Segunda Chance
15 Improvável
KARIN POV
Depois que saí da escola, a caminhada até o ponto de ônibus me ajudou a refrescar a mente. Meu celular tinha descarregado e nem me incomodei de trazer o carregador. Aprontar a dispensa médica de Rikuo e Noitra-senpai ocupou meus pensamentos e o tempo. Estava tarde e me sentia exausta mentalmente. Dar motivos plausíveis por que esses dois apareceram machucados do "nada" me esgotou.
Para completar, Arizawa-sensei apareceu na sala do clube e perguntou sobre as novas mudanças. Ele até poderia ter gostado, afinal o time estava precisando, mas como houve a dispensa de dois titulares... Bem, o desempenho do Toushirou e a volta do babaca do Digio melhorou seu humor dado o atraso pro entrosamento dos outros no novo esquema tático.
Veja bem, Arizawa-sensei é um homem gentil, um bom professor que realmente se importa com o clube de futebol, mas até ele tem limite de paciência. O estão pressionando por resultados desde o fiasco do interhigh de verão. Se a gente não mostrar serviço vão cortar nossas verbas para o clube e caramba... Deus me livre da ira de Zaraki, ele me esfolaria viva.
Ainda bem que as eliminatórias da prefeitura são apenas à daqui dois meses. Os idiotas voltarão, o time vai se encaixar e...
Você gostava de mim, não é?
— Karin.
E...
Não pense que vai sair barato, Kurosaki.
Ah, meu Deus... O que eu faço?
— Ei, Karin!
Uma mão agarrou meu ombro e meu corpo entrou em alerta. Girei para trás atordoada, balançando a mochila com toda a força na cara do sujeito e ouvi um grunhido. O cara – porque era um -, xingou segurando e pegando a bolsa das minhas mãos. Meu coração martelou pesado. Ele vai me bater, será que dá tempo de correr?
— Ficou doida?!
O que? Arfando nesse pânico encarei o sujeito e notei os cabelos ruivos do cara, a carranca taciturna. O reconhecimento amorteceu meus nervos enquanto ele limpava o queixo com o dorso da mão.
— Ichi-nii – ofeguei sem ar – Você quase me matou de susto.
Sua boca abriu para dizer alguma coisa, mas desistiu revirando os olhos. Me entregando a mochila, Ichi-nii grunhiu resignado olhando melhor meu estado e seja o que viu não gostou. Ele apenas apagou o mau humor por tê-lo batido e assentiu para o lado. Segui a direção e vi seu carro estacionado no meio fio. Ele veio me buscar.
— Vem, já está tarde.
Quase perguntei à ele como me achou, mas era meio óbvio. Esse ponto de ônibus era o mais perto do colégio e sem conseguir me ligar...
— Tá bom.
Caminhei sem graça até a porta do carona e abri assim que fez o mesmo do outro lado. O carro estava em ponto morto, então foi rápido sairmos dali. Ichi-nii não disse nada por alguns minutos e notei que me observava de soslaio. Se fosse em outra ocasião teria perguntado, mas não hoje. Não depois de me sentir esgotada com tudo que aconteceu.
— O que houve?
Droga... Ele não ia deixar de lado que tinha algo errado comigo.
— Nada, eu tô bem.
— Zaraki não está te mandando fazer o trabalho dele?
Bufei encarando a janela. Antes fosse.
— Ele nunca fez isso.
— Arranjar esquemas táticos e selecionar os jogadores não é problema seu.
— Tecnicamente eu sou a gerente, não é “problema” se quero ajudar o time melhorar. E como você soube disso?
Olhei confusa pra ele enquanto Ichi-nii acelerava.
— Kiba.
— Claro.
Ele tinha que contar, bufei enfadada. Esqueci por um momento que Kiba estudava Educação Física na mesma universidade que meu irmão.
— Se você não diz nada...
Agora de verdade me irritei. Girei no banco do carona pouco me importando com os gritos.
— Isso é stalkear, Ichi-nii! Não tenho dez anos!
— Não vai mesmo me contar o que aconteceu?
— Como assim?
Do que estava falando agora?!
— Você entrou em pânico quando te chamei.
Lançando um olhar de canto, ele me analisava sério e engoli em seco desviando os olhos. Droga... Ichi-nii me conhece bem demais. O ar ficou carregado de tensão. Como não consegui dizer nada, ele me pressionou.
— Quem é?
— Quem é o que?
— Não se faça de sonsa, Karin. Quem é esse cara?
Como se ele não soubesse, de qualquer modo dei os ombros.
— É só um idiota metido. Eu dou um jeito nele.
Pus uma máscara convencida, mas quem disse que acreditou?
— Está com medo.
— Não, não estou.
Seus olhos se estreitaram para a rua, incomodados e irritados com minha birra porque era assim que o via. Continuei o encarando, suspirando nervosa e depois de uns instantes estalou a língua chateado.
— Você é teimosa demais.
— Sério que tá me dizendo isso?
Levantei a sobrancelha em tempo dele grunhir ao me espiar de soslaio outra vez.
— Tem muita sorte de eu não contar o que passou na semana de treino, pirralha. O velho iria fazer um escândalo.
Meu sangue gelou.
— Você...?
— Sei de tudo. Que te largaram na saída, os ratos – aliás, quem faz isso? –, sua roupa roubada nas termas e que te jogaram na piscina. Esqueci alguma coisa?
Me fitou sarcástico, mas fiquei muda, o que tinha pra falar? Kiba contou tudo.
— Por que não disse nada o fim de semana inteiro?
Oportunidade não faltou e ainda encarando o trânsito ele respondeu simplesmente.
— O clube é importante pra você.
Ah..
Encarando minha saia tentei sem sucesso segurar a emoção que me transbordou. É verdade. O clube é o mais próximo que posso participar do futebol. Se meus pais souberem sobre isso... Eu não seria mais a gerente, no mínimo. Meu irmão entende, principalmente por ser alguém que fez parte disso desde o começo. Sua mão deu um tapinha na minha cabeça e limpei sem jeito as lágrimas reprimidas. Ichi-nii é muito protetor tanto comigo como Yuzu e depois do acidente apenas se agravou. Entretanto, ele foi o primeiro a incentivar minha independência. O que eu quisesse fazer me apoiava e se estava mantendo silêncio sobre isso é porque sabe como sinto. Ele é meu cúmplice nisso.
— Olhe, se for muito sério me fale. Não esconda. – assenti quieta e ele suspirou satisfeito. – E eu quero falar com o novo capitão.
Nani?
O fitei confusa, mas Ichi-nii continuou olhando adiante.
— Por que?
Meu irmão hesitou receoso, bem ponderando como abordaria o assunto.
— Esse cara... Kiba disse que te ajudou muito semana passada.
— Sim. Toushirou até me tirou da piscina.
Meus lábios se curvaram leves com a lembrança.
- Toushirou?
O fitei com o tom desconfiado e pestanejei. Merda, eu disse o primeiro nome. Pigarreei fingindo indiferença olhando a rua.
— Hitsugaya Toushirou.
— Um...
— Não vai agir estranho, não é? Dar uma de irmão ciumento.
Ri sem graça, mas ele não me acompanhou. Não gostei do seu silêncio. Isso não é bom, ainda mais depois do que houve hoje. Toushirou saber quem eu sou e tudo o mais... Certo, quase tudo. Mas a atitude dele comigo desde a viagem e o jeito do meu irmão... Sinto que não vai prestar.
No dia seguinte
Certo, tudo bem.
Respirei fundo em tentativa de relaxar e entrei na escola. Enquanto atravessava o pátio não houve nada demais. Os poucos alunos que encontrei no caminho até o vestiário feminino eram dos clubes de esportes. Ninguém me lançou uma segunda olhada e pelas conversas que entreouvi falavam sobre as eliminatórias da prefeitura e o festival esportivo. Isso me lembrou que teria de ver como conciliar com as atividades do clube, afinal é obrigatório. Apesar de ser impossível participar como um membro do clube de futebol, não quer dizer o mesmo como aluno. É uma droga.
Seguindo a rotina fui para o vestiário feminino, troquei o uniforme pela roupa de educação física e os tênis. Com o moletom amarrado na cintura saí em direção ao campo secundário. A escola apesar de não ser tão dedicada aos esportes era bem sortida nos espaços. Haviam os ginásios para o basquete e o vôlei. Quadras para o handebol e futsal e dois campos de futebol junto com um de atletismo.
Os campos de futebol eram cercados por grades esverdeadas e redes que iam até a altura dos refletores. Desse jeito evitava que as bolas escapassem, além de arquibancadas, os bancos de reservas e um depósito com os equipamentos. Ao longo das linhas laterais árvores de canforeira margeavam a grade. Os campos eram bem cuidados por nós e todo mundo ajudava.
Quando me aproximei vi o gramado já ocupado com Zaraki apitando e gritando com os rapazes. Estavam treinando passes em pares e nervosa catei o celular pra ver o horário. Gemi em agonia gritando internamente. Eu estava atrasada! Corri o máximo que pude com o celular na mão e assim que alcancei o cercado do campo secundário, arfei um pouco para recuperar o fôlego ajeitando os cabelos. Zaraki estava de costas para o portão e entrei o mais furtiva indo até o banco dos reservas.
— Não pense que não te vi, Kurosaki.
Enrijeci de susto e girei no lugar. O técnico Kenpachi me olhava de soslaio, de braços cruzados com uma carranca séria e composta. Ah, puxa.
— Treinador, eu posso explicar.
— Mesmo? Mas não quero saber. Vá encher as garrafas e me compre um café.
Pisquei com a ordem.
— Café?
— Sim, pirralha. Expresso e sem açúcar.
Com isso dei uma boa olhada nele e percebi as bolsas escuras sob os olhos. Lembrava a época nas eliminatórias do interhight assim que saiu as chaves das partidas. Ele assistia os vídeos dos nossos adversários a noite inteira e montava estratégias.
— Tá esperando o que?!
Pulei de susto com o grito e dei meia volta indo ao portão.
Encher as garrafas foi fácil, comprar o café que era o difícil. Tive de deixar o cooler cheio de gelo e as garrafas perto da entrada e fui até a cafeteria depois. Percebi que trazer a água primeiro seria um erro e então comprei o café. A sorte era que tinha no menu dos professores e garanti um pra viagem. A funcionária sorriu de mim quando paguei e voltei o mais rápido que pude pro treino sem derramar a coisa.
Conforme supôs, o treinador pediu o café e o entreguei buscando o cooler depois. Ninguém me ajudou a carregar, mas não tinha problema. Fui caminhando até o abrigo e deixei na grama enquanto sentei no banco. Estava meio frio e então vesti o moletom e guardei o celular no bolso observando os rapazes bem a tempo do apito soar.
Todo mundo parou ofegante e Zaraki ladrou.
— Titulares, reúnam-se. Vão para o campo principal. Novatos do primeiro ano continuem aqui praticando os exercícios do circuito.
Arr...
Eu devia ter imaginado. Gemendo internamente levantei do banco indo pegar o cooler. Já iria me abaixar quando outro par de braços apareceu e pegou o troço levantando. Me endireitei confusa só para engolir em seco. Uma camiseta branca delineando no torso definido, o abdômen malhado escondido atrás do cooler e continuei erguendo o olhar. Toushirou – o cara que eu queria evitar – estava parado pertinho de mim, me encarando afetuoso e transpirando no uniforme de treino. Ele escondia um sorriso divertido pela minha reação.
— O que foi?
— Ah... É...
Abri e fechei a boca sem conseguir dizer nada coerente. O que é que eu digo? Quer dizer, ele estava só a um passo de mim, quieto e risonho com um brilho no olhar. Para completar seu cabelo estava todo desalinhado com umas mechas caindo em seus olhos...
— Vem, Zaraki não vai esperar o dia todo.
Dando a volta por mim, ele foi andando até a saída enquanto que fechei a boca o seguindo encabulada. Que mancada. Por que reagi assim? Aliás, o que eu esperava? Que ele me chamasse pelo nome? Afinal, Toushirou fez muito isso ontem. Fitei suas costas tentando entender o que estava acontecendo ao irmos para o outro campo. Os outros já foram em frente e percebi vagamente que alguns olhavam para nós – nunca que Toushirou me ajudou em alguma coisa –, talvez parecesse estranho.
Na verdade, tudo parecia estranhamente normal e rotineiro. Isso me deixou cismada. Cadê aquela ansiedade, o ar ardente que me pressionava o dia todo? A falta disso meio que me decepcionou. Sei que o evitei ontem o máximo que pude desde que fugi depois da nossa conversa. Isso queria dizer que eu secretamente esperava que me perseguisse? Argh... Eu não sei! Será que imaginei o jeito que me encarava quando veio me ajudar com as garrafas? Nem notei direito quando passamos pelo portão do campo principal.
Seguimos até às arquibancadas do lado direito onde já havia um cesto com os coletes de treino dobrados, bem no terceiro degrau com alguns dos jogadores já no gramado se aquecendo.
— Relaxe. Não farei nada.
Pestanejei de susto. O barulho do cooler posto num dos degraus da arquibancada me surpreendeu tanto como sua voz e justo nesse momento ele olhou sobre o ombro. Senti um arrepio descendo pela nuca com a intensidade neles. Verde escuro, quente e fixo em mim. De repente a manhã não estava tão fria.
— O.. o que?
— Sobre aquela pergunta, eu não vou te pressionar.
Girando no lugar Toushirou se aproximou um passo, entrando no meu espaço pessoal. Perto desse jeito ergui o rosto ao fita-lo, com a boca seca ao entender o que dizia.
“Você gostava de mim, não é?”
O calor dobrou. Será que fiquei vermelha? Tomara que não.
— Vou deixar que pense bem na resposta, não tenho pressa.
Mas o que? O estouro figurativo da bolha em que estávamos me acordou. Ganhei um pouco de compostura, levantando a sobrancelha e ao ver isso seu ar arrogante apenas aumentou.
— Você parece bem convencido.
Ele quase riu.
— E não devo estar?
Estremeci nervosa. Filho da mãe, não acredito que disse isso!
— Qual é o seu problema? Isso é algum joguinho? Por que se for...
— Não estou brincando e vocêsabe.
O timbre sério dessa vez murchou rapidinho minha revolta. Ele se aproximou mais um passo, se inclinando sobre mim e prendi o fôlego. Recuei sem querer e ainda sim ele me acompanhou. Com esse mínimo espaço entre nós, Toushirou esticou um braço roçando na minha cintura enquanto seu rosto chegava pertíssimo do meu, ao ponto que sentia seu hálito de menta.
— Sou bem paciente quando quero, Karin. Muito paciente.
Como se fosse nada demais se endireitou recuando um passo e vestiu calmamente um colete vermelho bem na minha frente. Trêmula, verifiquei surpresa atrás de mim encontrando o bendito cesto! Toushirou apenas manteve o olhar fixo no meu, me deixando mais encabulada e depois foi caminhando para o gramado. Como se não tivesse acabado de sussurrar à centímetros da minha boca. Não foi preciso confirmar o pessoal chocado com essa cena.
KARIN POF
Que porra foi essa?!
Rikuo se empertigou de onde estava sentado na arquibancada, ainda incrédulo do que acabou de assistir. Sentado no último degrau bem no alto franzia o rosto para a bruxa toda vermelha e tímida com o avanço do capitão. Sério, foi constrangedor. Ninguém perdeu a cena e ao olhar para o campo viu Hitsugaya guiar o time movimentando a bola entre os jogadores chocados. Como se nada tivesse acontecido.
— Nojento, não é?
Reconhecendo a voz, bufou desdenhoso.
— O que? Hitsugaya dar em cima da bruxa ou a impressão de que ele realmente ia beijá-la na frente de todo mundo?
— Essa química estranha entre os dois.
Piscou intrigado com a resposta e fitou para a direita em tempo de Digio sentar ao seu lado. O cara estava com o uniforme de treino e chuteiras olhando fixamente para baixo. Seguiu o olhar e sua curiosidade aumentou. A Kurosaki... Observou o amigo, sorrindo por dentro ao ver tamanho rancor no jeito que ele secava a gerente do clube.
— Quem diria que Digio Vega ficaria obcecado por uma garota.
O sorriso largo de deboche não o surpreendeu.
— Obcecado? Não nego que ela é meio fofa, mas não faz meu tipo.
— Sei, o tipo fácil.
Riu cafajeste, mas o amigo não acompanhou. Ele continuou observando Kurosaki do mesmo jeito frio e odioso, vendo-a pegar a prancheta com o treinador e se virar para o campo assistindo os jogadores. Às vezes se perguntava por que Digio se incomodava tanto com ela. Caramba, a garota era bem criativa toda vez que dava o troco quando aprontavam com a mesma e na última, Kurosaki provou ter um gênio vingativo dos infernos.
Até agora seus músculos doem, mas estava recebendo cuidados de um certo alguém, valendo até a pena ser dispensado por uma semana. Por falar nisso...
— O que vai fazer?
— Sobre o que?
Sorriu cínico.
— Qual é? Ela encomendou uma surra. Por mim não me meto mais com a bruxa, mas você com certeza não vai deixar passar em branco.
A expressão debochada se fechou quando Digio travava o queixo realmente o deixando intrigado.
— Não mesmo.
Se levantando do degrau, ele foi descendo até sair da arquibancada e seguir para o campo. Uma sensação estranha alojou em seu estômago com o comportamento de Digio. Ele estava mesmo possesso por ter apanhado do clube de rúgbi, ainda mais do capitão. Mirou para a Kurosaki. Ela realmente sabe cultivar o ódio de seus inimigos.
KARIN POV
A prática hoje foi um pouco diferente. Depois que os jogadores treinaram os passes com o time titular, os exercícios se concentraram no ataque. Desarmes na ofensiva adversária, marcação na saída de bola, chutes de longa distância gerando escanteios ou em direção ao gol. O resto do tempo foi dedicado na velocidade de condução de bola. Nisso percebi uma certa falta de sincronismo no ataque e era bem claro o motivo.
Os camisas 9 e o 10 não cooperavam. Reprimi um gemido. Como goleador Digio tinha um faro incrível para chances de gol e o Toushirou conduzia a bola com tanta velocidade e precisão que seria incrível se entre cinco das dez finalizações eles marcassem. Os outros dois atacantes tinham mais chances graças a marcação cerrada em Digio, entretanto, funcionaria melhor se ele e Toushirou se dessem bem.
Acho que era pedir demais.
Assim que o treino acabou, todos saímos para os vestiários depois de arrumarmos o campo. Já estava de uniforme indo para o prédio das salas quando ouvi passos atrás de mim. Parei cismada, girando no lugar e levantei as sobrancelhas ao ver quem era. Keita. Ele estava tão nervoso na prática. Lançava olhares culpados na minha direção enquanto defendia na zaga. Sim, eu notei assim que me recuperei do flerte descarado do Toushirou – ainda não acredito que fez aquilo.
Falando nisso, Keita estava tão tenso ao redor dele também. Mal se concentrava no roubo de bola, ele era muito bom na defesa fixa, por isso jogava como zagueiro agora. Apesar de não ter tanta estrutura física, Keita era ótimo em desarme e lançamento. Combinar ele com o Toushirou, nosso meia-armador deu muito certo. Mas hoje sua precisão caiu um pouco. Eu não sei o que aconteceu, mas Keita parecia ter um pavor dele agora. Isso me intrigou. Eu nunca vi um dos membros agir assim perto do Toushirou.
— Kurosaki-san.
— Sim?
O esperei se aproximar até parar diante de mim.
— Eu ouvi que ficou responsável pra achar os substitutos de Rikuo e Noitra-senpai.
Meu humor azedou com o lembrete.
— É mesmo.
— Bem, eu... ah... Fiz isso ontem, talvez possa ajudar.
Peguei mecanicamente o caderno que me ofereceu.
— O que é?
Franzi o cenho mais confusa e coçando a bochecha envergonhado Keita desviou o olhar.
— Hum... São anotações do treino de ontem, escrevi sobre os que mais jogaram melhor com Hitsugaya.
O que?
Folheei ansiosa o caderno e fiquei impressionada com a quantidade de detalhes. Desenhos de um campo de futebol com a simulação dos jogos entre os jogadores foram bem auto explicativos. Ao lado de cada quadro havia o nome do membro com seus pontos fortes e fracos. Levantei o olhar embasbacada e boquiaberta.
— Keita... Quando fez isso? Você estava praticando, não é?
O rosto do cidadão cobriu de vermelho de tão encabulado.
— T..tenho uma boa memória.
— Boa? É de nível fotográfico, isso sim.
Sorri largo sem me conter. Sério, é incrível. O que levaria uma dor de cabeça tremenda, se resolveria num par de horas.
— Que bom que serviu, Kurosaki.
Com esse tom aliviado o encarei percebendo uma sombra de culpa em seus olhos. Suspirei já sabendo o porquê e o guardei o caderno dentro da mochila.
— Keita.
— Hai.
Se alertou com o chamado ficando rijo. Apertei os lábios procurando ser paciente e baixei os olhos por um momento ao fita-lo outra vez. Seu rosto corado havia sumido, ficando num tom pálido. Bem, não dava mais pra adiar.
— Por que roubou minhas roupas nas termas?
Como se fosse possível ele enrijeceu ainda mais no lugar e me senti péssima. Parecia que eu pressionava alguém tímido ao extremo, mas eu queria saber. Aliás, eu merecia uma explicação.
— Eu...
Se calou nervoso e quase grunhi de frustração. Tentei abordar de outro jeito.
— Sei que não foi ideia sua. A gente sempre se deu bem, não é? Não entendo porque fez isso.
Amassando a alça da mochila em nervosismo, Keita respirou fundo e ergueu os olhos ao me encarar. O nítido arrependimento neles foi tão claro que me pegou de surpresa.
— Eu não queria. Fui covarde e fiz porque me obrigaram. Se não pegasse suas roupas, Digio senpai iria...
— Espere, o que?
— Digio senpai e os outros me deram como punição pelo jogo do rei do primeiro dia. Eu... eu perdi uma rodada e ele disse que cobraria mais tarde, mas não achei que seria isso.
— Ele te ameaçou.
Afirmei sóbria, fitando o nada enquanto tentava segurar a indignação por dentro. Piscando atordoado, Keita assentiu.
— Tinham fotos minhas que eu... – seu rosto ficou num tom doentio e sacudiu a cabeça – Iria arruinar minha vida na escola.
Respirei fundo para me acalmar e fechei os olhos. Quase fiquei com raiva dele com esse choramingo, afinal, eu também daria adeus à minha vida no colégio se não fosse por Toushirou. Mas... já passou. Isso já passou. Eu já me vinguei desse idiota do Digio e seus amigos e mesmo que tivesse de arrumar a bagunça valeu a pena. Sim, tá tudo bem.
Entretanto, eu não conseguia apagar a raiva que sentia me subir ao lembrar. A agonia, cheia de medo que sentia desde ontem evaporou num segundo. Digio é o pior! O cara mais ridículo, horrível e babaca que existe!
— Kurosaki, eu sinto muito, muito mesmo. Me arrependo de ter feito desde aquele dia.
O olhei cansada.
— Tá tudo bem, Keita. Afinal, eu te persegui e acertei sua cara com um taco de beisebol, estamos quites.
Com a menção ele engoliu ruidosamente em seco. É... Eu estava possessa nesse dia. Enfim, águas passadas. Dei um tapinha no seu ombro o acalmando.
— Como eu disse, tá tudo bem. Valeu mesmo pelas anotações.
Sorri gentil e ele visivelmente relaxou.
— De nada, Kurosaki.
Assentindo ele seguiu caminho até o bebedouro enquanto que fui até minha sala. Durante toda a manhã, Hikari me lançou uns olhares cúmplices mal disfarçando um sorriso e mal pude disfarçar o desconforto. Ontem ela me intimou a dizer tudo que aconteceu entre mim e o capitão do time de futebol. Hikari não era nada boba. Ela percebeu essa tensão toda entre mim e Toushirou e sua primeira pergunta foi o que estava rolando entre a gente.
- Deve ter sido bom demais esse acampamento pro jeito como ele te olhava. Sério, Karin. Parecia que o Hitsugaya não via mais ninguém.
É... E agora minha amiga parecia saber de algo muito interessante. No fim do dia ela não me decepcionou. Com o namorado esperando na porta se virou para mim enquanto saímos ao ajeitar as alças da mochila nos ombros.
— Tenho algo pra te contar, posso te ligar mais tarde?
— Claro.
— Legal, até amanhã.
Acenou indo embora e dei os ombros. Até que foi bem tranquilo. Hoje não ia pro clube, Zaraki me dispensou para “pensar no problema tático” e aproveitei indo até a biblioteca. Estudaria o caderno que Keita me entregou enquanto esperava Toushirou. Pois mais que seja covarde e tentador ir embora, prometi a mim mesma que faria isso dar certo. Toushirou não foi dispensado como eu e seriam apenas algumas horas. Eu avisei Ichi-nii que chegaria tarde, então sem problema.
Estava vagando pelos prédios dos clubes de artes e cultura quando ouvi um barulho. Ecoou nesse corredor vazio e pisquei quando o ruído veio de novo. Curiosa segui o som até uma sala de música e ao chegar bem perto da porta os sons ficaram mais nítidos. Respirações ofegantes, estalos intercalados. Quando um gemido bem feminino soou minha ficha caiu. Beijos... Isso é barulho de beijo!
— Espera, aqui não.
Nani? Eu conheço essa voz da garota. Com cuidado espiei na vidraça da porta encontrando o casal instalado na mesa do professor. Ela sentada com o cara entre suas pernas. Justo quando o cara afastou o rosto da menina meu queixo caiu quando enxerguei quem era. Hinamori... A Hinamori! Com os lábios vermelhos e inchados ofegava se esquivando de outro beijo. O cara gemeu sussurrando algo no seu ouvido, as mãos bem seguras no quadril dela e se roçou a fazendo o empurrar no peito.
— Alguém pode vir.
— Ninguém vai aparecer. Todos estão ocupados à essa hora.
Ele beijou sôfrego o pescoço dela e tive outro espanto ao reconhecer sua voz. Eu não acredito! Era o idiota do Rikuo! Presa na surpresa assisti Hinamori o empurrar mais determinada pelos ombros e parecia chateada.
— Rikuo, eu disse não.
— É sério? – a fitando por um momento ele percebeu que Hinamori não ia mudar de ideia, então suspirou se afastando ao ajeitar as roupas – Não acredito que vai me deixar na mão.
Ajeitando a gola da blusa – com uns botões soltos – ela sorriu sedutora para ele, mesmo que Rikuo bufasse impaciente.
— Eu te compenso depois, sempre faço.
— Nem sempre.
Meu rosto pegou fogo enquanto ele ajeitou a calça de um jeito mais confortável. Era óbvio o porquê, olhei ao redor no corredor ainda deserto e engoli em seco espiando outra vez. Eu não acredito que Hinamori e Rikuo estão juntos, quando aconteceu? Ontem ela não praticamente me ameaçou por causa do Toushirou? Garota gananciosa.
— Eu não te chamei aqui pra isso.
— Então por que foi?
Ele estava mesmo frustrado e tive um prazer secreto por isso. Não era segredo pra ninguém que eu não gostava dele. Hinamori já composta dos amassos se sentou educada, as pernas cruzadas, enquanto Rikuo se encostava num piano à direita da mesa do professor.
— Disse que tinha algo interessante para me contar. O que era?
Esse tom doce e manipulado me dava asco. Pra minha surpresa, Rikuo cruzou os braços a fitando sério.
— Tinha razão. Algo está rolando entre a bruxa e o Hitsugaya. Hoje de manhã ele flertou com ela e pude jurar que disse o primeiro nome da Kurosaki.
Prendi o fôlego com o que ele disse e à menção da última parte Hinamori ficou rígida estreitando levemente os olhos.
— Karin, não é?
— Como vou saber?
— Não importa. Mais alguma coisa?
Grunhindo de desgosto, pois era óbvio que Hinamori o estava usando para espionar, Rikuo desviou os olhos.
— Eles vão resolver o esquema tático do time titular mais tarde. Sem mim e Noitra é treinamento perdido até o fim da dispensa médica, então vão indicar os substitutos. Provavelmente serão nossos reservas nas eliminatórias.
— Hum... Bom saber.
Com esse comentário foi um basta. Saltando da mesa Hinamori sorriu maliciosa para ele se aproximando até se apoiar contra seu corpo. Rikuo largou os braços, envolvendo a cintura de Hinamori e enquanto ela afundava as mãos nos seus cabelos, se esticou até colar a boca na sua dando início ao um longo beijo.
De todas as coisas que Hinamori poderia fazer, usar Rikuo assim para espionar no clube foi improvável.
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