cair de costas. Soltei um suspiro tão profundo senti cada partícula de ar escapando dos meus pulmões. Mal fechei os olhos e escutei a Yuzu através da porta.
- Karin-chan. Vem jantar.
— Daqui a pouco.
Finalmente relaxei no colchão. Hoje foi simplesmente esgotante, o primeiro jogo das eliminatórias da prefeitura e eu estava uma pilha de nervos.
Em plena quarta-feira, as aulas do período vespertino foram liberadas para os alunos apoiarem os clubes esportivos. Não era apenas nosso clube de futebol. Os times de vôlei e basquete também participaram de suas próprias eliminatórias. Descobri recentemente que o softball feminino e o clube de rúgbi já estavam classificados. Sortudos. Poderiam aproveitar esse período para treinar e estudar para as provas.
Então, diante de um ônibus prateado, o time inicial, eu, o treinador Kenpachi e Arizawa-sensei nos aprontamos para a saída. Ao nosso redor grupos de alunos animados junto com a equipe de torcida também se organizavam no estacionamento. Ver Hinamori com suas amigas azedou meu humor. Essa garota... ela estava quieta demais e seu espião – vulgo Rikuo – pelo visto não trazia novas informações para ela.
A conversa com a irmã de criação do Toushirou me veio à mente e durante o caminho até o estádio lembrei realmente de quem ela é.
Sarugaki Hiyori, esse era seu nome.
Ela desde que pegou meu número, mandava mensagens aleatórias sobre qualquer coisa. Hoje ela comentou sobre como tratei o Digio ontem e adorou minha atitude. Pelo visto, ela não gosta dele. Lembrei que ainda não enviei uma resposta sobre como me senti sobre as ações desse cara e ligeiro peguei o celular. Mandei uma carinha de nojo com um soquinho e uma bomba acompanhando. Sendo quem é, ela vai entender.
Hiyori era uma veterana bem popular pela escola graças ao seu talento no esporte e pelas fofocas. Se alguém quiser ter certeza sobre alguma história ou boato famoso que circulava, bastava saber se a fonte era Hiyori. Sarugaki Hiyori não mentia ou exagerava nos contos. Ela dizia exatamente o que aconteceu e ainda por cima, as pessoas não duvidavam dela.
Por isso, o boato sobre a transa de Hinamori e Toushirou circulou daquela maneira e logo perdeu a força. Hinamori deve ter morrido de ódio por dentro ao ver seus objetivos frustrados. Graças a Deus, sua equipe não acompanhou o clube de futebol para a partida.
Se a gente venceu? Com certeza, mas foi fácil? Até que sim.
Durante esses dias, tivemos alguns jogos amistosos com outros colégios de cidades diferentes e foi bem difícil. Conciliar as aulas e o estudo para as provas iminentes além de arrumar tudo o que eu preciso para as partidas me esgotou. Eu quase parecia um zumbi de tão abatida e durante isso, não conseguia conversar com Toushirou.
Uma semana inteira e sequer tive uma oportunidade de ficar a sós com ele por mais de uns minutos. Hoje no ônibus me surpreendi quando me deu aquele fone e depois escutei seu gosto musical. Eram heavy metal, alternativo, nacional e Hip Hop de vários tipos. Kiba estranhou minha empolgação, mas ficou calado, o que achei bom. Graças à ele esses dias não ficamos sozinhos e até hoje no ônibus à caminho para a partida ele fez questão de sentar do meu lado e na volta fez a mesma coisa.
Só consegui devolver o fone de ouvido para o Toushirou depois que voltamos. Suspirei, me sentando na cama e peguei meu celular, abrindo a pasta de vídeos dedicada ao time. Achei o vídeo de hoje e me acomodei com um caderno e uma caneta a mão, já com meus próprios fones nas orelhas.
Mordi o bocal da caneta, chateada de repente. Não estou conseguindo me concentrar direito.
— O que está fazendo?
Levei um susto e me virei para fonte. Ichi-nii estava encostado no batente da porta, me olhando nada confuso. Nem percebi quando a abriu. Seu cabelo molhado e vestido numa camisa e calça de moletom ele estava pronto para dormir. Rápido, tirei os fones fechando o caderno.
— Nada importante, só uma análise sobre o jogo de hoje.
Ele apenas manteve o olhar apático.
— Deixe isso para o Kiba. Ele não ganha um salário?
— Sim, mas...
— Sem mas. Vai descansar um pouco, quase perdeu o jantar.
Dito isso, deu meia volta e foi embora fechando a porta. Curvei os lábios com sua atitude. Esse jeito meio sério e marrento não lembra nem um pouco o garoto fofo do passado. Não tenho lembranças sobre isso, apenas sei pelos vídeos caseiros e às vezes me perguntava em como meu irmão ficou assim. Talvez jogar futebol desde novo tenha alguma relação? Afinal, esse esporte é competitivo e mais clubes esportivos surgiam por aí.
Enfim, segui seu conselho e fui para o banho. A rotina de cuidados, jantar com todo mundo e ignorando as perguntas indiscretas do meu pai sobre garotos. Sério, aquele homem não tinha noção. Mamãe era um anjo por aturá-lo. Dona Masaki era uma mulher independente com um emprego próspero. Estar casada com meu pai era uma incógnita e ela devia mesmo amá-lo.
Os projetos de seu trabalho eram incríveis. Com horários flexíveis e tendo o luxo de escolher seus próprios clientes devido à grande procura, minha mãe dividia sem problemas as tarefas de casa com o trabalho. Todo mundo ajudava e às vezes contratamos um serviço especializado quando ela estava ocupada com um projeto.
Kurosaki Masaki dizia que, não queria deixar a família à margem do sucesso como também não desistir da sua profissão. Meu pai praticamente adorava o chão que mamãe pisava, chegando ao ponto de encomendar um pôster gigante em sua homenagem. Ela se envergonhou com isso? Incrivelmente não, chorou emocionada e depois meus pais saíram para um encontro romântico.
Nós, os filhos, foram que morreram de vergonha.
Haja amor conjugal.
Fui para o quarto, já sentindo um cansaço mental. As provas vão começar semana que vem, se não me dedicasse tiraria nota vermelha. Me jogando na cama abri meus livros e caderno de biologia. Mal passei das primeiras páginas e minha mente já embotava de tanta informação. Desisti por enquanto. Tirei os óculos, pondo-os sobre a mesinha e deitei abraçando o travesseiro.
Só meia-hora... Depois continuo.
Mal se passou dez minutos e meu celular vibrou ao lado do meu rosto. Observei chateada o display piscar várias vezes, devia ser Hikari. Tem dias que ela faz isso e atendi sem olhar direito.
— Alô?
- Oi Karin.
Hum? Franzi a testa confusa. A voz parecia diferente, rouca e masculina... Levei uns instantes para reconhecer e num segundo despertei, me sentando agitada na cama.
— T-toushirou! Como conseguiu meu número?
Engoli em seco, ajeitando afobada o cabelo. Havia prendido num coque desleixado com um prendedor e algumas mechas escapavam. Do outro lado da linha, sua voz soou misteriosa.
- Dei um jeito de descobrir.
— Hum...
Estreitei os olhos desconfiada para o vazio e Toushirou percebeu pelo meu tom. Ele soltou um suspiro meio sem jeito, mas divertido.
- Ok. Hiyori me passou, tive que suborná-la. Vocês se conheceram por esses dias, não foi?
— Foi.
- Espero que ela não tenha falado nada demais.
— Imagina. A gente só conversou um pouco.
Enrolei uma mecha no dedo, escondendo estrategicamente meu nervosismo. Sua “irmã” na verdade me abordou e disse várias coisas sobre você, mas é melhor deixar quieto. Sua voz soava tão perto, como se estivesse bem do meu lado que meu coração batia agitado. Droga, acho que até corei devido ao calor que estou sentindo.
- Entendi. Você estava estudando?
— Só dando um tempo. — Não vou dizer que quase adormeci – E você?
Me ajeitei na cama, pegando um travesseiro para abraça-lo.
- Também. Kurotsuchi-sensei passou uma apostila inteira para a prova.
— Isso é insano.
- Nem me fale. Ele não fez a mesma coisa com sua turma?
Parei um pouco para pensar, me sentindo aos poucos confusa.
— Talvez... Não sei. Droga, agora você me deixou preocupada.
Toushirou riu abafado.
- Posso te ajudar se quiser.
— S..sério?
- É claro. Sou muito bom em Química.
Meu coração falhou uma batida, voltando a pulsar com entusiasmo. Por que será que entendi outra coisa? Meu corpo se acalorou ainda mais. Toushirou estava flertando, não estava? Caramba, até minha boca ressecou. Levei o assunto para o jogo de hoje e perguntei sua opinião. Achei que ficaria frustrado, mas incrivelmente, ele encarou numa boa. Ouvi uns ruídos de fundo e pude quase visualizar ele sentado numa cadeira giratória, talvez aquelas de gamer e vestido numa roupa confortável, caseira.
Talvez fosse um moletom e regata? Ou então uma camiseta? Isso me lembrava da viagem de treino nas montanhas e sentei melhor no colchão, me recostando nas almofadas que havia. Sorri sossegada.
— Você percebe que é a primeira vez em dias que conseguimos conversar direito?
- Verdade. Nosso assistente técnico tem se empenhado bastante em nos manter ocupados.
Fechei os olhos de vergonha por um momento.
— Me desculpe por isso.
- Por que?
— Bem, ele é amigo do meu irmão e deve ser por causa dele que tá se comportando desse jeito.
- Não é sua culpa, Karin.
— Mesmo assim...
- Kiba deve achar que tem alguma responsabilidade já que escutou sobre mim por aí.
— Tá falando sobre o que me disse naquele dia?
Toushirou realmente mencionou que teve uns anos complicados.
- Sim.
— Por que não me conta? Não deve ser tão sério.
-... Talvez outra hora.
— Se você diz... Acho que Kiba apenas tá exagerando. Do jeito que ele se comporta é como se você tivesse sido um delinquente.
Ri da minha própria piada, mas Toushirou apenas resmungou incoerente. Um arrepio de espanto me percorreu.
— Espera, você foi?
- Claro que não.
Meu Deus, que susto!
— Por que ficou quieto? Achei por um segundo que tinha acertado.
Nesse momento, abriram a porta do quarto me espantando. Me sobressaltei da cama de tão entretida que estava na conversa.
— Karin-chan, mamãe perguntou se você quer algum lanche.
— Não precisa, tô sem fome.
Yuzu reparou que estava numa ligação e deu os ombros.
— Tá bom.
Assim que ela fechou a porta, voltei ao telefone.
— Oi.
- Sua irmã?
— Sim.
- Ela não estuda no nosso colégio, não é?
— Não. Yuzu quis ir para uma escola feminina.
- Ela parece ser bem mais legal que seu irmão.
Bufei divertida ao ouvir seu comentário.
— Qualquer um parece um anjo perto do Ichi-nii.
Essa atmosfera sutil criava uma curva de mistério em nossa volta, cheia de atração e intimidade. Como se preparasse um terreno para um laço mais profundo. Mesmo que apenas ouvisse sua voz à essa hora da noite, surgia uma proximidade mais potente do que aquela quando nós estávamos no acampamento nas montanhas. Não havia ninguém que pudesse nos interromper agora, nem o tempo era limitado. Agora, finalmente, a gente poderia falar sobre nós.
KARIN POF
HITSUGAYA POV
Ela ficou quieta por um longo tempo, mas não estava dormindo. Deduzi por sua respiração calma. Encarando meu caderno aberto e as formulas nas páginas, suspirei girando a caneta. Ela deve estar bem cansada por causa hoje.
— Vou deixar você descansar, Karin. A gente se vê...
- Espera!
— Sim.
Senti sua hesitação, como se preparasse e aguardei.
- Você tinha razão sobre aquela pergunta que me fez. Naquela época... eu... eu realmente gostava de você.
Quase deixei cair o telefone. Meu cérebro parecia ter travado por uns segundos, ecoando a palavra...
- Diz alguma coisa.
Voltei a mim, afobado.
— Desde quando?
- Eu não sei... Por que? Faz alguma diferença?
Não consegui evitar rir abafado com sua resposta evasiva. Eu devia ter esperado por isso, ela nunca admitiria. Inclinando cabeça para trás encarei o teto, a cadeira girando um pouco quando empurrei para longe da mesa.
— Talvez... Quem sabe aquela mentira que eu disse poderia ter virado verdade.
Seu silêncio atordoado soou como esperei. Quase pude visualizar em como ela reagiu em apenas como sua respiração vacilou.
- Pare de brincar.
— E se eu não estiver?
Novamente seu fôlego ecoou entrecortado e pude ouvir uns ruídos abafados, como arrastar e farfalhar. Ela devia estar deitada na cama, talvez segurando um travesseiro envergonhada? A vontade de mudar para uma chamada vídeo quase tomou conta de mim. Depois de uns segundos, sua voz soou no meu ouvido abafada e suave do outro da linha.
- Você teria me chamado pra sair?
O que...? Esqueci de respirar por um segundo e depois arfei sem segurar um riso surpreso. Então ela quer brincar assim... Esse joguinho de perguntas sobre supostamente o passado estava me empolgando invés de frustrar. Depois de tanto tentar ter uma conversa decente com ela nesses dias, escutá-la tão delicada e meiga assim, significava que aquele muro praticamente não existia. Karin confiava cada vez mais em mim.
— Eu teria... – Então sorri malicioso – Depois que te perseguisse assim que fugisse de mim.
Ela arfou ofendida, como imaginei.
- Eu não...
— Mentirosa, faria sim.
Ela hesitou mais uma vez, me deixando animado e a espera valeu a pena quando ouvi sua voz tomando fôlego.
- Se acontecesse e não estou que sim... Deixaria que me pegasse.
Ela quer me deixar louco? Por uns segundos imaginei isso, acontecer agora em como estamos, não no passado, e minha linha de pensamento foi o longe o bastante para um forte calor tomar conta de mim.
Chega, não aguento mais.
— Karin.
- Hã?
— Você tá livre no próximo fim de semana?
- Sim, por que?
Foi minha vez de hesitar, haveria alguma chance dela dizer não, mas pouco me importei.
— O que acha da gente sair?
HITSUGAVA POF
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